terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Destino de Keke Rosemberg (conto)


      
      Sempre achei que o céu recifense tinha algo de esverdeado durante a madrugada. Lembro que tinha essa impressão quando estava deitado em minha rede, olhando para as nuvens que passavam rápido pela janela, refletindo a luz alaranjada dos postes e dos prédios.
      Devia ser quase umas duas da manhã, e era uma daquelas noites litorâneas insuportavelmente quentes. Meu quarto, que era virado para o poente, estava um forno. Fazia horas que eu, revirando-me na rede, tentava dormir. Às vezes me levantava suado, tomava um copo d’água, ia até a janela para tentar refrescar um pouco, e olhava melancólico para a esquina da Santos Dumont com a 48. Naquela época eu me considerava um jovem infeliz, e o intrigante é que hoje eu lembre com tanta saudade daquelas visões sinistras. Gostava do silêncio, e talvez até mesmo da sensação de abandono quando olhava para as luzesinhas de uma favela olindense no horizonte, além do Arruda e de Campo Grande.  
      Quando, vencido pelo cansaço, comecei a ter meus primeiros sonhos, tomei um susto com o toque do celular. Irritado por saber que agora eu só conseguiria voltar a dormir depois de muito tempo, peguei o aparelho em cima da escrivaninha e vi no bina: “Keke Rosemberg”.
      Keke? Por que cargas d’água ele estaria me ligando a uma hora dessas? Eu o conheci por causa de meu amigo Arony, que era seu vizinho no Crato. Nós começamos a jogar RPG juntos depois que Luís foi expulso de nosso grupo por razões de flagrante imaturidade emocional.
      – Digaê, Keke... – falei, meio puto.
      – Tu tava dormindo?
      – Que é que tu acha?
      – Bicho, foi mal, mas é que eu não consigo parar de pensar na estória...
      Aquilo me desarmou. Talvez fosse a vaidade de narrador, ou talvez eu simplesmente tenha sentido empatia pelo entusiasmo de meu amigo, que se havia deixado impressionar pela minha estória simplória, meio plagiada de uns filmes de David Lynch que eu havia visto.
      – Mas também, pô, a gente interrompeu o jogo na melhor parte! – falei, mais amigável.
      – Foi foda, bicho! A gente tinha que ter terminado aquela estória! Quando é que tu volta ao Crato?
      – Acho que agora só em julho.
      – Caralho! E a gente vai ter que esperar esse tempo todo sem jogar?
      – Porra, eu também to ansioso, mas que é que a gente pode fazer?
      – Tu podia narrar uma sessão para mim por telefone!
      Não conseguir conter um sorriso:
      – Keke, bicho, tu ta doido, é?
      – To falando sério, pô! Eu não consigo pensar em mais nada! Sério, narra só um pedacinho aí...
       As boas senhoras católicas têm toda razão em temer quando seus filhos adolescentes começam a se envolver com o mundo RPG. Não que se trate realmente de um culto satanista velado: o verdadeiro problema, que apenas os mais experientes jogadores conhecem, é de natureza distinta. O RPG tem uma capacidade desconcertante de ofuscar os limites entre ficção e realidade. Sei que para alguns isso pode parecer um clichê ou afetação, mas eu mesmo às vezes fico intrigado, quando lembro das aventuras de RPG que joguei em minha adolescência, com o fato de que eu ainda guardo as memórias não apenas do jogo em si, mas sim das experiências que os meus personagens viveram, como se eu mesmo tivesse estado lá. Se eu, que me considero uma pessoa razoavelmente normal, fui levado tão longe pela minha imaginação, imagine-se o que o RPG não poderia fazer com uma pessoa que já tivesse uma predisposição à loucura?
      Não quero, ainda, tirar conclusões, mesmo porque o que aconteceu com Keke ainda me deixa intrigado. Se eu suspeitasse de alguma perturbação nele, acho que nem teria aceitado ele no grupo. Quando ele me ligou, eu pensei que ele estivesse simplesmente impressionado com os lugares-comuns da ficção fantástica que eu havia aproveitado em minha narrativa. Além do mais, a maneira como havíamos interrompido a partida havia sido realmente dramática: depois de mais de dez horas ininterruptas de jogo, meu pai nos proibiu – com a inflexibilidade dos sertanejos justos – de continuar jogando naquela noite. Aquilo foi particularmente exasperante, já que no dia seguinte eu viajaria de volta para Recife, e nós havíamos chegado, depois de enfrentar todos os desafios e monstruosidades habituais de uma partida de Dungeons & Dragons, ao que provavelmente seria o clímax da narrativa fantástica que eu estava bolando. Havia, sim, motivo para alguma ansiedade.
      E por que não admitir? Eu mesmo estava louco para continuar a estória, e a proposta que Keke me fez pelo telefone me flagrou num momento de fraqueza.
       – Bicho, tu é muito sem noção mesmo...
      – Vai, pô, não custa nada.
      – E o que a gente vai fazer com o resto do pessoal? Isso vai estragar a estória pra eles.
      – Eu prometo que não conto, e quando tu voltar tu narra a cena de novo para eles, dizendo o que eu fiz.
      Hesitei ainda alguns instantes e, com um suspiro, comecei:
      – Tá, você está no Abrigo Negro.
      – O que eu vejo?
      – É uma sala comum. Parece a sala de jantar da casa de Ulissinho.
      – Como assim? A gente não tava numa torre medieval?
      – Então, é isso. O lugar onde seu personagem está agora não tem nada a ver com a torre de onde vocês vieram. As folhas do portão que vocês destrancaram abriram-se sem ruído. Vocês não conseguiram, porém, ver logo o que havia além da soleira por causa de cortinas vermelhas que pendiam do arco. Quando vocês decidiram atravessá-las para ver o que havia por trás, vocês chegaram a um lugar inesperado: uma sala com uma mesa redonda de madeira no centro, que nem aquela que há na casa de Ulissinho.
      – O que é que tem em cima da mesa?
      – Um vaso com flores.
      – Tu ta tirando onda, né?
      – Se quiser a gente pára.
      – Não, pô, é só que eu fiquei intrigado...
      Esperei alguns instantes, percebendo que Keke pensava do outro lado da linha. Perguntei:
      – O que você vai fazer?
      – Eu me aproximo da mesa.
      – Você se aproxima, apreensivo. Enquanto caminha, você percebe que aquele ambiente não tem nenhuma porta nem janela. Ao invés de paredes, a sala está cercada por cortinas, iguais as que você acabou de atravessar.
      – Ta, eu vou tentar tirar o vaso de flores de cima da mesa.
      – Você consegue. É um vaso banal de porcelana.
      – Há alguma inscrição?
      – Não.
      – Em cima da mesa não tem mais nada?
      – Não.
      – Então eu vou explorar a sala. Eu percebo alguma coisa?
      – Sim. Caminhando ao redor da mesa, você se deu conta, com algum espanto, que a sala é perfeitamente circular. Logo quando vocês entraram, você não teve essa impressão.
      – Existe algum ponto de referência?
      – Não.
      – Se eu tentasse, eu conseguiria voltar para o lugar por onde entramos?
      – Não. Você não sabe mais por que lado entrou.
      – Caralho...
      – O que você faz?
      – Não sei. Acho que vou tentar me aproximar de um dos lados da cortina e ver o que tem por trás.
      – Tá. Você caminha em direção à cortina vermelha, apreensivo com o que poderia estar atrás.
      – Eu afasto as cortinas.
       – Do outro lado, há um deserto.
      – Um deserto?
      – É um deserto: dunas cinzentas espraiando-se a não mais ver, sob o que talvez seja o mais impressionante céu estrelado que você já viu.
      – Por que impressionante?
      – Porque você não reconhece nenhuma das constelações. Aquele poderia ser o céu de qualquer lugar. Mas muito rapidamente você notou: aquele tem que ser um outro mundo, pois não há nenhum lugar na Terra com um céu daqueles, com aquelas constelações.
– Eu consigo fechar as cortinas e voltar para dentro da sala?
– Sim.
– Vou tentar espiar através das cortinas do lado oposto.
– Você caminha até o outro lado da sala e encontra uma cortina exatamente igual.
– Vou abri-la. O que eu vejo?
– Escuridão.
– Só isso?
– Sim, uma perfeita imobilidade, nem luz nem som.
– Não consigo identificar nada? Parece haver alguém ali?
– Não. Aquilo é o nada, é como se você estivesse olhando por uma janela que desse para o que há além do mundo.
– Como assim?
– Para o incriado – disse, de propósito.
Ele hesitou. Estava ficando tarde. No dia seguinte eu tinha aula. Acho que foi mais ou menos naquela altura que eu tive uma ideia.
– Você vai atravessar?
– Não, vou tentar uma terceira direção.
– Sentindo-se cada vez mais apavorado, você volta para dentro da sala, onde seus companheiros esperam para ver o que você vai fazer. Sua incapacidade de entender o que está acontecendo lhe provoca um desconforto inexplicável, como se houvesse algo pairando no ar.
– Eu consigo identificar alguma ameaça concreta?
– Não, a sala continua como antes, com o vaso de flores em cima da mesa circular.
– Eu vou até a terceira parede.
Aqui, não posso deixar de mencionar um sentimento de culpa que guardo até hoje. Sei que aquele telefonema não possui exatamente uma relação com o que aconteceu depois com meu amigo, mas, ainda assim, não consigo deixar de pensar que talvez a confusão que eu tenha lhe provocado de alguma forma pode ter contribuído para o que aconteceu.
– Você se aproxima da terceira parede, sentindo-se cada vez mais ameaçado pelo silêncio da sala. Para falar a verdade, você não saberia mais dizer se você realmente está vivendo essa experiência ou se simplesmente está sonhando, por mais concreto que as coisas ao seu redor pareçam.
– Tá, eu afasto as cortinas. O que eu vejo?
– Quer mesmo saber?
– Claro, porra! O que eu vejo?
– Você vê outra sala.
– Igual àquela onde eu estava.
– Não, uma sala muito diferente.
– Como ela é?
Apesar de só ter ido lá uma vez, lembrava dos detalhes de cabeça.
– Há um sofá em frente a uma estante, onde está a televisão. Ao lado do sofá fica a sala de jantar, em cima da qual há uma toalha quadriculada. Na cozinha adjacente, só há uma geladeira, um fogão de quatro bocas e o botijão de gás. Seu personagem, claro, não faz a menor ideia do que sejam todos esses objetos, mas explico assim apenas para você entender melhor. E o mais importante de tudo é que lá tem uma pessoa.
– Quem?
– Um rapaz moreno, de cabelo encaracolado, sentado no sofá e conversando com o que seu personagem imaginou que fosse um aparato mágico, mas que na verdade é um telefone celular.
Ele calou-se. Quase consegui sentir seu medo do outro lado da linha.
Keke?
– Que foi?
Que seu personagem faz?
– A pessoa que está sentada sobre o sofá consegue ver meu personagem?
– Não, porque essa pessoa está de costas.
Silêncio novamente.
– O que você vai fazer, Keke?
– Eu vou dizer “oi”...
Desde que Keke desapareceu, já reconstruí mentalmente aquele instante algumas dezenas de vezes. Tentei reavaliar minhas impressões à luz de considerações sensatas, mas, por mais que tentasse me convencer, jamais consegui deixar de lado uma desconcertante impressão.
Pode ter sido apenas uma interferência na ligação. Ou não sei se meu amigo, já demonstrando sinais do que deveria ser alguma forma de perturbação delirante, mostrou um inesperado talento para o ventriloquismo. Cheguei mesmo a pensar, em alguns instantes em que meu senso de culpa se tornava mais forte, que eu havia recriado inconscientemente minhas memórias. Será que eu terminei me convencendo de que eu havia realmente escutado o que, anteriormente, havia apenas imaginado que tinha escutado?
      Por mais que eu tente me convencer que o que eu ouvi não passou de uma ilusão ou de uma falsa memória, a verdade é que eu jamais conseguirei me convencer de que aquele som não fosse real. Pois no mesmo instante em que Keke concluía a frase “eu vou dizer oi”, eu ouvi, superposta, uma outra voz, mais grave, mais adulta, que definitivamente não se confundia com a de meu amigo. E eu escutei ou imaginei escutar essa voz pronunciando “oi”.
Keke?
Silêncio.
Keke, tás me ouvindo?
Pensando bem, a verdade é que, desde aquele instante, eu nunca mais escutei a sua voz.
Keke, porra, deixa de frescura, fala aí.
Acho que o que realmente me desesperou foi que ele nunca desligou o telefone. Só depois de uns dez minutos sem resposta é que eu terminei a ligação. Fiquei apavorado, sozinho numa abafada noite de insônia. 

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