terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Venerável Pthematy-Ta



 Ave, leitores, os que vão escrever vos saúdam!

Aproveitando o entusiasmo da volta das férias, decidi publicar um texto mais longo.

Trata-se de um relato estritamente verdadeiro, sobre um dos mais sinistros episódios de minha vida em Recife: o combate que travei com uma aparição diabólica chamada Ptematy-ta. Embora os parcos mas sinceros leitores deste relato tenham pensado que se tratava de um conto ou episódio fantasioso, posso assegurar a veracidade de cada um dos acontecimentos narrados. Uma consulta simples no google às notícias da época nos jornais pernambucanos poderá confirmar que o incêndio que conclui a narrativa efetivamente aconteceu, naquela desolada esquina da Santos Dumont com a 48.

Alerto, aos de sensibilidade mais aguçada, que o texto possui passagens fortes e descrições grotescas - com imagens de morte e carnificina.

Espero que gostem.


Ass. O Grão Inquisidor


A Venerável Pthematy-Ta

Ou

A Noite Ainda Mais Escura da Alma 


Por Eduardo Siebra, 04/08/2011

 
I

      Outro dia, em meu quitinete em Brasília, estava me preparando para entrar no banho quando vi uma barata no chão. Era bem tarde, eu caía de sono porque havia acabado de chegar de uma confraternização. Tentei encontrar alguma coisa com superfície plana que eu pudesse usar para matar o bicho, mas, como não encontrei nada, como eu ainda estava um pouco embriagado e como eu já tinha tirado a roupa, simplifiquei a questão e matei a barata com meu pé descalço.
      Sei o quanto esta atitude parecerá bárbara a alguns espíritos. A barata era de tamanho médio, um pouquinho cascuda, e a sensação tátil de senti-la espremida sob meu pé não foi agradável. Mas, como explicar? Era uma barata brasiliense! Ela mal notou minha presença quando entrei no banheiro, ficou simplesmente parada no meio do piso enquanto eu tentava encontrar algo com que pudesse esmagá-la e, ao finalmente se dar conta de minha presença, tentou muito desastradamente encontrar uma sombra ou uma fresta onde pudesse se abrigar.
      Acontece que eu morei dez anos em Recife. Apenas quem também morou por aquelas plagas pode entender do que estou falando. Só num nível superficial as baratas da capital pernambucana são parecidas com as baratas de outros lugares: suas antenas longas – quase sempre imóveis – parecem vasculhar o ambiente com a atenção de um assassino; seus corpos alongados são protegidos por uma carapaça muito luzidia, cujo negror possui algo de abissal; o ventre amarronzado e listrado está sempre intumescido, e existe algo de positivamente sacrílego no movimento alucinado de suas perninhas minúsculas, especialmente quando elas estão prestes a morrer. Sinto um arrepio apenas de lembrar: após batalhas sempre prolongadas, elas contorciam suas patinhas com inacreditável ardor para uma criatura de sangue-frio. Parecia haver algo de desafio no retorcer-se daquelas hastes minúsculas e cheias de pêlos, e algumas vezes eu imaginava que, no momento da morte, aquelas boquinhas ímpias, atulhadas de sujeira e secreções, estivessem me lançando as mais horríveis maldições numa língua inaudível e indecifrável, mas corrente entre os condenados do inferno.
      Comparada a isso, as baratas de Brasília são até simpáticas. Quase me afeiçoei a uma pequenininha que às vezes via quando me levantava durante a madrugada para ir ao banheiro, e que eu não matava por puro sono. As de Recife não... Elas não são apenas mais espertas, elas também são mais mal intencionadas. Eu sei, todas essas declarações parecem ridículas, como se eu estivesse projetando nas baratas meus próprios medos. Mas perguntem a qualquer recifense. Para mim sempre esteve muito claro que às baratas de lá causa profundo prazer infligir sofrimento aos seres humanos.
      Mas nada poderia se comparar ao que aconteceu comigo em 2007, numa época em que eu estava quase me formando na faculdade. Poderia começar da seguinte maneira: Barata. Do latim blatta. Ortóptero onívoro, da ordem dos blatários, de corpo achatado e oval, que põe ovos em ootecas. Pode ser silvestre ou doméstico, e tem hábitos nortunos.
      Seria engraçado pensar desta forma. Noturnos, de fato, são os hábitos das baratas, mas, quando se trata d’Ela, essa palavra adquire uma conotação ainda mais profunda. Mas eu me adianto.  


II

      Eu morava num apartamento agradável, num dos bairros residenciais mais simpáticos de Recife. Só que é preciso lembrar que um apartamento agradável num dos bairros residenciais mais simpáticos de Recife já é sinistro o bastante. O lugar era muito limpo, mas era como se houvesse uma iminência de sujeira esperando apenas o primeiro descaso. Do mesmo modo, as lâmpadas alaranjadas apenas afastavam temporariamente a madrugada recifense: era um recuo temporário; mais cedo ou mais tarde ela voltaria, ela venceria, e o apartamento a partir de então seria para sempre mergulhado na noite.
      Sei que sou sensível. Em 2007, porém, eu quase virara um vampiro. Talvez depois escreva mais sobre esta fase; por ora basta mencionar que eu me permitia ficar madrugadas inteiras em claro, observando a paisagem alienígena que a enorme janela de minha sala me desvendava: ruas estreitas de uma cidade há muito morta. Muitas vezes me embriagava, e apenas escutava os ecos carregados pela brisa – ecos que na verdade reverberavam desde um tempo muito anterior à chegada de qualquer homem ao pântano a que hoje chamamos de Recife.
      Eu estava de bruços sobre a cama, conversando sonolentamente com C. na penumbra. Deviam ser umas oito da noite e fazia um calor dos diabos. Eu estava distraído, conversando sobre todo tipo de abobrinha, como sempre faço quando estou feliz. Davam-me muito prazer aqueles instantes de esquecimento, era só ficar por ali desperdiçando o tempo e aproveitando a vida, enquanto alguma outra coisa não acontecia. Num certo instante, sei lá por que, eu desviei o olhar do rosto de C. e comecei a olhar fixamente para o teto. Ela cravou suas unhas em meu braço e falou:
      – Dudu, pelo amor de Deus, acende a luz!
      – Hein?
      Não entendi direito, e ela, apavorada, me deu um abraço quase sufocante.
      – Por favor, acede a luz!
      Eu continuava a olhar para o teto, iluminado por uma réstia de luz de poste que entrava pela janela. Por que ela queria que eu acendesse a luz? Será que ela tinha medo de fantasma? Eu já estava para me levantar, pois não queria deixá-la constrangida, até que vi, ou imaginei ver, algo.
      Era como uma escuridão dentro da escuridão em que estava mergulhado o teto do quarto. Uma mancha preta, alongada, imóvel. Apenas com algum esforço era possível distingui-la da sombra, mas convenci-me de que não era uma ilusão. Havia alguma coisa ali. Alguma coisa má, como um buraco no teto através do qual eu pudesse bisbilhotar para abismos gelados e mortos, onde vagam perdidas as almas sem esperanças dos que morreram em pecado.
      Corri para o interruptor, quase tropeçando na cadeira, e acendi a luz. Não havia nada no teto, apenas vagas insinuações da umidade litorânea.
      A partir daquele incidente, aconteceu algo que nunca tinha acontecido comigo antes, pelo menos não desde a infância: passei a ter medo do escuro.  Minha insônia tornou-se mais preocupante; eu passava muito tempo na cama com os olhos abertos, completamente apavorado pela sensação de que havia alguém comigo dentro do quarto. Pode parecer tolice, mas era exatamente o que eu sentia, que eu não estava só, que havia mais alguém ali à espreita, apenas esperando um descuido meu. Não sou supersticioso, mas a única explicação que, àquela altura, eu conseguira encontrar era a de que meu quarto era mal-assombrado.
      Até que, não sei quantas noites depois, eu A encontrei pela primeira vez. Para entender o que eu senti, é preciso saber que sou míope. Sem os óculos, o mundo se mostra para mim como uma composição de manchas desprovida de limites. Eu tinha acabado de sair do banho e, naturalmente, estava sem óculos. Antes de escovar os dentes, passei alguns instantes em frente ao espelho, contemplando o curioso borrão que era meu reflexo e que deveria, de algum modo, expressar a ilusão a que associo a meu eu.  
      Ia pegar a escova como sempre faço – por reflexo – mas, naquele dia, talvez por intuição, pus os óculos, que estavam em cima da pia. Então eu A vi.
      Por que terá sido criado um universo como o nosso? Sábios de todas as eras e de todos os povos refletiram longamente sobre a questão sem jamais encontrar resposta. Estaremos nós sendo postos à prova por um Criador profundamente interessado pelo bem e pelo mal? Ou será o cosmos uma ilusão, apenas um longo e estranho sonho do Incriado, enquanto nós, mortais, não passamos de meras ondulações na superfície impassível do Vazio?
      Mas e se o universo tiver sido criado apenas para nos provocar o mal? E se todas as nossas alegrias, nossas esperanças de conhecimento e de salvação não passassem de um contraste necessário para que a verdadeira razão subjacente ao mundo – o horror – possa se manifestar? E se o homem não passar de um joguete nas mãos de um demiurgo demoníaco, que povoou sua obra com as mais grotescas inteligências, que vivem apenas para se deliciar com a dor dos fracos?
      Somente isso poderia explicar como algo assim pudesse ter acontecido comigo. Se existe justiça no mundo, como era possível que tamanho mal tenha se abatido sobre mim sem que uma legião de anjos intercedesse e interrompesse o curso do tempo – ou dissolvesse o universo inteiro, se tanto fosse necessário para dar fim àquele mal?
      Ela se banqueteava nas cerdas de minha escova de dentes! Meu psiquiatra já tentou muitas vezes me convencer de que aquela foi a primeira vez que Ela fez aquilo, mas em meu íntimo há algo que me diz que era um velho hábito. Eu vi o deleite em sua face monstruosa, eu soube, pelo oscilar indecente das suas antenas, que ela resfolegava de prazer!
      Por causa do susto, eu empurrei com um golpe desajeitado o copo onde estava minha escova, tentando afastar aquela aberração. O resultado não poderia ter sido pior: só lembro de Ela ter fendido sua carapaça, deixando exposto seu dorso inchado e elevando aos ares, num ato de adoração, as asas luzidias, tão grandes quanto as do Anjo da Morte. Então vi a mancha negra avultar em meu campo de visão, e fui tomado por um pânico agudo, tão intenso que quase me impediu de notar a dor que senti ao bater a cabeça contra a quina da porta.
      Num átimo, meu cérebro foi tomado por um e apenas um pensamento instintivo: não posso permitir que Ela toque em mim! A idéia de sentir em minha pele ainda despida o toque áspero, pontiagudo, de suas patinhas enegrecidas e cheias de cerdas era-me tão inaceitável quanto a idéia de alguém enfiar um punhal em meu estômago. Fugir, fugir imediatamente e a qualquer custo parecia ser, naquela hora, uma reação de que dependia minha própria vida.
      Com o corpo molhado e um fio de sangue escorrendo pela testa, eu ainda esbarrei com toda força em minha escrivaninha enquanto tentava loucamente escapar do banheiro de meu quarto. A rede estava armada, por muito pouco eu não me machuquei tentando passar por baixo dela. E, enquanto corria para a porta, sentia-me completamente oprimido pela sensação de que, logo atrás de mim, pairando no ar, havia algo, uma abominação que me perseguia e se aproximava a cada segundo. Saltei para fora do quarto e tranquei a porta com a impressão de que havia escapado por apenas um átimo das garras de uma besta que tentava me devorar. 

III
Pthematy-ta foi não apenas a maior barata doméstica que jamais encontrei em Recife: ela também foi o ser mais vil que cruzou meu caminho em toda minha vida. Saber que estas criaturas têm um sistema nervoso pouco desenvolvido e capacidades cognitivas limitadas jamais bastou para me dissuadir da convicção que me persegue até hoje, a de que Pthematy-ta possuía alma.  
      Que pode o homem entender desses mistérios? Não sei se por arrogância ou por desespero, tentamos explicar o que está ao alcance de nossos sentidos a partir de uma racionalidade fria, uma lógica elegante que possui a singular característica de despir o mundo inteiro da aura de assombro que por tantos séculos impressionou nossos ancestrais. Ao desencantar de tal modo o universo, podemos nos sentir os verdadeiros senhores do destino, e assim tornar menos miserável nossa passagem pelo que até então nos parecera um enorme e inescrutável vale de lágrimas. Mas, desconsiderando toda a parafernália e os fogos de artifício a ela associadas, não será a ciência apenas a magnífica auto-sugestão de criaturas desesperadas com a precariedade de sua condição – seres que não conseguiriam continuar vivendo se soubessem quais inteligências estão à espreita nas sombras que os envolvem?
      Se de fato existe uma maldade além da história, e se nas sombras mais recôntidas do mundo proliferam mentes obcecadas por este Mal, então eu poderia afirmar com plena convicção que Pthematy-ta foi a manifestação palpável de uma destas mentes no transcurso de minha vida. A forma de barata, suas investidas físicas, por mais que tenham sido em si mesmas odiosas, não se comparariam à impressão de horror que infalivelmente estava associada a Ela.  
      Mas é supérflua qualquer tentativa de dar uma explicação ao que aconteceu comigo no que já me parece o longínquo ano de 2007. Talvez eu simplesmente tenha imaginado todas estas coisas, ou talvez eu realmente tenha enfrentado, naquele instante de minha vida, um hierodemônio das profundezas, que, talvez por acaso, tenha desviado por alguns instantes sua atenção para o mundo dos mortais. Aceitar uma ou outra explicação não aumenta nem diminui um pouco que seja o desespero e o horror que senti naquelas longas noites de agosto.
IV
      Como seus parentes espectrais, as baratas fogem da luz do sol. Por seu lado, os homens parecem ganhar coragem quando é dia. Tive um sono assustadiço e cheio de pesadelos no sofá da sala, porém, já na manhã seguinte, foi difícil conseguir entender como eu podia ter ficado tão apavorado na véspera. Encarei a porta trancada de meu quarto e senti vergonha de mim mesmo...
      “Ora, era apenas uma barata!”, pensei, enquanto empurrava a maçaneta. A luz do banheiro ainda estava acesa, a toalha úmida estava jogada no chão, minhas miniaturas de chumbo de cavaleiros medievais estavam todas espalhadas. Ainda assim, entrei com alguma apreensão. Primeiro olhei dentro da rede, depois debaixo da toalha, e então me agachei para olhar debaixo da cama. Não havia nada, nem lá, nem atrás da estante de livros, nem dentro do guarda-roupa, nem debaixo da escrivaninha. Entrei no banheiro, já mais confiante, e senti um pouco de desprezo ao ver o galo roxo em minha imagem refletida no espelho. Tanto estardalhaço por tão pouco... Quantas baratas eu não já tinha matado no meu apartamento desde que eu tinha me mudado em 1999? Como eu havia podido ter feito tanto estardalhaço por causa de apenas uma baratinha?
      Talvez para compensar minha covardia da noite anterior, resolvi retomar a rotina como se nada tivesse acontecido. Imaginei que provavelmente o bicho já tinha voado pela janela depois que eu tranquei a porta do quarto, e achei essa hipótese tão agradável que passei a tomá-la como quase certa.
      Ainda muito sonolento por causa da noite mal dormida, arrumei a bagunça que eu tinha deixado: desarmei a rede, guardei a toalha, arrumei as miniaturas e pus as roupas que eu usaria para ir para a faculdade em cima da cama. Escolhi sem pressa um livro da estante para ler durante a aula, coloquei-o dentro da mochila e fui tomar banho.
      Enquanto me lavava, eu me lembrava dos detalhes da noite anterior, mas como se tudo tivesse acontecido num sonho. Ainda assim, foi bastante para me provocar um ligeiro arrepio. A imagem da carapaça, da enorme silhueta ressaltada contra o azulejo branco, das antenas recurvadas como cornos ainda estava bastante fresca em minha memória, apesar de tudo. Ao mesmo tempo em que deixava meus pensamentos fluírem, e as memórias da véspera adquiriam força, olhava fixamente para baixo, para o ralo que sorvia a água e a espuma, e, num dos meus surtos de exagero tão comuns quando eu não tenho muito mais com que me preocupar, lembro-me de ter pensado que seria engraçado se aquele ralo não fosse exatamente um ralo, e se ali, próximo a meu pé, absorvendo a água do chuveiro, pudesse talvez existir uma abertura para um outro lugar, sabe-se lá onde.
Parecia um ralo, e, é claro, para todos os efeitos práticos que me interessavam, aquilo era um ralo. Mas eu jamais poderia provar que, em sua essência profunda, aquilo não era uma tangente de um outro espaço, ou que do mesmo modo que eu casualmente observava as águas escorrerem para sabe-se lá onde, alguém ou alguma coisa, não observava brotarem, no Outro Lado, as águas de outro tempo e outro mundo, águas que estavam carregadas não apenas com minha sujeira, mas com algumas memórias e até mesmo esperanças e doces pensamentos e sonhos. Será que, ao intuir a proximidade de beleza, alguma criatura condenada a viver na escuridão não sentiria seu ventre contorcer-se de inveja, tão maiores porque sua única realidade seria, para sempre, a sombra?
      Sei que duvidarão que tenha sido exatamente isso que eu tenha pensado numa manhã quente e ensolarada de Recife, enquanto tomava banho e me preparava para ir para a faculdade. Mas eu seria capaz de jurar que não apenas estava fascinado por pensamentos assim inusitados, como também que tive, pelo menos por um ou dois segundos, a poderosa impressão de que, no escuro por trás da grade do ralo, não sei se no encanamento ou se no Além, duas longas antenas se mexeram.  

V
      As aporrinhações da Faculdade de Direito – que não eram poucas – naquele dia tiveram o saudável efeito de me fazer esquecer os horrores da noite anterior. Se isto não tivesse sido o bastante, a chuva, o alagamento na Carneiro Vilela, o mormaço e a porcaria do trânsito no Espinheiro teriam sido mais que suficientes para contaminar-me de novo com o mal que corrói como um câncer a alma dos recifenses: o pragmatismo mal-humorado. Fiquei especialmente irritado porque ainda tive que descer novamente ao térreo depois de ter chegado em casa, já que tinha esquecido de comprar o pão.
       Jantei o que sempre jantava (pão integral com Becel, café com leite desnatado, ricota, suco de uva integral e outras porcarias pseudo-saudáveis que deviam estar consumindo minha saúde), conferi minha caixa de e-mails e depois me vi mais uma vez perante a difícil situação de ter que encontrar algo que pudesse atrair minha atenção até que o sono chegasse – lá pelas duas, duas e meia da madrugada. Devo ter lido alguma coisa ou visto um filme, ou então devo ter revisado um ou outro capítulo do “A Verdade sobre o Caso dos Exploradores de Cavernas”, que eu escrevia nesta época. Lembro que, naqueles tempos, quando estava de saco cheio de tudo, eu simplesmente ligava para uma amiga e ficava reclamando da vida por horas inteiras.
      Não lembro exatamente o que fiz, só sei que fui dormir bem tarde e com muito mal humor. Cumpri o ritual à risca: pôr o pijama, armar a rede, escovar os dentes, gargarejar, pegar um copo d’água, pôr o ventilador na posição certa – tudo numa ordem pré-estabelecida e categórica, que simbolizava em meu ambiente doméstico a recriação ritual da ordem cósmica. Enfim, lá pelas três da manhã eu estava deitado na rede – não na cama por causa do calor – observando uma réstia do céu recifense pela janela parcialmente encoberta pelas cortinas. Nestes derradeiros instantes antes do sono, minha mente ainda está acelerada. Costumo me lembrar dos aborrecimentos do dia, dos pequenos encontros, das pendências, e aos poucos minha mente vai transformando tudo numa espécie de fluxo, um indefinível amálgama de recordações e de fantasias que – senão são brutais o bastante para provocar-me insônia – pouco a pouco se transformam em sonho.
      Naquele noite, por exemplo, pensei no prazo para a entrega do relatório de monografia, na péssima recepção que a última edição de A Plebe Rude e Ignara tivera, e em muitos outros problemas e trivialidades de então. E no meio deste fluxo, já a meio caminho do sono, recordei meu encontro na noite anterior. Lembrei do susto que tomei, da batida com a cabeça na porta, de minha fuga desesperada pelo quarto e da noite dormida no sofá. Pude sentir, ainda que vagamente, resquícios da angústia que eu havia sentido ao ver aquela barata gigantesca, cascuda e incrivelmente ativa tão próxima do contato de minha pele.
      Eu havia tomado como certo que Ela voara pela janela – como já acontecera com outras baratas outras vezes – mas, em minha vigília, ao me recordar de como sua aparência era particularmente hedionda, e de como sua carapaça era especialmente grossa e escorregadia, e à medida que minha fantasia ganhava intensidade, fui tomado de assalto por um terrível pensamento: “e se Ela ainda estiver no quarto?”
      Fiquei estarrecido ao me dar conta que eu simplesmente tinha ignorado essa possibilidade, como se eu estivesse tentando bloqueá-la mentalmente. Senti uma corrente de adrenalina trazer-me de volta ao despertar e, muito ansioso, ergui a mão em direção ao interruptor, que ficava ao alcance de minha rede.
      Ninguém jamais poderá imaginar o que eu senti naquele instante, não só o medo, mas a sensação de completo desamparo, de estar à mercê de um adversário cruel e implacável. Eu teria chorado se eu tivesse tido tempo, mas, então, cada segundo era vital.
      Ela estava em cima de meu lençol! A sensação de ofuscamento provocada pela claridade não me impediu de ver a gigantesca mancha escura, avançando sorrateiramente pela superfície branca em direção ao meu rosto! Que teria acontecido se eu não tivesse acordado? Pois não sei exatamente com que finalidade Ela avançava, com seus minúsculos olhos negros impregnados de maldade, com sua profusão de patas pontiagudas agitando-se num bailar satânico.  Se Ela tivesse alcançado minha boca entreaberta, e se eu tivesse sentido em meus lábios a aspereza de suas contorções, as secreções exaladas por seu ventre túrgido, então não me restaria mais nada, a não ser me atirar pela janela do décimo andar.
      Mas ainda havia tempo! Com a agilidade e o vigor dos que estão à beira do abismo, joguei o lençol para o lado e, enquanto observava o demônio tentando recuperar o equilíbrio em pleno vôo, rolei para o lado e caí de bruços no chão.
      À frente de meu rosto, estava uma sandália havaiana. Por puro instinto, agarrei-a, voltei meu corpo para o alto e, antes que tivesse tempo de olhar, acertei com um golpe o corpo gigantesco do monstro, que já recuperara o prumo e investia em minha direção num vôo rasante. Não apenas frustrei aquele segundo ataque, como também percebi que A deixei atordoada, pois seu corpo fez uma elipse no ar, esbarrou em minhas roupas e caiu no chão, próximo à estante de livros.
      Com a fúria de um mamífero que teve sua toca violada, pus-me de joelhos e, ainda com a havaiana, desferi um tremendo golpe em sua carapaça. Poderia ter sido o fim de meu drama, mas meu suplício não acabaria tão facilmente. Foi uma chance desperdiçada, que para sempre me serviria de lição. É praticamente impossível matar uma barata recifense com uma sandália de borracha, já que suas carapaças cascudas são mais que suficientes para resistirem ao golpe. Para esmagá-las, é preciso algo mais sólido, como o tacão de um sapato social.
      Mas agora era tarde demais. A besta se recuperara e, sem esperar pelo segundo golpe, escondeu-se debaixo da estante de livros. 

VI


      Corri para a cozinha, peguei um tubo de inseticida e voltei correndo para o quarto, com o coração a mil.
      Despejei enorme quantidade de veneno na base de minha estante de livros, pouco me lixando com as estatísticas sobre efeitos de longo prazo dos inseticidas para a saúde humana. Depois de passar uns minutos envenenando o quarto onde eu mesmo dormiria, fiz silêncio e aguardei. Nada, nenhum movimento. Estaria Ela morta? Algo me dizia que não: Ptematy-ta não seria tão tola a ponto de continuar quieta durante todo o tempo que eu levara para ir até a cozinha e voltar.
      Tentei forçá-la a sair dali debaixo cutucando a base da estante com a sandália, mas em vão. Só tinha um jeito de descobrir se a maldita ainda estava lá: eu tinha que afastar o pesado móvel, abarrotado de livros.
      Com muito receio de que Ela subitamente saísse e subisse por minha perna, comecei a arrastar a estante. À medida que empurrava, com tremendo esforço, procurava-A em meio à sujeira acumulada nos longos meses em que aquela parte do piso não tinha sido varrida. A cada centímetro diminuíam minhas esperanças... E quando já tinha tirado o móvel todo de sua posição original, ouvi um retumbar inacreditável atravessando o quarto, a estante e minhas entranhas. Não sei o que devo ter pensado ao escutar aquilo, às 3:20 de uma madrugada, pancadas tão poderosas que fizeram o chão e as paredes tremerem!
      Imaginei que fosse o Apocalipse, ou que eu realmente tinha morrido e estava sendo atormentado por meus algozes infernais. Seria o destino batendo à minha porta, ou era Arimane que chegara para me punir por ter perseguido sua predileta? Só acreditei que realmente tinha escutado aquele som quando as batidas se repetiram, e vi minhas miniaturas de chumbo tremendo em cima da escrivaninha.
      Sinto necessidade de apresentar aos casuais leitores destas linhas mais uma criatura do esboço teratológico que ora ensaio: a velha do nono andar. Uma coroa divorciada e aposentada, ela direcionava sua libido insatisfeita para as piores formas de sadismo – as que não envolvem sofrimento físico direto. Como um abutre, ela apenas aguardava o primeiro sinal de putrefação para atirar-se à carniça e se deliciar com alguma baixeza. Por causa dela, tive que responder formalmente a uma ocorrência no meu condomínio, supostamente porque eu estava causando muitos ruídos em horários pouco usuais – o que era absolutamente falso, já que minhas longas vigílias recifenses eram estritamente silenciosas. Foi curioso o dia em que tive que acordar para atender o interfone, e fui surpreendido pelas invectivas da gralha me acusando de estar fazendo barulho naquele exato momento, ao que eu teria respondido, se tivesse tido no instante presença de espírito: “minha velha, a não ser que a senhora esteja escutando meus roncos ou meus peidos, eu não poderia estar fazendo os barulhos de que sou acusado, já que acabei de acordar com a porra do interfone tocando”.
      Não era nem Azazel nem Mefistófeles que batiam em meus umbrais, era a velha do nono, que provavelmente estava tendo um ataque histérico por causa do barulho que fiz arrastando a estante. Mesmo depois de eu ter parado, ela continuou com as pancadas, e eu pude escutar sua voz abafada vindo de baixo, como se eu estivesse ouvindo os impropérios que ela me mandava de seu túmulo.
      “Que o diabo a carregue!”, pensei comigo mesmo, referindo-me à velha, não à barata. Seria justo se minha adversária parasse de me atormentar e resolvesse assombrar o andar de baixo, onde habitava alguém muito mais digna daquele suplício. Mas, conformando-me com o fato de que aquilo não aconteceria – pois conhecia a peculiar “fidelidade” das baratas recifenses – pensei que, de todo modo, não valeria a pena continuar arrastando a estante, já que o monstro que eu procurava provavelmente já tinha escapado para outra fresta – ou então perfidamente se escondia dentro da própria estante.
      Por precisar fazer silêncio, eu não poderia continuar a batalha naquela noite. Mas como eu poderia dormir, sabendo que a criatura estava à minha espreita? Sabia que seria vã qualquer tentativa de trancar meu quarto e vedar as portas, já que o monstro poderia atravessar pelo encanamento ou pelas janelas. Como dormir, então?
      Sim, foi o que me perguntei, como dormir? 
VII
Fui para a faculdade me sentindo péssimo. Em alguns momentos, pensei que fosse desmaiar. Mas, ao chegar à primeira aula, dei-me conta de um fato animador: eu poderia dormir! Sim, finalmente eu poderia dormir, ou pelo menos cochilar um pouco, embora naturalmente não nas circunstâncias mais confortáveis. Mas, apesar de possuir um sono muito leve, minha exaustão falou mais alto: tão pronto o professor começou a desfiar as primeiras abobrinhas sobre Direito Internacional Privado, caí no sono.
Mas mesmo ali eu não estava a salvo. Sonhei que estava numa enorme vastidão árida, uma planície amarronzada coberta pelos troncos de uma floresta morta e por arbustos ressequidos cheios de espinhos. Caminho arrastando os passos por uma trilha arenosa – único caminho pelo qual eu podia seguir sem ferir meus pés. No horizonte, uma luminosidade moribunda parece evocar um crepúsculo além do tempo.  
Silêncio, silêncio e quietude em todas as direções. A vastidão se espraia a não mais ver por todos os lados, com exceção de um, onde avisto uma enorme montanha enegrecida, cujo topo está iluminado pelo que me parece um incêndio. Acima da montanha, vejo a silhueta do que – àquela distância – me parece uma enorme árvore.
      A cada passo que dou aproximo-me da montanha negra. Antes que possa me dar conta, ela já está ocupando quase todo o firmamento, um enorme despenhadeiro de rocha escura elevando-se a alturas vertiginosas. Por causa do fogo, o topo parece coroado com uma auréola profana.
      Ao chegar à base, percebo que existe uma longuíssima escadaria talhada na rocha. Ela serpenteia pelos paredões, provavelmente até o cimo longínquo onde imaginei estar a enorme árvore. Subo por ela não porque fosse esta minha vontade, mas porque no sonho eu não tinha escolha.
      A cada passo que dou, a amplidão ao meu redor me parece mais morta. Parece um mundo inteiro que se tornou uma tumba: antes ele fora habitado, nele se desenrolaram os dramas de uma infinitude de criaturas, mas agora tudo está morto, as cidades voltaram ao pó, os homens foram tragados pela terra, e não sobrou ninguém que lembre. E a cada passo que dou, com mais clareza ouço uma espécie de coro blasfemo sendo entoado no alto.
      No instante seguinte, já estou no cimo. De fato, é uma árvore, mas não uma árvore qualquer: é a Árvore Cósmica, o axis mundi que liga o plano terreno ao plano celeste. Ao seu redor, uma multidão de cenobitas encapuzados erguem as mãos para o ar e entoam, num ritmo obsedante, as mesmas sílabas: Ta! Ta! Pthe! Ma! Ty!  
      Ao ouvir a cantilena da congregação, olho para o alto e vejo que a Árvore está em chamas! É o incêndio que eu imaginara ver, e que eu vi iluminando o enorme rochedo. No instante seguinte, sinto uma profunda tristeza, um sentimento de perda de algo precioso e insubstituível. E, contemplando as chamas avermelhadas que consumem pouco a pouco os ramos, diviso algo tão ominoso que sequer fui capaz de sentir horror: há, agarrado ao caule sagrado, monstruosidade ciclópica, uma divindade aberrante que não guarda parentesco com nenhum deus de nenhum povo que jamais tenha cultivado o Bem. É para aquela entidade que a congregação entoa sua cantilena: Ta! Ta! Pthe! Ma! Ty!  
      E eu apenas posso assistir, estupefato, ao monstro cascudo tornar-se cada vez maior à medida em que se alimenta da seiva da árvore, e a cada bocado que ela traga, mais imponentes se tornam suas patas cheias de cerdas, mais longas se tornam suas antenas, e mais luzidio se tornam as circunvoluções de seu ventre. E enquanto eu vejo a carcaça de um universo inteiro servir de alimento para o derradeiro saprófito, sinto uma sacudidela tão forte que me fez pensar que os próprios fundamentos da Terra tinham sido chacoalhados:
      – Ei, pô! Acorda aí!
      Era Reginaldo.
      – Vamos tomar uma.
     
VIII
      De longe, Reginaldo é o mais nerd e o mais genial de meus amigos. Apesar de ser magricela e desengonçado como um mané-mago, é um enorme espírito, uma dessas grandes almas que por inexplicáveis acasos decidem aparecer nas eras mais prosaicas. Jamais conheci criatura mais alheia aos problemas mundanos dos mortais.
      Já era noite. Eu tinha continuado dormindo durante a tarde, mesmo depois que as aulas tinham acabado. Estava com um pouco de ressaca e terrível dor no pescoço, mas pelo menos eu tinha conseguido descansar um pouco. Sentia-me mais animado, e a companhia de meu amigo quase me deixou feliz.
      Fomos beber num dos inferninhos da Boa Vista, numa daquelas ruelas nojentas que ficam perto do Teatro do Parque. Não há dúvidas de que aquele já foi um bairro muito charmoso, mas hoje o resquício de seu charme só serve para acentuar sua melancolia. A característica mais singular da região próxima à Conde da Boa Vista é a quantidade inacreditável de gente feia que há por lá. Não me tomem por um preconceituoso: minha afirmação está embasada em constatações objetivas de quem já muito caminhou por ali. Banguelas, gorduchas desconjuntadas, crianças barrigudas, assaltantes desnutridos: é uma fealdade democrática, que perpassa todas as etnias e as camadas sociais.
      E de todas as pessoas feias que jamais puseram os pés numa calçada da Boa Vista, as que estavam no bar onde resolvemos beber pareciam ser as mais incrivelmente horrorosas! Foi na companhia de tais criaturas, e abrigados dos abismos siderais por ameaçadoras nuvens de chuva, que entretivemos o seguinte diálogo:
      – Eu não acho exagero – me disse Reginaldo. – Acho a barata um inimigo formidável. Elas vão herdar as ruínas da nossa civilização.
      – É exatamente esse tipo de coisa que eu tô precisando ouvir... – disse, desanimado.  
      – Foi mal... Eu sei que o negócio é brabo. Bem, tu não tem muita opção. Ou você sai de casa ou então tenta entender a cabeça do bicho, descobrir suas fraquezas.
      Aquilo conseguiu me despertar um lapso de esperança. Até aquele instante, eu tinha encarado minha adversária como uma entidade intangível e invulnerável. Não havia passado pela minha cabeça que ela poderia ter fraquezas, ou quem sabe mesmo sentir medo.
      – Mas quais fraquezas, porra?
      – Sei lá, pô! Usa uma isca pra atrair o bicho, descobre alguma coisa que atraia baratas! Faz alguma coisa inteligente. Tu tem que pensar como o bicho, se colocar na cabeça dele pra conseguir antecipar seus passos. Pare por um segundo e pense: o que ela realmente deseja? Comida? Se for isso que ela procura, então use uma isca, encontre algo que possa atraí-la!
      Algo começou a se esboçar em minha mente, mas eu ainda estava tomado pelo desânimo. 
      – Não ia adiantar... Eu sei o que ela realmente deseja... A única coisa que ela quer é me causar sofrimento!
      Reginaldo me encarou pensativo por alguns instantes, e então me lançou uma de suas idéias tão simples e tão geniais:
      – Então você tem que ser a isca.
      Foi como se um raio clareasse a escuridão dentro de mim. Fui subitamente assaltado por um sentimento de profundo agradecimento e admiração por Reginaldo – um dos mais proeminentes cidadãos da Boa Vista no quesito feiúra. Levantei-me e dei-lhe um abraço.
      – Bicho, tu é um gênio! Agora eu tenho um plano!
      – Eu sabia que você era capaz de pensar em alguma coisa. O problema é esse teu fatalismo.
      – É, mas agora a maré mudou.
      – Então vá lá e mate o bicho. Quanto mais cedo você conseguir, menores serão as chances de que ela reproduza.
      – De que Ela o que?
      – Oxe, por que tu acha que tem tanta barata no mundo? As bichas são danadas pra procriar. Alguns tipos de barata têm até uma ooteca no corpo.
      – Uma o quê?
      O pesadelo mais um vez maculou minhas esperanças. Só podia ser por isso que seu corpo estava tão inchado: ela trazia em seu ventre uma profusão de ovos, dentro dos quais eram gestados uma legião de abominações tão horríveis quanto Ela própria! Finalmente descobri seu segredo, Ela era a Grande Matriarca de uma nova geração de bestas, uma multidão de monstrinhos ensandecidos, ávidos para perpetuar o legado da Grande Meretriz que os pariria. Contra Ela talvez eu pudesse ter alguma chance, mas que seria de mim contra uma multidão de larvas, alimentando-se de fezes e de restos decompostos nos recantos escuros de meu lar e crescendo em tamanho e maldade a cada noite?
      Não havia um minuto a perder.   


IX
      Muitos homens, se pudessem escolher, prefeririam uma vida sem grandes sobressaltos. Ás vezes, porém, o destino nos toma de assalto, e somos confrontados com o desagradável dilema de mostrar coragem ou perecer.
      Jamais quis ser um herói, mas eu não tinha escolha. O plano que eu tinha traçado para derrotar Pthematy-ta exigia muito pouco, a não ser uma coragem que eu jamais tinha demonstrado até aquele dia.
      A idéia de Reginaldo era boa, boa demais até. Desde que ela se escondera debaixo da estante, eu não a havia mais visto. Sabendo, porém, que o que Ela mais desejava era me causar sofrimentos, seria muito simples trazê-la de volta das trevas. Para tanto, era preciso apenas que Ela pensasse que eu estava ao seu alcance...
      Eu teria que fingir estar dormindo dentro do quarto. Eu sabia que Ela era esperta, mas sua imensa fome de maldade poderia tornar-se uma fraqueza. Ela não conseguiria deixar passar uma oportunidade tão óbvia de me infligir os mais revoltantes tormentos. Consciente disso, eu me preparei para meu ritual costumeiro, atormentado pelo ordálio que me aguardava, mas esperançoso por saber que, finalmente, eu tinha uma chance. Armei a rede, escovei os dentes, gargarejei, peguei um copo d’água, pus o ventilador na posição certa – forçando-me para não deixar transparecer em meus gestos qualquer sinal de hesitação. A diferença foi só que desta vez eu não coloquei o pijama, nem me cobri com meus lençóis. Eu sabia que ela poderia se aproveitar dos tecidos para se aproximar de meu rosto sem que eu notasse. Deitei-me, portanto, na rede vestindo apenas um calção e dispensando qualquer coberta. Eu me oferecia em sacrifício, e não existem palavras para descrever a apreensão que senti ao desligar o interruptor.
      Que sentiria um homem que fosse lançado a uma masmorra, e que soubesse que lá onde fora atirado habitava a mais sanguinária de todas as feras, um monstro tão horrendo e tão feroz que ninguém conhecia sequer sua verdadeira aparência? Ou quem poderá descrever os sentimentos do condenado ao encarar os olhos frios de seu algoz momentos antes de receber o golpe que aniquilará, para sempre, sua consciência? Do mesmo modo, não é possível descrever o que eu senti, deitado seminu no breu de meu quarto, exposto à maldade de um demônio que eu não entendia e que ansiava por minha destruição.
      Fiz esforço tremendo para afastar tais pensamentos, controlar minha respiração e fingir dormir, mas minha mente estava a mil. O barulho do ventilador – requisito indispensável à farsa – atrapalhava-me um pouco, porém cada um de meus sentidos estava plenamente entregue à tarefa de tentar identificar qualquer sinal da presença de minha inimiga.
      Passei uma, duas horas deitado? Ou terei vivido vidas inteiras enquanto aguardava a aparição? Eu esperaria por todo o tempo que fosse preciso. Tentava me concentrar nos poucos estímulos sensoriais que recebia, mas era impossível impedir que minha mente vagasse pelos fossos proibidos do medo: pensava em meu próprio cadáver jogado pelas ruas de uma Recife em ruínas, e uma multidão de baratinhas se alimentando de meus restos putrefatos. Elas eram todas irmãs, as crias de um monstro colossal, obeso, indolente e saciado de maldade, que dormia em meio à podridão em que transformara a cidade.
      Esperei, esperei, mas nada, apenas o zumbido insistente e depressivo do ventilador. Eu pairava no útero da noite, uma consciência perdida numa vastidão onírica apartada do mundo. Eu me tornara um sopro, uma memória ou esperança num oceano de esquecimento.
      Senti algo em meu flanco. Um fervilhar de toques pontiagudos, que tanto poderiam ser as garras de Lúcifer como um imaginar de minha mente cansada e irritadiça. Durou pouco tempo, foi uma sensação tênue, mas eu não poderia ter imaginado aquilo. Seria Ela? Concentrei-me ao máximo para tentar distinguir qualquer impressão, por mais suave que fosse, em minha pele despida, porém em vão. O que quer que tivesse causado aquilo havia sumido ou estava imóvel. Sem mexer a cabeça, olhei em direção ao lado de meu corpo onde havia sentido o toque, tentando distinguir, no negro da noite, alguma mancha ainda mais escura. Não consegui distinguir coisa alguma. Com uma frieza de que não me imaginava capaz, ergui o braço e acendi a luz.
      Nada, não havia nada nem sobre meu ventre nem sobre meu flanco. Nem demônios nem insetos, apenas uma brancura familiar. Lancei a vista pelo quarto e também não pude encontrar vestígio de minha oponente. Havia algo errado. Meu medo teria feito com que eu imaginasse coisas? Teria sido a sensação tátil daquelas perninhas apenas o primeiro sinal de que o sono se aproximava?
      Levantei-me. Pus os óculos. Caminhei até o banheiro e acendi a luz.
      Ecce hommo. Serei eu um homem frívolo? O maior de todos os céticos que já puseram os pés nas calçadas dos Aflitos? Ou serei eu um santo extemporâneo, um pecador que não mais se convence de que a virtude possa ser de alguma valia a seus irmãos de miséria?
      Eu era um perfeito egoísta àquela época. Insatisfeito com minha rotina e minhas perspectivas, o meu maior exercício era a auto-indulgência. Que eu imaginava conseguir em Recife? Ou será que eu achava que o ego iria me redimir? Não mereceria eu, afinal, ser visitado por tal demônio?  Não seria justo se ele devorasse minha carcaça e arrastasse minha alma para as profundezas? Sim, eu não merecia perdão, eu era responsável.
      Foi o que pensei ao divisar no espelho minha face jovem, desiludida e cansada após dias tão extenuantes e miseráveis. “Sou um idiota”, reconheci, finalmente, e este lapso de dignidade prematura me causou impressão tão profunda que quase não reagi à sensação que senti nas costas – agora clara como nunca – como se pequenas patinhas escalassem por minha pele.
      E, à luz baça fluorescente, eu apenas aguardei o desenrolar da impressão tátil. Não podia acreditar, não podia ser verdade, eu só acreditei quando vi seu vulto negro emergir no espelho, por trás de meu ombro – primeiro duas antenas, depois uma cabeça pequena, muito escura, e então uma massa preta pairando sobre um agitar-se caótico de patas. Sentiria Ela que o fim estava próximo? Viria Ela ao meu encontro com o mesmo espírito com que um soldado se atira ao combate em que sua morte é certa?
      Que eu fiz? Enquanto Ela subia em meu pescoço, vindo em direção ao meu ouvido, eu A tomei em minha mão nua e A espremi.
     
     
X
      Não o fiz por coragem, foi puro desespero. Sentir em minha palma sua carapaça, seu ventre oleoso, o contorcer-se das patas tentando escapar de meu aperto era o supremo horror.
      Eu me mantive imóvel, observando Ela agitar-se em minha mão com absoluta indiferença estampada no rosto. Mas o que parecia bravura era na verdade um estado de total impotência, uma incapacidade de reagir provocada pelo pânico mais avassalador. Naquele instante, contemplei longamente os detalhes de uma loucura que até então eu vislumbrara apenas de relance, as circunvoluções luzidias de seu ventre, a apatia abissal de seu semblante, o cheiro intenso e incrivelmente acre que Ela exalava e a maior de todas as obscenidades, a ooteca inchada, prenhe de secreções e de maldade, onde pequenas manchas brancas indicavam o lugar onde minúsculas abominações esperavam o instante em que seriam expelidas das trevas para assombrar os vivos.
      Queria matá-la, queria ter tido forças para apertá-la ainda mais e dar um fim ao pesadelo, mas me sentia como que anestesiado pelo pavor, uma sensação opressora que me esmagava, me fazia sentir enorme pressão no pescoço e nos ombros. Tudo que consegui fazer foi prendê-la. Desespero! Se eu liberasse meu aperto, Ela escaparia e voltaria a me atormentar por noites sem fim; se eu A apertasse, sentiria minha mão banhada pelo bálsamo mais vil, seu sangue transparente misturado aos corpos esmagados de seus filhotes!
      Enlouquecido por minha própria incapacidade de tomar uma decisão, bradei furioso e estilhacei o espelho dando um soco com a mesma mão com que segurava o monstro. Foi loucura, pura tolice causada pelo medo. Enquanto os cacos caíam no chão com enorme estardalhaço, observei meu punho cerrado e agora ensangüentado com a fixação de um lunático.
      Seria o fim? Teria Ela morrido com o impacto? Eu ainda tinha uma tênue esperança de que Ela tivesse sido destruída com o golpe, mas algo me suspirava a verdade: eu havia perdido minha chance... Ela fugira, Ela estava viva, Ela continuaria a me atormentar até que eu enlouquecesse por completo!
      Descerrei lentamente meu punho, e não sei exatamente o que eu senti ao ver apenas um caco de vidro avermelhado pelo meu sangue cravado em minha palma. Não pude deixar de sorrir um sorriso diabólico, contemplando com o olhar injetado o fragmento que me ferira. Para mim estava acabado. Era o fim de tudo, da esperança, do medo, do horror. Eu não podia fazer mais nada: Pthematy-ta vencera, Ela finalmente conseguira destruir o que havia restado de são em mim. Eu me tornara uma criatura como Ela, frio, sem razão ou piedade, não mais que um arremedo do homem que eu havia sido.
 Mas ainda não havia acabado para Ela. O pior dos inimigos é o que não tem nada a perder. Que mais Ela poderia tirar de mim? Ela já havia destruído minha tranqüilidade, meu amor próprio, já havia roubado de mim até o meu lar. Eu havia me tornado uma criatura tão miserável que até o consolo do sono me era proibido. A única doçura que me restava era o desejo de matá-la. E naquele momento, com ódio no olhar e um sorriso maníaco, eu soube que eu A destruiria custasse o que custasse, nem que para tanto eu tivesse que atear fogo ao prédio inteiro, nem que eu tivesse que persegui-la até o mais fundo dos fossos do inferno.
Sabia que Ela ainda estava escondida dentro do banheiro, e que tentaria permanecer fora de meu alcance até que surgisse nova oportunidade de me atacar sem ser destruída. Sem sequer me dar ao trabalho de arrancar o caco de minha mão, que ainda sangrava, saí do quarto – usando ainda apenas o calção do pijama – e peguei várias revistas e cadernos velhos na sala. Fui à cozinha, peguei uma película de PVC – daquelas que servem para embalar salada –, um tubo de álcool e uma caixa de fósforos, depois fui ao antigo quarto de meu irmão – que agora servia de escritório – e peguei uma fita isolante.
Com a fita, eu vedei a janela do banheiro. Usei a película de PVC para vedar o buraco da pia, o ralo e o sanitário. Depois atulhei os papéis ao lado do sanitário e os encharquei com álcool. Segurei o fósforo aceso mordendo os lábios, mas desisti de atirá-lo. Aquilo ainda não seria o bastante.
 Fui até o quarto da empregada e procurei um velho pneu de bicicleta que havia atrás do guarda-roupa. Quando consegui tirá-lo de lá, levei-o de volta ao banheiro de meu quarto, acomodei-o junto à minha fogueira improvisada e somente então acendi o fogo. Se o espelho ainda estivesse lá, ele teria refletido o sorriso desvairado de um espectro de quem algum dia já havia sido um ser humano.
XI
Segurando um sapato social, esperei postado perante a porta. Pelas frestas via a luminosidade avermelhada e observava sair a fumaça negra cada vez mais espessa.
– Queime! Queime, sua filha da puta! – murmurei, enquanto esperava. No fundo, todavia, eu não queria que Ela morresse queimada: isso me privaria do prazer de vê-la esmagada, seus gorgolejos desesperados ao se ver sufocando com os próprios fluidos. Aguardei, paciente, sem me importar com a luz cada vez mais intensa da fogueira. Ela não tinha por onde escapar, ou Ela sairia pelas frestas da porta ou seria consumida pelas chamas.
A fumaça preta impregnou o teto do quarto, o cheiro de borracha queimada se tornou quase insuportável. Mas eu continuei esperando, imóvel, como um animal de tocaia, aguardando algum sinal da presença da adversária.           

E quando quase não mais podia suportar a ardência nos olhos e o calor, eu A vi! A fumaça quase lhe servia de camuflagem, mas não havia como não ver sua silhueta negra saindo pela fresta da porta e seguindo pela parede branca a toda velocidade. Saltei em sua direção, desferi tremendo golpe com o tacão do sapato justamente no momento em que Ela se escondia por trás da estante de livros. Eu não A acertei, e Ela possivelmente pensava que poderia escapar novamente usando o mesmo estratagema. Mas desta vez eu não lhe daria tempo: agarrei a lateral da estante com ambas as mãos e a derrubei, furioso, em direção ao centro do quarto. O móvel e os livros se espatifaram no chão causando tremendo estrondo, mas minha ira havia me levou a agir de forma desastrada: quando o móvel se despedaçou, a madeira lateral soltou-se e caiu justamente sobre o meu tornozelo, ferindo-o de forma indescritivelmente dolorosa e deixando-o preso sob o peso de quase o móvel todo. Por pura sorte não arrebentei de vez a articulação, mas o acidente me causou um corte profundo, que me deixaria com uma cicatriz que guardo até hoje.
Lá estava Ela, o demônio negro, a sinistra mãe emprenhada com uma multidão de pequenos pesadelos em seu ventre. Suas antenas agitavam-se incessantemente, como se Ela buscasse em seu redor algum sinal de ameaça. Pela primeira vez eu imaginei que a criatura estava atordoada, não sei se pela fumaça, não sei se pela ferocidade do combate.
Olhei para baixo em busca do sapato social, e vi que ele havia sido empurrado para perto da porta do quarto no momento em que derrubei a estante. Tentei me esticar para alcançá-lo, mas assim que fiz isso senti uma fisgada lancinante em meu tornozelo, uma dor tão forte que subiu por toda a minha perna e me fez sentir uma pressão nas têmporas.
Mordi os beiços e respirei fundo, procurando agüentar a dor. Eu não poderia deixá-la escapar mais uma vez, tinha que fazer alguma coisa. Suando frio, tentei me agachar num outro ângulo para alcançar o calçado, mas isso me fez sentir um choque ainda mais forte no tornozelo, uma agonia tão terrível que meus olhos se encheram de lágrimas.
Não era possível! Eu só poderia estar num pesadelo! Finalmente eu tinha uma chance de destruir a abominação que tantos sofrimentos me havia provocado, mas, justo no instante decisivo, quando Ela estava ao alcance de meus golpes, faltavam-me armas para enfrentá-la. Percebi que Ela voltava-se para um lado, para outro, como se estivesse calculando qual seria o melhor caminho para fugir. Seria possível que conseguiria escapar mais uma vez?  Seria eu realmente um joguete nas mãos de um demônio sádico e entediado? Não, eu não aceitaria aquilo!
Eu estava diante de um precipício: era o Destino. Não sabia o que havia no fundo, não sabia se seria capaz de chegar até o outro lado. Mas não havia dúvidas de que, qualquer que fosse a decisão que eu tomasse, minha vida estaria mudada para sempre. Vida ou morte, sanidade ou loucura, salvação ou danação: tudo dependia de se eu teria coragem de dar o passo definitivo.
E que passo terrível! Que o peso de tal escolha tivesse que recair sobre meus ombros era a prova de que, se há um plano por trás de cada vida humana, trata-se de um plano perfeitamente insensível ao nosso desespero.
Sim, eu dei aquele passo. Bastaria dizer isso para que uma mente imaginativa entendesse a natureza do horror que se abateu sobre mim naquele instante de desespero, quando fui atirado sem piedade às antecâmaras da Perdição. Tamanha hediondez jamais deveria ser descrita por palavras. Mas sei que, sem o fatídico desfecho, o relato das misérias que Pthematy-ta me causou estaria incompleto. Narrarei, portanto, da forma mais crua e direta possível, apenas para deixar completo o quadro que comecei a traçar.
Antes que ela escapasse, segurei-a entrelaçando os dedos e fazendo uma concha com minhas duas mãos. Ao ver-se novamente aprisionada, ela ergueu a carapaça e desdobrou as asas para voar. Por mais detestável que tenha sido a sensação, não soltei meu aperto, apesar de sentir imensa dor no lugar onde o caco ainda estava cravado. Era como se ela soubesse disso, e concentrasse suas investidas na direção onde estava o corte. Resisti apenas porque meu ódio era maior que minha dor. Ainda sentindo o formigar das patas e o bater das asas em minhas palmas, entreabri um pouco a prisão improvisada e usei meus dois polegares para imobilizar o monstro. A ponta de meus dedões ficou apoiada sobre a carapaça luzidia. Eu podia sentir o desespero da criatura tentando escapar.
Ainda hesitei por alguns instantes ao ver a besta finalmente à minha mercê. Quem quer que já tenha enfrentado um adversário terrível conhecerá a sensação: misturado à embriaguez da vitória, há certa hesitação, uma espécie de nostalgia do combate que se acaba. Mas se me perguntassem se, por pelo menos uma fração de segundo, eu pensei em poupá-la, eu diria: não. Não senti nem o mais tênue vestígio de piedade.
Aumentei a pressão, pus cada vez mais força, até que a carapaça negra estalou, e meus dedos afundaram no corpo viscoso da criatura. Enquanto Ela morria, suas patas agitaram-se com a mesma ferocidade da asas dos arcanjos que seguiram Satã para o Abismo. 
Epílogo
Acredito que agora deva ter ficado claro para meus leitores por que razão eu esmaguei com tanta tranqüilidade uma barata brasiliense usando meu pé descalço. Que era aquilo comparado à besta que eu enfrentei em 2007? Nada, apenas um inseto inofensivo, um incômodo passageiro numa rotina apressada. Comparadas a Pthematy-ta, as baratas de Brasília não são: às vezes eu nem as noto, mesmo quando encontro uma bem grande e cascuda.
Assim acaba a história dos sofrimentos que suportei por causa do mais odioso dos monstros que encontrei em Recife – e olhe que não são poucos os monstros daquela cidade. Um detalhe, porém, precisa ainda ser esclarecido. É possível que algum leitor mais inquieto esteja ainda se perguntando como é possível que eu tenha posto fogo no banheiro de meu próprio apartamento e escapado ileso – física e juridicamente. Explico-me.  
Deleitando-me com o prazer que me provocara a vitória, estava absorto na contemplação do cadáver dilacerado da Arqui-Meretriz. Mal notava a fumaça cada vez mais negra e venenosa nem o tocar insistente da campainha de meu apartamento. Estava fascinado principalmente pela visão da ooteca esmagada – era um gozo observar cada uma daquelas vesículas estourando, cada um daqueles monstrinhos sendo despedaçado antes de seu nascimento para o Mal.
Mas a campainha não cessou, e o insistente visitante passou a esmurrar minha porta e a gritar impropérios ininteligíveis de onde eu estava, em meio à destruição que Pthematy-ta havia deixado para trás. Atirei o cadáver para o lado e limpei minhas mãos nas folhas de um manual de História da Política Externa que havia caído ao meu lado quando derrubei a estante. Depois de fazer algum esforço para desprender meu pé, dirigi-me – seminu, com o pé e a mão feridos e ensangüentados, o corpo enegrecido pela fuligem e uma satisfação desvairada estampada na face – para a sala, disposto a enfrentar qualquer outro demônio que tivesse a audácia de me assombrar. Descerrei meus umbrais e falei para a velha do nono – que batia em minha porta e que provavelmente estava tendo um ataque de nervos por causa da barulheira que o duelo havia provocado:
  – Pois não?
A velha, ainda de camisola, ao ver emergir da penumbra enfumaçada de meu apartamento aquele espectro das profundezas, um condenado do inferno que conseguira escapar e voltara ao mundo dos vivos trazendo no corpo dilacerado ainda as marcas das torturas que sofreu, mudou sua expressão de um ódio assassino para o mais idiota dos espantos e, ao invés de lançar contra mim todas as lisonjeiras palavras que sua mente rancorosa provavelmente estava remoendo, gritou apavorada e saiu correndo desembestada pelas escadas, em busca do auxílio do porteiro da noite, que era muito meu amigo e muito inimigo daquela macróbia, e que chegou bem a tempo de apagar o incêndio com o extintor do corredor.
Foi assim que ele impediu que o Edifício Rio Trombetas ardesse em chamas, e que todos os seus habitantes virassem churrasco nas chamas da retribuição. Também foi ele que, talvez pressentindo a aura de heroísmo que pairava em torno de mim naquele instante glorioso, explicou aos bombeiros e à polícia que tudo aquilo havia sido um acidente.
Somente a velha do nono pressentia a verdade, ou seja, que algum drama insólito se desdobrara naquela fatídica noite, quando se instalou em meu apartamento verdadeiro pandemônio – talvez um dos mais atrozes combates que já se travaram no melancólico bairro dos Aflitos, onde morei, aflito, por dez longos anos.

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