terça-feira, 17 de junho de 2014

Buda chega ao Céu


Eduardo Siebra, 17/06/2014, Pyongyang



Por detrás do vidro do balcão, o querubim de bochechas rosadas olha para o rosto do ancião e compara com a figura do passaporte. Na imagem, suas orelhas estão bem mais longas e e os cabelos estão presos num inverossímel penteado que faz as curvas parecerem pequenas bolinhas.
            – Senhor... Gautama?
            – Sim...
            O anjinho tenta novamente passar o passaporte no leitor automático e mais uma vez obtém sinalização de erro. Depois de conferir pela terceira vez o visto, ele examina a capa do passaporte e só então se dá conta de que é vermelha.
            – Oh! O senhor poderia ter pegado a fila dos santos, Sr. Gautama, ali à direita, em frente à porta estreita. Ela é bem mais rápida.   
            – Ah, me desculpe, eu não sabia... Devo ir para lá?
            – Não, não! Por favor, pode deixar que resolvo isso. Só um minuto, deve ser um problema técnico.
            Na fila, as solteironas e beatas começam a dar sinais de impaciência. Ouve-se um cochicho aqui e acolá. Ainda examinando o passaporte, o querubim pega o telefone.
            – Alô? Bom dia, aqui quem fala é Guriel. Estou com um pequeno problema aqui no guichê sete. Tentei dar entrada num passaporte santificado mas o sistema está disparando uma sinalização.
            (...)
            – Gautama, primeiro nome Sidarta. Nacional de Shakya. Já conferi o visto e está ok.
(...)
– O número é 108111.  Sim, posso aguardar. (...) Ok, muito obrigado então.
Dirigindo-se para o Príncipe Sidarta, o querubim diz:
– Senhor Gautama, obrigado por esperar. Eu vou precisar encaminhá-lo ao escritório do chefe do Setor de Imigração. O senhor poderia por gentileza me acompanhar?
– Houve algum problema?
– Não, não, mas é que seu passaporte está disparando uma mensagem automática. Pode ser um problema no nosso sistema operacional, mas precisamos confirmar com a chefia para ter certeza.
– Ah....
Na fila, uma beata comenta baixinho para a freira que estava ao seu lado:
– Aposto que foi algum pecado nefando que descobriram de última hora! Eu bem que suspeitei que aquela cara de inocente escondia coisa...
– Ave Maria!

***

Na sala de espera, o Príncipe Gautama observa absorto os ponteiros dourados do relógio que há na parede. Num mostrador digital ao lado está escrito: “Faltam (...) dias para o Apocalipse”. Mais embaixo há diversos cartazes com mensagens motivacionais e propaganda religiosa. Num deles há a foto de Cristo sorrindo, com a legenda: "Não só Eu salvo."
Sobre a porta à sua esquerda há uma placa indicando: “São Pedro Simão, Chefe do Setor de Imigração do Paraíso”. Ao lado, entre a porta e o bebedouro, há um cartaz emoldurado com a mensagem: “Deixai aqui todas as preocupações, ó vós que entrais”.
Depois de alguns minutos, a porta se escancara e um sujeito encorpado e muito barbudo, com um luminoso halo sobre a cabeça entra na sala de espera e dirige-se ao príncipe, com um amigável sorriso:
– Sr. Buda, me desculpe por fazê-lo esperar! Houve um pequeno ruído na nossa comunicação, mas o assunto já foi resolvido. Quero pessoalmente lhe dar as boas vindas ao Paraíso!
– Obrigado! Desculpe-me, o senhor é...
– Ah, me desculpe, eu me chamo Simão, mas o pessoal por aqui me chama de Pedro. Estávamos há muito tempo esperando por sua chegada. É uma grande honra conhecê-lo pessoalmente, Sr. Buda! Olhe, não vou dizer que eu seja um grande entendido de teologia, mas preciso confessar que tenho grande admiração pelo trabalho do senhor... Um inovador!
E cumprimentando-o com essa exclamação, São Pedro quase esmaga em suas enormes mãos de pescador os delicados dedos do príncipe indiano.
– Diga-me, Sr. Buda, o senhor foi bem tratado por nossa equipe na Imigração?
– Sim, sim... Foram todos muito simpáticos e atenciosos.
– Bom saber. Semana passada ouvi algumas reclamações de imigrantes que foram submetidos a tratamento constrangedor pelos arcanjos da segurança. É uma pena, mas nossos anjos costumam ser um pouco racistas: eles acham que todo europeu loiro é um nazista...
– Nazista?
– Oh, me desculpe, nossa noção de tempo aqui é um pouco relativa. Bem, isso não vem ao caso.  Vamos ao que interessa: na verdade, não havia problema nenhum com seu passaporte. A mensagem foi disparada porque o Chefe quer  falar pessoalmente com o senhor.
– Mas eu pensava que o senhor era o chefe...
São Pedro franze o cenho e, três segundos depois, ao finalmente entender as palavras de Sidarta, explode numa gargalhada:
– Não, meu amigo, não o chefe do Setor de Imigração. Refiro-me ao Chefão, o Todo-Poderoso, o Manda-Chuva!
– Oh! Brahman?
– Ele tem muitos nomes.
– Mas eu não sou digno...
– Ah, Sr. Buda, deixe disso. Se você soubesse quantas milhões de vezes o Chefe teve que escutar essa ladainha! Vá por mim: todos são dignos d’Ele!
Mesmo tendo alcançado a transcendência, Buda sabia que ser chamado para uma conversa com o Chefe podia ser mal sinal. Será que seus ensinamentos O haviam contrariado? Era bem possível, já que Sidarta apregoara a milhares de seguidores que o mundo que Ele havia criado com tanto esforço (seis dias inteiros trabalhando sem parar) era nada menos que uma ilusão e a fonte de todos os sofrimentos dos homens.
– Mas é por alguma razão em particular?
– Por que você não pergunta pessoalmente? Ele o está esperando dentro do escritório. Ou melhor, que tolice, às vezes quase esqueço que Ele está em todos os lugares! – E São Pedro solta outra risada. Só então o Príncipe Sidarta se dá conta de que Deus está ao seu lado, sentado numa das cadeiras da sala de espera. Para ser preciso, Ele esteve lá desde sempre, e para sempre lá permanecerá.
 Buda se levanta e faz uma reverência.


***

O Senhor disse:

“Sidarta, Eu gosto do seu trabalho porque ele trouxe alívio para o sofrimento de muitos. Mas, se me permite falar em termos metafóricos, preciso confessar que ele me deixou intrigado... Isso porque Eu mesmo trilhei exatamente o mesmo caminho, só que no sentido inverso.
Você nasceu homem. O ponto de partida de sua experiência é a separação. Você começou sua busca a partir da individualidade. Em algum momento, desconfiou que existia uma ligação entre todos os seres, e que o aparente isolamento de cada um poderia ser uma ilusão. A partir de certo momento, dissolver-se na consciência do vazio deve ter parecido um tremendo alívio. Mas isso, Sidarta, é porque sua referência é o mundo que Eu criei.
Para nenhuma de minhas criaturas poderia ser diferente. Embora Eu jamais tenha me ausentado de suas vidas, sei que para meus filhos o mundo deve parecer uma queda ou uma perda. Mas para mim, Sidarta, a referência inicial é o vazio! Você já pensou? Nenhuma separação, nenhuma alteridade... Apenas o nada, antes sequer da possibilidade de um universo ser concebível.  A derradeira perfeição, mas sem o marco do mundo para que tal beatitude pudesse ser julgada boa.  
Diga-me, Sidarta, o que é o mundo antes de mim? Claro que me refiro ao passado num sentido metafórico: o nada em que Eu vivia e vivo, e que me levou a criar o mundo é tão real quanto sempre.
Nele não havia sofrimento, pois não havia separação. Também não havia alegria, e por isso Eu não podia julgar boa minha completude, pois embora inteiro, Eu não era. O vazio se basta, e é o que pode ser dito dele.
E é aqui que nossas jornadas se tocam. Pois você, que é parte de mim, um dia sentou à sombra da árvore Bodhi para meditar sobre a transitoriedade de suas sensações. E usando as técnicas da yoga para concentrar-se na imobilidade dos pensamentos, você encontrou o caminho que conduzia de volta ao meu ponto de partida: ao vazio. 
Mas Eu também fiz a minha yoga, só que uma yoga bem diferente, pois era a yoga da separação. Nada sendo eu era a derradeira imobilidade. E eis o mistério que para sempre permanecerá oculto, mesmo para um iluminado como você: do nada surge a primeira barreira, a primeira linha, e Eu fui.  Eu Me neguei ao afimar: Eu sou.  
Fiz-me, essa foi a primeira separação, e desde então, houve. Eu sou o que sou, foi o que eu entendi. Num certo sentido, ainda estava preso em minha inteireza. Como sou perfeito! Como sou completo! Algo há, pois cá estou, e eu sou uno.
Mas como Eu poderia saber se era bom, se só Eu era? Eu era tudo, e não havia com que me comparar – a não ser com o vazio, o não-Eu. 
Eu era a única realidade. A unidade, o brahman, e tudo era abarcado por meu corpo. Mas ainda não havia parte, apenas um sujeito, Eu, que também era o único objeto.
Então eu meditei. Enquanto você precisou concentrar-se para abstrair a transitoriedade e a ilusão de uma individualidade separada, eu me concentrei para abstrair a imobilidade e a ilusão de uma individualidade absoluta. Afundei em mim mesmo, mergulhei na minha consciência e recitei o mantra que me expressa: om.
E eis o segundo milagre. Em mim descobri a parte! E traçou-se a segunda linha: Eu sou, mas ele há. E a partir do instante em que nós fomos, nasceu a dor, pois a dor é a separação de mim. Ao mesmo tempo, porém, nasceu a alegria, pois a alegria é estar em mim, e só pode saber isso quem soube o que é não estar em mim.
Sem isso, Sidarta, o nada é apenas o nada – e não iluminação. E Eu sou apenas uma sufocante e opressora totalidade. Se o nada redime, é porque há o sofrimento, a perda e a queda. Sem isso, pode haver plenitude, mas não pode haver redenção. O sofrimento dos meus filhos, que também me são, é a sua salvação e é a minha salvação. E com eles Eu sofro. A dor da mais insignificante criatura também é a minha dor. Como se engana quem pensa que assisto indiferente aos sofrimentos do mundo! O sofrimento de cada um dos que criei é sentida com mesma intensidade por mim, e nessa dor está a salvação.
 Eu criei o mundo, e vi que Eu era bom. E esse mundo está cheio de mim, pois ele é parte de meu Eu.
Como me alegro ao reencontrar cada uma das minhas criaturas... Sem perdê-las, eu jamais poderia tê-las, pois então Eu só teria a mim mesmo. Você me entende Sidarta? Entende por que era necessário o mundo? Por que era necessária a queda?"

Depois de uns segundos calados, o Príncipe Sidarta sorri. São Pedro dá-lhe um tremendo tapa nas costas e diz:

"Seja bem-vindo ao Paraíso, Sr. Buda! E deixe de frescura que isso aqui é o Céu!”   
  

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Céu e a Terra

     
Por Frederico Oliveira


           Existe uma relação misteriosa entre a ordem da alma e a ordem política - eis o núcleo das investigações filosóficas desde a Antiga Grécia até hoje. 
             
          Vivemos numa cultura dominada pela experiência da desordem. Estamos rodeados de estadistas e militantes que desejam alucinadamente debelar o mal e implantar uma ordem a ferro e fogo. O século XX mostrou que o projeto político de pôr fim às injustiças, eliminar a exploração do homem pelo homem, enfim, extinguir o pecado da face da Terra, acaba transformando a vida humana num inferno.      
        
            O projeto de instaurar o Paraíso na Terra é a adaptação política desastrada de uma idéia cuja raiz é puramente teológica. Vamos à origem do termo. A Igreja Católica diz que a celebração da Missa é o encontro do Céu com a Terra, onde os fiéis cantam "unidos à multidão de anjos e santos", naquele momento em que o sacerdote pronuncia as palavras "corações ao alto" e a assembléia responde "o nosso coração está em Deus". Mas um católico genuíno se contenta com viver essa experiência do "Céu na Terra" durante uma hora a cada domingo.

           Na liturgia de hoje, leu-se o livro dos Atos dos Apóstolos 1, 6-8, em que os apóstolos interrogam o Cristo que acabara de ressuscitar: - Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino em Israel? Respondeu-lhes Ele: - Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo".

              A pergunta dos apóstolos encerra a expectativa messiânica do povo judeu de libertação contra o jugo romano. Trata-se de uma preocupação legítima do povo oprimido que esperava o Salvador de dinastia davídica. Jesus se compadece do sofrimento de seu povo, mas não veio aqui instaurar um domínio político. De fato, responde a Pilatos: "O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus soldados certamente teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo." (Jo 18, 36).

               A resposta de Cristo nos Atos dos Apóstolos é misteriosa: não nos é dado conhecer a data do Juízo Final. O Pai reservou para si esse segredo e não nos cabe especular sobre ele - nos versículos seguintes, os anjos repreendem os discípulos porque estes ficam embasbacados olhando para as nuvens enquanto Jesus ascende aos Céus envolto em glória. Quanto a nós, compete continuar a caminhada na História, acompanhados pela presença do Espírito Santo. Naquele trecho bíblico, o Filho retorna para o seio do Pai, mas garante que estará com seus seguidores até o fim dos tempos por meio do Espírito Santo que anima a Igreja, o Paráclito, o Espírito Defensor que consolará os fiéis nas horas de sofrimento.

          Em suma a vida do cristão é atravessar na fé o mar da História, uma mistura de ordem e desordem. O lago de Tiberíades ambienta essa experiência das tribulações: as águas revoltas sacodem a barca de Pedro, enquanto Jesus dorme aparentemente indiferente à aflição de seus amigos. Cumpre vigiar e orar. E a oração que Jesus ensinou diz "seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu". Para o cristão o Céu na Terra é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus está resumida no Sermão da Montanha.

           Mas acontece que o ser humano está gravado com o pecado original, que é uma expressão simbólica para dizer "egoísmo" e "satisfação de suas próprias ambições". A tentativa de reformar a natureza humana resulta numa desordem monstruosa, sendo o comunismo apenas a projeção imanente da Jerusalém Celeste - a união beatífica dos santos de Deus.

             Infelizmente jamais existirá uma sociedade perfeita, livre da exploração do homem pelo homem. Não significa que devemos deixar o mundo como aí está. Vamos, sim, em busca da ordem.