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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ravel e Borges: mais uma aproximação estética


Se o POEMA CONJECTURAL de Jorge Luis Borges tivesse uma trilha sonora seria o Bolero de Ravel.



Não me interessam as motivações biográficas que levaram Maurice Ravel a compor essa música. Aprecio a melodia, o que ela é, sua forma exterior. A objetividade do resultado. A obra de arte é uma criatura independente, livre até certo ponto da vontade do criador.

E o que ouço no Bolero de Ravel? Uma melodia marcial e melancólica. Um hino de guerra mais sereno. O canto de um soldado derrotado, mas confiante. Um espírito crescente que ruma triunfalmente para... a morte!

São paradoxais meus sentimentos. Marcial e melancólico. Guerreiro e sereno. Derrotado e confiante. O triunfo e a morte. Mas a harmonia musical é capaz de expressar contradições sem exacerbá-las, antes integrando-as. A harmonia é, por definição, a conciliação dos opostos. A simples justaposição de elementos iguais não é harmonia, mas simetria.

A harmonia é a linguagem da música por excelência. E talvez seja também a linguagem da Sabedoria. Os homens mais sábios que conheci na vida foram capazes de conviver pacificamente com os paradoxos da realidade: justiça e misericórdia, prudência e coragem, vida e morte.

Pare um instante. Ouça um pouco mais do Bolero.

Se eu fosse cineasta, faria um curta-metragem com a cena do poema que você vai ler agora e a trilha sonora do Ravel. É estupendo. Borges conjectura sobre os últimos instantes da vida de um combatente. Imagino o homem andando em meio às ruas perigosas. É uma guerra civil. Ouvem-se os cascos dos cavalos de seus algozes. Seus minutos estão contados porque ele, o doutor Francisco Laprida, pertence ao partido vencido. Ele é um político instruído, advogado, que dedicou seus ideais à causa da nação. Mas que adianta? Seus inimigos o vêem como um traidor da pátria. Que cena mais típica da América Latina: “pronunciamientos”, golpes de estado sucessivos. Sangue derramado por divergências políticas ontem, hoje e sempre. Passam-se séculos, entra governo, sai governo, faz-se uma nova constituição e as circunstâncias não mudam. É como um suceder de estações: o eterno retorno do inverno. Ontem era ditadura de esquerda, hoje de direita. E a melodia de Ravel recomeça do mesmo ponto no compasso seguinte. Esse podia ser o hino de milhares de Franciscos Lapridas que rumam triunfais para morrer. O que terá se passado na cabeça desse homem?


POEMA CONJECTURAL

O doutor Francisco Laprida, assassinado no dia
22 de Setembro de 1829 pelos «montoneros» de
Aldao, pensa antes de morrer:


Zumbem as balas pela tarde última
Há vento e há cinzas sobre o vento,
dispersam-se o dia e a batalha
disforme, e a vitória é dos outros.
Triunfam os bárbaros, os gaúchos.
Eu, que estudei as leis e mais os cânones,
eu, Francisco Narciso de Laprida,
cuja voz declarou a independência
destas cruéis províncias, derrotado,
de sangue e de suor manchado o rosto,
sem esperança nem medo e perdido,
vou para Sul por arrabaldes últimos.
Como aquele capitão do Purgatório que,
debandando a pé e ensanguentado
o plaino, a morte fez cegar, tombar
lá onde um rio obscuro perde o nome,
assim hei-de eu cair. Hoje é o termo.
A noite lateral de infindos pântanos
espia-me e demora-me. Oiço os cascos
da minha quente morte que me busca
com ginetes, com belfos e com lanças.
Eu que ansiei ser outro, ser um homem
de sentenças, de livros, de ditames,
sob o céu jazerei entre lameiros;
mas endeusa-me o peito inexplicável
um júbilo secreto. Entretanto enfim
o meu destino sul-americano.
A esta fatal tarde me levava
o labirinto múltiplo de passos
que meus dias teceram desde um dia
da meninice. Descobri por fim
a recôndita chave dos meus anos,
a sorte de Francisco de Laprida,
a letra que faltava, essa perfeita
forma que soube Deus desde o princípio.
No espelho desta noite recupero
o meu insuspeitado rosto eterno.
Vai-se fechar o círculo e aguardo.
Pisam meus pés a sombra dessas lanças
que me buscam. A mofa já da morte,
os ginetes, as crinas, os cavalos
adejam sobre mim...Já o primeiro
golpe me fende o peito, o duro ferro,
a faca interior sobre a garganta.

Jorge Luis Borges in Poemas Ecolhidos. Edição bilingue. Trad. e
selecção de Ruy Belo. Dom Quixote, 2003., pp.17/19





quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Villa-Lobos e René Girard: outra aproximação estética



O historiador René Girard tornou-se professor de literatura por um acidente de percurso: falta de vaga na Universidade. Mas esse acaso acadêmico deu alcance e força humana à sua obra. Ensinando os clássicos, Girard teve uma intuição sobre o enigma antropológico que acompanha a história da humanidade: o bode expiatório.

Em pobres linhas, a experiência básica do homem é a imitação. Platão já notara que a realidade é mimética: uma árvore imita um "modelo" de árvore; todas as coisas que existem, inclusive os seres humanos, imitam uma forma. Aristóteles, por sua vez, observou que a mímese é o princípio das artes. O teatro imita a cidade, o personagem imita o rei, o passo de ballet imita um gesto de amor, a flauta imita um canto de pássaro, O Trenzinho Caipira de Villa-Lobos imita a maria-fumaça, e assim por diante.

A contribuição de René Girard consiste na descoberta de que a imitação é também a fonte dos desejos e, logo, a fonte da violência. O bode expiatório é sempre uma vítima que se distingue da coletividade por uma característica inferior (pobre, coxo) ou superior (rei, estrangeiro). Na crise, ele é castigado por não imitar. Os agressores se comportam mimeticamente como um enxame de abelhas ao redor do perseguido. Para não me estender na explicação do argumento, remeto o leitor diretamente à obra. Aos interessados apenas numa amostra grátis dela recomendo o capítulo 11 de O BODE EXPIATÓRIO, onde se entende por que Salomé dançou para Herodes antes de pedir a cabeça do prisioneiro.

Com essas palavras, passo ao Prelúdio nº 1 para violão de Heitor Villa-Lobos. Uma das peças mais conhecidas de Villa-Lobos, este prelúdio é presença obrigatória no repertório de qualquer guitarrista clássico. Na minha adolescência, estudei um pouco de violão solo, mas lastimosamente nunca aprendi a executá-lo. Porém ouço aí a forma melódica da tragédia expiatória.



Há uma corda solitária que se opõe ao conjunto das outras cordas. A melodia faz seu percurso independente enquanto acordes tentam obstar-lhe o passo, num vozerio de turba. A corda solitária não desiste, guiada pelo polegar da mão direita, porém as cordas reunidas lutam contra ela, como se quisessem abafá-la. A voz é um discurso criativo; a coletividade é repetitiva e seca, como um apitaço estudantil.

Reparo que o clímax da crise são as diminutas tocadas na parte aguda, o que confere dissonância e estridência (0:47'' e 1:07'' do vídeo). Logo após esse confronto, a melodia se refugia nos bordões, digamos que passa a falar grosso, firme em sua posição.

A tonalidade é menor, dando melancolia ao tema.

Na segunda parte, a música muda para a tonalidade maior. Parece que vai tomar um rumo completamente imprevisto. Aliás, parece outra música. Será que o vozerio coletivo deu uma trégua? A vida vai ser diferente?

Mas na terceira parte a perseguição retorna com mais força, acentuada pelo volume e a ênfase dada pelo violonista. Visualmente, o dedo solto percorre o braço inteiro do violão, mas não há escapatória: a massa de sons uníssonos o acompanha aonde for...

Essa história não poderia acabar bem. O prelúdio encerra com uma nota grave e pontual, em tom de morte. Para os enfurecidos, a única solução possível é a morte, a exclusão total do dissidente, o martírio do bode expiatório.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Frédéric Chopin e Viktor Frankl: uma aproximação estética


EM BUSCA DE SENTIDO de Viktor Frankl foi um dos livros que mais me causaram impacto na juventude. Sucessor da cadeira de Sigmund Freud e Alfred Adler em Viena, Frankl mostrou que nem só de pulsões sexuais e vontade de poder se faz um ser humano. O homem integral é mais que um corpo; tem alma. E tem sede de algo mais, tem desejo de sentido.


Viktor não elaborou sua teoria ante o descanso de um divã, mas encontrou-a na agitação do mundo: primeiro em Auschwitz, de onde ele escapou com vida; depois na sociedade livre e fútil dos Estados Unidos da América, para onde fugiu e onde se tornou famoso como psicoterapeuta.


Amo o PRELÚDIO OP. 28, NO. 15 (A GOTA) de Frederic Chopin, que no nível inconsciente da criação é a forma melódica do existencialismo frankliano. Suspeito que se pode ouvi-lo e apreciá-lo melhor na segunda taça de vinho, aproximadamente, dependendo da qualidade do ouvinte e da resistência do vinho...


O prelúdio é misterioso porque desenha uma melodia belíssima, mas superficial. Só ouvindo-o com atenção percebo minha ilusão, pois a linha principal da música não são as notas que levemente passeiam, mas uma única nota, repetida, insistente. Quantas vezes nos atemos a coisas atraentes como o prazer, postergando a pergunta essencial da existência! Essa nota teimosa é a pergunta: qual o sentido da vida? qual o verdadeiro sentido da vida? qual é? qual o sentido da vida?

A nota persiste subjacente à música.

Na segunda parte, imagino a morte de uma pessoa querida e a urgência maior da pergunta: a Nota vai crescendo, se fortalecendo, bate forte, até ocupar a primeira plana, imperativa: qual é? qual é? qual é o sentido? A Nota até se desloca um pouco, pula do sol# para o si, mas a sua forma permanece intacta, indelével.

Como numa síntese, na terceira parte volta-se à melodia inicial, leve, ligeira, sem que a Nota subterrânea desapareça. Ela apenas diminui a intensidade, mas continua fiel à pergunta como se desse um recado: você pode passear, viajar daqui para acolá, amigo, porque isso também faz parte da vida, digo, da música, mas não tentes escamotear a Nota, a Gota! Terás de aprender a conviver harmonicamente ou harmoniosamente com ela.

DIÁRIO DE UM CÔNSUL NA FRONTEIRA, 17 DE JANEIRO DE 2014.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Glossário de Música Erudita





            Tenho percebido que pessoas pouco familiarizadas com o mundo da música erudita enfrentam alguma dificuldade para entender os debates teóricos desse inacessível meio. Em especial, a pouca familiaridade com o vocabulário utilizado pelos críticos e historiadores de música parece impossibilitar uma melhor compreensão das questões relacionadas ao gênero.
            Para facilitar a compreensão dos leigos, elaborei o seguinte glossário, que traduz para a linguagem corrente alguns dos principais termos encontrados em textos sobre música erudita.


Abstrato = Chato.
Acadêmico = Chato.
Atonal = Chato.
Avant-garde = Chato.
Complexo = Chato.
Computadorizada = Chato.
Conceitual = Chato.
Concreta = Chato.                        
Contemporâneo = Chato.
Cosmopolita = Chato.
Crepuscular = Chato.
Cutting edge = Chato.
De importância histórica = Chato.
Desafiador = Chato.
Difícil = Chato.
Dissonante = Chato.
Dodecafônico = Chato.
Eclético = Chato.
Elektronische = Chato.
Engajado = Chato.
Estocástico = Chato.
Exótico = Chato.
Experimental = Chato.             
Fin de siècle = Chato.
Folclórico = Chato.
Futurista = Chato.
Generativo = Chato.
Improvisado = Chato.
Inacessível = Chato.
Indeterminada = Chato.
Intelectualizado = Chato.
Jazzístico = Chato.
(Composta por) John Cage = Chato.
Marginal = Chato.
Microtonal = Chato.
Minimalista = Chato.
Modernista= Chato.
Neoclássico = Chato.
Operístico = Chato.
Oriental = Chato.
Ousado = Chato.
Para iniciados = Chato.
Performático = Chato.
Primitivista = Chato.
Profundo = Chato.                   
Quebrou paradigmas = Chato.  
Quintessencial = Chato.
Sincrético = Chato.
Sofisticado = Chato.
Soviético = Chato.
(Composta por) Stockhausen = Chato.
Vanguardista = Chato.
Virtuosístico = Chato.
Visionário = Chato.
Wagneriano = Chato.