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domingo, 14 de dezembro de 2014

OS CONFINS - ATO 1 (Cenas 1 a 3)

Por Frederico Araújo


Após mais um longo período de secura criativa, emerjo enfim com uma inspiração que não reconheço ser minha. Agradeço ao meu amigo do peito Eduardo pela insistência com que me cobra um registro de minha temporada como cônsul na fronteira. Mal sabia eu como trazê-lo à pena, pensando até que o mais natural seria um ensaio acadêmico, penteado, virgulado, lambido, sobre o Visconde do Rio Branco ou coisa que o valha. Escrever um romance estava completamente fora de minha capacidade e envergadura intelectual. Uma epopéia poética? Nem se fala! Pois eis que, sem querer, brotou-me de um jorro, ao longo de um intenso fim de semana, uma peça de teatro intitulada OS CONFINS.

         
DRAMATIS PERSONAE:

Suzana de Jesus – diarista
Daniel – filho da diarista
Amiga – amiga de infância de Daniel
Dr Eduardo Wallenstein – jovem juiz
Dra Melissa Fausto – advogada, namorada de Eduardo
Dra Vanessa Maia – promotora, namorada de Eduardo
Chang Lu, o Diabo – chefão do tráfico
Dr Bruno Zambetta – advogado do tráfico
Encapuzado 1 – matador de aluguel
Encapuzado 2 – matador de aluguel
Carmen Duralex – companheira de cela de Suzana

figurantes:
secretária do juiz
capangas do tráfico
cantor de barzinho




Antes de começar a peça, enquanto os espectadores tomam seus assentos na plateia, o som do teatro deve tocar o primeiro movimento de LA CATEDRAL, de Agustín Barrios.

CENA 1


Cena de uma audiência judicial. Mesa em forma de T. Entram Dr. Eduardo, o juiz, com sua secretária e sentam-se revirando papéis. Entra Dra Vanessa, a promotora, e se cumprimentam, trocando olhares lascivamente.
EDUARDO – Bom dia, Dra Vanessa! (sorrindo galante)
VANESSA – Bom dia, Excelência! (retribuindo simpatia)
EDUARDO – Vossa Excelência está elegante hoje.
VANESSA – Obrigada! Gentileza sua.
EDUARDO – Bem, vamos começar então. Já que está presente o Ministério Público... Vou apregoar o réu, aliás, neste caso (consultando papéis), a ré. Senhora Suzana de Jesus! (em tom de pregoeiro).
Entra Suzana, de cabeça baixa. Pára um instante em frente ao juiz. Ele acena para que ela tome assento.
EDUARDO – O sobrenome da senhora... (ainda consultando papéis)
Retira-se a figurante que faz a secretária do juiz.
SUZANA – Sobrenome tem não, senhor (sentando-se). Meu nome é só este mesmo: Suzana de Jesus.
EDUARDO – Tudo bem, não é a primeira vez que vejo gente sem sobrenome aqui... A senhora está sendo acusada de tráfico de entorpecentes.
SUZANA – Sim, senhor.
EDUARDO – A senhora reconhece essa acusação?
SUZANA – Não, senhor.
EDUARDO – Mas me parece que a senhora confessou para o delegado que a droga era sua.
SUZANA – Sim, é verdade. Se o senhor me permite...
EDUARDO – Pois não.
SUZANA – Eu trabalho como diarista. Naquele dia, eu estava trabalhando normalmente na casa de uns libaneses, que eu limpo às terças e quintas. O meu celular tocou: era o meu filho, que estava preso na Ponte da Amizade. Chorava no telefone me dizendo: - Não fui eu, mãe. Não fui eu, mãe! Fiquei desesperada. Pedi licença ao patrão. Peguei um mototaxi e fui pra ponte.
EDUARDO – E aí?
SUZANA – Cheguei lá, tava ele sentado assim de lado numa sala. Dei logo um tapa nele pra ele aprender. O policial até gostou. Falei pro meu filho: - moleque, eu te falei pra tu não ir na história desse chinês maldito. Olha bem o que te aconteceu, Daniel! Meu filho só calado, doutor. O policial já foi pegando a mochila dele e levando pra perícia. Aquilo foi no dia do aniversário dele, o meu filho estava fazendo 18 anos.
VANESSA – (interrompendo) Excelência, ela assumiu a droga como se fosse dela... para o filho não ir pra cadeia.
EDUARDO – Como assim? Ela não estava presente no momento do flagrante! E o que disse a perícia?
SUZANA – Policial também tem filho, doutor. O senhor imagine: era o dia que o Daniel ia fazer 18 anos. Eu implorei pra escrivã que estava fazendo o B.O., pra ela trocar os nomes, pra eu ir presa no lugar dele.
EDUARDO – Sei... (pensativo) Um belo gesto de amor, minha senhora. E o Ministério Público como opina neste caso?
            VANESSA – Eu acho que podemos fazer uma transação (pausa). Apesar de juridicamente ter um flagrante contra a Senhora Suzana, o Ministério Público propõe uma delação premiada. Se a ré revelar à Justiça quem é o dono da droga...
            Suzana baixa a cabeça, com medo.
            EDUARDO – A senhora aceita a oferta do Ministério Público?
            Suzana fica calada, pensativa.
            VANESSA – Na verdade, Excelência, as investigações apontam que foi o próprio traficante quem mandou avisar a polícia sobre essa mula, pra despistar um carregamento muito maior. Isso é um golpe comum aqui na região.
            Suzana levanta a cabeça, decidida.
            SUZANA – Eu aceito, doutor. Se eu falar pro senhor quem é o dono da droga, eu vou sair da cadeia?
            EDUARDO – Depende. A senhora poderá ser absolvida ou receber uma pena menor, ficar menos tempo na cadeia... Depende da sua colaboração com a Justiça.
            SUZANA – O nome dele é impronunciável.
            EDUARDO – É árabe?
            SUZANA – Não. Na realidade, ele tem vários nomes. Lá no bairro todos chamam ele de muitas formas diferentes, porque o bicho não gosta de ser identificado.
            VANESSA – Mas a senhora pode declinar alguns desses nomes?
            SUZANA – Pra lá pra nós, a gente chama ele de O China. Mas também é conhecido como O Rei, O Cara, O Tal, O Pai da Mentira, O Jorge, O Humberto, O Padrinho, O Painho, O Osvaldo, O Capo, El Jefe, O Fernando, O Carioca.
            VANESSA – Desse jeito é difícil. A senhora não está ajudando nada... (impacientando-se)
            EDUARDO – (dirigindo-se à promotora) Mas, doutora, você sabe que é assim mesmo no submundo do crime. Os criminosos têm muitos vulgos.
            SUZANA – E ele tem mais nomes. É porque eu não me lembro de todos. Se eu pudesse ajudar...
            EDUARDO – Me diga uma coisa. Como foi que o seu filho conheceu esse traficante?
            SUZANA – Ah doutor... Foi lá no bairro mesmo. Eu trabalho o dia inteiro. O senhor sabe como é que é. O menino fica na rua, nem sempre eu posso vigiar por onde ele anda. São as más companhias.
            EDUARDO – Ele entrou no tráfico por necessidade?
            SUZANA – (ofendida) Necessidade o quê, doutor? Eu eduquei meu filho dando tudo de bom pra ele. Nunca deixei faltar nada, nem roupa de marca, relógio, celular novo. Eu dava dinheiro, ele ia com os amigos dele pro Paraguai comprar. Daniel sempre teve tudo. Paguei até colégio particular lá no bairro, doutor, o melhor que eu podia dar. Procurei dar o melhor pra ele, doutor. Passo o dia fora, trabalhando na casa dos outros.
            VANESSA – Onde a senhora mora?
            SUZANA – Na Vila C.
            EDUARDO – Então como foi que o Daniel entrou no tráfico?
            SUZANA – Ele sempre gostou de aventura. Nunca satisfeito, vive reclamando do que eu boto em casa pra comer. Por mais que a mãe dele tenta agradar... A vida da gente é assim mesmo... Aí um amigo dele perguntou se ele não queria conhecer o tal do Chan... Tchan... Chang... Eu não sei falar esses nomes complicados, doutor. É o Homem-Lá, o Bode Velho como eu chamo logo. E o meu Danielzinho passou a dizer que o Outro agora é que era o padinho dele. O senhor imagine! Eu que batizei o Daniel na Igreja, dei meu irmão pra ser padrinho, meu finado irmão, sou obrigada a escutar uma história dessa! (chora)
            EDUARDO – Se acalme, dona. Esse negócio de padrinho ele deve ter visto em algum filme.
           SUZANA – Não é não, senhor. Todo mundo lá no bairro diz que é afilhado do homem. É uma febre.
            VANESSA – E esse padrinho dava algum presente para o seu filho?
            SUZANA – Dava, sim senhora, alguma coisinha. Só que prometia mais do que dava.
EDUARDO – O que ele prometia para o seu filho?
SUZANA – (gesticulando) Chamava o meu filho lá na mansão dele, mostrava todas aquelas coisas, as correntes de ouro, os carrões, mulher da rua na piscina; fazia churrasco o fim de semana inteiro com artista de samba, bebida... E dizia assim pro Daniel: “Olha, eu vou te dar tudo isso se você for fiel a mim...”.
            EDUARDO – A promessa de subir na vida sem esforço.
            SUZANA – O Animal seduzia o meu filho dizendo assim: “Você é estudado, Daniel, ainda vai se tornar o meu braço direito na contabilidade”.
            VANESSA – Que cachorro!
            SUZANA – Então, doutor? Vou poder sair da cadeia?
            EDUARDO – Depende, senhora. Isso vai depender do desenrolar do processo. (dirigindo-se à promotora) Bem, por hoje eu estou satisfeito. (voltando-se para a ré) A senhora fale com o seu advogado ali na saída, que ele vai lhe informar a data da próxima audiência. Declaro esta sessão encerrada! (em tom de pregoeiro)
            Suzana retira-se de cabeça baixa.
EDUARDO – (virando a cabeça, procurando) Cadê a minha secretária? (dirigindo-se à promotora) Doutora Vanessa... Hummm! Eu gosto muito desse seu perfume, sabia?
Vanessa sorri.
EDUARDO - (voltando a si) Doutora, qual é o próximo caso que temos aí? (consultando papéis) Vamos depressa que a nossa pauta hoje está cheia.
Redução de luzes. Cortina.



CENA 2





Palco dividido em duas partes iguais. Do lado esquerdo, o apartamento do jovem magistrado; do lado direito, a terraça de um bar. A cortina cobre o lado direito do palco até a metade da cena, de modo a conferir mais movimento e concentrar as atenções sobre o que se passa no apartamento do Dr Eduardo. O estilo da decoração é de um apart-hotel simples, tipo sala e cozinha americana; de mobília uma pequena mesa de sala, um sofá e uma geladeira. O juiz está chegando do trabalho naquela segunda-feira. Monologa.
EDUARDO – (tirando o terno e espreguiçando) Ai ai! Que dia! Que segunda-feira!
Larga o blazer e a gravata sobre o sofá. Dirige-se até a geladeira e pega uma garrafa de vinho pela metade. Saca a rolha e pega uma taça, provando-o analiticamente.
EDUARDO – Está um pouco avinagrado. Mas também! (observa o rótulo) Quando foi mesmo que eu abri essa garrafa? Sexta? Ou foi sábado? Não, foi sábado! Putz, mas essa geladeira não tem nada pra comer, nem um pedaço de queijo! Vou ter que sair pra comer alguma coisa na Av. Brasil. Ah! Vou ligar pra Doutora Vanessa... (pronuncia a palavra “doutora” pausadamente, com ironia, pela intimidade que têm). Deixa eu ver se tem alguma mensagem dela.
Pega o celular. Disca o número.
EDUARDO – Oi, Vanessinha! Como você tá? Que dia, hein! Que dia esse nosso hoje! Escuta, você não quer fazer um lanche e tomar um chope daqui a pouco? Ah, daqui a uma meia hora, mais ou menos. Você quer que eu passe aí pra te pegar ou a gente se encontra lá? Ah, em qualquer lugar, ali na esquina mesmo, onde tem aquela sorveteria, sabe?... Isso! Te espero lá então, daqui a uns quinze minutos. Pode ser? Combinado!
Troca de roupa atrás do biombo. Mais descontraído, veste uma calça jeans, camisa polo e tênis. Vai-se deslocando em direção ao lado direito do palco, enquanto a meia-cortina vai abrindo e descerrando a terraça de um bar. Vanessa já está lá esperando. No bar ao ar livre, há mesas e cadeiras vazias. Um garçom. Um músico com um violão. Eduardo chega e cumprimenta Vanessa beijando-a no rosto.
EDUARDO – E aí, tudo bem?
VANESSA – Ah, tudo indo (um pouco desanimada). Fiquei pensando no caso daquela mãe, sabe?
EDUARDO – Eu também.
O músico dedilha baixinho UN SUEÑO EN LA FLORESTA de Agustín Barrios. O tom da conversa é meditativo, pausado, intercalado por breves silêncios entre os dois.
VANESSA – Fiquei pensando como uma mulher é capaz de se doar tanto por um filho.
EDUARDO – É o amor.
VANESSA – É um mistério, isto sim.
EDUARDO – O amor é um mistério.
VANESSA – Pode ser.
EDUARDO – Bonita essa música, não é?
VANESSA – Sim, mas é triste.
EDUARDO – Você está triste hoje?
VANESSA – Não... acho que estou só cansada.
EDUARDO – Vou pedir um chope. Você quer um?
VANESSA – Sim, por favor. Fiquei pensando na Suzana, uma mulher tão jovem, mas fisicamente acabada (com ênfase)... O sofrimento está estampado no rosto dela. A mulher não tem nem 40 anos e já tem um filho com 18.
EDUARDO – Ela deve ter tido filho muito nova.
VANESSA – Fiquei pensando na minha vida afetiva (erguendo o olhar da mesa e encarando-o): 34 anos, vários namorados, baladas, nenhum compromisso, nem casamento nem filho.
EDUARDO – Ih, você tá parecendo a minha mãe, me cobrando um neto.
VANESSA – Eu queria ter uma filha.
EDUARDO – Por que não um filho?
VANESSA – Não sei. É um sonho que eu tenho. Minha filha iria se chamar Diana.
EDUARDO – Por que esse nome?
VANESSA – É a deusa grega da caça.
EDUARDO – Eu acho que não é grega; é romana.
VANESSA – (pegando na mão dele sobre a mesa) Eu nunca gostei do meu nome. Eu queria me chamar Diana.
EDUARDO – Por que você não escolhe uma divindade mais brasileira? Sei lá, pesquisa alguma coisa na mitologia guarani, por exemplo. No candomblé existe um deus da caça chamado Oxóssi.
VANESSA – Mas Oxóssi é um deus masculino; eu quero ser uma deusa feminina.
EDUARDO – Lá vem você de novo com esse papo de feminismo.
VANESSA – Ih você tá é por fora. Não é nada disso.
EDUARDO – Nossos colegas da UnB odiavam as nossas conversas de antropologia, lembra?
VANESSA – Claro que eu lembro. Bons tempos... Eu era tão mais nova. Nem acredito que já faz 10 anos que a gente se formou.
EDUARDO – Você nunca mais encontrou ninguém da nossa turma?
VANESSA – Não, só você.
EDUARDO – É muita coincidência a gente estudar juntos na faculdade, passar no concurso e vir parar em Foz do Iguaçu!
VANESSA – É mesmo, tem razão (pegando na mão dele de novo).
EDUARDO – Minha querida deusa da caça, a propósito, você sabe o nome dessa música?
VANESSA – Não... (carinhosa, inclinando-se sobre o peito dele)
EDUARDO – (com sotaque) Un sueño en la Floresta de Agustín Barrios, guitarrista paraguaio. (com ar professoral) O Paraguai tem um dos maiores compositores eruditos de todos os tempos, você sabia?
VANESSA – Eduardo (pronuncia o nome dele como uma gata no cio), você quer casar comigo?
EDUARDO – O quê?! Não escutei direito.
A música pára. Silêncio por um instante.
VANESSA – Eu perguntei se você quer casar comigo.
EDUARDO – O que é isso, Vanessa? Estou muito novo pra casar.
VANESSA – Você tem a mesma idade que eu.
EDUARDO – Mas eu não quero casar agora. Tem muito chão pela frente... Aliás, nem sei se a gente está namorando. A gente está namorando ou ficando?
O músico do bar começa a tocar O MEU GURI, de Chico Buarque. O ritmo da conversa fica ainda mais lento, intercalado por longos silêncios
EDUARDO – Ah essa música é linda, você gosta?
VANESSA – Gosto. Quem não gosta? (decidida) Eduardo, você fala que tem um longo chão pela frente. Pois eu acho que muita água já rolou por baixo dessa Ponte da Amizade...
EDUARDO – (desviando o assunto) Sim, o rio Paraná é o segundo maior do Brasil. Aliás, da América do Sul.
VANESSA – Não, doutor Eduardo. Estou falando de águas em sentido figurado. E me refiro à nossa amizade.
EDUARDO – Ah bem.
Nova pausa na conversa. Os dois ouvem atentamente a música.
EDUARDO – Não sei se fiquei impressionado com aquela história, mas essa canção me fez lembrar outra vez o caso da Suzana de Jesus.
VANESSA – Eduardo, me diz uma coisa. Quem era aquela bonitinha que te deu uma olhada no forum hoje de manhã?
EDUARDO – Alguém olhou pra mim, foi?
VANESSA – Não se faça de desentendido. Aquela mulher de tailleur vermelho, que só faltou te comer com os olhos, parecendo a Pomba-Gira.
EDUARDO – Nossa! Não seja cruel com a moça. Aquela é uma advogada muito séria, doutora Melissa Fausto.
VANESSA – Sei.
EDUARDO – Bom, acho que estou começando a ficar bêbado com essa cerveja. Amanhã tenho uma audiência muito cedo. Podemos pedir a conta?
VANESSA – Por mim estou satisfeita. (despeitada) Não tenho mais perguntas, Ex-ce-lên-cia.
EDUARDO – Não seja boba.

Cortina. A música continua até a próxima cena.




CENA 3


Daniel irrompe no palco esbaforido. Está fugindo dos pistoleiros que querem matá-lo. O cenário é a periferia de Hernandarias. Bate à casa de um amigo de infância. Casa simples, de porta e janela. Deve-se entrever nos fundos um grande quintal com o desfiladeiro para o rio.
DANIEL – Socorro! Socorro!
AMIGO – O que foi que houve?
DANIEL – Os homens querem me pegar, cara. Tô ferrado!
AMIGO – Entra aqui, entra.
Daniel abriga-se. Os dois ficam agachados debaixo da janela, sussurrando.
DANIEL – Mamãe foi presa.
AMIGO – Tua mãe, cara? Porra, até tua mãe entrou no tráfico?
DANIEL – Claro que não, pô.
AMIGO – Então o que foi? Ela matou O Coruja?
DANIEL – Também não. Preciso te contar. É uma longa história. Cadê aquele dinheiro que eu pedi pra você guardar? Ainda tem ele aí?
AMIGO – Tenho. Tá aqui ó. Não gastei não.
Tira o dinheiro do bolso e entrega a Daniel. Conta o dinheiro e guarda.
DANIEL – Cara, vou pegar um ônibus pra Assunção. Eles vão me matar, eu tenho certeza. Se acontecer alguma coisa comigo, diz à mamãe que eu amo ela, por favor. E que eu me arrependi antes de morrer.
Chegam os pistoleiros, gritando e forçando a porta.
ENCAPUZADO 1 – Bora, abre essa porta! Perdeu! Perdeu!
ENCAPUZADO 2 – Você tá morto, Danielzinho. Já era, velho! Abre logo!
DANIEL – Cara, ferrou! Faz esse favor pra mim. Diz à mamãe que eu amo ela e que eu me arrependi antes de morrer. Vou pular daqui mesmo! Adeeeeeus...
Se joga no vale do rio Paraná.
ENCAPUZADO 1 – (dirigindo-se ao outro) Rápido, vamu dar a volta pelo outro lado, ele tá fugindo pelo rio.
Saem correndo pelo lado oposto do palco. Depois de alguns segundos, voltam os dois.
ENCAPUZADO 1 – Você viu ele por aí?
ENCAPUZADO 2 – Não.
ENCAPUZADO 1 – Olha lá! (apontando para o céu)
ENCAPUZADO 2 – O quê? É a alma dele indo pro céu?
ENCAPUZADO 1 – Não, animal. São os urubus! Você não tá vendo?
ENCAPUZADO 2 – Ah sim. Agora eu tô vendo.
ENCAPUZADO 1 – Esse aí já era.
ENCAPUZADO 2 – Virou café-da-manhã de urubu.
ENCAPUZADO 1 – Vambora. Deixa o corpinho dele fedendo lá no rio. Miserável vai inchar d’água. Vai ficar parecendo um sapo.
ENCAPUZADO 2 – Quando o cadáver incha, ele desce boiando na correnteza. Aí é só a gente pegar lá embaixo e costurar a boca dele.
ENCAPUZADO 1 – Que costurar o quê? Ele já tá morto mermo...
ENCAPUZADO 2 – Ué, pra ele não dedurar nós lá no Além!
ENCAPUZADO 1 – Deixa de ser, mané! Vambora que o chefe tá esperando.
Saem. Depois de alguns segundos, aparece Daniel do lado oposto do palco, esbaforido. Olha para um lado e outro... Ouve-se um som mecânico de ônibus (sonoplastia). Daniel acena ao ônibus e corre.

Cortina.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Genealogia da Idiotice Humana – e Sobre a Literatura como Remédio






O título desse texto soa terrivelmente presunçoso. Parece até que o autor se supõe em posição de julgar a imbecilidade alheia como se possuísse alguma formidável capacidade de percepção.
            Quero desde já desfazer esse erro. Sou fascinado pelo problema da estupidez, mas não por me considerar mais inteligente ou mais sábio. Na verdade, talvez eu queira compreendê-la melhor justamente como forma me precaver contra ela – intuindo que a imbecilidade seja um risco constantemente à espreita. Sou bacharel em Direito, nada do que é idiota me é estranho.
            Sempre me impressionei com a capacidade de pessoas muito inteligentes tornarem-se, em certos contextos, completos imbecis. Ainda que o dicionário defina "idiotia" como falta de entendimento, eu nem de longe acho que ela se confunda com a mera burrice – vista essa como simples incapacidade de processar informações.
            Por exemplo, é comum encontrar pessoas educadas e perspicazes que, quando decidem falar sobre um assunto que lhes seja caro, transformam-se de súbito em completos imbecis. Eles se tornam, então, incapazes de levar em conta as evidências mais elementares, e deixam-se levar por meras impressões, fundamentadas por não mais que pelo desejo de que as coisas fossem do jeito que eles queriam que as coisas fossem. Isso acontece quando as opiniões são passionais, quando o assunto que está sendo discutido afeta emocionalmente os debatedores.  
            Tal percepção já nos basta para entender que aquilo que estou chamando de "idiotice" não é apenas um problema intelectual (ou seja, um problema que diga respeito apenas a ideias), já que também possui uma forte dimensão sentimental. Mas será que é apenas isso? Será que apenas as paixões explicam a tendência das pessoas à idiotice? Suspeito que não. Acho que essa inclinação tem uma raiz mais profunda. 
            Certa vez eu estava dialogando com uma pessoa que tem opiniões fortes sobre a temática do igualitarismo. Sem sequer entrar no mérito de quem estava certo ou errado nessa discussão, confesso que me senti surpreso quando percebi que meu interlocutor tinha, dentro de sua cabeça, todo um esquema narrativo montado para sustentar  suas opiniões.
            Em última análise, talvez o mesmo acontecesse comigo – embora em meu favor eu pudesse pelo menos alegar a abertura à dúvida quanto às minhas próprias convicções. A pessoa com quem eu estava discutindo, porém, por ter uma personalidade exaltada, estava tão enclausurado em seu próprio discurso que ele permitia que sua narrativa se tornasse quase uma caricatura.
            Para ele, os papéis eram muito nitidamente definidos. Havia dois tipos de pessoas intrinsecamente distintas: umas boas e outras ruins. Elas estariam engalfinhadas num verdadeiro drama histórico, cujo desfecho era determinado de antemão, com a derradeira vitória dos que representavam o progresso. O mais curioso, porém, era a capacidade dessa narrativa de dar sentido a tudo o que acontecia. Um gesto não era apenas um gesto – ele era forçosamente uma tomada de posição na disputa. Sendo assim, qualquer declaração poderia ser interpretada tanto como expressão de uma postura libertária ou como um comentário reacionário, a serviço da inércia histórica
            Não há fatos neutros – era isso que meu interlocutor parecia me dizer. Tudo tem um sentido, tudo tem uma intenção subjacente. O que parece um ato inconsciente é, na verdade, uma intenção velada – ou a adesão subliminar à agenda do partido retrógrado. Não é difícil perceber como essa maneira simplista de interpretar as coisas desemboca naturalmente numa "teoria da conspiração": como todo acontecimento é resultado direto de uma intencionalidade planejada, então tudo o que acontece no mundo – todas as injustiças, tudo aquilo que fere nosso senso de dignidade – deve ser fruto das maquinações obscuras de poderosas forças que conspiram para manter a humanidade do jeito que está.
            É espantosa a quantidade de jovens perspicazes que se deixam convencer por relatos assim. Vejam lá, não estou negando a realidade da opressão do homem pelo homem – nem dizendo que não aconteçam manipulações políticas pelas classes endinheiradas. Mas acho realmente espantoso que algumas pessoas se contentem, ao tentar analisar um fenômeno social complexo, com explicações que poderiam ter saído de um romance barato!
            Por que isso acontece? Eu diria que é porque o ser humano é uma criatura que interpreta sua própria vida por meio de narrativas.
            Por que gostamos tanto de estórias? Por que os mitos são tão importantes para os povos primitivos? Por que a literatura tem uma capacidade tão grande de nos sensibilizar? Não é apenas porque narrativas nos divertem, mas sim porque são elas que dão sentido à vida. Os fatos brutos nada significam – eles são acontecimentos aleatórios de um mundo que, sem a mediação da fábula, nos pareceria terrivelmente alienígena. O fato só é humanizado quando ele se encaixa em algum relato mental. Então um objeto inanimado deixa de ser apenas um amontoado de matéria, e se transforma numa lembrança de uma pessoa querida. Uma doença ou um acidente deixam de ser um mero fruto do acaso cego, e se transformam em importantes etapas de nosso amadurecimento. Amigos e inimigos assumem papéis, e a vida divide-se em diversas etapas, seguindo um senso de progressão de efeito dramático, no qual avanços e recuos fazem parte do aprendizado.
            Não é irrelevante que usemos a mesma linguagem tanto para relatar acontecimentos que efetivamente ocorreram como para falar de mundos ou de narrativas fantasiosas. Nossa linguagem nos permite mentir e criar universos imaginados – realidades-simulacro que, por refletirem nosso próprio mundo, nos ajudam a compreendê-lo. Quando a ficção nasceu, com ela vieram todos os possíveis sentidos para a vida humana. Que a vida possa ter um sentido não já é a derradeira ficção?  
            Estou convencido de que as estórias possuam um papel incontornável em nossa maneira de perceber a vida. Do mesmo modo que a mente só é capaz de apreender objetos concretos e abstratos por meio dos conceitos, não podemos prescindir de narrativas para registrarmos a passagem do tempo. É algo que se explica pelo papel que a linguagem possui na formação de nossa consciência: não possuímos outros meios de nos referirmos à experiência vivida. O homem é o animal que fabula – e tome mais uma frase de efeito!  
            Isso não significa, claro, que estejamos condenados à mentira. O mito não é necessariamente uma inverdade. A realidade é objetiva, mas essa objetividade só pode ser alcançada pela mediação das estórias. O problema é que existem narrativas boas e narrativas ruins. Enquanto algumas são capazes – com sua riqueza de elementos ou de simbolismos – de nos aproximar do problemático ideal de verdade, outras servem apenas para simplificar ou banalizar nossa experiência, dando-nos respostas prontas e fáceis para os muitos dilemas que encontramos no dia-a-dia.
            Exemplo clássico de imbecilidade é o do indivíduo que se ilude quanto à pessoa amada. Seja uma mãe conivente, seja um marido enganado, a pessoa idiota constrói para si um verdadeiro castelo de cartas em que o que menos interessa são as verdadeiras características da pessoa querida. Uma vez que se tece a narrativa e se atribuem os papéis, o indivíduo torna-se tão deslumbrado com seu próprio enredo que pode chegar a negar ardorosamente indícios sobre a má índole daquele que ama, ou até ofender-se se alguém vier lhe falar a verdade.
            O que vale para os aspectos cotidianos da vida também vale para as grandes narrativas – a política, a religião, a ciência. Esses meta-discursos têm uma função muito mais abrangente – e perigosa – já que eles servem de referência moral para a sociedade inteira. E enquanto a imbecilidade privada comumente causa mais mal ao seu possuidor do que a terceiros, a idiotice pública, por ter a seu favor o peso das multidões, tem a terrível aptidão de causar mal aos inocentes. Todas as vítimas de fracassadas utopias são, em alguma medida, vítimas de uma estória mal contada.
            Na minha interpretação, a idiotice humana nasce de uma capacidade pobre de fabulação. Ela se origina da tentativa (quase sempre inconsciente) de usar narrativas ruins para explicar ptoblemas complexos. O idiota é um homem que usa moldes fixos, rigidamente compartimentados, para julgar o que vê. Ele não tem sensibilidade para  nuances, e não é capaz de entender que a vida possui mais de uma camada de significados. E mesmo diante do notório fato de as pessoas serem contraditórias e terem motivações problemáticas, ele sempre incorrerá nas mesmas velhas suposições simplistas – chapeuzinho vermelho para cá, lobo mau para lá...
            Curiosa conclusão: embora seja possível nascer burro, não se nasce idiota. Aprende-se a sê-lo ao longo da vida, pela aculturação e à medida em que se vai definindo o repositório pessoal de estórias da carochinha com que medir a vida. Outro desdobramento interessante: minha maneira de interpretar a idiotice valoriza a literatura como possível remédio. Os livros não são apenas fantasias: eles são um repertório de experiências, emoções e intuições. A boa literatura, ao assumir radicalmente a complexidade da vida, torna-nos capazes de reavaliar nossa existência de forma mais rica e completa. Ela nos educa para a fábula – essa mediação fundamental entre nós e o real – e, ao nos permitir um pouco mais de consciência dos papéis que exercemos, ela pode até mesmo nos permitir uma maior medida de protagonismo. Resumindo, a literatura é o remédio para a prosa ruim, quer dizer, para a vida ruim. 
         

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Era da Desinformação




            Outro dia, no Aeroporto de Brasília, um homem que caminhava lendo o jornal esbarrou por engano numa senhora idosa que tomava um cafezinho. Com o encontrão, ela derrubou a xícara e sujou o piso do aeroporto. O sujeito pediu desculpas, e procurou um funcionário da limpeza para enxugar a sujeira.
            Calhou de justo naquela hora haver um adolescente filmando um colega com seu smartphone. Por acaso, ele gravou exatamente o instante do acidente, bem como a reação do homem e da velhinha. Na mesma hora ele publicou na internet – não por achar que aquilo tivesse alguma importância, mas porque, como bom jovem de nosso século, ele não tinha nada melhor para fazer.
Era um acontecimento banal, de absoluta frivolidade, como tantos que acontecem todos os dias, em todos os cantos do mundo. Ou seja, era o material perfeito para provocar uma acirrada polêmica na rede. Como não podia deixar de ser, não tardou para que o vídeo fosse compartilhado à exaustão nos sites de relacionamento, e reações escritas começaram a aparecer nos principais canais de notícia.
Eis um breve apanhado do que se disse:


Revista VEJA: Empresário impede terrorista das FARC de seqüestrar avião.

            “Um empresário paulistano e chef de cozinha mostrou-se um inesperado herói no último fim de semana. Enquanto esperava o embarque de volta para São Paulo no aeroporto de Brasília, ele percebeu uma atitude suspeita de uma possível terrorista das FARC que aparentava levar diversas granadas dentro de sua bolsa de mão. Ao se dar conta das intenções da militante bolivariana, o empresário pôs em risco a própria vida para impedir que ela entrasse no avião.
                       
Caros Amigos: As Ligações Perigosas

            Quem é o homem da cotovelada? Não se sabe. Mas o relógio que ele usava era quadrado. Como se sabe, o queijo também pode ser quadrado, e queijo se faz com leite. O leite vem da vaca, e a vaca é a fêmea do boi. Resta claro um envolvimento da bancada ruralista no acontecido.
            Além disso, em entrevista ao Jornal Nacional, o sujeito se definiu como “apenas um matuto dum pé de serra”.
Claramente um tucano disfarçado, com ligações com José Serra, a mando do capitalismo financeiro.”
           

Pragmatismo Político: Imagem de militante gay sendo torturada por neonazista russo cai na rede.

            “Na tarde do dia 25, uma militante dos direitos dos homossexuais foi barbaramente torturada em público por um neonazista russo. Depois de ter se pronunciado a favor da união civil homoafetiva, a militante foi espancada e violentada em plena sala de embarque do Aeroporto Juscelino Kubitschek. A polícia, que assistiu a todo o ocorrido, não fez nada para impedir a violência.”

Mídia Ninja: Militantes Black Blocks que protestavam contra o Governador Sérgio Cabral apanham do BOPE no aeroporto JK. 30 policias disfarçados de anarquistas foram agredidos.

            Fotos de nossos internautas mostram o BOPE usando metralhadoras para reprimir um grupo de militantes anarquistas que protestavam contra a CPI dos transportes no Rio. A confusão começou depois que um policial disfarçado de cadeirante jogou um coquetel molotov contra o detector de metais do aeroporto. 900 pessoas foram presas e pelo menos 30 policiais disfarçados foram atingidos por tiros de bazuca de borracha.

Carta Capital: Falta de confiança na economia derruba xícara de café no Aeroporto JK.

“Segundo relatório do Banco Central publicado na manhã de hoje, o total de investimentos no setor agrícola cresceu 12% no primeiro trimestre de 2013. Como resultado, a produção de café em pó quase duplicou no período analisado.
            Apesar disso, trabalhadores e empresários vem demonstrado desconfiança com a política monetária e fiscal do governo. Como resultado, registrou-se que a economia cresceu 90% menos do que o que deveria ter crescido se o Brasil fosse a China, na avaliação dos especialistas.
            Os efeitos já começam a ser sentidos no cotidiano do cidadão. O fraco desempenho da economia fez com que uma senhora de idade derrubasse uma xícara de café no Aeroporto JK, na semana passada.
            O Ministro da Fazenda anunciou que tomaria medidas para incentivar o consumo e disse que compraria uma xícara nova.”

Blog feminista: Mulher negra sofre violência obstétrica na sala de embarque

            “E ainda dizem que não existe cultura do estupro. E depois as feministas é que são chatas.
            Depois de sofrer clitoridectomia e ter braços e pernas amputados a golpes de facão, mulher africana vítima de estupro por time de futebol americano foi impedida de receber atendimento de emergência no ambulatório do aeroporto. O pastor Marco Feliciano, que estava de plantão naquele momento, induziu o coma na vítima para impedir que ela tentasse o aborto. O plano de saúde da vítima disse que não aceitaria pagar pelo parto normal, só aceitando a cesariana.
É esse o país em que vivemos. É esse o país que não entende que o meu corpo é o único instrumento que tenho para exercer uma liberdade que historicamente foi negada. É esse o país que quer me impor uma escolha pelo fato de eu ter dentro de mim um pedaço de carne apto a gerar outro ser humano.”

Estado de São Paulo: Editorial – O Descaso das Xícaras

“Nos últimos anos, a administração da presidenta Dilma investiu menos de 20 centavos para prevenir acidentes envolvendo xícaras de café expresso. No mesmo período, os países membros da OCDE investiram o mais de 90 milhões de dólares para evitar acidentes envolvendo xícaras de chá de porcelana.
            Esse é o retrato do descaso. Enquanto a iniciativa privada tem que arcar com o peso da regulamentação estatal e de uma carga tributária abusiva, o cidadão é privado dos serviços mais elementares que se poderia esperar do setor público.”

Blog do Sakamoto: A Homofobia Nossa de Cada Dia

“O Brasil está se democratizando. A nova classe média finalmente acordou. A sociedade começa a exigir prestação de contas.
            Clichês que se repetem à exaustão nos meios de comunicação de massa. O que essas aparentes verdades escondem, na verdade, é uma visão profundamente retrógrada dos papéis sociais e uma cultura homofóbica arraigada.
            Nada o demonstra melhor do que a recente demonização de que foi vítima nas redes sociais um militante da igualdade de gênero que ousou protestar contra as declarações de uma evangélica que defendia a família tradicional no salão de embarque do Aeroporto JK. Um episódio que revela camadas nem sempre admitidas de nosso recalque histórico”

            O texto também foi publicado no Youtube, com o título “Muito bom! Vejam! Velhinha safada tentar pegar no bilau de um homem e se esborracha toda no chão! Kkkkk” O vídeo teve 600 milhões de acessos, e dentre os milhares de comentários postados, selecionamos os seguintes:

 “Ha, ha, ha! A bruaca se ferrou, muitu bom”
Jorge MK, Goiás

“ Eu achu q é isso msm, nordestino vem pra cá pra trabalhar, mas não toma banho, não passa desodorante. ECA!”
Maria Giacanelli, São Paulo

“Gay tem mais mesmo é que morrer! O ki tem na kbça desses imbecil? Um casal é um macho e uma mulher. Homem c/ com homem dá lobisomem”.
Toninho, Recife - PE

A Mídia Ninja publicou fotos do acidente tiradas pela própria velhinha. O Fora do Eixo fez um festival em homenagem às vítimas da tragédia e não pagou aos artistas. O Conselho Federal de Medicina disse que não atenderia vítimas de erros médicos cometidos pelos médicos cubanos. O video também circulou no Facebook, associado a uma série de correntes e mensagens:

“- Gente, essa velhinha tem câncer no cérebro e não tem dinheiro para pagar a cirurgia. O Facebook disse que, se essa postagem tiver 2 milhões de compartilhamentos, eles vão pagar a operação. Vamos ajudar, gente!”

“Uma vez perguntaram a um sábio chinês: O que você faria se quebrasse uma xícara?
 Ele respondeu: Eu pegaria outra no armário. (Ditado milenar chinês)”

“Jesus te Ama! Boa segunda-feira! Feliz! Feliz! ‘E no reino de Deus, nenhuma xícara derrubada se espatifará” (Atos, 12, 22-23)”

“O universo é como uma xícara: ele tem uma alça, e mais cedo ou mais tarde alguém a espatifará (Albert Einstein, psicólogo austríaco).”

“No passado éramos refém das grandes empresas de informação, que deturpavam os fatos segundo seus interesses obscuros. A internet nos libertou disso, e hoje vivemos num mundo em que qualquer adolescente imbecil tem igualmente o direito de deturpar a informação.”  (Martin Luther King, rei da África do Sul).

No mínimo 50 adolescentes morreram tentando reencenar o vídeo na sacada de seus apartamentos.  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Desvendando o Sentido da Vida



Nota preliminar:  Desde que criei o blog, recebi dezenas de milhares de mensagens reclamando que descumpri aquilo a que originalmente havia me proposto, ou seja, resolver, de forma peremptória, todos os problemas que assolam a humanidade.

 Discordo, já que, como se depreende de uma leitura superficial de qualquer uma das minhas crônicas, meus textos não tem outro objetivo que o de permitir aos que os lêem adquirir uma apreensão imediata das verdades filosóficas fundamentais sobre o Universo. Todavia, como venho tentando exercitar com mais afinco as 8 virtudes budistas, escrevi o texto abaixo para aplacar a ira dos que principiavam a me considerar um falastrão.

 Ao fim da leitura, espero que todos meus leitores considerem superado o clássico problema do sentido da vida humana.



Desvendando o Sentido da Vida
 






            Qual o sentido da vida, ora bolas? O erro já reside na questão. Mais apropriado é perguntar: é possível ao ser humano conhecer se a vida tem ou não um sentido?
            Com isso já limpamos o terreno para avançar no problema. Com um pouquinho de análise conceitual, então, conseguimos milagres. A primeira coisa que precisamos definir é o que entendemos por “sentido”.
            Se damos à palavra uma acepção estrita, igualando-a ao que comumente entendemos como “significado”, (como quando falamos no significado de um acontecimento, de uma decisão, etc) então é possível afirmar, sem medo de se estar incorrendo numa extrapolação, que o ser humano pode, sim conhecer o sentido da vida, do mesmo modo que é capaz de conhecer o sentido de qualquer coisa. Quando afirmamos isso, estamos reconhecendo que o ser humano é uma criatura cultural, que interpreta o mundo em que viver pelo filtro da cultura, ou seja, usando conceitos, idéias e significados que são, ao mesmo tempo, criados por ele e impostos de fora, pela sociedade em que ele vive. Nessa acepção, a vida tem o sentido que o ser humano atribui a ela e reconhece nela, e o problema de desvendar o que se entende por “sentido da vida” é um problema meramente psicológico ou sociológico – algo que varia de um indivíduo para outro e de sociedade para outra. Não vale a pena ir muito mais fundo nessa direção.
            Já se tomamos a palavra “sentido da vida” numa acepção ampla, como se nos referíssemos a um significado intrínseco ao universo, mas que só pudesse ser compreendido apelando-se a algum conceito exterior a ele (como, por exemplo, a idéia de Deus ou do Absoluto), então é possível afirmar, com razoável segurança, que não somos capazes de alcançar o “sentido da vida”, ou pelo menos não se nos limitarmos a utilizar os instrumentos da racionalidade. A explicação é simples: como nossa experiência se dá através dos sentidos, e como esses sentidos só são capazes de receber impressões de fenômenos deste mundo, não temos como alcançar um conhecimento sujeito a comprovação empírica sobre o que está além do universo sensível.
            Por que razão teria sido o mundo criado? Por que nós, criaturas conscientes, nascemos aptas a amar, a sofrer, e a tomar conhecimento do bem e do mal? O que nos aguarda após a morte? Suspeito que a revelação religiosa ou a contemplação mística são os únicos caminhos para se encontrar respostas para essas perguntas, porém como tais formas de conhecimento estão além do escrutínio da racionalidade, sobre elas é preciso silenciar.          
            Se não podemos, porém, desenvolver um conhecimento empírico sobre objetos fora do alcance dos sentidos, nada nos impede de usar nosso intelecto para especular sobre eles (Kant que o diga). O fato de o conhecimento obtido por essa via não poder ser submetido à comprovação pelos fatos é irrelevante, já que o fundamento do conhecimento será a própria lógica usada na investigação. Claro, procedendo assim teremos que nos contentar, no máximo, com respostas provisórias, mas não já seria isso, em si mesmo, um grande avanço na compreensão de problemas que estão na base de nossas mais elementares angústias?
            Eu digo que sim, e acredito que pouca lógica já é suficiente para nos dar um ponto de apoio. Vou dar um exemplo simples: mesmo não podendo dizer em termos peremptórios se a existência do universo possui ou não um sentido transcendente, posso tomar como verdadeira a seguinte proposição: “ou o universo possui um sentido ou o universo não possui um sentido”. Em outras palavras, é logicamente inaceitável que eu afirme que vivemos num universo que possui e que não possui sentido ao mesmo tempo.
            Parece pouco? Não acho que seja. A mera apresentação do problema nesses termos já nos coloca diante de uma dualidade esclarecedora, independente da alternativa que se mostre, em última instância, verdadeira. Pois imaginemos que fascinante seria viver num mundo que, embora se nos apresentasse como um enigma, possuisse um sentido oculto, que talvez nos fosse revelado após a morte? E que fantástico seria poder descobrir, por misteriosas vias, esse significado profundo por trás de cada um dos pores-do-sol que já nos deslumbraram, de cada uma das perdas pessoais que já vivemos ou simplesmente de cada um dos peidos que já foram soltados? Ou, pelo contrário, qual não seria a nossa solidão – e, portanto, a preciosidade de nossas vidas – se nós na verdade vivêssemos num universo completamente alheio às nossas concepções de finalidade? Habitar um mundo imenso – um inacreditável abismo onde cintilam fascinantes coágulos de matéria incandescente – que só existe por existir – como um sopro, um sonho ou uma instabilidade na enorme superfície do lago do inexistir... E nós, como que por acaso, teríamos adquirido consciência de nosso pertencimento a esse mundo indecifrável, e do vazio que está no fundamento de tudo o que já experimentamos – da mais sublime nobreza aos atos mais torpes.
            A mera colocação do problema de pronto já nos tornou capazes de compreender que, qualquer que seja a resposta que nós demos ao problema do sentido da vida, a resposta necessariamente será aterradora. Nosso estar no mundo é um milagre – nós só não sabemos exatamente que tipo de milagre. Além disso, ainda que nós não possamos definir qual das duas alternativas é acertada, não é fascinante saber que nós somos capazes de definir – mesmo que em termos hipotéticos – qual poderiam ser as respostas para a maior questão existencial jamais posta pela humanidade? E se alguém quisesse arriscar uma aposta – e se decidisse em termos definitivos entre as duas opções – essa pessoa teria 50% de chance de alcançar um conhecimento definitivo sobre a razão de ser do universo.
            Não precisamos parar por aqui. Uma vez que tenhamos chegado a essa fascinante encruzilhada, podemos levar o exercício ainda mais longe e, a partir de cada uma das alternativas, desenvolver hipóteses subseqüentes não menos fascinantes. Por exemplo, partindo da suposição de que o universo possui um sentido transcendente[1], podemos nos perguntar: esse sentido foi definido por um Deus criador?
            Responder afirmativamente ou negativamente nos põe diante de perspectivas interesantíssimas. Se tudo o que vemos foi intencionalmente criado por uma Inteligência não-humana, então que aventura é a vida – esse aparentemente banal transcorrer de acontecimentos que, à luz de um todo que não somos capazes de alcançar, encaixa-se num plano fixado desde o infinito! E se, pelo contrário, o universo possuir um significado exterior, porém que não tenha sido atribuído por Deus, então que lugar estarrecedor é este mundo em que vivemos, já que ele, mesmo sendo imanente e incriado, serve a um propósito que eu só conseguiria definir como o axioma do ser. 
            Uma pessoa com inclinações filosóficas poderia levar essa fascinante brincadeira aos extremos a que a quisesse conduzir sua curiosidade. Por exemplo, a partir de cada alternativa, seria possível aprofundar a especulação fazendo novas perguntas disjuntivas sobre cada uma das hipóteses que se está considerando. A cada passo que se dá nesse jogo, porém, afastamo-nos mais e mais da possibilidade de um conhecimento seguro sobre as questões transcendentes, já que cada nova suposição precisa ser construída em cima de suposições anteriormente tomadas como verdadeiras. Imagino, todavia, que nas primeiras etapas ainda seja possível fazer colocações tão interessantes como as que versassem sobre a inteligibilidade da mente de Deus, a moralidade ou não do significado existencial do universo, etc.
            Quero concluir com uma objeção que eu mesmo levanto contra minha proposta. Pela maneira como apresentei o problema, tentando definir com clareza as grandes perguntas existenciais, não fiz nada além de me esquivar da essência dessas perguntas. Quando alguém se questiona “qual o sentido da vida?”, afinal, é evidente que essa pessoa já está presumindo que o universo possui um significado, e que esse sentido é exteriormente atribuído. O que a pessoa realmente deseja saber é o conteúdo desse sentido, independentemente de ele haver sido imposto por Deus ou não, de ser imanente ou transcendente, etc. Ou seja, o que ele realmente quer saber é para que cargas d’água o universo foi criado. Para provar uma tese moral? Para provar o amor de Deus pelas suas criaturas? Como um exercício intelectual de mentes inacreditavelmente mais evoluídas que as nossas?
            Realmente, o exercício que desenvolvi não pode acrescentar nada a esse tipo de debate. Portanto, se o que se quer é decifrar aquilo que Augusto dos Anjos eloqüentemente chamou de a escuridão do cósmico segredo, bem, então ou nós comemos cogumelos, ou nós nos contentamos em dar tiros às cegas.
 E se por acaso algum alienígena aí fora quiser saber a minha opinião sobre o assunto, bem, eu acho o Universo foi criado para entreter. E o mais foda é que às vezes eu acho que não estou me divertindo nem um pouco.
           



[1] Se ele não possui um sentido, não haveria mais razão para mais especulação, já que o fato em si se bastaria em termos existenciais.