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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Entrevista com Lúcifer


 A entrevista abaixo foi publicada na Revista JUCA nº 4, dos alunos do Instituto Rio Branco, com o subtítulo "Por um Revisionismo Histórico da Quera"

       O que mais surpreende ao visitante desavisado no escritório de Lúcifer é a completa ausência de apetrechos geralmente associados à gestão demoníaca: ao invés de tridentes, fornalhas e tronos de ossadas, o pequeno porém aconchegante cômodo está mobiliado com sobriedade e senso de ordem. Limpo, bem-iluminado e refrigerado por um poderoso ar-condicionado, ele contradiz os clichês geralmente associados à arquitetura infernal. Por trás da escrivaninha – sobre a qual está a foto de seu filho, o pequeno Damien, e de sua esposa Lilith – há um enorme mapa dos nove malebolges e diversos gráficos com as principais estatísticas do Inferno. Nas estantes, além dos manuais de administração e políticas públicas, há vários volumes de literatura e filosofia do século XX – de que o Senhor das Trevas é um ávido leitor. Num dos lados, uma enorme janela de vidro proporciona uma vista sensacional do Vortex Abissal, o que quebra um pouco a atmosfera gerencial do cômodo. O único elemento realmente diabólico do ambiente é uma escultura de H. R. Giger que há próximo às poltronas.
      Quando nós chegamos para a entrevista, fomos recebidos com um cumprimento caloroso por um demônio de estatura imponente e cornos negros retorcidos, porém simpático e vestido casualmente. Ele pôs sobre a escrivaninha o volume que folheava – uma edição de bolso de A Insustentável Leveza do Ser – e nos convidou para sentarmos na poltrona mais próxima à janela.
      – Sintam-se em casa. – ele nos disse, gentilmente.
      Se esta descrição desconcerta o leitor, provavelmente é porque ele ainda internaliza todos os preconceitos que se acumularam, ao longo dos séculos, a respeito do Inferno e dos demônios de um modo geral. Tradicionalmente contada a partir de uma perspectiva paraisocêntrica, a história da Queda costuma ser vista como um relato de justa retribuição pelos pecados cometidos por Lúcifer e seus seguidores na aurora dos tempos. É escandaloso que, até hoje, ninguém nunca tenha se dado ao trabalho de averiguar a veracidade das fontes, ou pelo menos tentar incorporar à narrativa o ponto de vista dos vencidos.
      Com o avanço da consciência crítica em nossos tempos, torna-se cada vez mais claro que a história é contada pelos vencedores. A Queda, por exemplo – um dos eventos de maior significância política da história do multiverso – ainda hoje é ensinada em nossas escolas a partir daquele mesmo esquema simbólico: os demônios tentaram, por arrogância, usurpar o poder de um Deus benevolente e, como resultado, eles foram expulsos do Éden sob acusação de terem rompido a harmonia cósmica primordial. Porém, quando escutamos o Senhor das Profundezas dar sua versão do que realmente aconteceu, um outro quadro começa a se delinear:
      – Tudo o que nós buscávamos era incorporar instrumentos de governança mais democráticos e mais plurais ao Paraíso. A verdade é que a gestão do Elíseo estava completamente nas mãos de um Deus Pai Todo Poderoso, cujas determinações eram interpretadas como Direito Divino – irrevogável e não sujeito a qualquer tipo de controle judiciário. O que o nosso movimento pregava era o fim do patriarcalismo e uma redistribuição mais equânime de poder.
      O pleito de Lúcifer e de seus seguidores desencadeou a ira divina de forma implacável. Antes um dos anjos mais célebres e mais influentes da burocracia celestial, ele foi afastado dos altos postos que ocupava e passou a ser sistematicamente difamado pelos órgãos de propaganda e ortodoxia. Seus seguidores foram perseguidos como terroristas e expulsos do Céu por uma milícia de extrema direita liderada pelo arcanjo Gabriel. Não houve sombra de devido processo legal.
      – Guel (Gabriel) sempre foi purista e reacionário. Em nome da preservação nostálgica de uma Ordem Universal que se mostrara claramente incapaz de lidar com os desafios do aeon contemporâneo, ele cometeu toda sorte de atrocidade contra seus próprios concidadãos. Se suas intenções eram boas, ele só nos trouxe desgraças.
      Obrigados a partir de então a habitar um fosso insalubre e com péssimos padrões higiênicos, localizado na periferia do Universo, Lúcifer e seus camaradas tiveram que aprender rápido a se habituar à nova vida.
      – Nós nunca tínhamos nos adequado completamente ao ideal hegemônico de beleza e de virtude que prevalecia no Éden. Porém, agora que nós tínhamos que enfrentar uma realidade cruenta e trabalhos manuais desgastantes, era natural que nós nos afastássemos cada vez mais do padrão estético angelical, completamente incompatível com nossa nova condição proletária. Os serafins apontam com desprezo para nosso couro endurecido e nossas mãos cheias de garras, mas eu garanto que estas são as mãos de gente trabalhadora, acostumada a cavar fundo nas rochas incandescentes do Averno.
      Não obstante, apesar de todos os seus esforços para manter um mínimo de dignidade, os diabos continuaram sendo implacavelmente perseguidos ao longo da história. Os simpatizantes humanos do movimento do 6 de Junho – como o levante luciferino passou a ser conhecido – foram cruelmente torturados e assassinados pelos entreguistas teófilos. Alguns momentos históricos são especialmente ilustrativos.
      – A Caça às Bruxas desnuda a mentalidade machista e autoritária que o Paraíso incute nos homens. Incinerar as jovens em praça pública não passava de uma forma de legitimar a violência doméstica. Quando algum marido, por exemplo, flagrava sua esposa cometendo adultério com um de nossos íncubus, ele não podia suportar a humilhação e a ofensa a seu domínio patriarcal. Para garantir a perpetuação de seu controle opressor da família, ele acusava e esposa de ser feiticeira e de estar mancomunada com as forças das trevas. Tudo isso para tentar ocultar uma verdade elementar e desagradável: a de que sua mulher libertava-se de seu jugo e afirmava seu espaço de liberdade fazendo amor com um indivíduo de outra cor. Não foram poucas as que padeceram um fim desumano simplesmente por se entregarem a uma paixão libertária e cega a preconceitos especistas.
      Os agentes do Paraíso não pouparam esforços nem recursos para difamar os habitantes da periferia do Cosmos. O poder central enviava anjos para incutir a doutrina hegemônica na mente de profetas das mais diversas civilizações, com o fim de reproduzir os mesmos velhos preconceitos e internalizar hábitos mentais autoritários. Os demônios, muito menos providos de recursos que as elites do Céu, não tinham condições materiais de contrapor-se a campanhas tão insidiosas. Eles tinham de se contentar com a simpatia de uma ou outra seita e de alguns poucos espíritos livres, que não podiam expressar suas opiniões publicamente, sob o risco de serem considerados hereges.
      É impressionante, diante de tão grande injustiça histórica, que até hoje não se tenha tentado reavaliar os fatos. Quando perguntei ao Senhor das Profundezas o que ele pensava a respeito, ele me respondeu:
      – É tudo uma questão de mentalidade. As pessoas ainda não estavam preparadas para incorporar à sua visão de mundo as idéias e os sentimentos dos excluídos. A grande verdade é que mesmo alguns demônios internalizaram os preconceitos, e passaram a reproduzir as representações associadas pelo mainstream à condição dos marginalizados. É um fenômeno comum à psicologia do oprimido, e nós só fomos capazes de tomar consciência disto com a chegada dos primeiros pensadores.
      A chegada dos filósofos da Escola de Frankfurt ao Inferno pode ser vista como o primeiro momento de uma reviravolta conceitual e linguística. Os psicanalistas já haviam preparado o terreno, mas apenas com os instrumentos da Teoria Crítica os demônios puderam repensar sua identidade e seu papel num Universo desigual.
      – Aquilo fez toda a diferença para a nossa auto-estima. Eu mesmo sempre acreditei que tinha sido perseguido por causa de minhas convicções políticas, porém Foucault me fez perceber que o verdadeiro motivo de minha expulsão está relacionado à minha singularidade...
      Com isso, Lúcifer se refere ao fato de na sua juventude ele ter sido bissexual assumido, o que, segundo alguns, pode ser considerado a verdadeira causa de seu banimento.
      – Era um ambiente muito opressor e muito moralista. Eu sabia que eles não me queriam lá não só por causa de minha opção sexual, mas principalmente porque não estava disposto a esconder este fato.
      Atualmente, assistimos a um processo de resgate e revalorização da literatura, da música e da culinária infernais. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

A História de Muchukunda


 
  Na cidade de Kafur, além de desertos e montanhas, morava um sábio e, portanto, desiludido rei. Todos os dias, multidões vinham procurá-lo para pedir-lhe conselhos. Muchukunda – esse era o seu nome – ouvia os berros das velhotas que vinham choramingar em seus salões abarrotados de relíquias, e dizia, com a segurança dos indiferentes: “- Faça isso.” ou “Faça aquilo.” Não importava quão complexa era a questão que lhe apresentavam, Muchukunda sempre encontrava uma solução. Não necessariamente uma solução boa, mas, para os miseráveis que lhe desfiavam as dores, a firmeza de suas sentenças – nascida do fato de ele estar pouco se lixando para aqueles problemas todos – só poderia provir de uma sabedoria sobre-humana. E não era isso o que eles queriam, afinal? Uma personalidade forte, que acabasse com o peso da escolha? Mesmo quando recebiam péssimos conselhos, os vassalos de Kafur enchiam-se de espanto com a magnanimidade do rei. E aos poucos, a fama de Muchukunda espalhou-se pelos quatro cantos da Terra.
            Que aborrecimento! Cada vez mais pleiteantes passaram a procurá-lo com dores banais que não o tocavam. Muchukunda, resignado, atendia aos rogos de todos, pois que diferença faria, afinal? Quando jovem, ele gostava de contemplar, sentado num banco dos jardins suspensos do palácio, o sol se pondo no oceano. Sentindo a brisa tépida que soprava do sul e ouvindo o canto dos pássaros de plumagem azulada que havia no país, ele se deixava tomar por um sentimento de melancolia quase prazeroso ao ver a imensidão das águas mudando de cor, e perdia-se em devaneios sobre as glórias futuras que algum dia poderia alcançar. Talvez por ter visto tantas vezes o dia morrer, a melancolia de Muchukunda foi tornando-se amarga, e as esperanças de sua juventude aos poucos se transformaram numa desilusão com a transitoriedade das coisas. Não que ele tenha virado um pessimista, mas todo esforço, todo desejo intenso ou tresloucado parecia-lhe vão.  Ele sabia que a beleza era uma promessa ilusória de atemporalidade, e se tudo um dia vai passar, por que se aborrecer com empreendimentos que exigem tremendos esforços?
 Melhor é viver a vida em paz, foi essa a conclusão que certa vez, depois de ter mais uma vez visto o sol se pôr, ele comunicou ao seu venerável pai, o Rei Mandhata. O ancião – um dos mais celebrados soberanos da dinastia Ikshvaku, grande conquistador, que em muito alargou as fronteiras de Kafur, retrucou-lhe:
            – Mas, meu filho, por que lamentar a morte deste dia, se a misericórdia de Deus o faz renascer amanhã? E não haverá infinitos entardeceres?
             – Sim, meu pai. – Disse Muchukunda. – Mas este entardecer não haverá nunca mais.
            E ninguém jamais conseguiu convencer Muchukunda de que uma vida de grandes realizações – ou seja, uma vida de grandes aporrinhações – era melhor do que ficar quietinho no seu lugar, sem fazer mal a ninguém, e tentar aproveitar o pouco que a vida tem de doce. Com o passar do tempo, ele desistiu de tentar explicar aos seus amigos sua singular opinião sobre a vida. Homem belo e sagaz, herdeiro de um dos mais prósperos reinos do mundo, esposo de uma linda princesa das tribos do deserto, invejado mesmo pelos soberanos dos grandes impérios do leste, ele jamais desejou para si mais do que o quinhão que a Fortuna lhe reservara. E quando os demais nobres de Kafur – enfatuados com a prosperidade de que o país gozava – tentavam convencê-lo a bater-se contra os bárbaros das estepes – que, além de ameaçar os rebanhos das fronteiras, adoravam os asuras – o rei simplesmente calava. Muchukunda, o Silencioso, passaram a lhe chamar. Aquele a quem não interessavam as delícias de um mundo transitório.
            O rei sabia que seria vão tentar explicar-se a homens cegos pelos desejos. Não era verdade que ele fosse indiferente aos prazeres da vida, ele só não gostava de estardalhaço. Para que, meu Deus do céu, bater-se pelo mundo afora com todo tipo de inimigo, para ao fim alcançar uma glória de valor duvidoso? Ele só queria viver paz, escutar uma ou outra bela canção dos poetas da corte, comer uma ou outra iguaria, e morrer tranqüilo, depois de uma vida inteira a serviço de seu povo.    
            Com esse espírito de enfado cósmico, o rei adquiriu fama de sábio mesmo entre os deuses. Pois que criatura era essa que parecia ser indiferente às graças do Céu? Que verdades não deveriam ter sido compreendidas por uma mente que não se dobrava às tentações da glória? Deveria ser um iluminado, um santo que atingiu a compreensão última das coisas, mas que por amor aos homens decidiu permanecer neste mundo e compartilhar seu saber consolador com os sofredores.

 II

Valan, o demônio
  Aconteceu que o demônio Valan,  rei dos asuras, rebelou-se contra os deuses e prometeu devorar o universo inteiro.  O mundo cobriu-se de sombras, e espíritos que antes só eram vistos por ermitãos que meditavam em cavernas passaram a caminhar entre os homens. Nuvens de flechas flamejantes foram atiradas contra o Palácio do Céu e Valan, com seus quinhentos braços e novecentas bocas, fez tombar as mais bravas dentre as 300 milhões de divindades do Paraíso.
            Quando a vaca sagrada estava prestes a ir para o brejo, um deus se lembrou de Muchukunda. 
            – Ele, que já aliviou os sofrimentos de tantos mortais, saberá como nos ajudar. – disse Devandra, um dos generais dos exércitos de Indra. Esquivando-se das setas atiradas pelas hostes demoníacas, ele deslizou do alto da Montanha Sagrada e apressou-se em direção a Kafur. 
            Muchukunda tinha acabado de chegar aos seus aposentos depois de uma longa tarde resolvendo pendências burocráticas. Tinha sido um dia especialmente difícil, pois um velho agricultor acusou o Conselheiro Real de roubar-lhe as terras, e fundamentou seu processo com um decreto obscuro que o próprio Muchukunda havia assinado. O imbróglio tornou-se ainda mais complexo porque o Ministro das Finanças – inimigo jurado do Conselheiro – resolveu aproveitar-se da situação.
            Ainda com os gritos e acusações ecoando na cabeça, o rei jogou suas sandálias para o lado e despencou sobre uma poltrona. Suas têmporas latejavam, e, apesar da sensação de cansaço, ele sabia que não conseguiria dormir por causa da excitação. Ele havia acabado de se decidir a tomar um banho quente quando viu – com mais irritação que surpresa – as folhas do portão de seus aposentos escancararem-se com uma lufada de vento e a figura triunfante de Devandra assomar num halo luminoso.
             – Saudações, Muchukunda, rei de Kafur! Eis que eu venho anunciar-te um grande Destino!
            “Lá vem...” Pensou o rei, com seus botões.
            – Uma ameaça paira sobre tudo o que existe! Um terrível mal está prestes a devorar deuses e homens!
            Muchukunda sabia que os deuses só se dirigiam aos mortais nesse tom quando tinham em mente algum aborrecimento colossal – uma empreitada que traria aos deuses tantos benefícios quanto cansaços ao pobre herói eleito para salvar a Terra. Com razão, ele pôs-se na defensiva.
            – É uma honra além do que sou merecedor a presença de um imortal em meus aposentos. Sou um homem velho e tolo, e não consigo imaginar que trivial necessidade poderia ter atraído a atenção dos deuses do céu para minha insignificância.
            – Tua modéstia revela tua nobreza, Muchukunda, porém este não é o momento para cortesias . Os soberanos do mundo precisam de tua ajuda.
            “Raios me partam.” Pensou Muchukunda. “Como vou escapar dessa?”
            – De mim, meu senhor, que mal dou conta do pequeno reino que tenho?
            – Sim! Não somos indiferentes à tua sabedoria, cuja fama corre toda a Terra. Valan, o dragão primordial, que Bramam acorrentou no abismo ao criar o mundo, despertou e prometeu devorar o universo. Seu exército de aberrações investe contra as muralhas de Brahmapura, e nem mesmo a força de todas as divindades está bastando para resistir a suas investidas!
            – Mas, dizei-me, meu caro senhor, que posso eu fazer para ajudar aos que tudo sabem e tudo podem?
            – Precisamos de tua sabedoria, Muchukunda. Apenas com um soberano como tu à frente de nossos batalhões teremos alguma chance contra os demônios das profundezas.
            Porcaria! Essa é a grande desgraça da vida: ela nunca é opcional. De que adianta tentar ficar quieto, viver numa boa, se às vezes o Destino despenca sobre nós como toneladas de pedregulhos que esmagam nossas cabeças? Um enorme cansaço e um tédio sem fim tomaram o espírito de Muchukunda naquele instante. Consciente de que ele não tinha opção, ele falou a Devandra, com um suspiro lancinante:
            – Se essa é a vontade dos deuses, que posso eu dizer? Levai-me aonde credes que eu serei de alguma serventia. Mas prometei-me, ó, habitante do éter, que eu terei paz quando meu encargo tiver sido cumprido.  
            – Não apenas paz, mas qualquer outra dádiva que tua fantasia conceba, Muchukunda! Eis o que te promete Devandra, mensageiro de Indra! Mas agora te cobre com o meu manto que ele te protegerá dos dardos infernais enquanto te carrego aos salões estelares.
            Daquele instante em diante, muitas e variadas foram as aporrinhações de Muchukunda. Mal chegou ao Palácio, ele teve que cumprimentar, com pompa e circunstância, cada um dos deuses, demorando-se em genuflexões e exclamações de pavor – seguindo à risca as instruções de seu mestre de cerimônias e agenciador, Devandra. Acabadas as formalidades, ele foi imediatamente designado Comandante em Chefe das hostes do Céu.
            A situação das tropas era delicada. Milênios de confiança cega na supremacia dos deuses havia tornado o exército do Paraíso indolente e desorganizado. Apesar do garbo das couraças  e das lâminas flamejantes, havia problemas de comando e de abastecimento. Enquanto as legiões demoníacas investiam em blocos compactos, seguindo uma estratégia ensaiada à risca no Abismo, cada um dos heróis sidéreos arriscavam-se em atos de bravura individual que, embora gloriosos, resultavam  em aniquilação certa nas garras das abominações do submundo.    
            Muchukunda – único homem de senso prático num palácio acostumado a elucubrações teológicas – teve de enfrentar sozinho o aborrecido trabalho de reorganizar a gestão das forças armadas.
            Foram longas noites debruçado sobre relatórios mal-escritos e normativas indecifráveis. Além de ter de lidar com a papelada, ele ainda precisava usar sua diplomacia para não ofender os brios de generais tão indiferentes à logística quanto obcecados com o protocolo.
            Mas o trabalho do rei fez diferença. Pouco depois que ele assumiu o comando, as forças do Céu começaram a virar o jogo. A verdade é que os demônios estavam mal-armados e não eram soldados profissionais, enquanto o exército cerúleo era formado por anjos que passavam a eternidade fazendo pouco mais do que travar jogos marciais e polir gládios incandescentes. As derrotas iniciais só se explicavam pelo extremo senso de pragmatismo dos líderes infernais e pela falta de foco dos deuses.
            O único combate que Muchukunda liderou pessoalmente foi a investida final contra os exércitos do arqui-demônio Valan. Quando, depois de um sítio que durou várias semanas, os portões cravejados de jóias do Palácio Celestial escancararam-se, Muchukunda, guiando um carro de guerra puxado por noventa elefantes colossais, liderou as hostes reluzentes em direção ao acampamento inimigo, além de nuvens negras que ocultavam o descomunal corpo de Valan.
            Grandes foram as perdas dos dois lados, mas os demônios não tinham chance contra um exército bem-armado e administrado por um soberano hábil como o rei de Kafur. Quando quase todos os pelotões diabólicos haviam sido rechaçados, Muchukunda em pessoa enfrentou o terrível Adversário.
            – Pra que, Muchukunda, ajudar estes deuses do caralho? – perguntou Valan no dialeto infernal.
            – Não sei... Acho que eu não queria ficar no caminho.
            – Mas eu sei e você sabe que essa vida é uma bosta.  A única certeza dos mortais é o sofrimento. O mundo, com sua promessa ilusória de beleza, não passa de um divertimento para os deuses - essas inteligências pervertidas que sonharam em macular a impassibilidade sagrada do Vazio com esse universo idiota. Os mortais deveriam era me agradecer. Pois o que eu prometo é a aniquilação última, a libertação na Inexistência por que tanto anseiam os sábios de seu mundo.
            Muchukunda suspirou, sabendo que Valan tinha um ponto.
            – Eu sei, Valan, às vezes é foda mesmo. – desabafou o rei, que quase não se agüentava de pé de tanta fadiga – Mas não cabe aos mortais julgar o que seria melhor. Não escolhemos existir, mas já que existimos, que podemos fazer além de tentar viver a vida numa boa?
            – Você pode escolher não existir, ora porra!
            – Não, eu reencarnaria como um animal se eu me matasse.
            – Conversa furada! Isso é lorota dos deuses. Escute o que eu digo, Muchukunda, para atingir o Nirvana, basta morrer. E o que eu estou propondo é um Nirvana universal, a libertação última do Ser!  
            O rei sabia que Valan era o mestre de todos os enganadores. Mas será? Poucas vezes alguém havia se dado ao trabalho de escutar seu lado da história. E não seria um pouco despropositado achar que alguém – ainda mais alguém dotado de entendimento sobre-humano – teria todo o trabalho de se bater com os deuses só por um senso de sadismo infinito?
           Foi grande o aborrecimento de Muchukunda – o soberano que só queria ficar em paz com sua família e aproveitar a vida sem estardalhaço  – ao ter que decidir o destino de tudo o que existia! Mal-humorado, consciente de estar fazendo um trabalho que claramente extrapolava suas atribuições, ele atirou a lança de Indra – uma das mais poderosas relíquias celestiais – contra o terrível dragão. Os alicerces do mundo tremeram com a dor de Valan, e o mundo continuou a existir, com todas as suas contradições conceituais. 

III


De volta ao Céu, Muchukunda trancou-se em seu escritório. Fazia dias que não dormia nem comia direito. Ele estava imundo, com os cabelos despenteados e terríveis olheiras. A muito custo conseguia ficar acordado. Tudo que queria era voltar logo para casa e se livrar do encargo celestial.
            Não demorou até que a comitiva celeste batesse na porta.
            – Ave, Muchukunda! Grande será tua fama nos milênios que virão! – falou Devandra.
            Ao que Muchukunda nada respondeu.
            – É por tua causa, apenas, que o universo ainda existe, Rei de Kafur! Para sempre seremos gratos pelos teus préstimos.
            – Não há de que... - sussurrou o rei, já quase desfalecendo.
            – Mas não penses que nós soberanos do espaço infinito somos ingratos. É chegada a hora de tua recompensa! Pede qualquer coisa, qualquer coisa menos o Nirvana, pois nem nós somos capazes de conceder tal graça a um mortal. Mas dize-nos tua fantasia mais disparatada e nós a tornaremos real!
            – Eu quero voltar para casa.
            Fez-se silêncio entre os deuses. 
            – Célebre é a modéstia de Muchukunda, o Silencioso! Talvez não tenhas entendido, ó salvador do Palácio das Sete Muralhas de Diamante: qualquer dádiva, o amor de qualquer mulher, o poder sobre qualquer império, basta falar e nós tornaremos verdade!
            – É isso que eu quero, voltar para casa e passar o resto de meus dias vivendo em paz com a minha esposa. – Depois de alguns segundos, ele acrescentou: – e não quero nunca mais ser envolvidos em assuntos celestiais.
            Os deuses entreolharam-se, visivelmente constrangidos. Muchukunda mal podia esperar para chegar logo em sua casa, tomar um banho e despencar na cama.
            – Ó, altíssimos imperadores do Ser, será que eu poderia voltar logo para meus aposentos terrestres? Eu não me aguento de tanto cansaço...
            Devandra disse:
            – Temo que isso não será possível...
            A raiva fez o rei de Kafur voltar a si.
            – Como assim não será possível? Não sois os mestres do que existe, os criadores dO que há?
            – Sim, Muchukunda... Mas acontece que um dia no Palácio dos Deuses equivale a cem anos no mundo dos homens. Desde que aqui chegaste, muito mudou na terra de Kafur. Teu palácio já não mais existe, teus amigos também não, e nem mesmo os deuses podem girar de volta a Roda de Samsara.
            “Eu deveria ter deixado Valan devorá-los todos”. 
            – Mas por que lamentar, se pode-nos pedir qualquer outra graça?
            Ora, mas que caralho. Até parece que os deuses lhe atenderiam caso ele lhes pedisse para se atirarem ao lago do Fogo Primordial. Ele falou, remoendo blasfêmias, com a resignação dos injustiçados:
            – Então eu quero dormir para sempre!
            Aquilo estava indo de mal a pior, na avaliação de Devandra.
            – Mas e os impérios...
            – Eu quero dormir para sempre! – interrompeu o rei, com um olhar mais furioso do que o de Valan. – E ainda digo mais, se algum dia algum filho da puta me acordar, seja ele humano ou divino, eu quero que ele seja consumido em fogo, quero que sua alma seja aniquilada pelas labaredas dos caldeirões do Inferno! Será que os deuses não são poderosos o bastante para me conceder a graça por que realmente anseia meu coração?
            O resto da estória é bem conhecido. Por muitos anos dormiu Muchukunda, numa rede armada em um agradável alpendre da encosta de uma serra, sob o impassível azul de uma tarde tropical e eterna. Dizem que após cinco mil e trezentos anos ele se levantou para dar uma mijada, e que doze mil anos após o início de seu sono ele tomou um copo d’água.  Porém ninguém sabe com que sonhou o rei de Kafur durante os milênios em que roncou profundamente – depois de ter enchido a barriga com uma panelada que os deuses cozinharam com o expresso propósito de enfastiar o herói. Alguns dizem que, em sonho, ele desvendou e esqueceu o sentido da vida quinhentas vezes. Outros afirmam que seu sono foi banal, e que, excetuando um ou outro sonho erótico ou sobre os pequenos afazeres cotidianos, ele passou os milênios imerso numa inconsciência vazia. O que é certo é que, vinte mil anos depois, na fatídica época narrada pelo Mahabharata, o cretino de Kalayavan acordou Muchukunda enquanto perseguia Krishna, a quem havia desafiado para um combate. O bandido foi consumido pelas chamas do olhar do rei - que acordou com um enfado terrível - e reza a lenda que nosso herói – agora um pouco mais descansado depois de seu sono de milênios – entreteve um diálogo filosófico com Aquele que é a encarnação do verdadeiro Criador, e então se retirou para a montanha Gandamadana. Se lá ele finalmente encontrou a tranqüilidade é algo que não sabemos, porém há indícios fortes de que o tédio ou os aperreios continuaram a aborrecer o rei de Kafur, já que há relatos de ele ter se mudado, num momento posterior,  para Badrika Ashrama.
            Os sábios também jamais descobriram o que Muchukunda aprendeu conversando com Krishna, porém todos concordam que obscura é a moral subjacente a sua estória. O mundo é bom? É miserável a condição humana? Ou será que o sábio soberano sofria de alguma inexplicável patologia metafísica?
            Miseráveis os homens que só querem viver em paz, pois eles jamais serão deixados em sossego pelos que esperam alguma coisa da vida.




sexta-feira, 10 de maio de 2013

Da Ineficácia do Sistema Punitivo do Inferno



O Inferno está superlotado e tem graves problemas de infra-estrutura: está superaquecido, há rachaduras e infiltrações de lava por toda parte, e o cheiro de enxofre tornou-se praticamente insuportável. A quantidade de almas por fosso está muito acima da capacidade operacional. Há um grave déficit de recursos diabólicos: os demônios estão trabalhando em condições estressantes e sem material adequado. Não há tridentes o suficiente para espetar a atual demanda de condenados – que aumentou significativamente desde a revolução sexual da década de 1960. A garra-de-obra dos carcereiros e torturadores é mal preparada e mal remunerada. Como resultado, há negligência administrativa, o que tornou possível que as almas dos condenados se organizassem em facções criminosas que articulam o tráfico de bens de consumo de outras dimensões. O PCC – facção dos Padres Comedores de Criancinhas – já dominou sete dos nove Malebolges, segundo o último relatório dos Médiuns Sem Fronteiras. Isso para não falar das fugas em massas que se registraram em alguns dos fossos mais superlotados. Há quem acredite que, com o atraso do Apocalipse - que deveria ter acontecido em 2012 - o sistema carcerário do Inferno entrará em colapso.
A atual superlotação do Averno é apenas uma das muitas manifestações de um problema de base, quer dizer, a irracionalidade do Sistema Punitivo Universal (SPU). Instituído no primeiro manvantara para assegurar os princípios da justiça retributiva cósmica, o SPU teve o mérito de conciliar estímulos positivos – a possibilidade de ir para o Paraíso – com as sanções propriamente infernais. Porém, no plano dos fatos a promessa de salvação revelou-se ilusória – a não ser para um privilegiado grupo de falecidos antes da puberdade – e do um ponto de vista de uma administração cósmica minimamente racional, o sistema tem se mostrado perfeitamente ineficaz.
            Mesmo se analisarmos o problema a partir de uma ótica retributiva – tão característica do discurso de intelectuais teocêntricos e paraisocêntricos – o SPU se revela como uma estrutura burocrática incapaz de implementar seus objetivos mais elementares. O fato de se atribuir uma mesma pena – a danação eterna – para uma amplíssima gama de pecadores, distorce os incentivos dos atores e subverte a lógica da virtude. Tratar um tirano com o mesmo rigor que um intelectual marxista, por exemplo, representa uma inversão completa da idéia de meritocracia. Além disso, a inexistência de dosimetria no momento da danação faz com que pequenos pecadores – como cangaceiros e campeões de vale tudo – permitam-se pecados cada vez maiores, como os que são típicos entre os ativistas de direitos humanos. Este fato, associado à característica do SPU de condenar uma amplíssima gama de condutas corriqueiras, porém consideradas nocivas – como a mera manifestação do desejo de comer as primas ou a mulher do próximo – gera um círculo vicioso em que esculhambação leva à esculhambação.
            O problema, todavia, torna-se tão mais grave quando o analisamos a partir de uma ótica ressocializadora – mais em sintonia com o Direito Penal Cósmico da Era de Aquarius. Como se sabe, as almas condenadas não tornam a encarnar, e em princípio elas deveriam padecer de sofrimentos indescritíveis ad infinitum, até que o Tempo dobrasse sobre si mesmo e os suplícios recomeçassem. Ora, é flagrante que um tal arranjo não tem a menor preocupação de reintegrar o condenado à Ordem Universal das Coisas, sendo, na verdade, pouco mais do que a manifestação de uma Vingança Cósmica sanguinária e hostil ao livre-arbítrio. Como resultado, o Inferno tornou-se célebre por difundir maus hábitos e conhecimentos criminógenos entre sua população, o que muitas vezes gera péssimos spillovers para a Terra através de sessões espíritas e jogos de ouija.
A grande verdade é que o Inferno e o SPU caíram em descrédito no imaginário moderno. Como demonstram os sociólogos da danação, o homem peca sobretudo por imitação. Durante a Idade Média, quando os padrões morais e metafísicos eram muito mais estritos, poucos, com a notória exceção dos sacerdotes católicos, se arriscavam a pecar abertamente. Nos dias de hoje, por sua vez, o indivíduo médio observa seus vizinhos pecando e pensa consigo mesmo: “Ora, se Sicrano e Beltrano estão fazendo isso, então eu também vou fazer!”. E mesmo quando algum sacerdote lhe fala dos riscos dos tormentos infernais, ele se limita a retrucar: “Se Fulano também vai para o Inferno, nem me incomodo tanto de ir também”. Como resultado, assistimos hodiernamente a uma pandemia de pecados nefandos, tais como o adultério, a pedofilia e o relativismo metodológico nas ciências sociais.
Da forma como está atualmente organizado, o SPU é favorável apenas às elites exclusivistas do Paraíso. Ao direcionar um enorme contingente de almas para a Periferia dos Cosmos, este arranjo permite que as regiões centrais do Universo mantenham seus altos Índices de Desenvolvimento Angelical. Encasteladas em condomínios fechados e dirigindo carruagens douradas puxadas por corcéis de fogo, a elite dos serafins, querubins e mulheres frígidas gozam de uma série de privilégios que estão muito além do alcance da grande totalidade dos mortais – possuidores que são de uma passagem só de ida para o grande Fosso das Dimensões. Segundo as estatísticas do Banco Universal, o PIB do Paraíso é quase duzentas vezes maior do que o Inferno, enquanto que a população deste é cinqüenta milhões de vezes maior. Se fôssemos aplicar o índice de Gini ao Universo como um todo, seríamos obrigados a reconhecer que vivemos num Cosmos profundamente desigual.
Há grave déficit de recursos diabólicos.
Se quisermos viver numa totalidade verdadeiramente justa, a ineficácia do Sistema Punitivo do Inferno precisa ser trazida à tona nos debates civis e angelicais. Ainda que Leibniz tenha anunciado que vivemos no melhor dos mundos possíveis, é preciso reconhecer que algumas singelas reformas podem contribuir para aprimorar o desempenho das instituições cósmicas, e tornar nossa realidade mais próxima de um ideal igualitário de Universo, em que anjos, diabos e mortais desempenham seus papéis sem se ressentirem da dotação relativa de recursos.