quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Terno




Marcelo Maio, 18/04/2014

1

– Preciso comprar um terno! – era o que sempre falava Zizo quando chegava à noite em casa.

– Prioridades, prioridades! – era o que sempre respondia sua esposa. – Há, no momento, coisas muito mais importantes do que terno.

– Como o quê? – era o que sempre perguntava Zizo, embora sempre soubesse a resposta.

– Comida para nós, para as crianças, as contas para pagar, as obrigações do dia-a-dia!

– Isso é tudo fim, o terno é o meio. Sem terno, não há dinheiro. Sem dinheiro, nada disso é possível!

Esse era, portanto, o costumeiro diálogo que ocorria toda noite na humilde casa de Zizo, localizada na periferia do Rio de Janeiro. Ele vendia laranjas em semáforos, mas os negócios iam mal e a concorrência, pesada. Assim como ele, havia vários outros vendedores ambulantes em esquinas e semáforos adjacentes, de modo que ele não conseguia se destacar. Seu raciocínio era singelo: enquanto todos os ambulantes vendiam laranja de camiseta, bermuda e chinelos, se ele usasse terno, ganharia respeito e, principalmente, visibilidade. Prefeririam as laranjas dele.

– Isso é bobagem, não existe nenhuma garantia de que você venderia mais se tivesse um terno – dizia sua esposa, artista plástica e pintora, que vendia seus quadros em Santa Teresa, mas cujos negócios tampouco iam bem.

– Você diz isso porque quer me sabotar! – gritava Zizo, um absurdo completamente sem propósito, um devaneio de alguém já à beira do desespero. – Quer mais é que a gente se endivide mais e mais para você me largar, eu sei!

– Isso não tem nada a ver – respondia a mulher, até um pouco envergonhada por ter de se defender de uma acusação tão ridícula. – Eu me casei contigo, Zizo! Eu escolhi viver contigo!

– E daí? Que sacrifício há nisso? Se casou, se separa. A que você renunciou?

– Renunciei à liberdade de acordar com bafo e ninguém sentir.

Isso era mesmo algo de que ela não abrira mão até conhecer Zizo. Nunca havia amanhecido na cama com ninguém. Parecia-lhe inconcebível que, após uma noite com alguém, tivesse que acordar sem maquiagem, com mau hálito, despenteada. Seu primeiro sono compartilhado com Zizo causou-lhe um medo tão intenso que não seria exagero chamar de pânico. Dormiu mal, acordou insegura e, mais tarde, chegou a confessar a uma amiga:

– É como o medo de sentar no vaso e uma barata subir na sua bunda. Acordar com alguém evidencia toda a vulnerabilidade do nosso corpo, o limite dos nossos cheiros, a crueza da nossa aparência. Nunca mais durmo com Zizo nem com ninguém.

Evidentemente, descumpriu o juramento, casou-se com ele e, como recompensa dos deuses, ouve toda noite:

– Tenho que comprar um terno.

Irritado com a falta de apoio da mulher, Zizo foi um dia por conta própria a um shopping center. Ingênuo, entrou logo em uma loja de ternos de grife e, muito mal atendido, não soube direito se havia entendido corretamente o preço. Foi a outra loja e continuou muito confuso. Por que tantos zeros para um pedaço de pano? Conseguiu até um desconto com uma vendedora, mas o valor continuava absurdo. Depois de muitas pesquisas, encontrou, em uma loja de ternos populares, um magnífico conjunto, já com a calça, os sapatos e a gravata, por 200 reais. Era uma pechincha! Não havia caimento, tinha uma costura pobre, mas experimentou mesmo assim. Ficou horroroso, não conseguia nem se mexer, mas achou lindo. Só faltavam mesmo os 200 reais. Podia parcelar, porém. Se dividisse em dez partes de 20 reais e vendesse tantas vezes mais laranjas como achava que era possível, em pouco tempo o investimento teria valido a pena.

– Tenho que dar entrada?

– A primeira parcela é só para o próximo mês, senhor.

Comprou!

Não contou nada à esposa. Deixou o terno escondido e, como saía para a rua mais cedo do que a mulher, ela não perceberia nada. Quando chegasse à noite em casa, com muito mais dinheiro do que o habitual, ela teria que lhe dar razão e não haveria tempo para críticas do tipo: "Não acredito que você comprou isso, sendo que o leite das crianças está no fim!".

Acordou uma hora mais cedo para conseguir colocar a gravata. Saiu na ponta do pé para não acordar a esposa e estragar a surpresa e foi às ruas. Dessa vez, não venderia as laranjas nas ruas da Penha, Olaria, Vicente de Carvalho… Era agora homem importante e tinha que fazer negócios com gente igualmente importante. Foi para o Centro. Fazia calor. Ainda eram 8 da manhã, mas dezembro no Rio nunca tem clima fresco. Suava como nunca. O terno colava-lhe ao corpo. A Rio Branco fervilhava de carros, buzinas, pessoas apressadas. Os negócios ainda não estavam como ele esperava, mas era só o começo do dia. Quando ia vender sua primeira laranja, porém, não reparou que o sinal tinha aberto para os carros, veio um motorista furioso com o trânsito e atropelou Zizo. Banho de sangue no centro do Rio.

2

– Me desculpa, senhora, me desculpa! – dizia o motorista à viúva de Zizo. O condutor, verdade seja dita, cumpriu todas as suas obrigações. Mesmo atrasado para o trabalho, prestou os primeiros socorros, chamou a ambulância, telefonou para a viúva (tinha o número da esposa no celular de Zizo) e foi por contra própria prestar os devidos esclarecimentos na delegacia. 

– A senhora me desculpe, por favor. Eu sei que nada é capaz de restituir sua perda, de compensar uma vida humana, mas… – E continuou a falar por um longo tempo, enquanto a mulher apenas tapava o rosto, incrédula da desgraça que lhe abatia. Ao contrário do que Zizo dizia, foi ele quem a deixou, não o contrário. O motorista, ainda muito nervoso, dizia que estava preso no trânsito havia mais de uma hora, que tinha se atrasado, que não viu Zizo atravessar a rua.

– Não viu, meu senhor? – falou a viúva, pela primeira vez. – Não viu um homem na sua frente?

– Minha senhora, sei que vou morrer com essa culpa, mas no Centro tem tanta gente de terno correndo de um lado para o outro que eu simplesmente não vi seu marido. Era exatamente assim que ele estava: correndo e de terno. Para mim, ele era apenas uma sombra, nada mais.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Insustentável Besteira do Ser





Eduardo Siebra, 13/11/2014

            Há maneiras incrivelmente idiotas de morrer.  As pessoas nem sempre percebem isso porque elas não vivem apenas no mundo: elas vivem dentro de suas próprias narrativas. Não vemos nossas vidas como um suceder aleatório: elas são histórias que contamos a nós mesmos, com começo, meio e fim. Não esperamos, portanto, que o curso dessas narrativas possa ser interrompido subitamente por um acontecimento banal. Isso seria inaptidão criativa do autor, seria ficção de baixa categoria. O filme acabaria na metade porque o personagem perdeu o equilíbrio e escorregou do parapeito? Acabaria o romance na melhor parte porque alguém derrubara por acidente um vaso na cabeça do protagonista?
            Mas na vida real coisas estúpidas acontecem o tempo todo – essa é uma das mais assustadoras verdades com que o homem precisa se defrontar. Tomemos o caso de Lindemberg. Ele estava bem no meio de um episódio de superação em sua trajetória pessoal rumo ao sucesso quando bateu as botas. Tendo acabado de terminar seu mestrado em sociologia do Direito, decidira investir todas as suas energias na aprovação em um dos mais difíceis concursos jurídicos do país. Ele era um rapaz inteligente, ambicioso, e não se contentaria em ser apenas um bacharel. Por mais que isso parecesse ridículo aos amigos que já estavam bem empregados, ele dizia que queria ocupar uma posição em que suas decisões fizessem diferença para a sociedade. Queria aplicar os conhecimentos que adquirira na universidade de forma produtiva, e quem sabe transformar para melhor o mundo em que vivia.
            Inspirado por esses nobres objetivos, o jovem paraibano decidiu largar o emprego em Campina Grande e se mudar para Brasília – essa Meca dos concurseiros. Estava disposto a estudar quantos anos fossem necessários até conseguir ser aprovado exatamente no concurso que desejava. Como agora teria que se sustentar com as próprias economias – e uma modesta mesada que seu pai concordara em lhe dar durante esse período – ele alugou um quitinete minúsculo na 912 Sul, próximo à Avenida W3, onde ficava o cursinho preparatório em que havia se matriculado.
Sua rotina brasiliense era espartana. Todos os dias acordava pontualmente às seis da manhã. Com a longa cabeleira despenteada, ele se sentava na beirada da cama e dizia um palavrão – resignada expressão de sua vontade de continuar dormindo. Levantava-se, então, e se arrastava ao canto de sua sala que os irônicos construtores de seu quitinete chamaram de cozinha americana. Tirava uma tigela da estante, enchia com cereal matinal de chocolate, abria o frigobar para pegar o leite gelado e misturava. Ainda grogue de sono, cambaleava até seu minúsculo sofá e ligava a televisão de 22 polegadas para assistir às notícias enquanto comia o cereal.
Ele fazia isso para ganhar tempo. Preparar um café da manhã decente iria atrasar o início de seus estudos. Comendo a porcaria do cereal, às seis e meia ele conseguia estar sentado – com os dentes escovados, a cara lavada e o cabelo penteado – diante de uma volumosa apostila jurídica. Ele estudaria, então, as duas primeiras das dez horas de sua rotina de leituras.
Às oito e meia ele interrompia o estudo, tomava um banho rápido e se preparava para ir ao cursinho. Era um dos únicos momentos prazerosos de seu dia: a caminhada de vinte minutos que fazia entre o condomínio onde morava e a W3, pelos jardins da simpaticíssima quadra residencial que há escondida por aquelas bandas – cheia de casas, de árvores e de passarinhos. Brasília é uma cidade generosa com seus habitantes: os dias costumava ser estupendos, e por mais estafado que estivesse, Lindemberg não deixava de se alegrar com aquelas muitas manhãs ensolaradas.
Passado esse respiro, porém, era estudar, estudar e estudar. Ele nunca imaginara que seria capaz de tanta disciplina. Chegava quase a ser gostosa aquela penosa rotina, em que cada minuto – inclusive os de descanso – era rigorosamente calculado. O rigor tem lá seus estranhos prazeres.
De segunda a sexta, os dias transcorriam de forma quase idêntica, e na sexta à noite Lindemberg se permitia um descanso. Fazia parte de seu planejamento: como ele continuaria estudando durante o fim de semana, ele relaxava o corpo e desconectava a mente dos assuntos estudados para recobrar o fôlego. Fazer isso até aumentava sua capacidade de concentração. Aquele momento de respiro lhe dava mais ânimo para suportar a rotina.
E que respiro! No dia anterior ele já comprava cinco long necks no Carrefour da 510 e as punha para gelar. Na sexta à noite, então, lá por volta das oito horas, ele pedia uma pizza pelo telefone. Quando chegava, começava uma sessão de hedonismo solitário, em que Lindemberg geralmente assistia a algum filme idiota - de ficção científica, faroeste ou de kung fu – comendo pizza abarrotada de queijo derretido e tomando uma cerveja que quase congelava. Naquele instante, o quitinete de Lindemberg era uma realidade à parte: uma espécie de minúscula nave espacial perdida numa imensa e despovoada noite. Dentro dela, o solitário piloto saboreava a própria melancolia, indiferente ao que pudesse estar acontecendo nos distantes mundos que deveriam existir lá fora. Se por um breve momento o universo inteiro se desmaterializasse, Lindemberg, com a barriga empanturrada de colesterol e álcool, sequer notaria.
O que nosso intrépido astronauta não suspeitava era que algum invasor pudesse perturbar a paz de sua espaçonave.
O filme daquela noite era especialmente bom. Narrava a dramática história de um agricultor chinês que buscou ser admitido no Templo Shaolin para se vingar dos agressores manchus que o haviam injustiçado. Por mais previsível que fosse o enredo, Lindemberg estava tocado com os sofrimentos do personagem – que, como ele próprio, estava tendo que suportar as agruras de um treinamento incrivelmente rigoroso!    
Hipnotizado pelas torturas que o velho abade do mosteiro infligia ao protagonista, Lindemberg não notou a presença do odioso visitante. Silenciosa, a aberração saíra do ralo da cozinha, atraída, talvez, pelos fortes odores exalados pela pizza de calabresa. Pata ante pata, a criatura escalou a parede em direção ao balcão de mármore onde se encontrava precioso butim.
Era uma monstruosidade alada, revestida por resistente carapaça, e com seis pernas peludas projetando-se de um abdômen intumescido, dentro do qual havia sabe-se lá que tipo de imundície. Na monstruosa cabeça havia, além de opacos olhos – atrás dos quais devia habitar alguma mente maligna e alienígena – duas ameaçadoras antenas e uma asquerosa bocarra com a qual a criatura se deliciava com todo tipo de material putrefato.
Tendo tomado já quatro cervejas, Lindeberg nem sonhava que pudesse haver por perto uma ameaça à espreita. Ele se levantou para pegar a quinta e última cerveja. Ao acender o interruptor da sala, não notou que em cima da metade que havia sobrado da pizza uma mancha negra lhe acenava com suas anteninhas. Ele caminhou até o frigobar, abriu a tampa, pegou a saideira e então, ao se voltar para o balcão de mármore para pegar mais um pedaço de pizza, avistou o invasor, que se refestelava sobre os pedaços torrados de tripa animal recheada com carne condimentada, sobre uma oleosa camada de leite coagulado.
– Filho da puta! Filho da Puta! – disse Lindemberg, recuando até a pia. Desorientado por causa da bebida, ele hesitou por alguns segundos, sem conseguir decidir-se entre buscar um calçado para tentar esmagar o bicho ou pegar o tubo de inseticida que deixava guardado no armário. A adrenalina o fez voltar a si, e ele saltou rapidamente até o quarto e pegou um sapato social no guarda-roupa.
Quando voltou à cozinha, a barata, provavelmente já sentindo a ameaça, tinha saído de dentro da caixa da pizza e estava em cima do bloco de mármore, sondando o ambiente em busca de um esconderijo. Lindemberg sabia que se demorasse demais, ela poderia fugir e se esconder em alguma fresta. Isso seria verdadeira tragédia, pois equivaleria a ter que dormir com a pequena aberração à espreita. Sabe-se lá o que ela faria quando Lindemberg estivesse dormindo, vulnerável, com a boca babante entreaberta. Embora fosse pouco provável que o inseto tivesse inclinações românticas, Lindemberg não queria arriscar ter um beijo roubado.
Ele se aproximou do bicho, tentando evitar movimentos bruscos para não assustá-lo. A barata não parava de agitar as anteninhas. Lindemberg empunhou o tacão do sapato e se preparou para o bote. Quando estava a uma distância em que podia alcançá-la, desferiu o golpe.
– Caralho!
Errou a mira, e o bicho correu para debaixo do balcão para se esconder. Lindemberg correu até o armário para pegar o veneno. Depois de encontrar o tubo atrás dos produtos de limpeza, ele se agachou e deu uma espiadela.
Por sorte – ou não, como veremos a seguir... – as baratas de Brasília não são lá muito espertas. O inseto havia corrido para um canto escuro, mas ela ainda estava vulnerável ao jato do veneno. Sabendo que não podia desperdiçar mais essa oportunidade, Lindemberg liberou o spray bem em cima da carapaça.
– Morre, peste!
A barata caiu no chão agonizando. Ela conseguiu se arrastar ainda até o meio da sala, mas depois não resistiu, caiu com o ventre voltado para cima e começou a agitar as patas com desespero.
Não é uma cena agradável ver uma barata morrer envenenada. Quase dá para sentir a dor do bicho quando se vê o jeito louco como ela se contorce. E, surpreendentemente, as baratas começam a emitir estalos audíveis ao ouvido humano – algo que no idioma baratiano deve equivaler aos lancinantes gritos de alguém submetido a indescritíveis torturas. Lindemberg, porém, nunca sentira grande empatia pelos artrópodes. Pelo contrário, teve até uma satisfação meio mórbida em intuir o sofrimento do ser que havia emporcalhado, com suas patas peludas e as secreções de seus orifícios, sua tão adorada pizza de calabresa – um dos raros prazeres semanais do circunspecto concurseiro.
A coisa correta a fazer naquele instante era pegar o sapato social e esmagar o bicho, para ter certeza de que havia morrido. Num surto de sadismo, com um sorriso mórbido e meio aflito, os olhos injetados, Lidemberg quis, para curtir um pouco mais o sofrimento do inimigo, terminar de assassiná-lo com o veneno. Ele aproximou o spray do moribundo e liberou o jato bem em cima do ventre inchado.
Quem tivesse visto a cena não teria dúvidas de que os insetos são capazes de sofrer. As baratas não respiram pela cabeça, mas por espiráculos espalhados pelo seu corpo. Quando o veneno atingiu seu corpo, a criatura deve ter sentido uma dolorosa asfixia, à medida em que seus orifícios respiratórios eram obstruídos pela substância corrosiva e fatal. Ela tentava virar a carapaça para fugir, mas não tinha mais jeito: em seu surto, Lindemberg liberara o jato sobre o corpo do inseto por quase quinze segundos seguidos! – muito mais do que o necessário para assegurar a morte. A barata excretou um fluido transparente pelo ânus, contorceu-se por mais alguns instantes e então parou.
Inebriado pela satisfação animalesca de ter trucidado o inseto, Lindemberg não poderia suspeitar que naquele instante seu destino fora selado. Não se tratou de uma retribuição kármica, nem sequer da vingança de algum ominoso deus blatódeo que se ressentira pela morte de seu favorito. Foi um acaso cego, um acidente idiota, como tantos outros que acontecem todos os dias, a todo instante.
Quem quer que já tenha morado num apartamento ruim sabe que baratas envenenadas são capazes de agonizar por quase um dia inteiro. Quando se joga veneno num bicho desses, é comum o encontrarmos no dia seguinte num local diferente de onde o havíamos deixado, muitas vezes com algumas de suas patinhas ainda se contorcendo. Não se sabe se são meras reações involuntárias, depois de o espírito da barata já ter retornado ao inferno sombrio onde são engendrados por entidades cegas que sussurram na escuridão. O ponto é que esses bichos são mais resistentes do que supomos – capazes até, pelo menos segundo o folclore que herdamos da Guerra Fria, de sobreviver a um holocausto nuclear.
Como um bárbaro que sorvesse vinho do crânio de um inimigo conquistado, Lindemberg bebeu sua quinta cerveja esparramado no sofá. Era o último momento de liberdade antes de retomar sua rotina de estudos. Apenas depois de outra semana ele poderia se permitir outro prazer indulgente como aquele. Sorveu aquela long neck como se fosse a última – o que era uma postura sensata, já que era a última mesmo. Troglodita empazinado e embriagado, ele pôde dormir em paz.
Mas algo aconteceu no escuro daquela madrugada brasiliense, no mesmo instante em que a legião de filhinhos de papai que assolam esta cidade se metiam em brigas pelas festas que havia por aí afora. Na escuridão do quitinete, lá pelo décimo sono de Lindemberg, o demônio ressuscitou. Jamais se saberá quão enorme deve ter sido seu desespero ao recobrar a consciência no meio da noite, apenas para redescobrir que seu corpo estava ainda banhado no líquido fatal. Mas aquela era uma barata feroz, e grande era seu desejo de viver. Num esforço heroico, a criatura conseguiu pôr-se de pé e, como a barata tonta que era, avançou em direção à parede.
Para onde fugir? Onde estaria o alívio? Onde o bálsamo que acabaria com as dores excruciantes? Era um caso perdido, mas mesmo assim ela tentou. Reunindo suas últimas forças, ela escalou a parede da cozinha, sufocando e cega pela dor. Em seguida, agarrou-se ao teto e começou a avançar de cabeça para baixo. Mas a asfixia provocada pelo veneno voltou com mais intensidade: a barata agitou as asas, desequilibrou-se e caiu no vazio.
Caiu em queda livre numa trajetória quase reta que ia do teto à caixa de cereais de chocolate que o idiota do Lindemberg havia deixado aberta em cima do balcão de mármore.       
  Na manhã seguinte, como de hábito, Lindemberg acordou pontualmente às seis da manhã. Com a longa cabeleira despenteada, ele se sentou na beirada da cama e disse um palavrão – resignada expressão de sua vontade de continuar dormindo. Levantou-se, então, e se arrastou ao canto de sua sala que os irônicos construtores de seu quitinete chamaram de cozinha americana. Tirou uma tigela da estante, encheu com cereal matinal de chocolate, abriu o frigobar para pegar o leite gelado e misturou. Ainda grogue de sono, cambaleou até seu minúsculo sofá e ligou a televisão de 22 polegadas para assistir às notícias enquanto comia o cereal.
Fez isso de forma tão mecânica que mal notou que uma das formas escuras dentro de sua tigela não era exatamente um pedaço de chocolate. Vendo o noticiário matinal, começou a mastigar as colheradas que trazia à boca sem prestar muita atenção no que estava fazendo. Num certo instante, sentiu um gosto acre, que em outra ocasião talvez o tivesse feito vomitar. Mas sua boca ainda estava tão impregnada com o álcool da cerveja e a cebola da pizza que ele nem deu muita bola.
Mastigou a barata inteirinha, cheia do veneno que ele próprio havia, no seu lapso de fúria, lançado em abundância sobre ela.
Morreu quarenta minutos depois, idiotamente, curvado sobre o vaso sanitário, tentando induzir o próprio vômito.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Mínimas



I

O ruim não é fazer a feira, o ruim é guardar a feira

II


Há muitas formas idiotas de morrer

III

O funcionalismo público é tão parcimonioso com o tempo de seus servidores quanto um adolescente é com seus fluidos.


IV

Depois da telefonia móvel, a questão deixou de ser “se teremos câncer” e tornou-se “quando teremos câncer”.


V

Por definição, todo novo rico é um velho pobre.