terça-feira, 27 de agosto de 2013

Apontamentos para uma Filosofia do Desbunde


Pensei que fosse ser meu fim. O curioso é que, da primeira vez que o pós-modernismo me foi apresentado na universidade, ele exerceu sobre mim forte apelo intelectual.
      A princípio, tudo parecia fazer muito sentido. Todo conhecimento humano é condicionado pelo contexto e pela linguagem. A comunidade epistêmica é soberana ao definir seus conceitos. Nenhuma verdade é neutra, e mesmo as leis frias da lógica estão condicionadas por determinada moldura de pensamento que pode estar associada a uma estrutura de dominação. Tudo isso, para bem dizer a verdade, apenas expressa uma inquietação antiga da filosofia ocidental: a falibilidade do logos, quer dizer, do conhecimento racional assentado sobre a palavra. O trilema de Agripa não já nos mostrara que toda verdade está forçosamente assentada ou sobre um regresso infinito, ou sobre uma escolha arbitrária ou sobre uma petição de princípios?
      O relativismo descortinou-me um mundo de possibilidades intelectuais. A tradição, a ciência, a religião, nada poderia escapar do olhar escrutinador da crítica pós-moderna. Por algum tempo, cheguei a acreditar que tal instrumental teórico seria capaz de libertar a humanidade dos grilhões que aprisionam seu espírito.
      Até que um dia, numa discussão no Instituto Rio Branco, eu finalmente me dei conta de todos os desdobramentos da filosofia pós-moderna. Ainda tentei encontrar solo firme sobre o qual pudesse assentar minhas objeções, mas tudo em vão! Era forçoso reconhecer: se todo conhecimento é relativo, então talvez o feminismo esteja certo... Intelectualmente, não há como negar este fato.
      Entrei em profunda depressão. Apesar de morar sozinho, fugi de casa e passei a me embriagar diariamente com etanol nos postos de gasolina mais imundos das cidades satélites. Plenamente convicto de que a única corrente filosófica coerente era a dos cínicos, abandonei o convívio humano e passei a viver entre os cachorros. Deixei o cabelo e a barba crescer, parei de tomar banho e de usar cueca, passei a andar de quatro e a me comunicar por latidos. Perambulava por depósitos de lixo e terrenos baldios com meus novos companheiros, dormia nas mais imundas sarjetas, me alimentava com os restos que conseguíamos encontrar em sacos de lixo furados. Tentei me suicidar sete vezes quando vi uma cadela com quem me havia envolvido fornicando com um vira-lata qualquer.
      Até que um dia, enquanto estava delirando sob efeito de oxi num dos esgotos que correm pelo Parque da Cidade, tive uma visão que me salvou da ruína completa. Em meu devaneio, meu avatar astral havia rompido o véu de Maia e perambulava além das fímbrias do multiverso. Eu flutuava num abismo avassalador de inexistência, uma vastidão ominosa, que teria me enlouquecido imediatamente se meu ego não tivesse deixado para trás toda noção de temporalidade e de espacialidade. Até que, finalmente, numa das reverberações do Om, minha alma chegou ao místico Omphal, o umbigo do Universo, o ponto sagrado onde tudo é criado e destruído.
O Meta-Vortex Primordial
      Estarrecido com a visão do meta-vortex primordial, vi emergir diante de meu terceiro olho o vulto monstruoso de Azatoth, o Sultão do Caos, o demônio cego que está aprisionado no coração da irrealidade. Sentado em seu trono de ossadas em meio ao baile eterno dos Antigos sem mente, ele abriu sua bocarra diabólica pela primeira vez em trezentos milhões de dias de Brâman e me falou, com palavras que gravaram minha alma como ferro incandescente:  
      – Quando a água bater na bunda, comece a nadar!
      Ao despertar de meu sonho dogmático, percebi que eu estava salvo. Aquelas misteriosas palavras me fizeram desvendar num átimo o segredo do pós-modernismo.
      Depois de fazer a barba, comprar algumas cuecas novas e retomar o convívio humano, percebi que meu receio face ao relativismo, em verdade, só se justificara por minha enorme tolice. Eu não havia me dado conta de que, se toda proposição oculta um discurso orientado pelo poder, não existe nada que nos permita escolher entre uma afirmação razoável e uma afirmação completamente agirobada. O relativismo não é uma arma que possa ser utilizada seletivamente! Ela torna igualmente aceitável o discurso do igualitário políticamente correto, do conservador reacionário ou simplesmente do lunático. Toda afirmação é igualmente boa e igualmente verdadeira, e o que determina qual verdade será aceita pela sociedade é simplesmente a capacidade que cada grupo possui de defender suas convicções idiotas frente a uma multidão inculta e pouquíssimo interessada em lógica formal ou epistemologia. A verdade é uma questão de psicologia de massas.
      Como eu jamais estive interessado em convencer alguém do que quer que fosse, só me interessavam os desdobramentos do relativismo no nível individual. Neste patamar, as possibilidades são infinitas! Após finalmente ter me recuperado por completo de minhas aventuras cínicas, passei por verdadeira reviravolta conceitual. Pensei com meus botões:
      “Segundo os pós-modernos, todo conhecimento pode ser igualmente válido, ou seja, não há nenhum critério de validação da verdade que se sobreponha a outro: tudo depende do contexto e dos interesses e valores envolvidos. Pode-se escolher tanto os tradicionais critérios de racionalidade como os critérios de um esquizofrênico. Porém, é preciso lembrar que a vida humana é breve e que – ainda que eu não tenha como provar filosoficamente estas afirmações – parece ser mais sensato dedicar nosso breve tempo de vida a atividades prazerosas do que a atividades aborrecidas. Ora, se tanto faz como tanto fez, então por que se aborrecer com silogismos? O único critério de validação da verdade realmente apto a tornar a vida prazerosa é a diversão!
      Fundei toda uma nova epistemologia embasada no divertimento e a batizei de Filosofia do Desbunde. Minha idéia era simples. Uma afirmação é verdadeira ou falsa não por se adequar às regras da lógica, mas simplesmente por ser ou não divertidas. O princípio é mais simples do que parece. Tomemos um exemplo prático. Aristóteles nos apresenta o seguinte silogismo como sendo verdadeiro:

      Premissa menor: Sócrater é homem.
      Premissa maior: Todo homem é mortal.
      Conclusão: Sócrates é mortal. 

      Por nosso sistema, tal conclusão é falsa, já que está muito claro que o fato de Sócrates ter que mais cedo ou mais tarde morrer não é divertido nem para ele nem para nós – que somos lembrados de nossa própria mortalidade com seu suicídio. Este silogismo, segundo minha filosofia, deveria ser reformulado da seguinte maneira:

      Premissa menor: Sócrates é meio besta.
      Premissa maior: Homem que é homem não chora.
      Conclusão: Hoje é carnaval!

      Trata-se de um silogismo estritamente verdadeiro, tão verdadeiro quanto o fato de que ontem eu brinquei de amarelinha com Sócrates (e posso assegurar que foi extremamente divertido).
      Sabendo que o leitor não acharia nem um pouco divertido se eu abusasse muito de sua paciência me alongando muito nas sutilezas de meu pensamento - o que terminaria por refutar meu próprio argumento - gostaria apenas de antecipar a inquietação das mentes mais desconfiadas, afirmando que meu sistema não é nem falacioso nem original. Ele é um desdobramento perfeitamente coerente da doutrina, atualmente tão divulgada em nossas universidades e centros de formação de opinião, de que toda verdade é relativa. Posso provar isso enumerando apenas algumas poucas convicções muito generalizadas que se enquadram perfeitamente no sistema geral de minha Filosofia do Desbunde:
      - A energia renovável vai permitir que a civilização continue se desenvolvendo.
      - Não existe uma natureza humana: a explicação para nossos males são todas sociais e culturais.
      - Um país tem que gastar mais do que arrecada para se desenvolver.
      - Pensamento positivo faz toda a diferença.
      A estas percepções, acrescentaria as seguintes constatações práticas elaboradas por mim enquanto sofisticava meu pensamento:
      - Para ser capaz de voar, basta querer.
      - Mulheres escandinavas morrem de tesão por cearenses.
      - Minhas crônicas são muito interessantes.
     
      É tudo verdade, e tudo muito divertido!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Mínimas

I - Maquiavelismo Chinês
Os meios justificam os meios.
II
Pessoas: um bem fungível ou um mal necessário?
III
O trânsito é um jogo de soma zero.
IV
 Conheço pessoas que só não praticam magia negra para se dar bem na vida por uma razão muito simples: magia negra não funciona.

V

Dirigir no DF torna-se tão mais fácil quando se entende que todos os caminhos vão dar no mesmo lugar: na casa do caráleo.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Destino de Keke Rosemberg (conto)


      
      Sempre achei que o céu recifense tinha algo de esverdeado durante a madrugada. Lembro que tinha essa impressão quando estava deitado em minha rede, olhando para as nuvens que passavam rápido pela janela, refletindo a luz alaranjada dos postes e dos prédios.
      Devia ser quase umas duas da manhã, e era uma daquelas noites litorâneas insuportavelmente quentes. Meu quarto, que era virado para o poente, estava um forno. Fazia horas que eu, revirando-me na rede, tentava dormir. Às vezes me levantava suado, tomava um copo d’água, ia até a janela para tentar refrescar um pouco, e olhava melancólico para a esquina da Santos Dumont com a 48. Naquela época eu me considerava um jovem infeliz, e o intrigante é que hoje eu lembre com tanta saudade daquelas visões sinistras. Gostava do silêncio, e talvez até mesmo da sensação de abandono quando olhava para as luzesinhas de uma favela olindense no horizonte, além do Arruda e de Campo Grande.  
      Quando, vencido pelo cansaço, comecei a ter meus primeiros sonhos, tomei um susto com o toque do celular. Irritado por saber que agora eu só conseguiria voltar a dormir depois de muito tempo, peguei o aparelho em cima da escrivaninha e vi no bina: “Keke Rosemberg”.
      Keke? Por que cargas d’água ele estaria me ligando a uma hora dessas? Eu o conheci por causa de meu amigo Arony, que era seu vizinho no Crato. Nós começamos a jogar RPG juntos depois que Luís foi expulso de nosso grupo por razões de flagrante imaturidade emocional.
      – Digaê, Keke... – falei, meio puto.
      – Tu tava dormindo?
      – Que é que tu acha?
      – Bicho, foi mal, mas é que eu não consigo parar de pensar na estória...
      Aquilo me desarmou. Talvez fosse a vaidade de narrador, ou talvez eu simplesmente tenha sentido empatia pelo entusiasmo de meu amigo, que se havia deixado impressionar pela minha estória simplória, meio plagiada de uns filmes de David Lynch que eu havia visto.
      – Mas também, pô, a gente interrompeu o jogo na melhor parte! – falei, mais amigável.
      – Foi foda, bicho! A gente tinha que ter terminado aquela estória! Quando é que tu volta ao Crato?
      – Acho que agora só em julho.
      – Caralho! E a gente vai ter que esperar esse tempo todo sem jogar?
      – Porra, eu também to ansioso, mas que é que a gente pode fazer?
      – Tu podia narrar uma sessão para mim por telefone!
      Não conseguir conter um sorriso:
      – Keke, bicho, tu ta doido, é?
      – To falando sério, pô! Eu não consigo pensar em mais nada! Sério, narra só um pedacinho aí...
       As boas senhoras católicas têm toda razão em temer quando seus filhos adolescentes começam a se envolver com o mundo RPG. Não que se trate realmente de um culto satanista velado: o verdadeiro problema, que apenas os mais experientes jogadores conhecem, é de natureza distinta. O RPG tem uma capacidade desconcertante de ofuscar os limites entre ficção e realidade. Sei que para alguns isso pode parecer um clichê ou afetação, mas eu mesmo às vezes fico intrigado, quando lembro das aventuras de RPG que joguei em minha adolescência, com o fato de que eu ainda guardo as memórias não apenas do jogo em si, mas sim das experiências que os meus personagens viveram, como se eu mesmo tivesse estado lá. Se eu, que me considero uma pessoa razoavelmente normal, fui levado tão longe pela minha imaginação, imagine-se o que o RPG não poderia fazer com uma pessoa que já tivesse uma predisposição à loucura?
      Não quero, ainda, tirar conclusões, mesmo porque o que aconteceu com Keke ainda me deixa intrigado. Se eu suspeitasse de alguma perturbação nele, acho que nem teria aceitado ele no grupo. Quando ele me ligou, eu pensei que ele estivesse simplesmente impressionado com os lugares-comuns da ficção fantástica que eu havia aproveitado em minha narrativa. Além do mais, a maneira como havíamos interrompido a partida havia sido realmente dramática: depois de mais de dez horas ininterruptas de jogo, meu pai nos proibiu – com a inflexibilidade dos sertanejos justos – de continuar jogando naquela noite. Aquilo foi particularmente exasperante, já que no dia seguinte eu viajaria de volta para Recife, e nós havíamos chegado, depois de enfrentar todos os desafios e monstruosidades habituais de uma partida de Dungeons & Dragons, ao que provavelmente seria o clímax da narrativa fantástica que eu estava bolando. Havia, sim, motivo para alguma ansiedade.
      E por que não admitir? Eu mesmo estava louco para continuar a estória, e a proposta que Keke me fez pelo telefone me flagrou num momento de fraqueza.
       – Bicho, tu é muito sem noção mesmo...
      – Vai, pô, não custa nada.
      – E o que a gente vai fazer com o resto do pessoal? Isso vai estragar a estória pra eles.
      – Eu prometo que não conto, e quando tu voltar tu narra a cena de novo para eles, dizendo o que eu fiz.
      Hesitei ainda alguns instantes e, com um suspiro, comecei:
      – Tá, você está no Abrigo Negro.
      – O que eu vejo?
      – É uma sala comum. Parece a sala de jantar da casa de Ulissinho.
      – Como assim? A gente não tava numa torre medieval?
      – Então, é isso. O lugar onde seu personagem está agora não tem nada a ver com a torre de onde vocês vieram. As folhas do portão que vocês destrancaram abriram-se sem ruído. Vocês não conseguiram, porém, ver logo o que havia além da soleira por causa de cortinas vermelhas que pendiam do arco. Quando vocês decidiram atravessá-las para ver o que havia por trás, vocês chegaram a um lugar inesperado: uma sala com uma mesa redonda de madeira no centro, que nem aquela que há na casa de Ulissinho.
      – O que é que tem em cima da mesa?
      – Um vaso com flores.
      – Tu ta tirando onda, né?
      – Se quiser a gente pára.
      – Não, pô, é só que eu fiquei intrigado...
      Esperei alguns instantes, percebendo que Keke pensava do outro lado da linha. Perguntei:
      – O que você vai fazer?
      – Eu me aproximo da mesa.
      – Você se aproxima, apreensivo. Enquanto caminha, você percebe que aquele ambiente não tem nenhuma porta nem janela. Ao invés de paredes, a sala está cercada por cortinas, iguais as que você acabou de atravessar.
      – Ta, eu vou tentar tirar o vaso de flores de cima da mesa.
      – Você consegue. É um vaso banal de porcelana.
      – Há alguma inscrição?
      – Não.
      – Em cima da mesa não tem mais nada?
      – Não.
      – Então eu vou explorar a sala. Eu percebo alguma coisa?
      – Sim. Caminhando ao redor da mesa, você se deu conta, com algum espanto, que a sala é perfeitamente circular. Logo quando vocês entraram, você não teve essa impressão.
      – Existe algum ponto de referência?
      – Não.
      – Se eu tentasse, eu conseguiria voltar para o lugar por onde entramos?
      – Não. Você não sabe mais por que lado entrou.
      – Caralho...
      – O que você faz?
      – Não sei. Acho que vou tentar me aproximar de um dos lados da cortina e ver o que tem por trás.
      – Tá. Você caminha em direção à cortina vermelha, apreensivo com o que poderia estar atrás.
      – Eu afasto as cortinas.
       – Do outro lado, há um deserto.
      – Um deserto?
      – É um deserto: dunas cinzentas espraiando-se a não mais ver, sob o que talvez seja o mais impressionante céu estrelado que você já viu.
      – Por que impressionante?
      – Porque você não reconhece nenhuma das constelações. Aquele poderia ser o céu de qualquer lugar. Mas muito rapidamente você notou: aquele tem que ser um outro mundo, pois não há nenhum lugar na Terra com um céu daqueles, com aquelas constelações.
– Eu consigo fechar as cortinas e voltar para dentro da sala?
– Sim.
– Vou tentar espiar através das cortinas do lado oposto.
– Você caminha até o outro lado da sala e encontra uma cortina exatamente igual.
– Vou abri-la. O que eu vejo?
– Escuridão.
– Só isso?
– Sim, uma perfeita imobilidade, nem luz nem som.
– Não consigo identificar nada? Parece haver alguém ali?
– Não. Aquilo é o nada, é como se você estivesse olhando por uma janela que desse para o que há além do mundo.
– Como assim?
– Para o incriado – disse, de propósito.
Ele hesitou. Estava ficando tarde. No dia seguinte eu tinha aula. Acho que foi mais ou menos naquela altura que eu tive uma ideia.
– Você vai atravessar?
– Não, vou tentar uma terceira direção.
– Sentindo-se cada vez mais apavorado, você volta para dentro da sala, onde seus companheiros esperam para ver o que você vai fazer. Sua incapacidade de entender o que está acontecendo lhe provoca um desconforto inexplicável, como se houvesse algo pairando no ar.
– Eu consigo identificar alguma ameaça concreta?
– Não, a sala continua como antes, com o vaso de flores em cima da mesa circular.
– Eu vou até a terceira parede.
Aqui, não posso deixar de mencionar um sentimento de culpa que guardo até hoje. Sei que aquele telefonema não possui exatamente uma relação com o que aconteceu depois com meu amigo, mas, ainda assim, não consigo deixar de pensar que talvez a confusão que eu tenha lhe provocado de alguma forma pode ter contribuído para o que aconteceu.
– Você se aproxima da terceira parede, sentindo-se cada vez mais ameaçado pelo silêncio da sala. Para falar a verdade, você não saberia mais dizer se você realmente está vivendo essa experiência ou se simplesmente está sonhando, por mais concreto que as coisas ao seu redor pareçam.
– Tá, eu afasto as cortinas. O que eu vejo?
– Quer mesmo saber?
– Claro, porra! O que eu vejo?
– Você vê outra sala.
– Igual àquela onde eu estava.
– Não, uma sala muito diferente.
– Como ela é?
Apesar de só ter ido lá uma vez, lembrava dos detalhes de cabeça.
– Há um sofá em frente a uma estante, onde está a televisão. Ao lado do sofá fica a sala de jantar, em cima da qual há uma toalha quadriculada. Na cozinha adjacente, só há uma geladeira, um fogão de quatro bocas e o botijão de gás. Seu personagem, claro, não faz a menor ideia do que sejam todos esses objetos, mas explico assim apenas para você entender melhor. E o mais importante de tudo é que lá tem uma pessoa.
– Quem?
– Um rapaz moreno, de cabelo encaracolado, sentado no sofá e conversando com o que seu personagem imaginou que fosse um aparato mágico, mas que na verdade é um telefone celular.
Ele calou-se. Quase consegui sentir seu medo do outro lado da linha.
Keke?
– Que foi?
Que seu personagem faz?
– A pessoa que está sentada sobre o sofá consegue ver meu personagem?
– Não, porque essa pessoa está de costas.
Silêncio novamente.
– O que você vai fazer, Keke?
– Eu vou dizer “oi”...
Desde que Keke desapareceu, já reconstruí mentalmente aquele instante algumas dezenas de vezes. Tentei reavaliar minhas impressões à luz de considerações sensatas, mas, por mais que tentasse me convencer, jamais consegui deixar de lado uma desconcertante impressão.
Pode ter sido apenas uma interferência na ligação. Ou não sei se meu amigo, já demonstrando sinais do que deveria ser alguma forma de perturbação delirante, mostrou um inesperado talento para o ventriloquismo. Cheguei mesmo a pensar, em alguns instantes em que meu senso de culpa se tornava mais forte, que eu havia recriado inconscientemente minhas memórias. Será que eu terminei me convencendo de que eu havia realmente escutado o que, anteriormente, havia apenas imaginado que tinha escutado?
      Por mais que eu tente me convencer que o que eu ouvi não passou de uma ilusão ou de uma falsa memória, a verdade é que eu jamais conseguirei me convencer de que aquele som não fosse real. Pois no mesmo instante em que Keke concluía a frase “eu vou dizer oi”, eu ouvi, superposta, uma outra voz, mais grave, mais adulta, que definitivamente não se confundia com a de meu amigo. E eu escutei ou imaginei escutar essa voz pronunciando “oi”.
Keke?
Silêncio.
Keke, tás me ouvindo?
Pensando bem, a verdade é que, desde aquele instante, eu nunca mais escutei a sua voz.
Keke, porra, deixa de frescura, fala aí.
Acho que o que realmente me desesperou foi que ele nunca desligou o telefone. Só depois de uns dez minutos sem resposta é que eu terminei a ligação. Fiquei apavorado, sozinho numa abafada noite de insônia. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Plano Perfeito



Como pode ter dado errado?
1990. O ano em que entendi do que a escola realmente se tratava. Até então não ligava de ter que passar algumas horas de meu dia na Casinha da Cultura. Foi lá que conheci alguns bons amigos, com quem costumava desenhar monstros e explorar o jardim, sob o inacreditável azul do céu cratense. As refeições comunais – ou “hora da meranda”, como, naqueles anos idos, nós as chamávamos – eram momentos de alegria e confraternização, quando podíamos trocar impressões sobre esse ensolarado universo em que havíamos acabado de chegar. Eu gostava do pão com ovo, da banana frita, do suco de caju em caixinha. Sobretudo, ainda acreditava que a “Tia” fosse nossa aliada.
            Então veio o ABC. Então veio a caligrafia. Vou ser honesto, nunca tive muita dificuldade de aprender as letrinhas. Ficava até surpreendido com a desolação de alguns colegas, que penavam para passar do "E". Mas esse não era o ponto. A Tia dava os primeiros indícios de estar a serviço de um desígnio secreto que os adultos tinham bolado para nós, e que nós com certeza teríamos abominado caso ele nos tivesse sido esmiuçado em detalhes.
            Perder os melhores anos estudando álgebra, tornar-se um cidadão respeitável, ter que todas as manhãs enlaçar o pescoço com uma tira de seda que nos apertará a goela o dia inteiro? Enquanto o mundo estava – como nós, assíduos espectadores de Jaspion, sabíamos muito bem – cheio de monstros e dinossauros? Longe de nós, com sua cara redondinha, tracinho para lá. Você não é nossa amiguinha, você quer é lascar-nos a vida!
            Escapar era preciso. Sabe lá Deus que rotina enfadonha o futuro me guardava. Aos 6 anos, eu ainda tinha uma chance.
            6:00 hs da manhã. Levantei-me mais cedo e vi que meu irmão ainda dormia. Eu não tinha um segundo a perder. Desci do beliche e vi, pelas frestas da janela, que estava uma linda e quente manhã do inverno sertanejo. Os passarinhos cantavam feito doidos, felizes de não partilharem as misérias humanas.
            Meus pais acordavam cedo, por isso todo cuidado era pouco. Ainda de pijama, vi pelo corredor que a porta do quarto deles estava fechada. Bom sinal, talvez eles ainda estivessem se arrumando para ir ao trabalho. Desci correndo as escadas e, seguindo o estratagema que havia mentalmente ensaiado até altas horas da noite anterior (até umas nove horas, imagino), fui até a copa, arrastei cuidadosamente uma cadeira até a parede e roubei o relógio.
            Tomando cuidado para não ser visto, abri a porta da frente, cumprimentei os cachorros – velhos companheiros, que com um olhar de cumplicidade e uma lambida asseguraram-me que meu segredo estava em boas patas – destranquei o portão e ganhei o mundo. 
            Livre! Lembro que senti uma excitação correr-me o corpo todo quando me vi só na rua. Estava uma manhã linda, com o sol brilhando forte no verde dos pés de oiti. Na imensidão azul que pairava sobre minha cabeça, só uma ou outra nuvem bem branca, como algodões ou sonhos num sono infantil. Doía-me um pouco pensar que eu tinha deixado para trás os confortos do lar. Mas eu não tinha opção, eu não agüentava mais aquela chatice em que a escola se havia tornado. Jamais considerei que o alfabeto pudesse me ensinar algo mais relevante do que o que eu intuitivamente já tinha aprendido – que o bom mesmo nessa vida é jogar pedra na lua e correr desembestado sob do sol. Sim, eu viveria sem bolachas de chocolate e danoninho, se esse fosse o preço a pagar pela liberdade.
            Continuei caminhando despreocupado pela rua de calçamento, esforçando-me para não chamar a atenção. Não teria me passado pela cabeça que alguém poderia desconfiar de uma criança de seis anos branca e loira, de pijama e sandália japonesa, caminhando sozinha pelas ruas do bairro do Sossego com um relógio de parede debaixo do braço. Meu plano parecia-me infalível. Iria pelas ruas de pedra até a entrada de uma trilha que eu havia descoberto com meu companheiro de explorações, Ulissinho[1]. Por ela eu avançaria até as margens do Rio Granjeiro, no meio do qual está situado o mais intrigante monumento geológico jamais descoberto por habitante do Sossego: a temível “Pedra com Cara”, um gigantesco pedregulho com olhos, boca e nariz – provavelmente obra de alienígenas ou homúnculos do subterrâneo, ao menos segundo as teorias que eu e Ulissinho desenvolvêramos após rigorosas investigações.
            Sentado em cima da rocha, eu usaria o relógio de parede para saber exatamente a hora em que meu pai iria trabalhar.A vantagem de ter um pai obstetra é que as mulheres não adiam a hora do parto simplesmente porque o filho do médico pôs na cabeça que não iria para a escola naquele dia. Também não achava que ele fosse atribuir exagerada importância ao meu desaparecimento, já que tinha indícios para acreditar que os adultos tinham coisas mais importantes com que se preocupar. Eu estava seguro, portanto, que no mais tardar às sete e meia meu pai já teria ido ao Hospital. 
            Chegada a fatídica hora, eu retornaria do meu refúgio fluvial e voltaria para casa. Vestiria uma roupa decente e tentaria achar algum dinheiro. Mesmo que não conseguisse encontrar, meu destino era certo. Iria para o último reduto das crianças desgarradas e sem futuro, o porto seguro dos desocupados, onde podíamos, em troca de alguns cruzeiros, ser indulgentes com nossos vícios e desfiar as horas com divertimentos jamais sonhados em sala de aula: a Center Games.
            Era a época do Mega Drive e Sonic tinha acabado de ser lançado – pelo menos no Crato. Eu planejava passar horas, dias inteiros jogando e assistindo as partidas de outros viciados. Enquanto meus colegas de escola labutavam no caderno de caligrafia, eu estaria tranquilamente colecionando argolas e ajudando os animais da floresta a escapar da vilania do Dr. Willy.
            Sim faria isso e muito mais com os outros habitués daquele antro de permissividade – como um certo sujeito chamado Gasolina, que sempre estava por lá, mesmo sem ter um tostão para pagar uma partida – e pouco estaria me lixando se um meteoro varresse do mapa a Casinha da Cultura! Às favas com o ABC e com as sopas de letrinhas!
            Eu poderia ter sido livre. Talvez hoje eu fosse um habitante das ruas e das florestas, com longos cabelos desgrenhados e uma temível barba, e teria por companheiros apenas os mocós e os passarinhos. Viveria da coleta de frutos silvestres, e usaria o pouco dinheiro que conseguisse obter vendendo caroços de macaúba na feira do Crato para jogar vídeo-game na Center Games – que ainda hoje existe, num novo endereço. E eu seria livre, não teria que usar gravata, nem carregaria sobre os ombros o peso de um terno. Sim, poderia ter sido a minha vida, se logo depois que eu dei a volta na segunda esquina uma pampa não tivesse aparecido no meu encalço. Era o meu pai, que ao ter se dado conta do sumiço do relógio de parede, percebeu que alguma coisa devia estar errada.
            Cá estou hoje, engravatado.
***


            Ah, Ulissinho, o que é de nós? Estará a Pedra com Cara ainda no leito do Rio Granjeiro, ou já terá alguma enchente a carregado para longe, do mesmo modo que a vida carrega os sonhos? Meu caro amigo, a verdade é que o sol nunca deixou de brilhar durante as horas que nós passamos enfurnados em salas de aula, escritórios e consultórios.


[1] Cabe, aqui, observar que as crianças de antigamente eram criadas soltas pelo mundo afora não porque o mundo fosse menos perigoso. Naquela época havia tantos delinqüentes, assassinos e psicopatas como hoje, e ainda havia o agravante de naqueles tempos as matas estarem infestadas de todo tipo de caipora, papa-figo e assombração. Acontece que as crianças  simplesmente eram mais intrépidas que as de hoje, que se traumatizam com formas bullyings que, em nossos tempos, eram interpretadas quase como manifestações de apreço.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Mínimas





I

– O poeta finge a dor.O sertanejo canta a dor.

 – E tu?

– Gozo a dor. 

II


Na Academia

A vida é curta demais para malhar perna.

III

A semana tem cinco dias úteis e sete dias fúteis. 

IV


O risco de tentar negar a realidade é que a realidade pode tentar negar você.


V


A teoria crítica esclarece: insignificante e insignificado.