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quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Übermensch e a Iluminação Espiritual



Eduardo Siebra, 16/04/14

            Um dos benefícios da leitura de "O Mundo como Vontade e Representação" é a luz que a obra lança sobre alguns dos pontos mais difíceis da filosofia de Nietzsche. Não que Nietzsche seja apenas um schopenhaueriano – sua obra é multifacetada e muito mais complexa do que isso – porém ele leu Schopenhauer em sua juventude, e embora suas criações não sejam um desdobramento direto da filosofia de seu antecessor, é razoável dizer que Schopenhauer forneceu a Nietzsche o vocabulário sem o qual ele não poderia ter começado a desenvolver seu pensamento.   
            Eu diria que é como se a influência de Schopenhauer estivesse presente num nível inconsciente – nem tanto pelo fato de Nietzsche compartilhar as preocupações ou conclusões desse seu antigo mestre, mas sim porque as discussões nietzscheanas partem do panorama intelectual que Schopenhauer delineou – do mesmo modo que as reflexões de Schopenhauer só foram possível em cima do terreno meticulosamente arado por Kant.
            Um dos mais intrigantes aspectos dessa conexão não-declarada entre os dois pensamentos é o conceito de "transvaloração de todos os valores" – supostamente o caminho que poderia levar um homem comum a transformar-se no übermensch prenunciado por Zaratustra. Não nos iludamos pela diferença de tom: o que Nietzsche apresenta de forma tão poética é, num certo sentido, uma ideia já explorada por Schopenhauer ao dissertar sobre a beatitude.
            Quando o sábio simbolicamente sobe à montanha, ele substitui sua perspectiva rasteira de indivíduo pelo que poderia ser descrito como a visão panorâmica: ele passa a ver o horizonte, o abrangente, e aspectos da vida que antes lhe eram indecifráveis (e muitas vezes terríveis) tornam-se, desta elevada perspectiva, não apenas compreensíveis, mas aceitáveis. O sábio, então, transcende a moral, já que o conceito limitador de bem e de mal, embora possa ser significativo para o homem médio que labuta na planície, perde o sentido quando o espetáculo da vida se descortina do alto. Por isso o übermensch pode ser tão terrível: ao decifrar seu próprio destino meditando sobre o abismo, ele se liberta da responsabilidade e da culpa, já que ele é, mais do que homem, uma expressão pura da Vontade de Potência que é a essência mesma do mundo. Nós, humanos, não podemos julgá-lo, pois julgá-lo seria querer  julgar o mundo e a vida.
            Essa é apenas uma maneira imageticamente mais rica de tratar da superação daquilo que Schopenhauer chama de "princípio da individuação". Segundo sua filosofia, não apenas todo homem, mas tudo o que existe é a expressão de uma única e mesma Vontade. Somos aspectos particulares de um todo que se objetifica no mundo. Percebemos o mundo pelos filtros do tempo e do espaço, e estamos aprisionados, pelo querer, ao nosso ego. Porém, segundo Schopenhauer, em circunstâncias muito raras, pessoas excepcionais são capazes de alcançar, pelo conhecimento, a compreensão do erro de perspectiva que nossa vida individual representa. É a experiência de iluminação descrita pelos budistas e o estado de indiferenciação descrito nos Upanixades: o santo compreende que ele é uma expressão do Todo, e que no Todo, tudo se equaliza.
            Não acho temerário dizer que o übermensch nietzschiano é uma atualização poética do santo descrito por Schopenhauer. Os dois arquétipos expressam a mesma iluminação – a compreensão da vida no contexto da totalidade. A única e essencial diferença reside na missão criadora que Nietzsche atribui ao herói por ele profetizado: enquanto Schopenhauer supõe que o seu santo necessariamente se ausentaria da vida – ainda quando, exteriormente, continua a praticar boas ações aos seus semelhantes – o übermensch é uma força criadora e fundadora. Ele é o pai do futuro, um super-herói moral que está capacitado e credenciado não apenas a destruir a humanidade antiga, mas também a semear a humanidade futura.
            Essa diferença se explica por uma divergência psicológica fundamental entre Schopenhauer e Nietzsche: enquanto para o primeiro a Vontade é a causa de toda vida mas, também, de todo o sofrimento humano (ou seja, é a fonte de todas as nossas misérias), a Vontade de Potência nietzschiana é a fonte de onde jorra toda a beleza, toda a poesia do mundo. O universo, para Nietzsche, não é uma terrível máquina de atormentar a consciência: é, pelo contrário, o palco no qual a consciência, mesmo quando atormentada, pode exultar, seja pela música, seja pela conquista, seja pela expressão inconsequente da força ou da generosidade. Schopenhauer nos diz: o mundo é ruim; e ao decifrá-lo, o santo o supera. Nietzsche diz: o mundo é bom, e ao decifrá-lo, o übermensch o conquista.
            Eu diria que os dois pensadores estão certos, e que eles estão dissertando sobre a mesma verdade a partir de perspectivas diferentes. O erro de Schopenhauer talvez seja apenas o de supor que a iluminação equivalha à anulação do sujeito e do mundo: o Buda não desapareceu ao alcançar o Nirvana, e mesmo diante da derradeira compreensão, ele continuou imerso na imanência, na mundidade, e julgou que valeria a pena transmitir seus ensinamentos a seus antigos iguais, para aliviar-lhes as dores. Ou seja, a suprema compreensão se dá no Ser, dentro do mundo e no contexto de seus dramas.
            O erro de Nietzsche talvez tenha sido o de supor que seu übermensch, depois de ultrapassar o derradeiro limiar do bem e do mal, ainda estaria preocupado em impor sua vontade de potência individual. O homem que alcança a compreensão suprema poderia até infligir, com a consciência tranquila, terríveis sofrimentos aos demais, porém ele carece de motivação para tanto. Ele não é mais a expressão de sua vontade particular, mas ele é a expressão mesma da vida tomada em sua inteireza. Suas glórias são as glórias da vida e do mundo, e a vida e o mundo estão pouco preocupados em afirmar uma ou outra vontade específica. Ou seja, ao invés de um terrível conquistador, ou de um herói teutônico disposto a incendiar a Europa inteira, o übermensch, caso existisse, provavelmente seria um homem de profunda serenidade e nenhuma ansiedade – alguém que poderia assistir aos maiores horrores com absoluta indiferença, mas que não teria razão para fazer mal a um inseto. Ou seja, ele fundaria o novo mundo com a resignação de quem cumpre um inevitável destino, não com a impaciência dos que fundam um império.   

terça-feira, 8 de abril de 2014

Por que Schopenhauer não Virou um Santo?






Eduardo Siebra, 08/04/14

                Schopenhauer não é apenas um dos maiores filósofos do Ocidente: ele também é um de seus maiores místicos. Sua doutrina do mundo como representação deve muito à filosofia kantiana, ou seja, é uma elaboração racional. Porém sua descoberta da Vontade – descoberta que condicionaria todo pensamento vitalista posterior a ele, desde Nietzsche até Freud – é uma intuição genial, porém não-filosófica, por ser irracional e indemonstrável (ou seja, por ser mística). O método pelo qual ele chegou ao conceito é engenhoso (e sobre o assunto, já escrevi esse texto), mas ele se assenta numa percepção imediata – visceral – da essência mesma da vida: a coisa-em-si kantiana, o que nos oculta o véu de Maia.
                Acontece que Schopenhauer é um místico incompleto – e talvez isso se explique pelo fato de ele mesmo não se considerar como tal, mas apenas como filósofo. Ele abriu diante de si uma trilha rumo ao conhecimento da verdade sobre o mundo e a vida humana, porém, por confiar demais em sua racionalidade, ele interrompeu-se diante do que supunha ser - com razão - o limite do conhecimento humano. Justo ele, que descobriu a Vontade num salto de irracionalismo, foi incapaz de seguir adiante a partir do instante em que continuar a busca equivaleria a abandonar qualquer pretensão racional.   
                Com uma clareza de pensamento raras vezes encontrada, Schopenhauer disserta sobre algumas das mais intrigantes questões que afligem o homem, sem jamais descuidar da precisão de seu método filosófico. Munido do conceito de representação – de matriz kantiana – e da noção de Vontade, e familiar aos textos budistas e védicos, ele nos garante que a noção individualidade é um erro de perspectiva de nossa mente, que a vida humana é essencialmente querer e, portanto, sofrer, e que a libertação definitiva só pode ser alcançada pelo conhecimento e pela consciência de nossa infinita propensão ao desejar. Além disso, ao entender que as diferentes coisas e os diferentes seres são variegadas manifestações de uma única e mesma realidade (ou seja, são a Vontade tornada objeto pelo principium individuationis), Schopenhauer abre o caminho para o amor universal e a beatitude. Mesmo aquele que nos agride, mesmo o torturador e o criminoso tornam-se dignos de nosso amor e perdão, já que eles são também expressão da essência íntima que, em última análise, somos nós mesmos.
                É surpreendente, portanto, o tom de resignado desespero com que a monumental obra de Schopenhauer se encerra. O filósofo é inteligente demais para se deixar iludir pela ideia de um nada absoluto (conceito que os escolásticos já sabiam ser impossível), porém, mesmo depois de ter feito essa ressalva e reconhecido tal impossibilidade, ele conclui o Mundo como Vontade e Representação asseverando que, suprimida a Vontade, desaparece o mundo enquanto fenômeno, por desaparecer o sujeito. E com o querer, cessa também o viver, ou seja, o sofrer, na derradeira anulação de si e do outrem. É emblemático que a monumental obra termine justo com essa palavra: Nada!
                Que terrível paraíso! Que estranha libertação! Será que a isso nos leva a verdade: a uma anulação relativa do mundo, a um Nada que, embora não possa suprimir de vez o Ser – que maculou eternamente o real ao existir – apaga o sujeito na indiferenciação? Ser livre, então, é espécie de morte mais definitiva?
                Intelectualmente, esse relato da iluminação talvez seja acertado. Ele inclusive tem muitos pontos de contato com a formulação budista: o Nirvana não é um lugar físico – como geralmente se imagina o Paraíso cristão – mas uma dissolução da mente no infinitamente abrangente, que não temos como descrever com conceitos. O Vazio é uma engenhosa formulação intelectual – uma espécie de projeção ao mundo como um todo de nossas noções de positivo e negativo, de "é" e de "não é", que desenvolvemos a partir de nossa experiência das diferentes coisas que compõem o universo. Trata-se, portanto, de um fruto da inteligência levada à situação-limite - um termo que, embora vago, é possivelmente o melhor que temos para nos referirmos a um aspecto da realidade para o qual nos faltam as palavras.
                O que há de errado, então, com a conclusão de Schopenhauer? Talvez nada. Talvez ele tenha acertado, num certo sentido – e miseráveis somos nós, os que respiramos! Mas, quando penso nos santos e nos místicos consumados – os que alegam, ao contrário de Schopenhauer, efetivamente terem tido a experiência do sagrado – não consigo deixar de pensar que a conclusão do filósofo é incompleta. Ele chegou muito próximo da verdade, mas não teve coragem  ou não encontrou meios de ir mais além.  
                Os místicos de todos os tempos e lugares (com a notável exceção dos budistas) costumam descrever a experiência do inefável como um delicioso gozo, verdadeira (re)descoberta de nossa natureza interior. A imagem de um paraíso cheio de delícias talvez seja uma metáfora ou símbolo para essa derradeira experiência: o indivíduo dissolve-se no sentimento "oceânico", mas essa dissolução não é morte, mas sim renascimento na única e real Vida. É impreciso, pelo menos segundo essas experiências, descrever a superação do ego  como uma aniquilação: na verdade é uma tomada de consciência, como se o sábio pudesse subitamente se dar conta da limitação de sua antiga perspectiva, à luz da realidade mais abrangente que ele, agora, é capaz de experimentar.
                Ao atingir essa religação com o divino, o homem torna-se santo: ele vê o mundo e seus sofrimentos com novos olhos – não mais com a ansiedade dos que desejam fazer o bem – como é o caso do homem pio –  mas sim com a plácida beatitude de quem, mesmo aceitando a inevitabilidade do sofrimento, está disposto, por amor, a fazer o bem a seus semelhantes. É uma mudança de perspectiva que faz toda a diferença: não se deseja mais nada, pois se alcançou o derradeiro bem. E nessa suprema abundância alcança-se a infinita generosidade.
  O próprio Schopenhauer disserta, em belíssimas páginas, sobre a beatitude – estado que, segundo ele, se alcança pela tomada de consciência e consequente superação da Vontade. Ele mesmo, porém, parece ter sido incapaz de alcançar o amor universal que tanto admirava. Em que pese a tendenciosidade dos biógrafos, tornou-se anedótico o episódio em que ele empurrou Caroline Marquet de uma escadaria – supostamente porque ela estava fazendo barulhos de propósito para aborrecê-lo enquanto ele estudava. Os demais episódios de sua vida adulta e velhice parecem revelar um personagem que sofreu não com a resignação indiferente dos santos, mas com o mau-humor dos gênios.
                Tanto a conclusão do Mundo como Vontade e Representação como a biografia de Schopenhauer parecem revelar um homem que esteve próximo de alcançar o paraíso, mas que jamais pôde ultrapassar o derradeiro limiar. E tal incapacidade é notória, pois ela se manifestou num homem que tinha uma das mais fascinantes inteligências que o mundo já testemunhou.
                Por que Schopenhauer não se tornou um santo? Para responder eu cito Nicolau de Cusa – autor do fascinante tratato de misticismo renascentista, A Visão de Deus. Segundo ele, a equalização dos opostos no Todo – a realidade revelada quando se suspende o véu de Maia, que equivale ao esvaziamento ontológico a que a filosofia de Schopenhauer chegou – ainda não é o Paraíso. O coincidentia oppositorum – ou coincidência dos opostos, na terminologia mais precisa – não se confunde com Deus, mas é a barreira que se interpõe entre todo conhecimento e Deus: é aquilo que Nicolau de Cusa chama de "muro do Paraíso".
                Ou seja, podemos usar nosso intelecto para tentar alcançar a visão do divino, porém se dependermos apenas dele, jamais poderemos chegar ao final de nossa jornada, pois ao fim do caminho encontraremos uma muralha intransponível. Podemos usar nossa mente apenas para intuir o mistério e nos referirmos a ele de forma indireta, mas jamais poderíamos dominá-lo ou decifrá-lo usando uma mente que está condicionada não só pelo tempo e espaço, mas pelo princípio da individuação e pela causalidade (ou princípio da razão, na terminologia de Schopenhauer). Nem mesmo a meditação seria capaz de nos fazer ultrapassar essa barreira – e talvez o Nirvana budista não seja mais do que a plácida contemplação deste fascinante muro – em que o mundo inteiro se anula, o bem torna-se o mal, o cima é o embaixo e o dentro está fora.
                O homem não pode, apenas com suas forças, ultrapassar este obstáculo: a salvação é um milagre, ou seja, uma intervenção divina. Nenhuma meditação bastará para conhecermos a natureza de Deus: toda tentativa racional de descrevê-lO ou é filosofia de má qualidade, ou é um triste equívoco – a confusão do Criador com a barreira que ele interpôs entre Si e o mundo.
                Por isso a trilha de Schopenhauer desemboca no Nada. Abençoado por sua inteligência, ele chegou ainda muito jovem aos limites do cognoscível. Mas, uma vez tendo alcançado essa proeza, ele não teve como avançar. E calou-se, confundindo o enigma com a sua solução. Sem a inspiração da ideia de Deus nem orações para inspirar-lhe que caminho seguir, ele armou sua tenda em frente aos portões do Paraíso e esperou amargamente a chegada do fim de seus dias – quase como o personagem kafkiano, que se postou diante de um portão sem saber que a abertura estava ali apenas para que ele e somente ele pudesse entrar.
                Um melancólico destino para esse extemporâneo budista do Ocidente – que em tanto contribuiu para aliviar o sofrimento solitário dos muitos leitores a quem ele presenteou sua obra.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre a Totalidade Absoluta do Ser e a Porra Toda





Eduardo Siebra

                A janela do trabalho... um monte de carros passando pelo Eixo Monumental, pedestres indo para lá e para cá fazer sei lá o que, o apito do guardinha quando algum motorista faz uma cagada, as nuvens, sempre o mesmo lero lero. Que paisagem eu veria dessa mesma janela daqui a dez milhões de anos? As crateras fumegantes de um cenário pós-apocalíptico? A superfície morta de um planeta sem vida? Ou a mesma lezeira de sempre, os carrinhos passando, os passarinhos piando e essa coisa toda?
                Eita vidinha! E as coisas estupendas? E o sentido da vida tomada como um todo?  Que intrigante essa tal de Totalidade Cósmica, ou seja o Ser Tomado em sua Estupenda Integralidade. É difícil falar sobre o Absolutamente Incondicionado porque quase nunca nos damos ao trabalho de pensar nele. Mas, bem, ele está aí, até mesmo na vista da janela de meu trabalho.
                Todo esse monte de coisas, todos esses negócios, esses trecos, e estão todos aí, nos carros que passam e nas nuvens que flutuam preguiçosamente. É claro, nossos sentidos podem nos enganar, e talvez o que nós supomos ser a Totalidade Universal seja apenas uma mera ilusão. Mas disso podemos ter certeza: a impressão ou ilusão de uma Totalidade está aí – e não é já isso incrível?
                Eu, pessoalmente, acho que sim. Existir é a suprema característica do mundo, seja como realidade, seja como aparência. As aparências existem, afinal, e o Tudo – ou a imagem do Tudo – aparenta ser grande pra dedéu. Mas também muito pequeno, menor ainda que os passarinhos que vejo passar, de vez em quando. O Tudo está no grande e no pequeno, no longe e no perto.   
                Engraçado isso, porque, tomado como realidade, o Conjunto Universo do Ser parece ser estupendamente gigantesco – quase infinito, para todos os aspectos práticos que possam interessar a um homo sapiens com foco na vida. Porém, nós jamais poderíamos conhecer esse povaréu de coisas como um objeto em si mesmo: estamos presos à nossa consciência, e tudo isso que nos soa tão descomunal só é vivido, na verdade, nos estreitos limites de nosso cérebro, e pela apreciação das pequenas e inumeráveis coisinhas que, quando tomadas em conjunto, formam o universo inteiro. Bem que os místicos dizem que a realidade absoluta é cheia de contradições – o coincidentia oppositorum, a muralha do Paraíso, o véu de Maia!  
                Eis um grande mistério, que na nossa cabeça – em que mal cabem todos os nomes dos sete anões da Branca de Neve – possa caber o universo inteiro. Há até quem ache que fora dela não pode haver mundo: nossa consciência é como que um farol de realidade, e para onde ela se volta, surge, como que num passe de mágica, no exato instante que antecipa nosso olhar, uma parte do mundo, com todos seus infinitos detalhes e suas regras internas de coesão. Como se o universo existisse apenas em potencial, para se tornar realidade (fenômeno) apenas quando efetivamente é conhecido... Faz até sentido: para que um universo tão grande e escabroso se ele não pudesse ser conhecido (e admirado)?
                Só que o buraco cosmológico é ainda mais embaixo. Nossa mente também é fragmento e, como todo fragmento que mereça o mínimo de respeito, faz parte do Todo. E isso nos leva a um paradoxo do caralho – com o perdão do termo, não encontrei verbalização mais apropriada para o sentimento por que ora estou tomado, enquanto contemplo o mistério da Coisa Inteira enquanto olho pela janela – que é o fato de o mesmo Universo que conhecemos mentalmente ser o pressuposto formal, imprescindível, para que nossa mente possa ser concebida! Vejam só! Será possível, então, que nossa mente e o universo sejam a mesma coisa? Olha a coincidentia oppositorum de novo!
                Se um dia o leitor for participar de uma prova ou concurso sobre os grandes mistérios do Ser, eis um conselho infalível: basta responder que, no Absoluto, as contradições se igualam. Ou seja, responda sem medo: o sim é o não, o alto é o baixo, o antes é o depois, o sujeito é o objeto, o princípio é o fim.
                E o bem, é o mal?
                Melhor deixar essa em branco.
             Mas voltando, lá vão os pedestres passando pela calçada, com a cabeça cheia de questões práticas, sem nem por um segundo – até, pelo menos, onde sei – se preocuparem com o estarrecedor fato de que eles talvez estejam co-criando essa mesmíssima realidade que às vezes os aborrece tanto. Não sei se é consolador ou deprimente pensar isso: que se eu morresse agora, ainda haveria um monte de pedestres e de burocratas intelectualmente pretensiosos para co-criar o mundo com suas consciências, e essa mesma vidinha besta que testemunho pela janela de meu trabalho continuaria existindo pelas décadas sem fim do futuro... Será que é por isso que temos tanto essa necessidade de descobrir coisas novas – coisas nunca antes vistas – por inconscientemente suspeitarmos que o nosso ato de descoberta é, na verdade, um instante de criação? Se for assim, vai saber se todos esses abismos interestelares existiam antes dos astrônomos direcionarem seus telescópios para o céu! Talvez o conhecimento alargue o mundo a cada fronteira que ultrapassa.
Bem, não dá para ter certeza sobre essas questões, o que dá para saber é que, seja o Todo uma realidade em si mesma, seja Ele uma entidade puramente mental, o fato é que ele abarca tudo o que existe. Tudo, tudo mesmo, as galáxias, os aspargos, as coleções de tampinha de Coca-cola, as carabinas, eu, você, o Mao Zedong, Madame Blavatsky, o escambal, o escarcéu, o beleléu, a porra toda. A Totalidade Cósmica é foda, ela inclui tudo, tudo mesmo, e não apenas o que existe, mas também o que já existiu e o que existirá. Se brincar, ela inclui até mesmo o que não existe – ou, pelo menos, o que poderia, hipoteticamente existir.
                Ou seja, além do desconhecido, o Todo também abarca o irreal. Pois um sonho ou um mundo imaginário – ainda que sejam criações de nossas mentes – também são alguma coisa e, como toda coisa, fazem parte da Realidade Total. Ou seja, se alguma criatura incrivelmente inteligente e ociosa algum dia se desse ao trabalho de escrever numa enorme folha de papel pautado todas as coisas que existem, ele teria que registrar não apenas aquilo que pode ser sentido como um objeto concreto, mas também os desejos, os pecados, as loucuras e até mesmo os unicórnios, os pecados sonhados, os smurfs e a fuinha cabeluda, cor-de-rosa e comedora de gente que acabei de imaginar.
                Tentar pensar nisso até dá uma tontura. Imagine só, esse tanto de coisa... Como se o real já não bastasse! E para quê? Para que tudo isso, meu Deus do Céu? Tanta estrela, tanto menino barrigudo, tanta água-viva, tanto palito de picolé, tanta roldana, tanta fita crepe?
                Mais um dos mistérios da Totalidade Cósmica Universal: embora seja nele que tudo adquira um sentido, Ele próprio é destituído de sentido, já que nada pode possuir um sentido fora dele. E isso por uma razão muito simples: um sentido é alguma coisa e, como coisa, faz parte da Totalidade Universal. Sendo assim, o que quer que supuséssemos que fosse o sentido do Universo Tomado como Totalidade é, na verdade, parte desse Todo e, portanto, não poderia ser usado como referência externa para julgá-lo. Incrível, isso, mas é assim: o Todo em sua inteireza não pode possuir um sentido – pelo menos não para uma mente que funcione como a nossa.  Pode-se pensar que o Todo seja o seu próprio sentido, mas vamos convir que isso não diz lá muita coisa – seria mais ou menos como dizer que o Todo é o Todo... Ou quem sabe o sentido não está cifrado no Todo – como um compartimentozinho secreto da realidade? Ainda assim, seria algo que estaria "dentro" do mundo. A verdade não está lá fora... a verdade está aí, bem debaixo do seu nariz!
                Bem, talvez os significados não sejam atributos do Todo, mas apenas de suas partes. O que nos traz à curiosa percepção de que certas partes do Todo são capazes de perceber e atribuir sentidos. É exatamente isso que nós, seres humanos, fazemos. Nunca é demais lembrar que os seres humanos são, do mesmo modo que as estalactites, partes do Absolutamente Tudo, e se eles – ao contrário das estalactites, pelo menos até onde sabemos – são capazes de contemplar a Totalidade Universal, isso significa que o Universo é, em parte, capaz de contemplar a si mesmo.
                E aí sim, a coisa começa a ficar complicada. Tudo está aí, como uma imanência perfeitamente indiferente, e nós, bestas que somos, estamos aqui feito fragmentos, nos angustiando a respeito do sentido de nossas vidas, quando, na verdade, estamos nos preocupando com algo que nós também somos! Ou seja, nossa individualidade, nossa noção de eu é um erro de foco: a consciência que desenvolvemos como parte é, na verdade, a consciência do todo – que, por não poder ser sujeito enquanto todo, precisa de suas partes para se conhecer! Ou seja, toda aquela meditação transcendental em busca da consciência cósmica talvez seja um terrível erro de cálculo: nós é que somos a consciência do universo! Nós, seres vivos, é que tornamos possível ao mundo a dor, a alegria e as tenebrosas especulações intelectuais! A não ser, claro, que o universo inteiro seja um grande cérebro... Vai saber!
                Terá a Totalidade um começo no tempo? Essa é fácil, hein, o Kant já a matou no comecinho da Crítica da Razão Pura. Bem, quer nós tomemos o tempo como uma dimensão no continuum espaço-temporal, quer nós suponhamos que ele é uma mera forma de nossa percepção do mundo, não podemos negar que ele é alguma coisa e que, portanto, está contido na Totalidade Totalmente Totalizante. Ou seja, embora o tempo possa ser uma medida implacável para praticamente tudo o que existe, ele não pode ser usado como referência para o conceito de Tudo O Que Há. Será, então, que isso equivale a dizer que o Todo é eterno? De modo algum: significa apenas dizer que o conceito de tempo não faz sentido para a Totalidade Universal. E tome mais uma lapada no senso comum hominídeo!
                O mesmo se diga da ideia de espaço. O que haverá fora do Todo? A pergunta não faz sentido, já que dentro e fora são ideias que só fazem sentido para coisas que já estão no espaço, ou seja, no mundo. O Universo Tomado em Sua Totalidade não é sequer uma coisa que possa ser considerada como um objeto do conhecimento! Ele é, quando muito, um conceito da razão destrambelhada – e um conceito escandalosamente terrível!
                E irrelevante. Pois ele é um pressuposto mental que, por abarcar tudo, é incapaz de fazer qualquer diferença. Tanto faz como tanto fez: o Todo é o óbvio, apresentado de uma forma complicada. Ou seja, ele possivelmente é o mais inútil dos conceitos, pois por ser tão abrangente, ele não acrescenta nada de novo ao conhecimento. Ele só serve para nos assoberbar com o que já pressentíamos.  Para bem dizer a verdade, do ponto de vista prático, o Todo é o Nada – e pode olhar aí no gabarito da prova se duvidar.
                O que nos traz forçosamente de volta à janela de meu escritório de trabalho, aos carros, aos passarinhos, às nuvens deslizando pelo céu de Brasília, à vidinha besta que levo, enfim. E não só porque um texto pretensioso como esse precisa, para causar efeito, terminar falando das coisas singelas da vida, mas porque é essa a parte do Todo que eu, como parte, contemplo agora: eu, criatura consciente, que sou o centro do universo inteiro!  Esta é a minha situação: eis, aí, o mundo.
                Foda isso, viu?