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domingo, 27 de julho de 2014

Rachmaninoff e Fra Angelico: uma aproximação estética



Frederico Luiz, Ciudad del Este 


Escuto música e fico a imaginar... hoje à noite num teatro ou numa igreja qualquer da imensa Rússia um coral canta as VÉSPERAS Op. 37 de Sergei Rachmaninoff. Vésperas são as orações de fim de tarde dos monges. No caso das Vésperas de Rachmaninoff, trata-se de música sacra composta para a Missa da Vigília Pascal, isto é, a noite do Sábado de Aleluia.



Segundo o costume judeu, o dia acaba com o pôr-do-sol, e não com o relógio da meia-noite. Assim, na noite do Sábado Santo os cristãos celebram os primeiros instantes da ressurreição do Senhor, quando os anjos mal haviam rolado a pedra da sepultura e Jesus ainda não subira para a glória celeste. No Sábado, a glória da ressurreição ainda não estava completa. Tudo se consumaria no Domingo.

Por que, em pleno século XX, Rachmaninoff escolheu o canto polifônico renascentista?

Escuto música e fico a imaginar... Talvez porque quisesse dar a sensação de um acontecimento sublime, profundo, mas ainda não definitivo. Pois quem já escutou, por exemplo, o famoso GLÓRIA de Vivaldi fica na expectativa de alguma explosão que nunca se realiza nas VÉSPERAS de Rachmaninoff, explosão de instrumentos que nunca chega a acontecer.

É como se a música ficasse em suspenso, como no NOLI ME TANGERE de Fra Angelico (1387-1455).








- Não me retenhas, Maria, porque ainda não subi ao Pai, mas vai dizer aos meus irmãos que subirei ao Pai” (Jo 20, 17).

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pensando Alto: Sobre Realidades-Simulacro




 


Eduardo Siebra, 13/05/14

                Se parto da constatação filosófica de que toda realidade é fenômeno (ou seja, toda percepção do mundo é mediada pelos sentidos) como posso diferenciar o mundo "real" do mundo "virtual", se essas duas realidades se me apresentam quase que com a mesma verossimilhança? Ou seja, se as companhias de entretenimento conseguirem criar um jogo de video-game tão convincente e realista, e tão profundo e cheio de possibilidades que quase pudesse ser considerado um segundo universo, como eu poderia dizer que a experiência de vida que eu tivesse dentro desse jogo seria menos importante do que a experiência que posso ter no mundo?
                Essa pergunta é traiçoeira, já que não podemos conhecer a coisa-em-si do mundo. Se não sabemos qual é a suposta essência da realidade, então aparentemente é vã qualquer tentativa de diferenciar o mundo real das realidades-simulacro (jogos de vídeo-game e ambientes virtuais de interação, por exemplo).
                Ainda assim, arrisco dizer que cada segundo da vida de um ser humano usado em jogos virtuais é um perigoso desperdício. Video-games são uma espécie de entorpecentes para a mente humana cujo princípio operante reside na nossa incapacidade de diferenciar um fenômeno vivido no mundo de um fenômeno simulado – uma imagem gerada digitalmente, por códigos binários, cujas características sensoriais em muito se aproximam do que nosso cérebro registraria como um fenômeno real.
                Esse é o mesmo fundamento da arte: pela imitação do real, o homem é capaz de provocar realidades imaginadas. Numa peça teatral,  a representação dos atores tem toda a aparência de uma situação real. A suspensão da descrença – que nos permite por alguns instantes tomar como verdadeira a encenação – torna-se possível quando a performance é boa o bastante para nos convencer que os gestos e falas são tão reais quanto os da vida. O mesmo se diga dos filmes, cujas imagens são um veículo de verdadeiros universos imaginados. Algumas obras de arte são tão boas que chegam a ser até mais verossímeis que a realidade – muita vezes vivemos situações que poderiam ter saído de um romance ruim, escrito por um autor com certa inclinação aos enredos rocambolescos e às reviravoltas súbitas.
                A arte, enquanto espelho do mundo, pode, além de ser bela, ter certo efeito pedagógico. Apesar de sua verossimilhança – suficiente para muitas vezes nos afeiçoarmos a personagens que, embora jamais tenham existido, nem por isso foram menos queridos, como velhos amigos – muito raramente nos deixamos iludir a respeito de sua realidade. Conhecemos bem seu status ontológico, e mesmo os arroubos fantasiosos da arte têm como referência o mundo e forçosamente nos remetem de volta a ele. A ficção, portanto, pode ser um importante exercício de consciência, que nos ajuda, pela imaginação, a nos tornarmos mais seguros quanto à posição que nós mesmos ocupamos na existência. Também é pela ficção que aumentamos nosso repertório de experiências vividas: ao ler sobre o que acontece com os personagens, num certo sentido vivemos suas vidas e nos enriquecemos existencialmente.
                Qual a diferença, então, em relação aos vídeo-games e à internet? É a interatividade, eu diria. Ao lermos um livro ou assistirmos a uma peça, somos expectadores: estamos fora da obra. Durante a inteireza da experiência estética nós adotamos uma postura puramente contemplativa: acompanhamos a obra talvez da mesma forma que os deuses contemplem a vida humana, do alto de sua montanha sagrada.
                No vídeo-game não: o expectador pode, também, intervir no rumo da narrativa. O jogador está, na verdade, dentro da narrativa, e suas decisões afetam seu desenrolar. É quase como se nós pudéssemos entrar na Ilíada e participar dos diferentes embates, influenciando o resultado da peleja entre gregos e troianos.
               A interatividade desencadeia, de forma inconsciente, uma das capacidades mais importantes que utilizamos para aprender sobre o mundo e intervir nele: nossa pulsão lúdica. A vida, num certo sentido, é brincadeira, pois nossa liberdade se exerce sobre os objetos do mundo como intervenções e apostas. E se apenas um louco confundiria o enredo de um romance com a realidade, não são poucos os jovens inteligentes que acham valer a pena viver numa espécie de sub-realidade, onde eles podem alcançar satisfações e transformarem-se em personas muito mais interessantes que aquelas que exercem na vida real.
                O problema é que os vídeo-games que nós jogamos são inventados por homens como nós. Ainda que seja possível empregar muito talento e expertise técnica para engendrar mundos fabulosos – fundamentados em complexas equações que são capazes de gerar resultados aleatórios e sempre novos, que sempre renovam a experiência do jogar – tal realidade sempre encontrará um limite cognitivo, definido pela incapacidade humana de produzir consciência ou de criar, como talvez tenha criado Deus, universos. 
           Não acho inconcebível um jogo de video-game que pudesse exercer um papel aparentado ao da arte. O que dá riqueza a uma narrativa, afinal, é a criatividade do autor, o qual partindo da experiência real do mundo é capaz de criar personagens, acontecimentos e lugares que, mesmo sendo fantasiosos, possuem profundidade e complexidade derivadas da vida efetivamente vivida. Um video-game autoral poderia assumir essa função narrativa, mudando o foco da mera construção de ambientes simulados de divertimento para gerar uma experiência ainda mais radical de ficção - uma espécie de romance aberto, em que o leitor seria, também, personagem.
           Tal potencialidade, porém, muito raramente é explorada a sério, e isso porque desde seu nascimento os video-games estão vinculados às considerações mercantis da indústria do entretenimento. Os video-games nasceram como mercadoria, e seu apelo reside não na capacidade de trazer consciência ao consumidor - o que demandaria concentração e alguma medida de esforço - mas sim na capacidade de relaxamento criada pela interação com situações de jogo pré-concebidas. É por isso que neles o elemento autoral é muito pequeno: o que realmente interessa é a engenhosidade do mecanismo-mundo, ou seja, a programação da realidade virtual em que o jogador poderá viver sua segunda vida.
          Além disso, por mais sofisticados que estejam se tornando os jogos, nós não somos capazes de criar uma realidade em que possam conviver o exercício da liberdade do jogador com a profundidade psicológica e semântica que encontramos na literatura. A complexidade dos livros é derivada do mundo real. À medida em que o autor vai criando seus enredos, ele possui liberdade para deixar sua estória fluir numa ou noutra direção. Porém, uma vez que a narrativa está completa, ela é um todo que não pode mais ser alterado. Por mais imprevisíveis que sejam os meandros do enredo, ele é um universo fechado, uma espécie de fotografia do imprevisível. Não cabe ao leitor intervir na estória e mudar o desfecho...
         Nos video-games liberdade e narrativa podem conviver, porém apenas num nível, básico, quase mecânico. Ou o jogador escolhe entre possíveis linhas narrativas pré-determinadas pelos programadores, ou a construção do enredo se dá de forma simplória, mediante a interação com referências numéricas como "pontos" ou conquistas. Ou seja, um video-game que tivesse a pretensão de profundidade narrativa só conseguiria alcançar esse objetivo sacrificando a liberdade de atuação do jogador (um exemplo muito concreto disso são os antigos jogos da LucasArts, que apresentavam narrativas muito interessantes, porém rigidamente pré-definidas).
           A coexistência de imensurável liberdade com imensurável profundidade/complexidade é um atributo do mundo. E a nós, homens, não foi dada o dom de criar verdadeiros mundos - do mesmo modo que não nos foi dado o dom de dar vida. Nosso poder criativo pode ser metaforicamente expresso pelo fogo de Prometeu – partilhamos, de forma derivada, a mesma inclinação gerativa que talvez esteja na origem do ser. Somos capazes de inovar, de sonhar com mundos que ainda não existiram e de tentar torná-los reais. Mas a metáfora se completa quando Prometeu é acorrentado no abismo – ou quando Ícaro morre afogado no oceano, após o sol ter derretido a cera das asas que ele usava para voar pela amplidão azul do céu: nosso poder criador tem um limite, e nós não podemos gerar autêntica vida ou um autêntico mundo. E isso porque somos humanos: ser capaz de criar autêntica vida e autêntico mundo talvez seja uma boa definição para o que é ser Deus.
                Ou seja, por mais fascinante que seja a complexidade de um jogo de vídeo-game, sua realidade estará para sempre condicionada à variabilidade tornada possível pela matemática humana. As situações, ainda quando aleatórias, são situações em algum momento pensadas e programadas por alguém. Os resultados possíveis também foram em algum momento antecipados e associados pelos criadores do jogo. Essa pobreza fenomenológica, porém, dificilmente será percebida pelo jogador habitual em razão dos fascinantes gráficos e sons, criados com o declarado propósito de nos deslumbrar, ou seja, de tornar praticamente impossível à nossa capacidade de percepção entender que o que estamos experimentando é uma sensacional e engenhosa ilusão. E, ao supormos que estamos nos divertindo, deixamos bons pedaços de nossas vidas escorrerem pelo ralo: vivemos numa divertida miragem, onde somos mais poderosos, mas que constrange nosso intelecto aos estreitos limites definidos por uma equipe de designers e de matemáticos. 
                   Já os limites conceituais do mundo real não estão ao alcance de nossa mente. É pura presunção hominídea achar que um dia nós conseguiremos desvendar os códigos que cifram as possibilidades da vida. O universo – esse intrigante playground da alma – será para nós um eterno enigma, uma fonte infindável de experiências boas e ruins, a partir das quais podemos iniciar nossa busca pelo conhecimento. Ele é pura possibilidade, puro potencial, e sabemos lá nós quais são os infinitos caminhos que podemos trilhar em nossa vida. O melhor que podemos fazer é vivê-la. 
                E se esta também é uma realidade-simulacro – da qual um dia nós nos libertaremos quando caírem as escamas que impedem nossos olhos de ver outra realidade ainda mais real – resta-nos pelo menos a certeza de que esse real que está ao nosso alcance é uma realidade-simulacro infinitamente mais rica, mais bela e mais interessante do que aquelas dos mundos virtuais, pois por trás de suas equações encontra-se não um homem, mas o intrigante Programador cuja intenção nosso coração anseia conhecer.   

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Übermensch e a Iluminação Espiritual



Eduardo Siebra, 16/04/14

            Um dos benefícios da leitura de "O Mundo como Vontade e Representação" é a luz que a obra lança sobre alguns dos pontos mais difíceis da filosofia de Nietzsche. Não que Nietzsche seja apenas um schopenhaueriano – sua obra é multifacetada e muito mais complexa do que isso – porém ele leu Schopenhauer em sua juventude, e embora suas criações não sejam um desdobramento direto da filosofia de seu antecessor, é razoável dizer que Schopenhauer forneceu a Nietzsche o vocabulário sem o qual ele não poderia ter começado a desenvolver seu pensamento.   
            Eu diria que é como se a influência de Schopenhauer estivesse presente num nível inconsciente – nem tanto pelo fato de Nietzsche compartilhar as preocupações ou conclusões desse seu antigo mestre, mas sim porque as discussões nietzscheanas partem do panorama intelectual que Schopenhauer delineou – do mesmo modo que as reflexões de Schopenhauer só foram possível em cima do terreno meticulosamente arado por Kant.
            Um dos mais intrigantes aspectos dessa conexão não-declarada entre os dois pensamentos é o conceito de "transvaloração de todos os valores" – supostamente o caminho que poderia levar um homem comum a transformar-se no übermensch prenunciado por Zaratustra. Não nos iludamos pela diferença de tom: o que Nietzsche apresenta de forma tão poética é, num certo sentido, uma ideia já explorada por Schopenhauer ao dissertar sobre a beatitude.
            Quando o sábio simbolicamente sobe à montanha, ele substitui sua perspectiva rasteira de indivíduo pelo que poderia ser descrito como a visão panorâmica: ele passa a ver o horizonte, o abrangente, e aspectos da vida que antes lhe eram indecifráveis (e muitas vezes terríveis) tornam-se, desta elevada perspectiva, não apenas compreensíveis, mas aceitáveis. O sábio, então, transcende a moral, já que o conceito limitador de bem e de mal, embora possa ser significativo para o homem médio que labuta na planície, perde o sentido quando o espetáculo da vida se descortina do alto. Por isso o übermensch pode ser tão terrível: ao decifrar seu próprio destino meditando sobre o abismo, ele se liberta da responsabilidade e da culpa, já que ele é, mais do que homem, uma expressão pura da Vontade de Potência que é a essência mesma do mundo. Nós, humanos, não podemos julgá-lo, pois julgá-lo seria querer  julgar o mundo e a vida.
            Essa é apenas uma maneira imageticamente mais rica de tratar da superação daquilo que Schopenhauer chama de "princípio da individuação". Segundo sua filosofia, não apenas todo homem, mas tudo o que existe é a expressão de uma única e mesma Vontade. Somos aspectos particulares de um todo que se objetifica no mundo. Percebemos o mundo pelos filtros do tempo e do espaço, e estamos aprisionados, pelo querer, ao nosso ego. Porém, segundo Schopenhauer, em circunstâncias muito raras, pessoas excepcionais são capazes de alcançar, pelo conhecimento, a compreensão do erro de perspectiva que nossa vida individual representa. É a experiência de iluminação descrita pelos budistas e o estado de indiferenciação descrito nos Upanixades: o santo compreende que ele é uma expressão do Todo, e que no Todo, tudo se equaliza.
            Não acho temerário dizer que o übermensch nietzschiano é uma atualização poética do santo descrito por Schopenhauer. Os dois arquétipos expressam a mesma iluminação – a compreensão da vida no contexto da totalidade. A única e essencial diferença reside na missão criadora que Nietzsche atribui ao herói por ele profetizado: enquanto Schopenhauer supõe que o seu santo necessariamente se ausentaria da vida – ainda quando, exteriormente, continua a praticar boas ações aos seus semelhantes – o übermensch é uma força criadora e fundadora. Ele é o pai do futuro, um super-herói moral que está capacitado e credenciado não apenas a destruir a humanidade antiga, mas também a semear a humanidade futura.
            Essa diferença se explica por uma divergência psicológica fundamental entre Schopenhauer e Nietzsche: enquanto para o primeiro a Vontade é a causa de toda vida mas, também, de todo o sofrimento humano (ou seja, é a fonte de todas as nossas misérias), a Vontade de Potência nietzschiana é a fonte de onde jorra toda a beleza, toda a poesia do mundo. O universo, para Nietzsche, não é uma terrível máquina de atormentar a consciência: é, pelo contrário, o palco no qual a consciência, mesmo quando atormentada, pode exultar, seja pela música, seja pela conquista, seja pela expressão inconsequente da força ou da generosidade. Schopenhauer nos diz: o mundo é ruim; e ao decifrá-lo, o santo o supera. Nietzsche diz: o mundo é bom, e ao decifrá-lo, o übermensch o conquista.
            Eu diria que os dois pensadores estão certos, e que eles estão dissertando sobre a mesma verdade a partir de perspectivas diferentes. O erro de Schopenhauer talvez seja apenas o de supor que a iluminação equivalha à anulação do sujeito e do mundo: o Buda não desapareceu ao alcançar o Nirvana, e mesmo diante da derradeira compreensão, ele continuou imerso na imanência, na mundidade, e julgou que valeria a pena transmitir seus ensinamentos a seus antigos iguais, para aliviar-lhes as dores. Ou seja, a suprema compreensão se dá no Ser, dentro do mundo e no contexto de seus dramas.
            O erro de Nietzsche talvez tenha sido o de supor que seu übermensch, depois de ultrapassar o derradeiro limiar do bem e do mal, ainda estaria preocupado em impor sua vontade de potência individual. O homem que alcança a compreensão suprema poderia até infligir, com a consciência tranquila, terríveis sofrimentos aos demais, porém ele carece de motivação para tanto. Ele não é mais a expressão de sua vontade particular, mas ele é a expressão mesma da vida tomada em sua inteireza. Suas glórias são as glórias da vida e do mundo, e a vida e o mundo estão pouco preocupados em afirmar uma ou outra vontade específica. Ou seja, ao invés de um terrível conquistador, ou de um herói teutônico disposto a incendiar a Europa inteira, o übermensch, caso existisse, provavelmente seria um homem de profunda serenidade e nenhuma ansiedade – alguém que poderia assistir aos maiores horrores com absoluta indiferença, mas que não teria razão para fazer mal a um inseto. Ou seja, ele fundaria o novo mundo com a resignação de quem cumpre um inevitável destino, não com a impaciência dos que fundam um império.   

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre a Totalidade Absoluta do Ser e a Porra Toda





Eduardo Siebra

                A janela do trabalho... um monte de carros passando pelo Eixo Monumental, pedestres indo para lá e para cá fazer sei lá o que, o apito do guardinha quando algum motorista faz uma cagada, as nuvens, sempre o mesmo lero lero. Que paisagem eu veria dessa mesma janela daqui a dez milhões de anos? As crateras fumegantes de um cenário pós-apocalíptico? A superfície morta de um planeta sem vida? Ou a mesma lezeira de sempre, os carrinhos passando, os passarinhos piando e essa coisa toda?
                Eita vidinha! E as coisas estupendas? E o sentido da vida tomada como um todo?  Que intrigante essa tal de Totalidade Cósmica, ou seja o Ser Tomado em sua Estupenda Integralidade. É difícil falar sobre o Absolutamente Incondicionado porque quase nunca nos damos ao trabalho de pensar nele. Mas, bem, ele está aí, até mesmo na vista da janela de meu trabalho.
                Todo esse monte de coisas, todos esses negócios, esses trecos, e estão todos aí, nos carros que passam e nas nuvens que flutuam preguiçosamente. É claro, nossos sentidos podem nos enganar, e talvez o que nós supomos ser a Totalidade Universal seja apenas uma mera ilusão. Mas disso podemos ter certeza: a impressão ou ilusão de uma Totalidade está aí – e não é já isso incrível?
                Eu, pessoalmente, acho que sim. Existir é a suprema característica do mundo, seja como realidade, seja como aparência. As aparências existem, afinal, e o Tudo – ou a imagem do Tudo – aparenta ser grande pra dedéu. Mas também muito pequeno, menor ainda que os passarinhos que vejo passar, de vez em quando. O Tudo está no grande e no pequeno, no longe e no perto.   
                Engraçado isso, porque, tomado como realidade, o Conjunto Universo do Ser parece ser estupendamente gigantesco – quase infinito, para todos os aspectos práticos que possam interessar a um homo sapiens com foco na vida. Porém, nós jamais poderíamos conhecer esse povaréu de coisas como um objeto em si mesmo: estamos presos à nossa consciência, e tudo isso que nos soa tão descomunal só é vivido, na verdade, nos estreitos limites de nosso cérebro, e pela apreciação das pequenas e inumeráveis coisinhas que, quando tomadas em conjunto, formam o universo inteiro. Bem que os místicos dizem que a realidade absoluta é cheia de contradições – o coincidentia oppositorum, a muralha do Paraíso, o véu de Maia!  
                Eis um grande mistério, que na nossa cabeça – em que mal cabem todos os nomes dos sete anões da Branca de Neve – possa caber o universo inteiro. Há até quem ache que fora dela não pode haver mundo: nossa consciência é como que um farol de realidade, e para onde ela se volta, surge, como que num passe de mágica, no exato instante que antecipa nosso olhar, uma parte do mundo, com todos seus infinitos detalhes e suas regras internas de coesão. Como se o universo existisse apenas em potencial, para se tornar realidade (fenômeno) apenas quando efetivamente é conhecido... Faz até sentido: para que um universo tão grande e escabroso se ele não pudesse ser conhecido (e admirado)?
                Só que o buraco cosmológico é ainda mais embaixo. Nossa mente também é fragmento e, como todo fragmento que mereça o mínimo de respeito, faz parte do Todo. E isso nos leva a um paradoxo do caralho – com o perdão do termo, não encontrei verbalização mais apropriada para o sentimento por que ora estou tomado, enquanto contemplo o mistério da Coisa Inteira enquanto olho pela janela – que é o fato de o mesmo Universo que conhecemos mentalmente ser o pressuposto formal, imprescindível, para que nossa mente possa ser concebida! Vejam só! Será possível, então, que nossa mente e o universo sejam a mesma coisa? Olha a coincidentia oppositorum de novo!
                Se um dia o leitor for participar de uma prova ou concurso sobre os grandes mistérios do Ser, eis um conselho infalível: basta responder que, no Absoluto, as contradições se igualam. Ou seja, responda sem medo: o sim é o não, o alto é o baixo, o antes é o depois, o sujeito é o objeto, o princípio é o fim.
                E o bem, é o mal?
                Melhor deixar essa em branco.
             Mas voltando, lá vão os pedestres passando pela calçada, com a cabeça cheia de questões práticas, sem nem por um segundo – até, pelo menos, onde sei – se preocuparem com o estarrecedor fato de que eles talvez estejam co-criando essa mesmíssima realidade que às vezes os aborrece tanto. Não sei se é consolador ou deprimente pensar isso: que se eu morresse agora, ainda haveria um monte de pedestres e de burocratas intelectualmente pretensiosos para co-criar o mundo com suas consciências, e essa mesma vidinha besta que testemunho pela janela de meu trabalho continuaria existindo pelas décadas sem fim do futuro... Será que é por isso que temos tanto essa necessidade de descobrir coisas novas – coisas nunca antes vistas – por inconscientemente suspeitarmos que o nosso ato de descoberta é, na verdade, um instante de criação? Se for assim, vai saber se todos esses abismos interestelares existiam antes dos astrônomos direcionarem seus telescópios para o céu! Talvez o conhecimento alargue o mundo a cada fronteira que ultrapassa.
Bem, não dá para ter certeza sobre essas questões, o que dá para saber é que, seja o Todo uma realidade em si mesma, seja Ele uma entidade puramente mental, o fato é que ele abarca tudo o que existe. Tudo, tudo mesmo, as galáxias, os aspargos, as coleções de tampinha de Coca-cola, as carabinas, eu, você, o Mao Zedong, Madame Blavatsky, o escambal, o escarcéu, o beleléu, a porra toda. A Totalidade Cósmica é foda, ela inclui tudo, tudo mesmo, e não apenas o que existe, mas também o que já existiu e o que existirá. Se brincar, ela inclui até mesmo o que não existe – ou, pelo menos, o que poderia, hipoteticamente existir.
                Ou seja, além do desconhecido, o Todo também abarca o irreal. Pois um sonho ou um mundo imaginário – ainda que sejam criações de nossas mentes – também são alguma coisa e, como toda coisa, fazem parte da Realidade Total. Ou seja, se alguma criatura incrivelmente inteligente e ociosa algum dia se desse ao trabalho de escrever numa enorme folha de papel pautado todas as coisas que existem, ele teria que registrar não apenas aquilo que pode ser sentido como um objeto concreto, mas também os desejos, os pecados, as loucuras e até mesmo os unicórnios, os pecados sonhados, os smurfs e a fuinha cabeluda, cor-de-rosa e comedora de gente que acabei de imaginar.
                Tentar pensar nisso até dá uma tontura. Imagine só, esse tanto de coisa... Como se o real já não bastasse! E para quê? Para que tudo isso, meu Deus do Céu? Tanta estrela, tanto menino barrigudo, tanta água-viva, tanto palito de picolé, tanta roldana, tanta fita crepe?
                Mais um dos mistérios da Totalidade Cósmica Universal: embora seja nele que tudo adquira um sentido, Ele próprio é destituído de sentido, já que nada pode possuir um sentido fora dele. E isso por uma razão muito simples: um sentido é alguma coisa e, como coisa, faz parte da Totalidade Universal. Sendo assim, o que quer que supuséssemos que fosse o sentido do Universo Tomado como Totalidade é, na verdade, parte desse Todo e, portanto, não poderia ser usado como referência externa para julgá-lo. Incrível, isso, mas é assim: o Todo em sua inteireza não pode possuir um sentido – pelo menos não para uma mente que funcione como a nossa.  Pode-se pensar que o Todo seja o seu próprio sentido, mas vamos convir que isso não diz lá muita coisa – seria mais ou menos como dizer que o Todo é o Todo... Ou quem sabe o sentido não está cifrado no Todo – como um compartimentozinho secreto da realidade? Ainda assim, seria algo que estaria "dentro" do mundo. A verdade não está lá fora... a verdade está aí, bem debaixo do seu nariz!
                Bem, talvez os significados não sejam atributos do Todo, mas apenas de suas partes. O que nos traz à curiosa percepção de que certas partes do Todo são capazes de perceber e atribuir sentidos. É exatamente isso que nós, seres humanos, fazemos. Nunca é demais lembrar que os seres humanos são, do mesmo modo que as estalactites, partes do Absolutamente Tudo, e se eles – ao contrário das estalactites, pelo menos até onde sabemos – são capazes de contemplar a Totalidade Universal, isso significa que o Universo é, em parte, capaz de contemplar a si mesmo.
                E aí sim, a coisa começa a ficar complicada. Tudo está aí, como uma imanência perfeitamente indiferente, e nós, bestas que somos, estamos aqui feito fragmentos, nos angustiando a respeito do sentido de nossas vidas, quando, na verdade, estamos nos preocupando com algo que nós também somos! Ou seja, nossa individualidade, nossa noção de eu é um erro de foco: a consciência que desenvolvemos como parte é, na verdade, a consciência do todo – que, por não poder ser sujeito enquanto todo, precisa de suas partes para se conhecer! Ou seja, toda aquela meditação transcendental em busca da consciência cósmica talvez seja um terrível erro de cálculo: nós é que somos a consciência do universo! Nós, seres vivos, é que tornamos possível ao mundo a dor, a alegria e as tenebrosas especulações intelectuais! A não ser, claro, que o universo inteiro seja um grande cérebro... Vai saber!
                Terá a Totalidade um começo no tempo? Essa é fácil, hein, o Kant já a matou no comecinho da Crítica da Razão Pura. Bem, quer nós tomemos o tempo como uma dimensão no continuum espaço-temporal, quer nós suponhamos que ele é uma mera forma de nossa percepção do mundo, não podemos negar que ele é alguma coisa e que, portanto, está contido na Totalidade Totalmente Totalizante. Ou seja, embora o tempo possa ser uma medida implacável para praticamente tudo o que existe, ele não pode ser usado como referência para o conceito de Tudo O Que Há. Será, então, que isso equivale a dizer que o Todo é eterno? De modo algum: significa apenas dizer que o conceito de tempo não faz sentido para a Totalidade Universal. E tome mais uma lapada no senso comum hominídeo!
                O mesmo se diga da ideia de espaço. O que haverá fora do Todo? A pergunta não faz sentido, já que dentro e fora são ideias que só fazem sentido para coisas que já estão no espaço, ou seja, no mundo. O Universo Tomado em Sua Totalidade não é sequer uma coisa que possa ser considerada como um objeto do conhecimento! Ele é, quando muito, um conceito da razão destrambelhada – e um conceito escandalosamente terrível!
                E irrelevante. Pois ele é um pressuposto mental que, por abarcar tudo, é incapaz de fazer qualquer diferença. Tanto faz como tanto fez: o Todo é o óbvio, apresentado de uma forma complicada. Ou seja, ele possivelmente é o mais inútil dos conceitos, pois por ser tão abrangente, ele não acrescenta nada de novo ao conhecimento. Ele só serve para nos assoberbar com o que já pressentíamos.  Para bem dizer a verdade, do ponto de vista prático, o Todo é o Nada – e pode olhar aí no gabarito da prova se duvidar.
                O que nos traz forçosamente de volta à janela de meu escritório de trabalho, aos carros, aos passarinhos, às nuvens deslizando pelo céu de Brasília, à vidinha besta que levo, enfim. E não só porque um texto pretensioso como esse precisa, para causar efeito, terminar falando das coisas singelas da vida, mas porque é essa a parte do Todo que eu, como parte, contemplo agora: eu, criatura consciente, que sou o centro do universo inteiro!  Esta é a minha situação: eis, aí, o mundo.
                Foda isso, viu?