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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Interpretações Sínicas

      Somos o povo do logos, ou seja, da palavra racionalmente articulada. Discordamos de tudo e vivemos angustiados porque é falando e argumentando que encontramos um sentindo para nosso pertencimento a esse universo esquisito. Ou seja, o que nos une é o verbo, o que sai da nossa boca.
      A experiência chinesa neste planeta é condicionada pela direção inversa do mesmo órgão: afirmo, sem temer simplificações, que as mais diferentes dimensões da cultura chinesa são determinadas pelo que entra boca adentro.  O conformismo com a autoridade estabelecida, a sublimação da agressividade através da ritualização das práticas sociais, o papel totalitário da família na socialização do indivíduo, o materialismo, a obsessão com a harmonia e o pavor patológico da desagregação social, tudo isso se resume num mesmo motivo cultural: a necessidade chinesa de bem encher a barriga.Como poderia ser diferente, num país onde as pessoas só param de trabalhar quando estão comendo? (como se sabe, o chinês não dorme, a não ser quando está no metrô). 
           Não se deixe o observador casual confundir-se com o aspecto esguio do chinês médio: diferenças fisiológicas ainda não explicadas fazem com que o organismo dos povos da Ásia do Leste metabolize de modo diferente a ingestão exagerada de calorias (enquanto os ocidentais engordam, o asiático processa o excedente de calorias tornando-se feio ou rabugento). Mas os próprios ideogramas ajudam-nos a entender a verdade.
      Como se sabe, “China”, em chinês, escreve-se 中国 (Zhongguo), ou seja, país do meio. A interpretação mais corrente entende que com isso os chineses estão se colocando no centro do mundo. É preciso lembrar, porém, que o ideograma (zhong), que significa “meio”, é composto pelo radical (kou) atravessado por uma linha vertical (gun). Interpreta-se essa composição como uma referência geométrica à ideia de centralidade expressa pelo signo. Só que (kou), em chinês, significa boca, ou seja, o traço vertical que o corta pode ser tanto interpretado tanto como uma noção espacial como a direção daquilo que desce goela abaixo. No meu entendimento, 中国deveria ser traduzido como “País da Comilança”. No mínimo, "País do Meio" precisaria ser qualificado como "País do Meio do Bucho". Reconhecendo quão pouco defensável esta interpretação pode parecer num terreno estritamente linguístico, não se consegue pensar de outro modo quando se vê, num restaurante chinês, a alegria que esse povo sente ao se empanturrar de frituras, cogumelos, pimentas e pepinos do mar, em refeições geralmente acompanhadas por licores de alta octanagem. Tal deleite só encontra paralelo nos êxtases que o ocidental libertino desfruta através do erotismo.  
      E ainda digo mais: as implicações da necessidade chinesa de bem encher a pança vão muito além dos desdobramentos óbvios dessa pulsão. Alimentar a população é um problema central para todas as sociedades históricas. Porém, se muitos povos vêem a segurança alimentar como um pré-requisito para os outros objetivos – como a arte, a religião, o comércio, a guerra – a China inverte a lógica e alça o comer à qualidade de supremo objetivo existencial tanto do indivíduo quanto da coletividade. As demais manifestações da cultura servem ou para assegurar ou para sofisticar a deglutição. A metafísica chinesa sempre pareceu pobre aos filósofos ocidentais exatamente porque as premissas são diferentes: o estar-aí está aí para ser cozinhado.
      O conceito de (dao), por exemplo – central não apenas ao taoísmo, mas às mais diversas correntes da filosofia chinesa – pode significar o conhecimento do homem sobre o mundo (a episteme dos gregos), a idéia de caminho ou fluxo natural da vida ou mesmo – surpresa! – um dos vários cursos de uma refeição[1].  Não é acaso que, segundo as técnicas de longevidade ensinadas pelos mestres taoistas de taichichuan, o ponto energético mais importante do corpo é o baixo ventre (i.e., o bucho).
      Num nível mais mundano, a língua está cheia de outros exemplos que atestam a centralidade da digestão na Weltanschauung desse país. Quando querem perguntar quantas pessoas há numa família, os chineses dizem: “sua casa tem quantas bocas? (你的家有几口人?)”. A identidade pessoal é definida pela aptidão de comer, ou seja, é enquanto criatura capaz de digerir que o homem pertence à unidade doméstica. Não é de se surpreender, portanto, que o radical do ideograma chinês que significa “nome” () também seja uma boquinha ( + ).
      A importância atribuída à família como espaço fundamental de socialização deriva não só do fato de ser nela que o indivíduo terá, ao longo de sua vida, o maior número de refeições[2], mas também porque apenas à família reconhece-se a legitimidade de reproduzir as bocas, ou seja, de dar continuidade à chinesidade. Também a autoridade paterna incontestável provém do fato de que, na China antiga, era o homem que com seu trabalho assegurava o suprimento diário de tofu, vegetais fritos, arroz, temperos, óleo, mingau e – acima de tudo – de carne de porco. O Clássico da Piedade Filial é categórico a esse respeito: a obediência dos filhos deve ser cega aos defeitos morais do progenitor – único legítimo provedor de guloseimas na China antiga. O culto aos ancestrais não passa da projeção no passado da reverência chinesa pela capacidade dos patriarcas de alimentar.
      É fácil transitar para o nível político porque na China, família e Estado dividem atribuições na persecução do mesmo objetivo. O conformismo chinês deriva da percepção – exaustivamente desenvolvida pelo pensamento político do país – de que a ordem e a harmonia são requisitos indispensáveis para que uma sociedade possa produzir, distribuir, temperar, fritar e mastigar os ingredientes necessários à vida. Não é por acaso que “população” em chinês diz-se 人口, ou seja, pessoa-boca, numa tradução literal. O problema político fundamental é como encher essas bocas.
      A autoridade suprema do governo é a garantia da estabilidade social necessária a um padrão alimentar considerado aceitável – ou seja, uma ingestão calórica diária aproximadamente três vezes maior do que a de um ser humano normal. Desde cedo, o indivíduo chinês é submetido a um processo brutal de socialização voltado à repressão da agressividade e à ritualização do comportamento. Esse aprendizado envolve tanto a supressão das emoções individuais como o desenvolvimento de uma passividade muitas vezes incompreensível a observadores estrangeiros.  Para os chineses, porém, o cálculo é claro: abrir mão da liberdade pessoal e do direito de exprimir-se é mais do que compensado pela garantia de que o indivíduo terá acesso a todo o macarrão na sopa e todo o pato laqueado de que precisa para sentir-se existencialmente realizado. É algo que só poderia ser entendido por um povo que cumprimenta os amigos perguntando: “Você já comeu?” (吃了吗?)
      A repressão da agressividade também é politicamente relevante porque o caos social é a suprema calamidade que pode se abater sobre um povo. Os pratos da culinária chinesa tradicional são de difícil preparo. Eles exigem tanto a maestria técnica do cozinheiro – possível apenas através de um longo aprendizado – como uma variedade de ingredientes sofisticados. Como a desagregação social é acompanhada pela desorganização da cadeia produtiva de dumplings, o pavor da instabilidade justifica a repressão inclemente a qualquer movimento que possa ser interpretado como uma ameaça coletiva. Fora da normalidade política, o chinês é obrigado a privar-se das delícias a que está acostumado, e exatamente por isso nenhuma das vergonhas históricas é tão dolorosamente sentida quanto as lembranças – ainda frescas na memória desse povo comilão – das grandes fomes que os chineses tiveram que enfrentar por não terem conseguido responder prontamente ao desafio da modernização. O desenvolvimento econômico é o instrumento através do qual a nação pode se livrar de tão horrível perspectiva, e por isso os chineses contemporâneos estão tão empenhados em seu projeto nacional de crescimento.
      Na China, a obsessão com a exuberância material explica-se mais, portanto, pela identificação do dinheiro como instrumento de troca da comida do que por um materialismo não mediado por princípios morais. Não é demais lembrar que a palavra (fei) pode significar tanto “gordura” quanto “riqueza”. A palavra para “magro”, a contrario sensu, é composta pelo radical de “doença” e de “homem velho” ( + = ). 
      Se alguém achar que estou exagerando, posso apresentar em minha defesa a obra de ninguém menos que o maior escritor chinês do séxulo XX - Lu Xun. O personagem de seu clássico, "Diário de um Louco", à medida que vai se aprofundando no estudo dos clássicos confucianos, começa a desenvolver uma inquietante suspeita: a de que, nas entrelinhas dos textos, estavam escritos os caracteres 吃人 (comer gente!). Ou seja, o personagem descobriu que, na essência da cultura chinesa clássica, persistia uma pulsão glutona e canibal! (será isso uma inconsciente reversão, pela qual o glutão se imagina deglutido, ou a mera aplicação do desejo de comer Tudo sob o Céu à carne humana?)
      Simbolicamente, na China antiga se representava o universo pela figura de um quadrado contido dentro de um círculo – e era seguindo esse mesmo padrão que as antigas moedas chinesas eram cunhadas. Supõe-se que o quadrado seja a terra, contida pelo círculo que representava o céu. O conjunto céu-terra (天地) equivaleria à totalidade cósmica.
      É claro que não: o quadrado é a boquinha de um rosto chinês, e esse rosto estará feliz enquanto houver comida frita escorregando para dentro de si. Os rumores de um expansionismo chinês são exagerados: nas circunstâncias atuais, a China só invadiria um país se ela estivesse convencida de que a culinária de lá é melhor do que a sua. Conhecendo os chineses como os conheço, posso garantir que é impossível que alguém consiga tal proeza.            
Desde cedo, o indivíduo chinês é submetido a um processo brutal de socialização voltado à repressão da agressividade e à ritualização do comportamento.
                 
     


[1] Eu diria mesmo que os usos são complementares, e que a linha vertical que corta o para formar o ideograma nada mais é do que o caminho () que a comida segue do prato ao estômago.
[2] A formação ideograma de “família” – que também pode significar “casa” – é bastante curiosa. é formado por um teto abaixo do qual estão os animais domésticos (+). O símbolo evoca os bichinhos que iam para a panela antes mesmo de qualquer referência às pessoas que os comeriam.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A Filosofia do Cuscuz



            Minha maior intuição existencial, eu a tive no momento mais besta imaginável. Talvez atribuamos aos grandes acontecimentos da vida um sentido tão garantido que acabamos por encará-los com solenidade quase banal. No fundo esperamos que eles aconteçam, e a enorme alegria ou tristeza com que reagimos não é uma surpresa.
            As pequenas coisinhas da vida não: sua invisibilidade costumeira pode se transformar em momentosas descobertas. Pois se existir um Deus, não seria de se esperar que ele povoasse Sua criação com catástrofes, guerras e instantes de redenção – pontos de inflexão da história coletiva e pessoal? Mas que misterioso desígnio poderia tê-lO inspirado a criar o lavar louças, o catotar o nariz, o comer cuscuz?
            Juro que vivi o enlevo que pretendo narrar: uma vez, ainda em Recife, escovava meus dentes quando, sei lá por que, passou-me pela cabeça a pergunta: como seria se o mundo não existisse? Senti como que uma cacetada filosófica, a imediata e dilacerante consciência do óbvio, ou seja, de que eu não apenas estava vivo, mas que estava, com a frivolidade dos vivos, escovando meus dentes num recanto de um apartamento recifense. E se eu não existisse? E se eu nunca tivesse nascido? E se o mundo nunca tivesse sido criado? E quando eu morrer?
            Se me permitem o trocadalho: nada pode ser tão absurdo quanto a consciência do Nada. Não entra nas nossas cabeças o não-existir, o não estar-aí-nem-aqui-nem-acolá. Tentar entender esse conceito enquanto encarava meu reflexo boquiaberto no espelho me fez ser invadido, por um lado, pela consciência de minha mortalidade e, por outro, por uma profunda desconfiança do mundo.
            Naquele dia, para mim ficou claro como nunca que existe uma ruptura nas nossas vidas pelo simples fato de estarmos vivos. Jamais seria capaz de explicar o por quê dessa minha convicção, mas suspeito que o não-existir seja o conceito óbvio, natural, e o existir a violação. A realidade é um estupro, digamos assim, para causarmos bem muito efeito.
            É um paradoxo e um mistério, portanto, que a dimensão prosaica da vida – justo essa dimensão impregnada de concretude que nos lembra, o tempo todo, que estamos vivos – também tenha a aptidão de afundar-nos numa agradável indolência que quase nos faz esquecer que a vida é um milagre – uma intervenção permanente de um poder criador que não conseguimos entender. É uma tensão difícil de resolver: sabemos que vamos morrer um dia, estamos inseguros sobre o que acontecerá com nossa consciência depois da morte, mas, ainda assim, achamos tão natural desperdiçarmos nossas vidas num repetir meio ultrajante de coisinhas bobas que não me admiro que tantas pessoas hoje acreditem que o sentido da existência sejam essas mesmas pequenas coisinhas bestas – o comer cuscuz, por exemplo. Não lhes tiro a razão, já que o banal também provém do mesmo princípio criador que impede que o universo se desintegre subitamente numa grande nuvem de poeira cósmica.
            Por outro lado, não somos todos convidados a explorar o mistério pelo simples fato de vivermos? Como ser indiferente a essa angústia? E não estará, também, essa sede de desconhecido por trás do ímpeto que nos leva a tentar expressar os conflitos de nosso mundo interior? Também não será essa consciência do absurdo que nos leva a tentar participar do poder criador divino? A alma possui nela um abismo, uma sede de absoluto que é, também, uma vontade de morte.
            Habitual comedor de cuscuz que sou, parece-me problema de difícil solução colocar-me frente ao fascínio que certas vezes sinto pela altura e pela profundidade – idéias que, mesmo causando profundo mal-estar, são fascinantes. Muitas vezes me contento em reconhecer que a tensão existe, que ela é definidora e que, por mais que tente ignorá-la apegando-me aos confortos manteiguentos do cuscuz, essa sarna espiritual não pode ser tão facilmente coçada. Afinal, não parece emocionante empreender uma grande odisséia espiritual? Novo argonauta dos abismos cerúleos e das vastidões da mente, querer navegar pelas páginas dos clássicos, prestar honras aos maiores sábios de todas as eras e todas as terras, aventurar-se pelos recantos mais sinistros do espírito e, quem sabe, alcançar alguma forma de iluminação num apoteótico orgasmo literário que faria tremer os alicerces do mundo conhecido!
            Responderia a certa amiga que muito se preocupa com meus prematuros sintomas de esquizofrenia megalomaníaca que ela não precisa ficar apreensiva, já que meu delírio foi abortado pelo inimigo que eu menos esperaria encontrar: o cotidiano.
            E que poder ele tem de nos prender ao chão! Não dá, afinal, para ganhar dinheiro com epopéias do espírito – e as epopéias do espírito que dão dinheiro nem merecem ser vividas. Digam-me, senhores, como eu poderia decifrar os grandes enigmas do Cosmos, se minha existência é um repetir de uma estafante rotina, em que passo oito horas aprisionado dentro de um escritório, chego em casa sem cabeça para ler nem revista de fofoca, e sou obrigado, para conseguir duas míseras horas de atividade intelectual diária, a acordar às 5:30 da manhã? Será que vale a pena me esforçar para mergulhar nos abismos do conhecimento, se eu poderia simplesmente acordar mais tarde e comer um cuscuzinho bem gostoso?   
E a ruptura existencial que eu imaginei vivenciar naquela noite em Recife, quando fui assaltado pela consciência de estar vivo enquanto escovava os dentes? Se levo essa intuição às suas últimas conseqüências – e aceito minha condição de criatura consciente num universo razoavelmente interessante – serei forçado a reconhecer que uma tomada de postura é inevitável. E essa escolha pressupõe a existência de uma escala de valores. Que é mais importante: os altos ideais ou o cuscuz?
O valor da primeira opção é tão óbvio que fico quase desconfiado. Não serei, porém, desonesto: acredito, sim, que uma vida dedicada ao conhecimento é uma vida melhor, especialmente quando essa busca nasce de uma tentativa de assumir corajosamente o próprio destino. Mas também não nos deslumbremos, supondo que esse conhecimento se limite aos grandiosos monumentos da cultura. Ainda que os sábios de todas as eras tenham apontado para o efeito obsedante da matéria – das delícias materiais, inclusive – acredito que o saber é uma postura diante de um mundo que é intrigante em todos os seus níveis, não só nas alturas etéreas, mas mesmo na banalidade de cada momento.
E se foi escovando os dentes que tive a única experiência filosófica realmente intensa de minha vida, como poderia me admirar se algum dia eu encontrasse a iluminação numa colherada dum cuscuzinho bem quente com ovo mexido e café?[1] 


           



[1] Só não venham esses adolescentes debilóides de hoje em dia acharem que isso é desculpa o bastante para não estudarem porra nenhuma, e achar que vão desvendar o sentido da vida escrevendo asneiras no facebook.