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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre os Brtrzslyxzhzsgy







Eduardo Siebra, 16/10/13                    


            Na sétima dimensão, ou seja, numa projeção geométrica de realidade incompreensível para os seres humanos, vive uma forma de criatura consciente chamada brtrzslyxzhzsgy. Por mais que tentássemos, jamais conseguiríamos entender seu modo de existência: suas mentes não estão – como as nossas – amparadas na matéria, mas sim numa complexa rede relacional de incidências de vibrações no continuum espaço-temporal. Eles não possuem forma ou extensão – ao menos segundo as definições humanas destes conceitos – o que significa que aquilo que nós tentaríamos definir como seus corpos estão, na verdade, dispersos em posições aparentemente aleatórias, que perpassam diferentes e longínquas regiões do Cosmos. Na verdade, a idéia de individualidade só é possível aos brtrzslyxzhzsgy porque eles definem suas próprias consciências – ou seja, sua noção de eu – a partir de contrastes de uma série ininterrupta de avanços e recuos temporais das poucas partículas estritamente físicas que estão associadas à sua existência. Tais séries – que pareceriam aleatórias mesmo aos mais poderosos computadores já criados pelo homem – seguem, na verdade, um intricado padrão matemático, e todo brtrzslyxzhzsgy sente-se único justo por intuir que o seu padrão é singular e irreproduzível.
            Só poderíamos nos referir à comunicação brtrzslyxzhzsgyana por meio de metáforas. Como se sabe, a tremenda explosão que deu origem ao mundo provocou um eco que até hoje reverbera pelo universo. A sofisticada mente dos brtrzslyxzhzsgy está praticamente imersa nessa reverberação, e ela é capaz de reproduzi-la harmonicamente, em padrões referenciais ligeiramente distintos um dos outros, o que os torna inteligíveis às mentes dos demais brtrzslyxzhzsgy. Numa simplificação grosseira, poderíamos tentar explicar dizendo que a língua dos brtrzslyxzhzsgy é uma eterna e contínua variação sobre a canção de nascimento e morte do mundo.
            Por existirem num patamar diferente da realidade e por possuírem características físicas tão alienígenas, estamos conceitualmente e absolutamente impedidos de conhecer ou de estabelecer qualquer forma de comunicação com os brtrzslyxzhzsgy. A verdade é que a todo instante e em vários lugares manifestações espúrias da consciência brtrzslyxzhzsgyana perpassam o Planeta Terra sem que nós, humanos, pudéssemos nos dar conta da proximidade destas criaturas nem eles, brtrzslyxzhzsgy, pudessem suspeitar da existência de uma sociedade como a nossa neste nível de realidade. Os brtrzslyxzhzsgy vivem num recorte diferente do universo, e talvez uma descrição das características de um ser humano para um indivíduo brtrzslyxzhzsgy soasse tão alienígena quanto nos soa a descrição de seu modo de vida.
            Deixando de lado, porém, os aspectos mais abstrusos a respeito da existência brtrzslyxzhzsgyana, a verdade é que essas criaturas são muito mais parecidas com nós do que poderíamos imaginar. O que se entende mais facilmente quando se considera o caso de Cstrhjshkzlay.
            Todos os dias metempsicóticos, Cstrhjshkzlay vai trabalhar. Ou melhor, para ser verdadeiramente preciso, seria necessário dizer que Cstrhjshkzlay projeta sua consciência numa determinada amplitude de vibrações das supercordas, de tal modo que ele pode usar sua capacidade de concentração e de criatividade para sincronizar seus fluxos cronológicos com a prospecção de metarreverberações. Num gigantesco organismo formado por dezenas de milhares de brtrzslyxzhzsgy que vibram em conjunto, pode-se dizer que as próprias forças fundamentais que constituem o universo são coletadas, de modo a tornar possíveis os diversos objetivos funcionais da sociedade brtrzslyxzhzsgyana. 
            Parece complicado, mas é bem mais simples – e prosaico – do que soa à primeira vista. Cstrhjshkzlay, na verdade, anda até um pouco entediado com seu trabalho. Do ponto de vista de seus colegas, naturalmente, esse enfado é completamente injustificado. Poucos são os brtrzslyxzhzsgy que tem a oportunidade de ocupar uma função tão interessante quanto a de coletar as metarreverberações cosmogônicas. Os critérios seletivos são rigorosos, e apenas as mentes mais aguçadas tem uma chance de conseguir o emprego. Além disso, o ambiente de trabalho é impressionante, mesmo para os padrões multiplanares dos brtrzslyxzhzsgy: oscilações ininterruptas de estalos transcendentais são canalizadas por vigorosas redes plurimentais intencionalmente elaboradas para literalmente sugar o poder criativo cósmico. Lapsos momentâneos de ordem e caos absoluto alternam-se seguindo padrões que, segundo alguns teóricos mais imaginativos, talvez reflitam mensagens gravadas na própria conformação da realidade. Como resultado, forma-se uma verdadeira nebulosa de transconsciência, de modo que os brtrzslyxzhzsgy que lá trabalham têm a oportunidade de se comunicar com entidades inteligentes ou semi-inteligentes de diferentes ontologias identificadas.
Cstrhjshkzlay, para bem dizer a verdade, acha aquilo tudo um saco. Naquele dia metempsicótico específico, ele estava especialmente mal-humorado.
            – Olá, Cstrhjshkzlay, como vai o senhor?
             – Vou bem, Frgbbnhjktre.
            – As antinomias de ontem já estão em sua tabula rasa.
            – Ah, maravilha. Pode deixar que hoje eu as decifro.
            Porcaria! Isso significava que Cstrhjshkzlay teria um longuíssimo dia fazendo um trabalho árido, obrigando-o a ficar num estado de concentração forçada que era de encher o saco de qualquer um.
            Cstrhjshkzlay acoplou sua miríade geométrica ao feixe de pólipos da crisálida e despencou sobre o caleidoscópio.  
            – Ora merda! – bufou, e contemplou, mal humorado, o espetacular fluxo de metarreverberações passando diante do ultrahiperdodecaedro onde ele passava maior parte de sua jornada de trabalho. Cstrhjshkzlay suspirou e, antes de se debruçar sobre as atinomias, convergiu suas filigranas sensíveis para um livro – um padrão sintético cognitivo materializado aprioristicamente, na verdade – que ele havia deixado jogado por ali.
            Criaturas capazes de comunicação e conhecedoras da noção de individualidade[1], os brtrzslyxzhzsgy desenvolveram uma rica vivência intelectual. Naquilo que aproximativamente poderíamos chamar de passado[2], os brtrzslyxzhzsgy dedicaram-se à contemplação do universo e à reflexão sobre os mistérios da vida. Muitos livros foram escritos sobre as grandes e profundas questões, e houve uma era em que se considerava que, para ter uma vida plena, um brtrzslyxzhzsgy deveria buscar o auto-conhecimento através da reflexão.
            Auto-reflexão uma ova! – teria dito Cstrhjshkzlay, em nosso idioma. Fazia mais de 200 dias metempsicóticos que ele estava tentando apreender o significado transcendental daquele livro – um intrincado tratado sobre a possibilidade epistemológica de um conhecimento inato, ou seja, o equivalente brtrzslyxzhzsgyano da Crítica da Razão Pura. Só que, por causa do trabalho, ele não tinha nem tempo nem sossego para acompanhar os intrincados raciocínios.
            Na rabugenta opinião de Cstrhjshkzlay, os brtrzslyxzhzsgy todos estavam praticamente obcecados com a idéia da prospecção de metarreverberações. Claro, tinha todo aquele lero-lero de que aquilo tornava a vida mais conveniente, que os brtrzslyxzhzsgy de hoje viviam muito mais confortavelmente do que antes, com acesso a um quantum muito maior de metarreverberações. Cstrhjshkzlay não se importava que as outras pessoas acreditassem naquele monte de abobrinhas, mas justo ele ter que viver a vida inteira assim, coletando essas malditas metarreverberações! Ele, que tanto havia sonhado em se tornar um estudioso de psicocosmologia quando era jovem...  Tudo bem que ele havia escolhido o emprego, e que ele era metarreverberativamente bem remunerado pelo seu trabalho. Mas ao custo de que?  Do lócus biônico da liberdade e da reflexão, ou seja, tudo o que Cstrhjshkzlay mais desejava para si.
             Ele já havia tentado explicar suas opiniões a alguns de seus amigos mais íntimos. Alguns até concordavam, mas a verdade é que ninguém gosta de gente resmungona, seja nesta, seja na sétima dimensão. Todos achavam que Cstrhjshkzlay reclamava de fractal cheio: seu emprego era bom, e se ele quisesse tanto assim continuar seus malditos estudos de psicocosmologia, que tivesse ao menos a dignidade de tomar uma decisão e fosse atrás do seu sonho. Ficar choramingando era que não ia resolver o problema.
            “Falar é fácil.” – pensava Cstrhjshkzlay, quando lhe sugeriam largar o emprego. Ele sabia que se ele deixasse a firma para estudar psicocosmologia – das disciplinas mais interessantes e, portanto, mais inúteis jamais concebidas pelos brtrzslyxzhzsgy – com toda a probabilidade mais cedo ou mais tarde ele teria o mesmo destino de tantos brtrzslyxzhzsgy desocupados, ou seja, ele iria se amalgamar à transnebulosa de inação plena. A coisa não tava fácil para ninguém: a sociedade era de tal modo organizada que, sem uma fonte estável de metarreverberações, um brtrzslyxzhzsgy era a obrigado a ganhar a vida vendendo partículas quânticas em ângulos agudos.
            – Bem, vamos lá... – suspirou novamente Cstrhjshkzlay, resignando-se ao desinteressante dia que o acaso e sua falta de colhões lhe havia reservado. Quando se preparava para iniciar a criptosintaxe, ele ouviu alguém lhe dizer:
            – Cstrhjshkzlay, meu velho, tudo bem?
            Era Ztkzwgbtwow.
            – Ahn? Ah, oi, Ztkzwgbtwow...
            – Você vai para o sbrbles?.
            “Que o X’Aarn os devore!”, pensou Cstrhjshkzlay.
            – Ainda não sei, vai depender da Mngqstrbvca.
            – Ah, pode deixar que eu falo com ela. Não aceito desculpas, quero os dois lá, hein?
            – Não se preocupe, vou fazer o possível para ir.
            – Pra que trabalhar tanto se não se pode sbrblar com os amigos, não é?
            – É verdade.
            Assombrados por visões de desagregação cósmica, Cstrhjshkzlay pensou que talvez ele estivesse precisando de férias. Férias no Grande Vortex Primordial – não era pra lá que Mngqstrbvca queria ir? Talvez fosse interessante mesmo, todo mundo falava que era realmente uma viagem inesquecível. Ou talvez eles pudessem contemplar a orla do X’Aarn, o que definitivamente seria uma experiência muito mais emocionante – perigosa, inclusive.
            Mas será? Será que um intervalo de sossego resolvia o problema? Cstrhjshkzlay estava desestimulado com sua rotina, e interrompê-la poderia ser, se muito, uma fuga temporária.
            Cstrhjshkzlay vasculhou seu entorno ontológico com suas filigranas sensíveis. A velha bagunça de sempre – um coágulo de pontos fixos no infinito que Mngqstrbvca lhe havia dado de presente, o feixe de ângulos hiperdimensionais que ele havia prometido a si mesmo organizar meses metempsicóticos atrás, e sua coleção de livros, logo atrás do imperativo moral que ele era administrativamente obrigado a pendurar na parede teleológica.
            Cstrhjshkzlay             tinha praticamente uma coleção completa de filosofia brtrzslyxzhzsgyana no seu ultrahiperdodecaedro. Eram algumas dos principais testemunhos intelectuais de sua espécie – verdadeiros monumentos do antigo amor dos brtrzslyxzhzsgy ao conhecimento. Será que algum dia ele teria tempo de lê-los? Como, se ele passava a vida inteira coletando metareverberações?
            Metareverberações... Sim, dá para fazer muita coisa com metareerberações. Mas a verdade é que a maior parte dos brtrzslyxzhzsgy do passado tinha vivido suas vidas inteiras sem jamais precisar de uma única maldita metareverberação! Isso, claro, mudou radicalmente depois da ivenção do motor à metareverberação, durante a revolução trigonométrica, mas o que Cstrhjshkzlay tinha a ver com isso? Ele não havia escolhido as prioridades idiotas de seu mundo: por que, então, deveria se conformar a elas?
            Largar tudo... Será? Será que ele conseguiria, depois de ter se acostumado ao estilo de vida que tinha? E o que Mngqstrbvca iria dizer? E se depois ele se arrependesse?
            Ah, reclamar não resolvia o seu problema! Por sinal, ele não podia terminar aquele dia sem decifrar a porcaria das antinomias em sua tábula rasa. Era preciso deixar de pensar em suas angústias e se concentrar no trabalho. Ele contraiu suas filigranas, reverteu sua entropia marginal e respirou fundo.
            Vamos lá. Vejamos. A primeira antinomia dizia mais ou menos assim: “O que é, não é.”
             – O que é, não é. – repetiu Cstrhjshkzlay, em voz alta, ou o que quer que corresponda a isso no universo brtrzslyxzhzsgyano. Aquela proposição, por alguma razão que não conseguia entender, o deixou ainda mais triste.
            “Se o que é, não é” – pensou Cstrhjshkzlay, iniciando sua rigorosa análise criptosintática – “então eu não apenas não sou um brtrzslyxzhzsgy, como eu tenho um trabalho interessante, que me satisfaz profundamente. Afinal, poder fazer parte da prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna, sob os mais diferentes aspectos. Eu estou dando uma contribuição importante e insubstituível à sociedade, e isso por si só é o bastante para dar um sentido à minha vida.”
            Ele parou, olhou para o imperativo categórico na parede teleológica e continuou:
            “Eu faço o que eu faço porque eu quero. Foi um exercício de liberdade que me colocou nesta situação, e sendo assim eu não tenho do que reclamar. Eu gosto dos meus colegas de trabalho, eu gosto da Frgbbnhjktre, gosto até mesmo do Ztkzwgbtwow. O Ztkzwgbtwow não é um tremendo filho da puta. Tenho que parar de ser resmungão.”.
            O segredo da antinomia parecia estar aos poucos se revelando para Cstrhjshkzlay.
            “Ser protagonista do próprio destino não é uma pré-condição da felicidade. O auto-conhecimento não torna as pessoas necessariamente melhores, e tudo o que podemos esperar da vida é fazer o melhor com aquilo que nos foi dado. É um erro imaginar que um brtrzslyxzhzsgy possa ir de encontro ao seu destino, ou criar uma realidade nova. A arte de viver é a arte de fazer o possível. A prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna. Quando voltarmos á desagregação primordial de que saíram nossas consciências, as escolhas que tenhamos feitos ao longo de nossas vidas não farão a menor diferença, desde que nós tenhamos deixado uma marca no coração das pessoas.”
            É isso. Cstrhjshkzlay era bom em criptosintaxe, por isso ele havia conseguido aquele cargo. A primeira antinomia estava resolvida. Ele registrou, no grande aparato de ampolas cibernéticas retroflexas, a resposta para o problema:
            “O que é, é”.
            Cstrhjshkzlay pôs a antinomia resolvida em seu escaninho de saída e pegou a próxima na pilha.
            “O que será, não será.”
            – Essa é mais difícil. – murmurou Cstrhjshkzlay, com seus botões, antes de continuar sua análise criptosintática.  – Será um longo dia...


[1] Ao contrário, por exemplo, do terrível e tenebroso X’Aarn,  que confunde sua própria existência com a do universo inteiro e que, por isso, deseja devorar tudo o que existe para trazer de volta toda diferenciação indesejada para o conforto eterno da morte que há dentro de si.
[2] Observe-se, aqui, que a noção de passado para os brtrzslyxzhzsgy não está relacionada, como para nós, ao fluxo da entropia, ou seja, à passagem do tempo, mas sim a uma noção de profundidade definida em relação ao que a mente brtrzslyxzhzsgy entende como o coração quintessencial do Ser.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Genealogia da Idiotice Humana – e Sobre a Literatura como Remédio






O título desse texto soa terrivelmente presunçoso. Parece até que o autor se supõe em posição de julgar a imbecilidade alheia como se possuísse alguma formidável capacidade de percepção.
            Quero desde já desfazer esse erro. Sou fascinado pelo problema da estupidez, mas não por me considerar mais inteligente ou mais sábio. Na verdade, talvez eu queira compreendê-la melhor justamente como forma me precaver contra ela – intuindo que a imbecilidade seja um risco constantemente à espreita. Sou bacharel em Direito, nada do que é idiota me é estranho.
            Sempre me impressionei com a capacidade de pessoas muito inteligentes tornarem-se, em certos contextos, completos imbecis. Ainda que o dicionário defina "idiotia" como falta de entendimento, eu nem de longe acho que ela se confunda com a mera burrice – vista essa como simples incapacidade de processar informações.
            Por exemplo, é comum encontrar pessoas educadas e perspicazes que, quando decidem falar sobre um assunto que lhes seja caro, transformam-se de súbito em completos imbecis. Eles se tornam, então, incapazes de levar em conta as evidências mais elementares, e deixam-se levar por meras impressões, fundamentadas por não mais que pelo desejo de que as coisas fossem do jeito que eles queriam que as coisas fossem. Isso acontece quando as opiniões são passionais, quando o assunto que está sendo discutido afeta emocionalmente os debatedores.  
            Tal percepção já nos basta para entender que aquilo que estou chamando de "idiotice" não é apenas um problema intelectual (ou seja, um problema que diga respeito apenas a ideias), já que também possui uma forte dimensão sentimental. Mas será que é apenas isso? Será que apenas as paixões explicam a tendência das pessoas à idiotice? Suspeito que não. Acho que essa inclinação tem uma raiz mais profunda. 
            Certa vez eu estava dialogando com uma pessoa que tem opiniões fortes sobre a temática do igualitarismo. Sem sequer entrar no mérito de quem estava certo ou errado nessa discussão, confesso que me senti surpreso quando percebi que meu interlocutor tinha, dentro de sua cabeça, todo um esquema narrativo montado para sustentar  suas opiniões.
            Em última análise, talvez o mesmo acontecesse comigo – embora em meu favor eu pudesse pelo menos alegar a abertura à dúvida quanto às minhas próprias convicções. A pessoa com quem eu estava discutindo, porém, por ter uma personalidade exaltada, estava tão enclausurado em seu próprio discurso que ele permitia que sua narrativa se tornasse quase uma caricatura.
            Para ele, os papéis eram muito nitidamente definidos. Havia dois tipos de pessoas intrinsecamente distintas: umas boas e outras ruins. Elas estariam engalfinhadas num verdadeiro drama histórico, cujo desfecho era determinado de antemão, com a derradeira vitória dos que representavam o progresso. O mais curioso, porém, era a capacidade dessa narrativa de dar sentido a tudo o que acontecia. Um gesto não era apenas um gesto – ele era forçosamente uma tomada de posição na disputa. Sendo assim, qualquer declaração poderia ser interpretada tanto como expressão de uma postura libertária ou como um comentário reacionário, a serviço da inércia histórica
            Não há fatos neutros – era isso que meu interlocutor parecia me dizer. Tudo tem um sentido, tudo tem uma intenção subjacente. O que parece um ato inconsciente é, na verdade, uma intenção velada – ou a adesão subliminar à agenda do partido retrógrado. Não é difícil perceber como essa maneira simplista de interpretar as coisas desemboca naturalmente numa "teoria da conspiração": como todo acontecimento é resultado direto de uma intencionalidade planejada, então tudo o que acontece no mundo – todas as injustiças, tudo aquilo que fere nosso senso de dignidade – deve ser fruto das maquinações obscuras de poderosas forças que conspiram para manter a humanidade do jeito que está.
            É espantosa a quantidade de jovens perspicazes que se deixam convencer por relatos assim. Vejam lá, não estou negando a realidade da opressão do homem pelo homem – nem dizendo que não aconteçam manipulações políticas pelas classes endinheiradas. Mas acho realmente espantoso que algumas pessoas se contentem, ao tentar analisar um fenômeno social complexo, com explicações que poderiam ter saído de um romance barato!
            Por que isso acontece? Eu diria que é porque o ser humano é uma criatura que interpreta sua própria vida por meio de narrativas.
            Por que gostamos tanto de estórias? Por que os mitos são tão importantes para os povos primitivos? Por que a literatura tem uma capacidade tão grande de nos sensibilizar? Não é apenas porque narrativas nos divertem, mas sim porque são elas que dão sentido à vida. Os fatos brutos nada significam – eles são acontecimentos aleatórios de um mundo que, sem a mediação da fábula, nos pareceria terrivelmente alienígena. O fato só é humanizado quando ele se encaixa em algum relato mental. Então um objeto inanimado deixa de ser apenas um amontoado de matéria, e se transforma numa lembrança de uma pessoa querida. Uma doença ou um acidente deixam de ser um mero fruto do acaso cego, e se transformam em importantes etapas de nosso amadurecimento. Amigos e inimigos assumem papéis, e a vida divide-se em diversas etapas, seguindo um senso de progressão de efeito dramático, no qual avanços e recuos fazem parte do aprendizado.
            Não é irrelevante que usemos a mesma linguagem tanto para relatar acontecimentos que efetivamente ocorreram como para falar de mundos ou de narrativas fantasiosas. Nossa linguagem nos permite mentir e criar universos imaginados – realidades-simulacro que, por refletirem nosso próprio mundo, nos ajudam a compreendê-lo. Quando a ficção nasceu, com ela vieram todos os possíveis sentidos para a vida humana. Que a vida possa ter um sentido não já é a derradeira ficção?  
            Estou convencido de que as estórias possuam um papel incontornável em nossa maneira de perceber a vida. Do mesmo modo que a mente só é capaz de apreender objetos concretos e abstratos por meio dos conceitos, não podemos prescindir de narrativas para registrarmos a passagem do tempo. É algo que se explica pelo papel que a linguagem possui na formação de nossa consciência: não possuímos outros meios de nos referirmos à experiência vivida. O homem é o animal que fabula – e tome mais uma frase de efeito!  
            Isso não significa, claro, que estejamos condenados à mentira. O mito não é necessariamente uma inverdade. A realidade é objetiva, mas essa objetividade só pode ser alcançada pela mediação das estórias. O problema é que existem narrativas boas e narrativas ruins. Enquanto algumas são capazes – com sua riqueza de elementos ou de simbolismos – de nos aproximar do problemático ideal de verdade, outras servem apenas para simplificar ou banalizar nossa experiência, dando-nos respostas prontas e fáceis para os muitos dilemas que encontramos no dia-a-dia.
            Exemplo clássico de imbecilidade é o do indivíduo que se ilude quanto à pessoa amada. Seja uma mãe conivente, seja um marido enganado, a pessoa idiota constrói para si um verdadeiro castelo de cartas em que o que menos interessa são as verdadeiras características da pessoa querida. Uma vez que se tece a narrativa e se atribuem os papéis, o indivíduo torna-se tão deslumbrado com seu próprio enredo que pode chegar a negar ardorosamente indícios sobre a má índole daquele que ama, ou até ofender-se se alguém vier lhe falar a verdade.
            O que vale para os aspectos cotidianos da vida também vale para as grandes narrativas – a política, a religião, a ciência. Esses meta-discursos têm uma função muito mais abrangente – e perigosa – já que eles servem de referência moral para a sociedade inteira. E enquanto a imbecilidade privada comumente causa mais mal ao seu possuidor do que a terceiros, a idiotice pública, por ter a seu favor o peso das multidões, tem a terrível aptidão de causar mal aos inocentes. Todas as vítimas de fracassadas utopias são, em alguma medida, vítimas de uma estória mal contada.
            Na minha interpretação, a idiotice humana nasce de uma capacidade pobre de fabulação. Ela se origina da tentativa (quase sempre inconsciente) de usar narrativas ruins para explicar ptoblemas complexos. O idiota é um homem que usa moldes fixos, rigidamente compartimentados, para julgar o que vê. Ele não tem sensibilidade para  nuances, e não é capaz de entender que a vida possui mais de uma camada de significados. E mesmo diante do notório fato de as pessoas serem contraditórias e terem motivações problemáticas, ele sempre incorrerá nas mesmas velhas suposições simplistas – chapeuzinho vermelho para cá, lobo mau para lá...
            Curiosa conclusão: embora seja possível nascer burro, não se nasce idiota. Aprende-se a sê-lo ao longo da vida, pela aculturação e à medida em que se vai definindo o repositório pessoal de estórias da carochinha com que medir a vida. Outro desdobramento interessante: minha maneira de interpretar a idiotice valoriza a literatura como possível remédio. Os livros não são apenas fantasias: eles são um repertório de experiências, emoções e intuições. A boa literatura, ao assumir radicalmente a complexidade da vida, torna-nos capazes de reavaliar nossa existência de forma mais rica e completa. Ela nos educa para a fábula – essa mediação fundamental entre nós e o real – e, ao nos permitir um pouco mais de consciência dos papéis que exercemos, ela pode até mesmo nos permitir uma maior medida de protagonismo. Resumindo, a literatura é o remédio para a prosa ruim, quer dizer, para a vida ruim. 
         

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Fábula: O Gato e o Burocrata





            Na República de Ultrajânia, havia um burocrata que trabalhava muito.  Todos os dias ele saía cedinho e só voltava à noite, cansado e sem disposição para fazer mais nada.
            Esse burocrata possuía em sua casa um velho bichano, gorducho e incrivelmente preguiçoso. Várias vezes o burocrata havia saído pela manhã e visto o gato deitado em cima de uma confortável almofada sobre o sofá. Ao retornar à noite, o funcionário encontrava o felino exatamente como o havia deixado, cochilando em cima daquela almofada. 
            – Ora, mas que mandrião! Como ele consegue passar o dia inteiro aí deitado, sem fazer nada?
            Ao ouvir seu mestre falar tais bobagens, o gato apenas bocejava, espreguiçava-se um pouco, e logo voltava a dormir.
            Com o passar dos dias, o trabalho do burocrata foi se tornando mais aborrecido, e ele pouco a pouco foi se transformando num homem cada vez mais infeliz. Ao ver seu gato enrolado em cima do sofá, num cochilo gostoso entre uma refeição e outra, ele não conseguia evitar uma pontinha de inveja.
            Certa segunda-feira, porém, numa manhã especialmente friozinha, na qual o burocrata sabia que teria de realizar tarefas especialmente aborrecidas, ele não resistiu e bradou:
            – Com mil diabos! Isso é lá vida! Antes ficar aqui deitado no sofá o dia inteiro, feito essa bola de pelos inútil aí.
            Acontece que justo nesse instante, estava passando por ali, disfarçada de muriçoca, uma fada madrinha daquelas bem corocas e moralistas. Ao ouvir a maldição do burocrata, ela quis ensinar-lhe uma lição.
            – Vejam só! – pensou a fada madrinha – Esse aí está reclamando de barriga cheia. Diz que preferia ser um gato doméstico, mas não imagina quão entediante seria passar o dia inteiro aí nesse sofá, sem fazer nada!
            Para que o burocrata aprendesse a valorizar a dádiva de ser um homem, ela usou sua varinha de condão e transformou-o num gordo e bigodudo bichano. Ao mesmo tempo ela transformou o gato em burocrata – e qual não foi a surpresa do animal ao ver-se subitamente transformado em homem, com uma gravata em torno do pescoço e uma série de pequenas preocupações práticas na cabeça!
            O que a fada madrinha não esperava era que o burocrata – agora transformado em gato – simplesmente adorou a mudança! Ele finalmente pôde realizar seu sonho de passar a tarde inteira dormindo, rolando para lá e para cá numa almofada fofinha, espiando o céu de vez em quando pela janela, e sem se preocupar com caprichos de chefes mal-humorados!
Depois de um mês – prazo que a fada madrinha havia suposto ser suficiente para mostrar ao burocrata como seria aborrecido ser um gato doméstico – ela voltou até aquele apartamento e disse para a vítima de seu feitiço:
            – Meu filho, espero que você tenha aprendido uma lição. As aparências às vezes enganam, e um conforto indolente que, à distância, nos parece tão desejável pode se revelar, na verdade, uma prisão para o corpo e a mente!
            – Cala a boca, velhota! – respondeu o burocrata, na língua dos felinos. – Não vê que está na hora do meu cochilo? – E, depois de dar uma patada naquela muriçoca tagarela, ele se enrolou na almofada e voltou a dormir.
            A fada, toda estropiada com o golpe, como castigo pela rudeza do burocrata resolveu deixá-lo viver o resto de seus dias com a forma de animal. Ele adorou, e jamais sentiu inveja de seu novo amo, que a cada dia ficava mais careca e barrigudo.

Moral da estória: Nunca acredite se lhe disserem o contrário: dormir é sempre bom.