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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre os Brtrzslyxzhzsgy







Eduardo Siebra, 16/10/13                    


            Na sétima dimensão, ou seja, numa projeção geométrica de realidade incompreensível para os seres humanos, vive uma forma de criatura consciente chamada brtrzslyxzhzsgy. Por mais que tentássemos, jamais conseguiríamos entender seu modo de existência: suas mentes não estão – como as nossas – amparadas na matéria, mas sim numa complexa rede relacional de incidências de vibrações no continuum espaço-temporal. Eles não possuem forma ou extensão – ao menos segundo as definições humanas destes conceitos – o que significa que aquilo que nós tentaríamos definir como seus corpos estão, na verdade, dispersos em posições aparentemente aleatórias, que perpassam diferentes e longínquas regiões do Cosmos. Na verdade, a idéia de individualidade só é possível aos brtrzslyxzhzsgy porque eles definem suas próprias consciências – ou seja, sua noção de eu – a partir de contrastes de uma série ininterrupta de avanços e recuos temporais das poucas partículas estritamente físicas que estão associadas à sua existência. Tais séries – que pareceriam aleatórias mesmo aos mais poderosos computadores já criados pelo homem – seguem, na verdade, um intricado padrão matemático, e todo brtrzslyxzhzsgy sente-se único justo por intuir que o seu padrão é singular e irreproduzível.
            Só poderíamos nos referir à comunicação brtrzslyxzhzsgyana por meio de metáforas. Como se sabe, a tremenda explosão que deu origem ao mundo provocou um eco que até hoje reverbera pelo universo. A sofisticada mente dos brtrzslyxzhzsgy está praticamente imersa nessa reverberação, e ela é capaz de reproduzi-la harmonicamente, em padrões referenciais ligeiramente distintos um dos outros, o que os torna inteligíveis às mentes dos demais brtrzslyxzhzsgy. Numa simplificação grosseira, poderíamos tentar explicar dizendo que a língua dos brtrzslyxzhzsgy é uma eterna e contínua variação sobre a canção de nascimento e morte do mundo.
            Por existirem num patamar diferente da realidade e por possuírem características físicas tão alienígenas, estamos conceitualmente e absolutamente impedidos de conhecer ou de estabelecer qualquer forma de comunicação com os brtrzslyxzhzsgy. A verdade é que a todo instante e em vários lugares manifestações espúrias da consciência brtrzslyxzhzsgyana perpassam o Planeta Terra sem que nós, humanos, pudéssemos nos dar conta da proximidade destas criaturas nem eles, brtrzslyxzhzsgy, pudessem suspeitar da existência de uma sociedade como a nossa neste nível de realidade. Os brtrzslyxzhzsgy vivem num recorte diferente do universo, e talvez uma descrição das características de um ser humano para um indivíduo brtrzslyxzhzsgy soasse tão alienígena quanto nos soa a descrição de seu modo de vida.
            Deixando de lado, porém, os aspectos mais abstrusos a respeito da existência brtrzslyxzhzsgyana, a verdade é que essas criaturas são muito mais parecidas com nós do que poderíamos imaginar. O que se entende mais facilmente quando se considera o caso de Cstrhjshkzlay.
            Todos os dias metempsicóticos, Cstrhjshkzlay vai trabalhar. Ou melhor, para ser verdadeiramente preciso, seria necessário dizer que Cstrhjshkzlay projeta sua consciência numa determinada amplitude de vibrações das supercordas, de tal modo que ele pode usar sua capacidade de concentração e de criatividade para sincronizar seus fluxos cronológicos com a prospecção de metarreverberações. Num gigantesco organismo formado por dezenas de milhares de brtrzslyxzhzsgy que vibram em conjunto, pode-se dizer que as próprias forças fundamentais que constituem o universo são coletadas, de modo a tornar possíveis os diversos objetivos funcionais da sociedade brtrzslyxzhzsgyana. 
            Parece complicado, mas é bem mais simples – e prosaico – do que soa à primeira vista. Cstrhjshkzlay, na verdade, anda até um pouco entediado com seu trabalho. Do ponto de vista de seus colegas, naturalmente, esse enfado é completamente injustificado. Poucos são os brtrzslyxzhzsgy que tem a oportunidade de ocupar uma função tão interessante quanto a de coletar as metarreverberações cosmogônicas. Os critérios seletivos são rigorosos, e apenas as mentes mais aguçadas tem uma chance de conseguir o emprego. Além disso, o ambiente de trabalho é impressionante, mesmo para os padrões multiplanares dos brtrzslyxzhzsgy: oscilações ininterruptas de estalos transcendentais são canalizadas por vigorosas redes plurimentais intencionalmente elaboradas para literalmente sugar o poder criativo cósmico. Lapsos momentâneos de ordem e caos absoluto alternam-se seguindo padrões que, segundo alguns teóricos mais imaginativos, talvez reflitam mensagens gravadas na própria conformação da realidade. Como resultado, forma-se uma verdadeira nebulosa de transconsciência, de modo que os brtrzslyxzhzsgy que lá trabalham têm a oportunidade de se comunicar com entidades inteligentes ou semi-inteligentes de diferentes ontologias identificadas.
Cstrhjshkzlay, para bem dizer a verdade, acha aquilo tudo um saco. Naquele dia metempsicótico específico, ele estava especialmente mal-humorado.
            – Olá, Cstrhjshkzlay, como vai o senhor?
             – Vou bem, Frgbbnhjktre.
            – As antinomias de ontem já estão em sua tabula rasa.
            – Ah, maravilha. Pode deixar que hoje eu as decifro.
            Porcaria! Isso significava que Cstrhjshkzlay teria um longuíssimo dia fazendo um trabalho árido, obrigando-o a ficar num estado de concentração forçada que era de encher o saco de qualquer um.
            Cstrhjshkzlay acoplou sua miríade geométrica ao feixe de pólipos da crisálida e despencou sobre o caleidoscópio.  
            – Ora merda! – bufou, e contemplou, mal humorado, o espetacular fluxo de metarreverberações passando diante do ultrahiperdodecaedro onde ele passava maior parte de sua jornada de trabalho. Cstrhjshkzlay suspirou e, antes de se debruçar sobre as atinomias, convergiu suas filigranas sensíveis para um livro – um padrão sintético cognitivo materializado aprioristicamente, na verdade – que ele havia deixado jogado por ali.
            Criaturas capazes de comunicação e conhecedoras da noção de individualidade[1], os brtrzslyxzhzsgy desenvolveram uma rica vivência intelectual. Naquilo que aproximativamente poderíamos chamar de passado[2], os brtrzslyxzhzsgy dedicaram-se à contemplação do universo e à reflexão sobre os mistérios da vida. Muitos livros foram escritos sobre as grandes e profundas questões, e houve uma era em que se considerava que, para ter uma vida plena, um brtrzslyxzhzsgy deveria buscar o auto-conhecimento através da reflexão.
            Auto-reflexão uma ova! – teria dito Cstrhjshkzlay, em nosso idioma. Fazia mais de 200 dias metempsicóticos que ele estava tentando apreender o significado transcendental daquele livro – um intrincado tratado sobre a possibilidade epistemológica de um conhecimento inato, ou seja, o equivalente brtrzslyxzhzsgyano da Crítica da Razão Pura. Só que, por causa do trabalho, ele não tinha nem tempo nem sossego para acompanhar os intrincados raciocínios.
            Na rabugenta opinião de Cstrhjshkzlay, os brtrzslyxzhzsgy todos estavam praticamente obcecados com a idéia da prospecção de metarreverberações. Claro, tinha todo aquele lero-lero de que aquilo tornava a vida mais conveniente, que os brtrzslyxzhzsgy de hoje viviam muito mais confortavelmente do que antes, com acesso a um quantum muito maior de metarreverberações. Cstrhjshkzlay não se importava que as outras pessoas acreditassem naquele monte de abobrinhas, mas justo ele ter que viver a vida inteira assim, coletando essas malditas metarreverberações! Ele, que tanto havia sonhado em se tornar um estudioso de psicocosmologia quando era jovem...  Tudo bem que ele havia escolhido o emprego, e que ele era metarreverberativamente bem remunerado pelo seu trabalho. Mas ao custo de que?  Do lócus biônico da liberdade e da reflexão, ou seja, tudo o que Cstrhjshkzlay mais desejava para si.
             Ele já havia tentado explicar suas opiniões a alguns de seus amigos mais íntimos. Alguns até concordavam, mas a verdade é que ninguém gosta de gente resmungona, seja nesta, seja na sétima dimensão. Todos achavam que Cstrhjshkzlay reclamava de fractal cheio: seu emprego era bom, e se ele quisesse tanto assim continuar seus malditos estudos de psicocosmologia, que tivesse ao menos a dignidade de tomar uma decisão e fosse atrás do seu sonho. Ficar choramingando era que não ia resolver o problema.
            “Falar é fácil.” – pensava Cstrhjshkzlay, quando lhe sugeriam largar o emprego. Ele sabia que se ele deixasse a firma para estudar psicocosmologia – das disciplinas mais interessantes e, portanto, mais inúteis jamais concebidas pelos brtrzslyxzhzsgy – com toda a probabilidade mais cedo ou mais tarde ele teria o mesmo destino de tantos brtrzslyxzhzsgy desocupados, ou seja, ele iria se amalgamar à transnebulosa de inação plena. A coisa não tava fácil para ninguém: a sociedade era de tal modo organizada que, sem uma fonte estável de metarreverberações, um brtrzslyxzhzsgy era a obrigado a ganhar a vida vendendo partículas quânticas em ângulos agudos.
            – Bem, vamos lá... – suspirou novamente Cstrhjshkzlay, resignando-se ao desinteressante dia que o acaso e sua falta de colhões lhe havia reservado. Quando se preparava para iniciar a criptosintaxe, ele ouviu alguém lhe dizer:
            – Cstrhjshkzlay, meu velho, tudo bem?
            Era Ztkzwgbtwow.
            – Ahn? Ah, oi, Ztkzwgbtwow...
            – Você vai para o sbrbles?.
            “Que o X’Aarn os devore!”, pensou Cstrhjshkzlay.
            – Ainda não sei, vai depender da Mngqstrbvca.
            – Ah, pode deixar que eu falo com ela. Não aceito desculpas, quero os dois lá, hein?
            – Não se preocupe, vou fazer o possível para ir.
            – Pra que trabalhar tanto se não se pode sbrblar com os amigos, não é?
            – É verdade.
            Assombrados por visões de desagregação cósmica, Cstrhjshkzlay pensou que talvez ele estivesse precisando de férias. Férias no Grande Vortex Primordial – não era pra lá que Mngqstrbvca queria ir? Talvez fosse interessante mesmo, todo mundo falava que era realmente uma viagem inesquecível. Ou talvez eles pudessem contemplar a orla do X’Aarn, o que definitivamente seria uma experiência muito mais emocionante – perigosa, inclusive.
            Mas será? Será que um intervalo de sossego resolvia o problema? Cstrhjshkzlay estava desestimulado com sua rotina, e interrompê-la poderia ser, se muito, uma fuga temporária.
            Cstrhjshkzlay vasculhou seu entorno ontológico com suas filigranas sensíveis. A velha bagunça de sempre – um coágulo de pontos fixos no infinito que Mngqstrbvca lhe havia dado de presente, o feixe de ângulos hiperdimensionais que ele havia prometido a si mesmo organizar meses metempsicóticos atrás, e sua coleção de livros, logo atrás do imperativo moral que ele era administrativamente obrigado a pendurar na parede teleológica.
            Cstrhjshkzlay             tinha praticamente uma coleção completa de filosofia brtrzslyxzhzsgyana no seu ultrahiperdodecaedro. Eram algumas dos principais testemunhos intelectuais de sua espécie – verdadeiros monumentos do antigo amor dos brtrzslyxzhzsgy ao conhecimento. Será que algum dia ele teria tempo de lê-los? Como, se ele passava a vida inteira coletando metareverberações?
            Metareverberações... Sim, dá para fazer muita coisa com metareerberações. Mas a verdade é que a maior parte dos brtrzslyxzhzsgy do passado tinha vivido suas vidas inteiras sem jamais precisar de uma única maldita metareverberação! Isso, claro, mudou radicalmente depois da ivenção do motor à metareverberação, durante a revolução trigonométrica, mas o que Cstrhjshkzlay tinha a ver com isso? Ele não havia escolhido as prioridades idiotas de seu mundo: por que, então, deveria se conformar a elas?
            Largar tudo... Será? Será que ele conseguiria, depois de ter se acostumado ao estilo de vida que tinha? E o que Mngqstrbvca iria dizer? E se depois ele se arrependesse?
            Ah, reclamar não resolvia o seu problema! Por sinal, ele não podia terminar aquele dia sem decifrar a porcaria das antinomias em sua tábula rasa. Era preciso deixar de pensar em suas angústias e se concentrar no trabalho. Ele contraiu suas filigranas, reverteu sua entropia marginal e respirou fundo.
            Vamos lá. Vejamos. A primeira antinomia dizia mais ou menos assim: “O que é, não é.”
             – O que é, não é. – repetiu Cstrhjshkzlay, em voz alta, ou o que quer que corresponda a isso no universo brtrzslyxzhzsgyano. Aquela proposição, por alguma razão que não conseguia entender, o deixou ainda mais triste.
            “Se o que é, não é” – pensou Cstrhjshkzlay, iniciando sua rigorosa análise criptosintática – “então eu não apenas não sou um brtrzslyxzhzsgy, como eu tenho um trabalho interessante, que me satisfaz profundamente. Afinal, poder fazer parte da prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna, sob os mais diferentes aspectos. Eu estou dando uma contribuição importante e insubstituível à sociedade, e isso por si só é o bastante para dar um sentido à minha vida.”
            Ele parou, olhou para o imperativo categórico na parede teleológica e continuou:
            “Eu faço o que eu faço porque eu quero. Foi um exercício de liberdade que me colocou nesta situação, e sendo assim eu não tenho do que reclamar. Eu gosto dos meus colegas de trabalho, eu gosto da Frgbbnhjktre, gosto até mesmo do Ztkzwgbtwow. O Ztkzwgbtwow não é um tremendo filho da puta. Tenho que parar de ser resmungão.”.
            O segredo da antinomia parecia estar aos poucos se revelando para Cstrhjshkzlay.
            “Ser protagonista do próprio destino não é uma pré-condição da felicidade. O auto-conhecimento não torna as pessoas necessariamente melhores, e tudo o que podemos esperar da vida é fazer o melhor com aquilo que nos foi dado. É um erro imaginar que um brtrzslyxzhzsgy possa ir de encontro ao seu destino, ou criar uma realidade nova. A arte de viver é a arte de fazer o possível. A prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna. Quando voltarmos á desagregação primordial de que saíram nossas consciências, as escolhas que tenhamos feitos ao longo de nossas vidas não farão a menor diferença, desde que nós tenhamos deixado uma marca no coração das pessoas.”
            É isso. Cstrhjshkzlay era bom em criptosintaxe, por isso ele havia conseguido aquele cargo. A primeira antinomia estava resolvida. Ele registrou, no grande aparato de ampolas cibernéticas retroflexas, a resposta para o problema:
            “O que é, é”.
            Cstrhjshkzlay pôs a antinomia resolvida em seu escaninho de saída e pegou a próxima na pilha.
            “O que será, não será.”
            – Essa é mais difícil. – murmurou Cstrhjshkzlay, com seus botões, antes de continuar sua análise criptosintática.  – Será um longo dia...


[1] Ao contrário, por exemplo, do terrível e tenebroso X’Aarn,  que confunde sua própria existência com a do universo inteiro e que, por isso, deseja devorar tudo o que existe para trazer de volta toda diferenciação indesejada para o conforto eterno da morte que há dentro de si.
[2] Observe-se, aqui, que a noção de passado para os brtrzslyxzhzsgy não está relacionada, como para nós, ao fluxo da entropia, ou seja, à passagem do tempo, mas sim a uma noção de profundidade definida em relação ao que a mente brtrzslyxzhzsgy entende como o coração quintessencial do Ser.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre a Totalidade Absoluta do Ser e a Porra Toda





Eduardo Siebra

                A janela do trabalho... um monte de carros passando pelo Eixo Monumental, pedestres indo para lá e para cá fazer sei lá o que, o apito do guardinha quando algum motorista faz uma cagada, as nuvens, sempre o mesmo lero lero. Que paisagem eu veria dessa mesma janela daqui a dez milhões de anos? As crateras fumegantes de um cenário pós-apocalíptico? A superfície morta de um planeta sem vida? Ou a mesma lezeira de sempre, os carrinhos passando, os passarinhos piando e essa coisa toda?
                Eita vidinha! E as coisas estupendas? E o sentido da vida tomada como um todo?  Que intrigante essa tal de Totalidade Cósmica, ou seja o Ser Tomado em sua Estupenda Integralidade. É difícil falar sobre o Absolutamente Incondicionado porque quase nunca nos damos ao trabalho de pensar nele. Mas, bem, ele está aí, até mesmo na vista da janela de meu trabalho.
                Todo esse monte de coisas, todos esses negócios, esses trecos, e estão todos aí, nos carros que passam e nas nuvens que flutuam preguiçosamente. É claro, nossos sentidos podem nos enganar, e talvez o que nós supomos ser a Totalidade Universal seja apenas uma mera ilusão. Mas disso podemos ter certeza: a impressão ou ilusão de uma Totalidade está aí – e não é já isso incrível?
                Eu, pessoalmente, acho que sim. Existir é a suprema característica do mundo, seja como realidade, seja como aparência. As aparências existem, afinal, e o Tudo – ou a imagem do Tudo – aparenta ser grande pra dedéu. Mas também muito pequeno, menor ainda que os passarinhos que vejo passar, de vez em quando. O Tudo está no grande e no pequeno, no longe e no perto.   
                Engraçado isso, porque, tomado como realidade, o Conjunto Universo do Ser parece ser estupendamente gigantesco – quase infinito, para todos os aspectos práticos que possam interessar a um homo sapiens com foco na vida. Porém, nós jamais poderíamos conhecer esse povaréu de coisas como um objeto em si mesmo: estamos presos à nossa consciência, e tudo isso que nos soa tão descomunal só é vivido, na verdade, nos estreitos limites de nosso cérebro, e pela apreciação das pequenas e inumeráveis coisinhas que, quando tomadas em conjunto, formam o universo inteiro. Bem que os místicos dizem que a realidade absoluta é cheia de contradições – o coincidentia oppositorum, a muralha do Paraíso, o véu de Maia!  
                Eis um grande mistério, que na nossa cabeça – em que mal cabem todos os nomes dos sete anões da Branca de Neve – possa caber o universo inteiro. Há até quem ache que fora dela não pode haver mundo: nossa consciência é como que um farol de realidade, e para onde ela se volta, surge, como que num passe de mágica, no exato instante que antecipa nosso olhar, uma parte do mundo, com todos seus infinitos detalhes e suas regras internas de coesão. Como se o universo existisse apenas em potencial, para se tornar realidade (fenômeno) apenas quando efetivamente é conhecido... Faz até sentido: para que um universo tão grande e escabroso se ele não pudesse ser conhecido (e admirado)?
                Só que o buraco cosmológico é ainda mais embaixo. Nossa mente também é fragmento e, como todo fragmento que mereça o mínimo de respeito, faz parte do Todo. E isso nos leva a um paradoxo do caralho – com o perdão do termo, não encontrei verbalização mais apropriada para o sentimento por que ora estou tomado, enquanto contemplo o mistério da Coisa Inteira enquanto olho pela janela – que é o fato de o mesmo Universo que conhecemos mentalmente ser o pressuposto formal, imprescindível, para que nossa mente possa ser concebida! Vejam só! Será possível, então, que nossa mente e o universo sejam a mesma coisa? Olha a coincidentia oppositorum de novo!
                Se um dia o leitor for participar de uma prova ou concurso sobre os grandes mistérios do Ser, eis um conselho infalível: basta responder que, no Absoluto, as contradições se igualam. Ou seja, responda sem medo: o sim é o não, o alto é o baixo, o antes é o depois, o sujeito é o objeto, o princípio é o fim.
                E o bem, é o mal?
                Melhor deixar essa em branco.
             Mas voltando, lá vão os pedestres passando pela calçada, com a cabeça cheia de questões práticas, sem nem por um segundo – até, pelo menos, onde sei – se preocuparem com o estarrecedor fato de que eles talvez estejam co-criando essa mesmíssima realidade que às vezes os aborrece tanto. Não sei se é consolador ou deprimente pensar isso: que se eu morresse agora, ainda haveria um monte de pedestres e de burocratas intelectualmente pretensiosos para co-criar o mundo com suas consciências, e essa mesma vidinha besta que testemunho pela janela de meu trabalho continuaria existindo pelas décadas sem fim do futuro... Será que é por isso que temos tanto essa necessidade de descobrir coisas novas – coisas nunca antes vistas – por inconscientemente suspeitarmos que o nosso ato de descoberta é, na verdade, um instante de criação? Se for assim, vai saber se todos esses abismos interestelares existiam antes dos astrônomos direcionarem seus telescópios para o céu! Talvez o conhecimento alargue o mundo a cada fronteira que ultrapassa.
Bem, não dá para ter certeza sobre essas questões, o que dá para saber é que, seja o Todo uma realidade em si mesma, seja Ele uma entidade puramente mental, o fato é que ele abarca tudo o que existe. Tudo, tudo mesmo, as galáxias, os aspargos, as coleções de tampinha de Coca-cola, as carabinas, eu, você, o Mao Zedong, Madame Blavatsky, o escambal, o escarcéu, o beleléu, a porra toda. A Totalidade Cósmica é foda, ela inclui tudo, tudo mesmo, e não apenas o que existe, mas também o que já existiu e o que existirá. Se brincar, ela inclui até mesmo o que não existe – ou, pelo menos, o que poderia, hipoteticamente existir.
                Ou seja, além do desconhecido, o Todo também abarca o irreal. Pois um sonho ou um mundo imaginário – ainda que sejam criações de nossas mentes – também são alguma coisa e, como toda coisa, fazem parte da Realidade Total. Ou seja, se alguma criatura incrivelmente inteligente e ociosa algum dia se desse ao trabalho de escrever numa enorme folha de papel pautado todas as coisas que existem, ele teria que registrar não apenas aquilo que pode ser sentido como um objeto concreto, mas também os desejos, os pecados, as loucuras e até mesmo os unicórnios, os pecados sonhados, os smurfs e a fuinha cabeluda, cor-de-rosa e comedora de gente que acabei de imaginar.
                Tentar pensar nisso até dá uma tontura. Imagine só, esse tanto de coisa... Como se o real já não bastasse! E para quê? Para que tudo isso, meu Deus do Céu? Tanta estrela, tanto menino barrigudo, tanta água-viva, tanto palito de picolé, tanta roldana, tanta fita crepe?
                Mais um dos mistérios da Totalidade Cósmica Universal: embora seja nele que tudo adquira um sentido, Ele próprio é destituído de sentido, já que nada pode possuir um sentido fora dele. E isso por uma razão muito simples: um sentido é alguma coisa e, como coisa, faz parte da Totalidade Universal. Sendo assim, o que quer que supuséssemos que fosse o sentido do Universo Tomado como Totalidade é, na verdade, parte desse Todo e, portanto, não poderia ser usado como referência externa para julgá-lo. Incrível, isso, mas é assim: o Todo em sua inteireza não pode possuir um sentido – pelo menos não para uma mente que funcione como a nossa.  Pode-se pensar que o Todo seja o seu próprio sentido, mas vamos convir que isso não diz lá muita coisa – seria mais ou menos como dizer que o Todo é o Todo... Ou quem sabe o sentido não está cifrado no Todo – como um compartimentozinho secreto da realidade? Ainda assim, seria algo que estaria "dentro" do mundo. A verdade não está lá fora... a verdade está aí, bem debaixo do seu nariz!
                Bem, talvez os significados não sejam atributos do Todo, mas apenas de suas partes. O que nos traz à curiosa percepção de que certas partes do Todo são capazes de perceber e atribuir sentidos. É exatamente isso que nós, seres humanos, fazemos. Nunca é demais lembrar que os seres humanos são, do mesmo modo que as estalactites, partes do Absolutamente Tudo, e se eles – ao contrário das estalactites, pelo menos até onde sabemos – são capazes de contemplar a Totalidade Universal, isso significa que o Universo é, em parte, capaz de contemplar a si mesmo.
                E aí sim, a coisa começa a ficar complicada. Tudo está aí, como uma imanência perfeitamente indiferente, e nós, bestas que somos, estamos aqui feito fragmentos, nos angustiando a respeito do sentido de nossas vidas, quando, na verdade, estamos nos preocupando com algo que nós também somos! Ou seja, nossa individualidade, nossa noção de eu é um erro de foco: a consciência que desenvolvemos como parte é, na verdade, a consciência do todo – que, por não poder ser sujeito enquanto todo, precisa de suas partes para se conhecer! Ou seja, toda aquela meditação transcendental em busca da consciência cósmica talvez seja um terrível erro de cálculo: nós é que somos a consciência do universo! Nós, seres vivos, é que tornamos possível ao mundo a dor, a alegria e as tenebrosas especulações intelectuais! A não ser, claro, que o universo inteiro seja um grande cérebro... Vai saber!
                Terá a Totalidade um começo no tempo? Essa é fácil, hein, o Kant já a matou no comecinho da Crítica da Razão Pura. Bem, quer nós tomemos o tempo como uma dimensão no continuum espaço-temporal, quer nós suponhamos que ele é uma mera forma de nossa percepção do mundo, não podemos negar que ele é alguma coisa e que, portanto, está contido na Totalidade Totalmente Totalizante. Ou seja, embora o tempo possa ser uma medida implacável para praticamente tudo o que existe, ele não pode ser usado como referência para o conceito de Tudo O Que Há. Será, então, que isso equivale a dizer que o Todo é eterno? De modo algum: significa apenas dizer que o conceito de tempo não faz sentido para a Totalidade Universal. E tome mais uma lapada no senso comum hominídeo!
                O mesmo se diga da ideia de espaço. O que haverá fora do Todo? A pergunta não faz sentido, já que dentro e fora são ideias que só fazem sentido para coisas que já estão no espaço, ou seja, no mundo. O Universo Tomado em Sua Totalidade não é sequer uma coisa que possa ser considerada como um objeto do conhecimento! Ele é, quando muito, um conceito da razão destrambelhada – e um conceito escandalosamente terrível!
                E irrelevante. Pois ele é um pressuposto mental que, por abarcar tudo, é incapaz de fazer qualquer diferença. Tanto faz como tanto fez: o Todo é o óbvio, apresentado de uma forma complicada. Ou seja, ele possivelmente é o mais inútil dos conceitos, pois por ser tão abrangente, ele não acrescenta nada de novo ao conhecimento. Ele só serve para nos assoberbar com o que já pressentíamos.  Para bem dizer a verdade, do ponto de vista prático, o Todo é o Nada – e pode olhar aí no gabarito da prova se duvidar.
                O que nos traz forçosamente de volta à janela de meu escritório de trabalho, aos carros, aos passarinhos, às nuvens deslizando pelo céu de Brasília, à vidinha besta que levo, enfim. E não só porque um texto pretensioso como esse precisa, para causar efeito, terminar falando das coisas singelas da vida, mas porque é essa a parte do Todo que eu, como parte, contemplo agora: eu, criatura consciente, que sou o centro do universo inteiro!  Esta é a minha situação: eis, aí, o mundo.
                Foda isso, viu?

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Desvendando o Sentido da Vida



Nota preliminar:  Desde que criei o blog, recebi dezenas de milhares de mensagens reclamando que descumpri aquilo a que originalmente havia me proposto, ou seja, resolver, de forma peremptória, todos os problemas que assolam a humanidade.

 Discordo, já que, como se depreende de uma leitura superficial de qualquer uma das minhas crônicas, meus textos não tem outro objetivo que o de permitir aos que os lêem adquirir uma apreensão imediata das verdades filosóficas fundamentais sobre o Universo. Todavia, como venho tentando exercitar com mais afinco as 8 virtudes budistas, escrevi o texto abaixo para aplacar a ira dos que principiavam a me considerar um falastrão.

 Ao fim da leitura, espero que todos meus leitores considerem superado o clássico problema do sentido da vida humana.



Desvendando o Sentido da Vida
 






            Qual o sentido da vida, ora bolas? O erro já reside na questão. Mais apropriado é perguntar: é possível ao ser humano conhecer se a vida tem ou não um sentido?
            Com isso já limpamos o terreno para avançar no problema. Com um pouquinho de análise conceitual, então, conseguimos milagres. A primeira coisa que precisamos definir é o que entendemos por “sentido”.
            Se damos à palavra uma acepção estrita, igualando-a ao que comumente entendemos como “significado”, (como quando falamos no significado de um acontecimento, de uma decisão, etc) então é possível afirmar, sem medo de se estar incorrendo numa extrapolação, que o ser humano pode, sim conhecer o sentido da vida, do mesmo modo que é capaz de conhecer o sentido de qualquer coisa. Quando afirmamos isso, estamos reconhecendo que o ser humano é uma criatura cultural, que interpreta o mundo em que viver pelo filtro da cultura, ou seja, usando conceitos, idéias e significados que são, ao mesmo tempo, criados por ele e impostos de fora, pela sociedade em que ele vive. Nessa acepção, a vida tem o sentido que o ser humano atribui a ela e reconhece nela, e o problema de desvendar o que se entende por “sentido da vida” é um problema meramente psicológico ou sociológico – algo que varia de um indivíduo para outro e de sociedade para outra. Não vale a pena ir muito mais fundo nessa direção.
            Já se tomamos a palavra “sentido da vida” numa acepção ampla, como se nos referíssemos a um significado intrínseco ao universo, mas que só pudesse ser compreendido apelando-se a algum conceito exterior a ele (como, por exemplo, a idéia de Deus ou do Absoluto), então é possível afirmar, com razoável segurança, que não somos capazes de alcançar o “sentido da vida”, ou pelo menos não se nos limitarmos a utilizar os instrumentos da racionalidade. A explicação é simples: como nossa experiência se dá através dos sentidos, e como esses sentidos só são capazes de receber impressões de fenômenos deste mundo, não temos como alcançar um conhecimento sujeito a comprovação empírica sobre o que está além do universo sensível.
            Por que razão teria sido o mundo criado? Por que nós, criaturas conscientes, nascemos aptas a amar, a sofrer, e a tomar conhecimento do bem e do mal? O que nos aguarda após a morte? Suspeito que a revelação religiosa ou a contemplação mística são os únicos caminhos para se encontrar respostas para essas perguntas, porém como tais formas de conhecimento estão além do escrutínio da racionalidade, sobre elas é preciso silenciar.          
            Se não podemos, porém, desenvolver um conhecimento empírico sobre objetos fora do alcance dos sentidos, nada nos impede de usar nosso intelecto para especular sobre eles (Kant que o diga). O fato de o conhecimento obtido por essa via não poder ser submetido à comprovação pelos fatos é irrelevante, já que o fundamento do conhecimento será a própria lógica usada na investigação. Claro, procedendo assim teremos que nos contentar, no máximo, com respostas provisórias, mas não já seria isso, em si mesmo, um grande avanço na compreensão de problemas que estão na base de nossas mais elementares angústias?
            Eu digo que sim, e acredito que pouca lógica já é suficiente para nos dar um ponto de apoio. Vou dar um exemplo simples: mesmo não podendo dizer em termos peremptórios se a existência do universo possui ou não um sentido transcendente, posso tomar como verdadeira a seguinte proposição: “ou o universo possui um sentido ou o universo não possui um sentido”. Em outras palavras, é logicamente inaceitável que eu afirme que vivemos num universo que possui e que não possui sentido ao mesmo tempo.
            Parece pouco? Não acho que seja. A mera apresentação do problema nesses termos já nos coloca diante de uma dualidade esclarecedora, independente da alternativa que se mostre, em última instância, verdadeira. Pois imaginemos que fascinante seria viver num mundo que, embora se nos apresentasse como um enigma, possuisse um sentido oculto, que talvez nos fosse revelado após a morte? E que fantástico seria poder descobrir, por misteriosas vias, esse significado profundo por trás de cada um dos pores-do-sol que já nos deslumbraram, de cada uma das perdas pessoais que já vivemos ou simplesmente de cada um dos peidos que já foram soltados? Ou, pelo contrário, qual não seria a nossa solidão – e, portanto, a preciosidade de nossas vidas – se nós na verdade vivêssemos num universo completamente alheio às nossas concepções de finalidade? Habitar um mundo imenso – um inacreditável abismo onde cintilam fascinantes coágulos de matéria incandescente – que só existe por existir – como um sopro, um sonho ou uma instabilidade na enorme superfície do lago do inexistir... E nós, como que por acaso, teríamos adquirido consciência de nosso pertencimento a esse mundo indecifrável, e do vazio que está no fundamento de tudo o que já experimentamos – da mais sublime nobreza aos atos mais torpes.
            A mera colocação do problema de pronto já nos tornou capazes de compreender que, qualquer que seja a resposta que nós demos ao problema do sentido da vida, a resposta necessariamente será aterradora. Nosso estar no mundo é um milagre – nós só não sabemos exatamente que tipo de milagre. Além disso, ainda que nós não possamos definir qual das duas alternativas é acertada, não é fascinante saber que nós somos capazes de definir – mesmo que em termos hipotéticos – qual poderiam ser as respostas para a maior questão existencial jamais posta pela humanidade? E se alguém quisesse arriscar uma aposta – e se decidisse em termos definitivos entre as duas opções – essa pessoa teria 50% de chance de alcançar um conhecimento definitivo sobre a razão de ser do universo.
            Não precisamos parar por aqui. Uma vez que tenhamos chegado a essa fascinante encruzilhada, podemos levar o exercício ainda mais longe e, a partir de cada uma das alternativas, desenvolver hipóteses subseqüentes não menos fascinantes. Por exemplo, partindo da suposição de que o universo possui um sentido transcendente[1], podemos nos perguntar: esse sentido foi definido por um Deus criador?
            Responder afirmativamente ou negativamente nos põe diante de perspectivas interesantíssimas. Se tudo o que vemos foi intencionalmente criado por uma Inteligência não-humana, então que aventura é a vida – esse aparentemente banal transcorrer de acontecimentos que, à luz de um todo que não somos capazes de alcançar, encaixa-se num plano fixado desde o infinito! E se, pelo contrário, o universo possuir um significado exterior, porém que não tenha sido atribuído por Deus, então que lugar estarrecedor é este mundo em que vivemos, já que ele, mesmo sendo imanente e incriado, serve a um propósito que eu só conseguiria definir como o axioma do ser. 
            Uma pessoa com inclinações filosóficas poderia levar essa fascinante brincadeira aos extremos a que a quisesse conduzir sua curiosidade. Por exemplo, a partir de cada alternativa, seria possível aprofundar a especulação fazendo novas perguntas disjuntivas sobre cada uma das hipóteses que se está considerando. A cada passo que se dá nesse jogo, porém, afastamo-nos mais e mais da possibilidade de um conhecimento seguro sobre as questões transcendentes, já que cada nova suposição precisa ser construída em cima de suposições anteriormente tomadas como verdadeiras. Imagino, todavia, que nas primeiras etapas ainda seja possível fazer colocações tão interessantes como as que versassem sobre a inteligibilidade da mente de Deus, a moralidade ou não do significado existencial do universo, etc.
            Quero concluir com uma objeção que eu mesmo levanto contra minha proposta. Pela maneira como apresentei o problema, tentando definir com clareza as grandes perguntas existenciais, não fiz nada além de me esquivar da essência dessas perguntas. Quando alguém se questiona “qual o sentido da vida?”, afinal, é evidente que essa pessoa já está presumindo que o universo possui um significado, e que esse sentido é exteriormente atribuído. O que a pessoa realmente deseja saber é o conteúdo desse sentido, independentemente de ele haver sido imposto por Deus ou não, de ser imanente ou transcendente, etc. Ou seja, o que ele realmente quer saber é para que cargas d’água o universo foi criado. Para provar uma tese moral? Para provar o amor de Deus pelas suas criaturas? Como um exercício intelectual de mentes inacreditavelmente mais evoluídas que as nossas?
            Realmente, o exercício que desenvolvi não pode acrescentar nada a esse tipo de debate. Portanto, se o que se quer é decifrar aquilo que Augusto dos Anjos eloqüentemente chamou de a escuridão do cósmico segredo, bem, então ou nós comemos cogumelos, ou nós nos contentamos em dar tiros às cegas.
 E se por acaso algum alienígena aí fora quiser saber a minha opinião sobre o assunto, bem, eu acho o Universo foi criado para entreter. E o mais foda é que às vezes eu acho que não estou me divertindo nem um pouco.
           



[1] Se ele não possui um sentido, não haveria mais razão para mais especulação, já que o fato em si se bastaria em termos existenciais.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Usando a Lei de Murphy a Seu Favor


 

            Intérpretes mais otimistas costumam considerar a Lei de Murphy de uma perspectiva lógica: “se alguma coisa pode dar errado, ela forçosamente dará errado, desde que tenha tempo o suficiente para isso”. O que não quer dizer que ela dará errado na primeira ou mesmo na segunda tentativa.
            Qualquer observação minimamente realista sobre o Mundo e a posição que o ser humano ocupa nele mostra-nos que não, que a Lei de Murphy está gravada na conformação do real, do mesmo modo, por exemplo, que a Lei da Gravidade. Como muito bem argumentou o Príncipe Sidarta Gautama, o Cosmos é uma gigantesca máquina de infligir sofrimentos, e o fato de sermos criaturas conscientes torna-nos, por excelência, os atores e espectadores das desgraças da vida.
            É claro que, do nosso ponto de vista, enquanto coágulos de matéria aptos à dor, quanto mais pudermos nos livrar do sofrimento, melhor. Afinal, já que não escolhemos as condições em que iríamos viver – pelo menos até onde vai nosso conhecimento! –, é justo desejar a tranqüilidade possível num universo que tende ao mal.
            Como ex-habitante de Recife, graduado em Direito e diplomata, estou profundamente familiarizado com todas as formas de desgraça que podem se abater sobre um mortal. Esse conhecimento empírico do sofrer me permitiu desenvolver certas intuições que se mostraram muitos úteis em minha busca pela tranqüilidade possível.
            Por exemplo, é uma verdade notória que muito raramente o universo concentra toda a maldade que tem reservada para uma pessoa em apenas uma modalidade de aborrecimento. Somos a todo tempo assediados por problemas de diversas ordens, sem relação aparente entre si, mas que se acumulam e se compõem para formar o quadro de nossa miséria – mais ou menos como quando a privada entope no mesmo dia em que esquecemos de pagar o boleto do condomínio. O Universo está à espreita, e tudo de que ele precisa é de uma deixa para nos assolar com abacaxis no trabalho e discussões de relacionamento.
            Uma pessoa inteligente pode usar essa característica do Cosmos a seu favor, e estou convencido de que bastará um exemplo simples para esclarecer essa afirmação aparentemente contra-intuitiva.  
             Imagine-se a cena de um assalariado que tenta voltar para casa no horário do rush. Faminto e exausto, tudo que ele mais deseja é voltar para casa, tirar a roupa social – que lhe apertava todos os meridianos identificados pela medicina chinesa – e despencar no sofá. É do interesse do Plano Geral das Coisas, todavia, que ele passe horas preso no engarrafamento, com calor, sem ter mais o que fazer além de escutar a “Voz do Brasil”. Se alguém será atropelado, se um esgoto irá estourar ou se haverá uma enchente, não importa. O certo é que o Cosmos encontrará alguma maneira de congestionar ainda mais o trânsito, aumentando, assim, a pressão arterial do trabalhador. É a Lei de Murphy em ação.
            A maneira mais inteligente de escapar dessa enrascada é tentar usar o tempo de engarrafamento para fazer alguma coisa relevante como, por exemplo, mandar uma mensagem de celular extensa para a namorada. Minhas observações empíricas mostraram que, não importa quão longo seja o engarrafamento, se o motorista começa a escrever uma mensagem no celular, o carro da frente invariavelmente avança. É um fenômeno cosmológico ainda pouco estudado pelos físicos, uma intervenção subjacente da Lei de Murphy que compensa os efeitos do aborrecimento original. Toda vez que o motorista tentar continuar digitando sua mensagem no celular, o carro da frente andará mais um pouquinho, o que o forçará a interromper o que estava escrevendo. Se o seu principal objetivo fosse efetivamente mandar a mensagem, a Lei de Murphy estaria consumada, e tratar-se-ia de mais um aborrecimento para o rol das misérias daquele indivíduo. Mas se seu principal objetivo for chegar logo em casa, então o sofrimento secundário pode ser uma excelente maneira de amenizar os efeitos do problema inicial.
            E assim, com pequenos avanços, redigindo e apagando uma longa mensagem, é possível avançar quilômetros pelo coração das mais congestionadas metrópoles.  O Universo ficará confuso, e não saberá exatamente onde deverá concentrar sua má-vontade. O gesto do motorista que tenta redigir algo no telefone – um esforço que exige concentração – não pode ser ignorado por uma entidade que existe para aborrecer. Ainda que lhe interesse manter o trabalhador preso no engarrafamento, é tentador demais atrapalhar aquele gesto concentrado, aquela tentativa de comunicação possivelmente tão importante. Pode ser que ele esteja tentando transmitir uma informação a alguém que esteja em perigo, ou talvez ele esteja avisando outra pessoa para não vir por aquele caminho engarrafado. Não, é preciso atrapalhar! Andem os carros!
            Esse é um dos exemplos mais emblemáticos, porém são várias, na verdade, as formas de usar as leis do Cosmos a nosso favor. Por exemplo, se alguém está fazendo um exame e percebe que faltam apenas dez minutos para acabar a prova, sendo que ainda faltam várias questões a serem respondidas, não resta dúvidas sobre o que fazer: é preciso apertar o cinturão, abotoando-o num furo três ou quatro vezes mais apertado do que aquele que se costuma usar. Isso criará uma sensação de desconforto terrível, verdadeira tortura nas entranhas que fará o Universo desacelerar a passagem do tempo, de forma a prolongar o sofrimento. Assim, o aluno que faz a prova terá muito mais tempo para responder as questões, ainda que tenha que tomar cuidado para não deixar a dor atrapalhar sua concentração. Se nem isso funcionar, e a pessoa perceber que faltam dois minutos para o fim da prova, sempre se pode apelar para estratagemas radicais, como, por exemplo, puxar a cueca por trás da calça, de tal modo que ela fique enfiada nos fundilhos. Esse paroxismo do desconforto multiplicará o tempo por dez, e possibilitará que as questões que faltavam sejam respondidas.
            O uso da Lei de Murphy em favor próprio é uma estratégia que só encontra paralelo, em termos de eficácia, no uso da psicologia reversa contra o Universo[1]. É preciso apenas ter algumas precauções, pois, como se sabe, entre as dimensões visíveis habitam platelmintos colossais e sem mente, que esperam apenas uma oportunidade para devorar a alma dos mortais que infrinjam alguma lei fundamental do Ser. É importante não permitir que a realidade se dê conta do engodo, ou seja, deve-se sempre dar sinais de que se está, efetivamente, sofrendo. Caso contrário, não se surpreenda se um rasgo no tecido do real aparecer enquanto você digitava uma mensagem durante o engarrafamento, e cílios prolongados arrastarem-no para um abismo gélido além da soleira do tempo, onde seu cérebro será devorado por ectoparasitas trematódios!


[1] Como se sabe, nada reduz tanto a probabilidade de que algum evento favorável aconteça quanto demonstrações de grande desejo dadas por uma pessoa. O universo tem uma psicologia aparentada com a de uma criança, e está disposto a conceder um benefício apenas nos casos em que acha que um indivíduo não deseja aquilo, ou deseja algo exatamente oposto.