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terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Plano Perfeito



Como pode ter dado errado?
1990. O ano em que entendi do que a escola realmente se tratava. Até então não ligava de ter que passar algumas horas de meu dia na Casinha da Cultura. Foi lá que conheci alguns bons amigos, com quem costumava desenhar monstros e explorar o jardim, sob o inacreditável azul do céu cratense. As refeições comunais – ou “hora da meranda”, como, naqueles anos idos, nós as chamávamos – eram momentos de alegria e confraternização, quando podíamos trocar impressões sobre esse ensolarado universo em que havíamos acabado de chegar. Eu gostava do pão com ovo, da banana frita, do suco de caju em caixinha. Sobretudo, ainda acreditava que a “Tia” fosse nossa aliada.
            Então veio o ABC. Então veio a caligrafia. Vou ser honesto, nunca tive muita dificuldade de aprender as letrinhas. Ficava até surpreendido com a desolação de alguns colegas, que penavam para passar do "E". Mas esse não era o ponto. A Tia dava os primeiros indícios de estar a serviço de um desígnio secreto que os adultos tinham bolado para nós, e que nós com certeza teríamos abominado caso ele nos tivesse sido esmiuçado em detalhes.
            Perder os melhores anos estudando álgebra, tornar-se um cidadão respeitável, ter que todas as manhãs enlaçar o pescoço com uma tira de seda que nos apertará a goela o dia inteiro? Enquanto o mundo estava – como nós, assíduos espectadores de Jaspion, sabíamos muito bem – cheio de monstros e dinossauros? Longe de nós, com sua cara redondinha, tracinho para lá. Você não é nossa amiguinha, você quer é lascar-nos a vida!
            Escapar era preciso. Sabe lá Deus que rotina enfadonha o futuro me guardava. Aos 6 anos, eu ainda tinha uma chance.
            6:00 hs da manhã. Levantei-me mais cedo e vi que meu irmão ainda dormia. Eu não tinha um segundo a perder. Desci do beliche e vi, pelas frestas da janela, que estava uma linda e quente manhã do inverno sertanejo. Os passarinhos cantavam feito doidos, felizes de não partilharem as misérias humanas.
            Meus pais acordavam cedo, por isso todo cuidado era pouco. Ainda de pijama, vi pelo corredor que a porta do quarto deles estava fechada. Bom sinal, talvez eles ainda estivessem se arrumando para ir ao trabalho. Desci correndo as escadas e, seguindo o estratagema que havia mentalmente ensaiado até altas horas da noite anterior (até umas nove horas, imagino), fui até a copa, arrastei cuidadosamente uma cadeira até a parede e roubei o relógio.
            Tomando cuidado para não ser visto, abri a porta da frente, cumprimentei os cachorros – velhos companheiros, que com um olhar de cumplicidade e uma lambida asseguraram-me que meu segredo estava em boas patas – destranquei o portão e ganhei o mundo. 
            Livre! Lembro que senti uma excitação correr-me o corpo todo quando me vi só na rua. Estava uma manhã linda, com o sol brilhando forte no verde dos pés de oiti. Na imensidão azul que pairava sobre minha cabeça, só uma ou outra nuvem bem branca, como algodões ou sonhos num sono infantil. Doía-me um pouco pensar que eu tinha deixado para trás os confortos do lar. Mas eu não tinha opção, eu não agüentava mais aquela chatice em que a escola se havia tornado. Jamais considerei que o alfabeto pudesse me ensinar algo mais relevante do que o que eu intuitivamente já tinha aprendido – que o bom mesmo nessa vida é jogar pedra na lua e correr desembestado sob do sol. Sim, eu viveria sem bolachas de chocolate e danoninho, se esse fosse o preço a pagar pela liberdade.
            Continuei caminhando despreocupado pela rua de calçamento, esforçando-me para não chamar a atenção. Não teria me passado pela cabeça que alguém poderia desconfiar de uma criança de seis anos branca e loira, de pijama e sandália japonesa, caminhando sozinha pelas ruas do bairro do Sossego com um relógio de parede debaixo do braço. Meu plano parecia-me infalível. Iria pelas ruas de pedra até a entrada de uma trilha que eu havia descoberto com meu companheiro de explorações, Ulissinho[1]. Por ela eu avançaria até as margens do Rio Granjeiro, no meio do qual está situado o mais intrigante monumento geológico jamais descoberto por habitante do Sossego: a temível “Pedra com Cara”, um gigantesco pedregulho com olhos, boca e nariz – provavelmente obra de alienígenas ou homúnculos do subterrâneo, ao menos segundo as teorias que eu e Ulissinho desenvolvêramos após rigorosas investigações.
            Sentado em cima da rocha, eu usaria o relógio de parede para saber exatamente a hora em que meu pai iria trabalhar.A vantagem de ter um pai obstetra é que as mulheres não adiam a hora do parto simplesmente porque o filho do médico pôs na cabeça que não iria para a escola naquele dia. Também não achava que ele fosse atribuir exagerada importância ao meu desaparecimento, já que tinha indícios para acreditar que os adultos tinham coisas mais importantes com que se preocupar. Eu estava seguro, portanto, que no mais tardar às sete e meia meu pai já teria ido ao Hospital. 
            Chegada a fatídica hora, eu retornaria do meu refúgio fluvial e voltaria para casa. Vestiria uma roupa decente e tentaria achar algum dinheiro. Mesmo que não conseguisse encontrar, meu destino era certo. Iria para o último reduto das crianças desgarradas e sem futuro, o porto seguro dos desocupados, onde podíamos, em troca de alguns cruzeiros, ser indulgentes com nossos vícios e desfiar as horas com divertimentos jamais sonhados em sala de aula: a Center Games.
            Era a época do Mega Drive e Sonic tinha acabado de ser lançado – pelo menos no Crato. Eu planejava passar horas, dias inteiros jogando e assistindo as partidas de outros viciados. Enquanto meus colegas de escola labutavam no caderno de caligrafia, eu estaria tranquilamente colecionando argolas e ajudando os animais da floresta a escapar da vilania do Dr. Willy.
            Sim faria isso e muito mais com os outros habitués daquele antro de permissividade – como um certo sujeito chamado Gasolina, que sempre estava por lá, mesmo sem ter um tostão para pagar uma partida – e pouco estaria me lixando se um meteoro varresse do mapa a Casinha da Cultura! Às favas com o ABC e com as sopas de letrinhas!
            Eu poderia ter sido livre. Talvez hoje eu fosse um habitante das ruas e das florestas, com longos cabelos desgrenhados e uma temível barba, e teria por companheiros apenas os mocós e os passarinhos. Viveria da coleta de frutos silvestres, e usaria o pouco dinheiro que conseguisse obter vendendo caroços de macaúba na feira do Crato para jogar vídeo-game na Center Games – que ainda hoje existe, num novo endereço. E eu seria livre, não teria que usar gravata, nem carregaria sobre os ombros o peso de um terno. Sim, poderia ter sido a minha vida, se logo depois que eu dei a volta na segunda esquina uma pampa não tivesse aparecido no meu encalço. Era o meu pai, que ao ter se dado conta do sumiço do relógio de parede, percebeu que alguma coisa devia estar errada.
            Cá estou hoje, engravatado.
***


            Ah, Ulissinho, o que é de nós? Estará a Pedra com Cara ainda no leito do Rio Granjeiro, ou já terá alguma enchente a carregado para longe, do mesmo modo que a vida carrega os sonhos? Meu caro amigo, a verdade é que o sol nunca deixou de brilhar durante as horas que nós passamos enfurnados em salas de aula, escritórios e consultórios.


[1] Cabe, aqui, observar que as crianças de antigamente eram criadas soltas pelo mundo afora não porque o mundo fosse menos perigoso. Naquela época havia tantos delinqüentes, assassinos e psicopatas como hoje, e ainda havia o agravante de naqueles tempos as matas estarem infestadas de todo tipo de caipora, papa-figo e assombração. Acontece que as crianças  simplesmente eram mais intrépidas que as de hoje, que se traumatizam com formas bullyings que, em nossos tempos, eram interpretadas quase como manifestações de apreço.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Umbigo do Mundo



 
 Zé Roberto é a pessoa mais teimosa que eu conheço. Apesar de claramente estar sem razão, ele insistiu em se opor, pública e sistematicamente, a uma singela proposição que fiz em uma crítica a uma de suas críticas de cinema.
       Apesar de toda a estima e respeito que possuo por este ilustre paraibano, meu compromisso com a verdade me deixa perante o dever de desenvolver um pouco mais as razões filosóficas que me levaram à afirmação que tanta polêmica causou nos meios literários do agreste e do sertão – quero dizer, a de que o Crato é o centro do universo conhecido. 
            Os que me acusaram de tresvariar pecam por pouca ousadia intelectual. Pretendo provar meu ponto de forma definitiva e irrefutável. A dificuldade de aceitar que uma cidade aparentemente tão prosaica seja o centro geométrico, estético e moral do cosmos origina-se de duas motivações interligadas: 1) Uma incompreensão a respeito das razões pela qual um universo como o nosso poderia ter sido criado e 2) uma supervalorização da grandiosidade como medida de valor cosmogônico.
Sobre a motivação número 1, lembremos que, a tomar pelas evidências fornecidas pelo absurdo da condição humana, a principal razão que levou à criação de um mundo a partir do Nada reside no fato de que o nada é um saco! Imaginemos um Demiurgo sem um mundo... Como ele poderia suportar aquela infinitude abissal de inexistência?! Montes e montes de coisa nenhuma apinhadas num não-aglomerado que se espraia por todos os lados que não existem! Se um ser humano medianamente inteligente se sente entediado quando é obrigado a viver num ambiente intelectualmente pouco estimulante – tais como cursos de formação de diplomatas – imaginem como não deveria se sentir uma Inteligência onipotente perante o marasmo quitessencial do não-ser.    
E não se iludam os ateus achando que a inexistência de um Criador refute o meu ponto. Se não existe um Deus, então o próprio Nada, após infinitos não-anos de inexistência, ficou de saco tão cheio de si próprio que se tornou instável. Teria sido o primeiro e mais momentoso dos suicídios: o Nada dá um tiro na cabeça e passa a existir.
Em qualquer das hipóteses, o fato é que a razão que levou à criação do Universo foi o tédio cósmico. O objetivo do mundo não é provar uma tese moral, redimir as criaturas ou permitir o desenrolar de um drama histórico: o mundo existe para entreter. Quando se percebe isso, torna-se muito fácil entender dois fatos sobre a Vida que por tanto tempo confundiram os teólogos: por que a história está tão cheia de desgraças, e por que essas desgraças costumam ser tão interessantes. A elas assistem Entes primordiais que não tem muito mais o que fazer.
Quando associamos tais insights apodíticos à motivação número 2 que mencionamos acima (ou seja, a de que a grandiosidade não possui, desde uma perspectiva metafísica, nenhum valor intrínseco), torna-se bastante fácil compreender que os objetos que constituem o Mundo não são mais valiosos, a partir de uma perspectiva criacionista, simplesmente por possuírem dimensões físicas descomunais (como certamente possuem as galáxias, os quasares e as supernovas): na verdade, o valor desses objetos deve ser medido por sua capacidade de combater o tédio cósmico. Uma bactéria invocada, um cogumelo lisérgico, um espongóide modernista ou mesmo uma catota fractal pode cumprir bem melhor este objetivo do que, por exemplo, a extensa superfície de um enorme planeta morto.
Como negar então, Zé Roberto, que o Crato seja, incontestavelmente o centro do mundo? Pois que lugar poderia melhor afastar o aborrecimento primordial do Ser, senão o barranco que há em frente ao velho Seminário, de onde se pode ver, em madrugadas tão solitárias, um tapete de astros se estendendo até a linha em que o negror pontilhado do céu encontra o mais profundo negror pontilhado do chão?  É preciso ser louco para não se embriagar com a brisa que roça as torres das igrejas e os pés de oiti. A cidade inteira dorme, indiferente a seu significado existencial, sem se dar conta de que ela é um delírio cósmico sobre uma vida prosaica, impossível e inexplicavelmente bela, na qual velhos amigos se encontram, tomam cerveja, e conversam sobre a infância.
 Não dá mesmo para evitar uma alegria incomunicável, apenas por poder ver as ladeiras, as praças, a prefeitura, o canal, os postes alaranjados, a Igreja da Sé, o parque, o palmeiral e todas aquelas casinhas... Pois a nostalgia de que está impregnada a brisa é a própria nostalgia do Nada a partir de que o mundo foi criado – criado apenas para que aquele barranco e aquela visão pudessem existir.
Todo o resto da criação – os abismos siderais, as guerras, todas as histórias que já foram contadas – são apenas um pano de fundo: elas existem para permitir um certo tom que torna o quadro perfeito.