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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Uma Aventura Lego



Por Eduardo Siebra



                "Uma Aventura Lego" é um fenômeno cultural interessante. Não é todo dia que se assiste a um filme infantil com uma mensagem tão carregada sobre a necessidade de o ser humano tornar-se protagonista da própria vida.   
                Qualquer consideração sobre a animação precisa partir do reconhecimento de que ela é uma superprodução hollywoodiana, custeada por investidores que estão preocupados com o retorno financeiro que o filme possa lhes trazer. Além disso, a Lego é uma empresa, e para ela o filme é uma forma de promover sua marca.
                Não são poucos os exemplos de megaproduções em que se nota que os autores tiveram muita autonomia criativa. A explicação é simples: transgressão e criatividade não são incompatíveis com rentabilidade. Um investidor inteligente pode apostar num diretor ousado se acha que sua ousadia pode se tornar um fator de sucesso numa produção. Os empresários não possuem nenhuma relação de lealdade com os valores expressos pelo capitalismo. Não há nada de surpreendente, portanto, em ver filmes tão críticos quanto os de Michael Moore sendo lançados no circuito comercial: desde que o dinheiro esteja entrando, pouco importam as críticas contra o sistema.
                Ainda assim, "Uma Aventura Lego" surpreende. O personagem principal é uma figurinha genérica e sem muito brilho, que se vê diante da possibilidade de adquirir uma personalidade quando o vilão do filme – o Sr. Negócios, arquétipo do grande empresário americano – elabora um estratagema para literalmente colar cada pessoa no lugar que ela ocupa na sociedade. Essa metáfora esquemática é desenvolvida quase que com um senso de missão pelos diretores, que não hesitam em introduzir na trama elementos de crítica social, reflexões sobre o consumo e a manipulação midiática, discussões sobre níveis de realidade, misticismo e até mesmo arquétipos e uma noção de "chamado da aventura", à moda do monomito de Joseph Campbell. Trata-se de um filme deliberadamente didático, que dialoga muito mais com o adulto que levou seu filho para o cinema do que com a criança que está interessada nas figurinhas. É um filme que leva sua mensagem muito a sério, como se ele possuísse o dever de mostrar às pessoas o que precisa ser feito para escaparmos dos riscos que estão sendo engendrados por nossa sociedade.
Talvez o sucesso da série "Matrix" explique, em parte, a receptividade a uma produção assim. As plateias já foram educadas pelos irmãos Wachowski a aceitar escabrosas meditações fenomenológicas num blockbuster de verão. Respeitando-se o pacto de que o entretenimento continua sendo o derradeiro objetivo da ida a um multiplex, não se considera mais absurdo nem mesmo o uso do cinema para transmitir mensagens políticas e anti-conformistas em obras essencialmente comerciais.  Na verdade, filmes assim talvez atendam a uma demanda psicológica inconsciente do grande público. Apesar dos consolos do consumo, o desenraizamento da vida pós-moderna, associado ao medo da aniquilação individual e coletiva, tornam palpável um sentimento de apreensão mesmo a pessoas pouco politizadas. Sentimo-nos inseguros por intuirmos males por debaixo de nossa civilidade duramente preservada.
                Apesar de sua mensagem otimista e de seu ritmo frenético, "Uma Aventura Lego" é claramente fruto dessa inquietação. É a manifestação otimista do mesmo pavor que está por trás da proliferação de tantos filmes sobre catástrofes ou sobre mortos-vivos canibais e sem cérebro. A diferença é apenas de tom: enquanto o filme de zumbi aceita o mal como inevitável, "Uma Aventura Lego" insiste na capacidade individual de criatividade e resistência. Mas ambas criações reconhecem a realidade da ameaça: nossa liberdade está cerceada, nossa condição de sujeito ameaçada por uma série de obstáculos à plena realização da personalidade humana. Nossa mente está anestesiada e distraída, e a reação a isso precisa acontecer com sentido de urgência, pois caso contrário corremos o risco de assistirmos a uma regressão das formas de sociabilidade.
Suponho que seja por isso que a animação carrega tanto na elaboração de sua metáfora: os autores acham legitimo usar todos os recursos narrativos e gráficos ao seu alcance para levar adiante o que acreditam ser um catecismo sobre a conquista da consciência.  Vamos convir, apenas uma sociedade muito assustada faz com que uma diversão tão leviana quanto uma animação para crianças se transforme numa parábola sobre a salvação da humanidade.
                Não estou, com isso, criticando o filme enquanto criação artística. Gostei da animação e pessoalmente achei curioso o debate intelectual. Até concordo com o lero-lero: acho que precisamos mexer nossos traseiros e fazer algo a respeito do mundo em que vivemos. O que é intrigante não é o conteúdo do filme, mas sim seu aparecimento enquanto produto cultural de massa. Chega a ser assustador, apesar de todas as cores e de toda a jovialidade. No fundo, é uma expressão do desespero: o desespero de saber que, apesar de necessário e verdadeiro, e credo sobre a autonomia do homem não é mais digno de atenção nos círculos "sérios", ou seja, adultos. E se a sociedade não dá mais ouvidos aos que clamam por uma retomada da história nas mãos das pessoas comuns, então realmente só resta desabafar para as crianças, na esperança de que elas sejam capazes de captar a mensagem entre um bichinho engraçado e uma explosão de bloquinhos.
A ironia é que depois de terem visto o filme, mesmo os que aceitam a propriedade das críticas irão, com toda probabilidade, voltar para a velha vidinha besta de sempre, enquanto a sociedade lentamente rola para o beleléu.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Schopenhauer, as Ideias Platônicas e a Teoria da Evolução



Eduardo Siebra, 14/02/2014

                No terceiro livro de "O Mundo como Vontade e Representação", Schopenhauer estabelece uma interessante conexão entre o pensamento de Kant e o de Platão.  Como se sabe, o autor considera a coisa-em-si kantiana como sendo a Vontade (não a vontade individual, mas sim a Vontade entendida enquanto totalidade, da qual o mundo sensível deriva enquanto objetificação. Veja o que escrevi a respeito neste link). Tudo o que vemos, sentimos e cheiramos é representação – ou, para usar a terminologia kantiana, fenômeno. Trata-se da Vontade transformada em objetos que podem ser conhecidos pelo sujeito, ou seja, manifestada num mundo do tempo, do espaço e da causalidade.
                Porém, entre a noção absoluta de Vontade (ou coisa-em-si) e os objetos de nosso conhecimento existe uma etapa intermediária que, segundo Schopenhaer, seriam as Ideias na acepção platônica. Não se tratam, portanto, de ideais em seu sentido habitual (ou seja, pensamentos abstratos que temos dentro de nossa mente), mas sim de "tipos" ou "arquétipos" de que derivam os objetos sensíveis e que também são manifestações da objetidade da Vontade (ainda que num nível menos concreto).
                É provável que um leitor contemporâneo de Schopenhauer talvez se deixasse iludir pelo que pode parecer ingenuidade na formulação platônica sobre as Ideias. Tendo sido exposto às derivações da chamada "virada linguística" (que reavaliou o papel da linguagem na formação de nosso pensamento) e, principalmente, já possuindo conhecimento sobre a revolucionária noção darwinista da Teoria da Evolução (segundo a qual a atual forma dos seres vivos não é necessária, mas deriva de um longo e cego processo de seleção natural que foi, ao acaso e segundo acidentes de percurso, dando forma às criaturas que conhecemos hoje em dia), esse presunçoso leitor poderia se sentir tentado a supor que a noção filosófica das Ideias platônicas é uma mera projeção humana da forma do conhecer na realidade conhecida.
                Essa suposição realmente é sedutora, à luz da consciência de nossos tempos. Talvez Platão (e, por consequência, Schopenhauer) tenha errado ao reverter inconscientemente o processo que se verifica no ato do conhecimento. Quando deparado com a pluralidade de objetos do mundo, nossa mente – que está assentada num fabuloso mecanismo de generalizações: a linguagem – formula os conceitos, ou seja, modelos mentais que tem a utilíssima função de permitir-nos agrupar diferentes objetos numa mesma denominação. Os conceitos são nossa resposta à infinita complexidade do mundo: ao invés de supormos que todo e cada fenômeno é único, nós criamos generalizações que nos permitem atribuir sentidos. Porém, esse processo é espontâneo e irrefletido, ou seja, ele acontece naturalmente com todo ser humano capaz de pensar. Isso significa que, embora todos sejamos capazes de usar conceitos, nem todos temos consciência de que usamos os conceitos para conhecer o mundo e refletir sobre ele.
                O suposto erro de Platão seria o de ter imaginado que esse fenômeno mental seria um atributo da própria realidade. Ou seja, por não ter ido tão fundo na investigação sobre o papel da linguagem na formação da mente, Platão teria suposto que as categorias de seu pensamento eram, na verdade, formas do próprio universo! A ideia de cavalo, por exemplo, não seria uma generalização da mente humana, mas sim a expressão de um plano ou esquema objetivo e universal, oculto por trás das diferentes aparências do mundo sensível. Ou seja, que o cavalo tivesse quatro patas, relinchasse e tivesse uma crina é algo necessário, derivado da conformação originária do universo.
                Além disso, as Ideias platônicas fazem sentido num mundo estático, ou seja, num mundo em que as criaturas mantém sempre a mesma forma ao longo do tempo. Para um homem da antiguidade, era natural imaginar que a realidade tivesse um plano pré-determinado, já que as formas exteriores aparentemente eram constantes. Mas como continuar mantendo essa suposição após as descobertas de Darwin? Como supor, por exemplo, que a forma do cavalo seja necessária, se na verdade nós sabemos que ela é fruto de um processo de evolução aleatório e que não segue nenhuma finalidade pré-determinada? Se o cavalo tem quatro pernas, não é porque está definido, desde a eternidade, que as coisas deveriam ser assim, mas simplesmente porque a luta pela sobrevivência ao longo dos milênios provou que ter quatro pernas pode ser uma boa e eficiente maneira de se locomover. Do mesmo modo, se ele tem duas orelhas e dois olhos, isso é porque a evolução provou que essa é uma boa maneira, para as espécies vivas, de apreender os estímulos do mundo.
                Será? Somos uma época muito deslumbrada pela ciência porque ela trouxe muitos resultados convenientes para nossa vida prática. Supomos que uma forma de conhecimento que foi capaz de ter um impacto tão profundo no mundo visível necessariamente deve ser verdadeira. Mas qualquer filósofo digno desse nome sabe muito bem que o método da ciência não pode, por uma questão epistemológica fundamental, ser usado para provar ou refutar argumentos filosóficos. E isso por uma razão muito simples: a filosofia se debruça sobre as questões de base do universo e do pensamento (ou seja, toma o mundo e a experiência humana consideradas em sua totalidade). A ciência, por seu lado, estuda o mundo em sua particularidade, ou seja, tenta decifrar as leis e princípios que se aplicam aos fenômenos efetivamente experimentados, quer dizer, aos fenômenos que já estão submetidos às categorias filosóficas problemáticas de tempo, espaço e causalidade.
                Na verdade, o problema das Ideias platônicas é muito mais profundo – e, enquanto suposição intelectual, não pode ser refutado nem pela linguística nem pela biologia. Trata-se de uma especulação primária sobre o porquê de o mundo real se apresentar aos nossos olhos dessa maneira e não de outra. A própria evolução das espécies, afinal, poderia ocorrer segundo o que é estabelecido por uma Ideia platônica.
                Essa não é uma intuição muito evidente porque, como criaturas cujas mentes estão situadas num ponto do espaço e num momento do tempo, temos dificuldade de abstrair o mundo de nossa experiência ao pensar o universo. Mas talvez ajude a esclarecer o problema tentar imaginar o processo evolutivo em sua totalidade, ou seja, não da perspectiva de uma criatura que também faz parte dele, mas sim como um todo, como a totalidade de suas manifestações ao longo do tempo em que o processo existiu ou existirá (algo que só seria acessível a uma mente que estivesse fora de nosso universo). Desde essa perspectiva, a aleatoriedade e cegueira da seleção natural tem uma significação bem diferente. Para começar, o próprio conceito de imprevisível supõe a noção de tempo – que não faz o menor sentido para o desenrolar do processo tomado enquanto totalidade. Os acidentes de percurso e as formas fortuitas que aparecem ao longo do processo tornam-se, quando abstraída a noção de tempo, necessários!  
                Se elas existissem, nada impediria que as Ideias platônicas se manifestassem no mundo ao longo do processo evolutivo darwiniano. Ou seja, se realmente existe uma forma de cavalo ela não é menos verdadeira – ou definitiva ou eterna – pelo fato de só se concretizar num determinado instante do processo evolutivo. Aquela forma possível – aquela Ideia – estava gravada na conformação do mundo desde a eternidade, para só se manifestar naquele instante.
                Não sei se Schopenhauer está certo ao retomar a noção platônica das Ideais e apresenta-la como um dos graus da objetidade da Vontade. No fim das contas, essa é, como toda discussão filosófica sobre os derradeiros fundamentos do real, um debate que tem que se contentar com as suposições, já que nosso conhecimento tem limitações insuperáveis. De todo modo, não deixa de ser notório perceber que as generalizações que nossas mentes fazem não se sustentam numa pluralidade infinita de experiências, mas se inspira numa regularidade que está no próprio mundo. Sim, há cavalos, há mesas e há cadeiras, e ainda que a paleontologia descubra cada vez mais frequentes indícios das formas intermediárias entre uma espécie animal e outra, a própria evolução apresenta seus momentos de estabilidade e os seus inexplicáveis saltos (que podem ser tanto uma mera ausência de evidências fósseis como a intrigante manifestação da substituição de uma ideia platônica por outra).
                Bem, eu mesmo já reconheci que evidências empíricas não bastam para provar uma ou outra tese filosófica. Mas preciso admitir que uma singela intuição me deixa, às vezes, inclinado a concordar com Platão e Schopenhauer.
                O corpo de uma mulher é o resultado de um longo processo evolutivo, em que a definitiva consideração biológica é saber quais genes sobrevivem e quais são extintos. Tudo o que deslumbra, portanto, na forma feminina são aparentemente vantagens comparativas: os homens são biologicamente condicionados a valorizar os atributos que institivamente sabem serem adequados para garantir a sobrevivência da prole – quer dizer, a beleza.
                Isso, pelo menos, é o que pensaria um cientista em seu laboratório, meditando assepticamente sobre tão brutal experiência estética. Um homem apaixonado – ou talvez apenas um libertino – que se deixa embriagar pela insinuação de um desejo dissimulado num olhar, pelos poros eriçados após uma carícia proibida, ou até pelo odor de cabelos suados – sente, muito intimamente, que tais olhos, tal pele e tais cabelos são a expressão necessária de uma beleza que, enquanto tipo, está além do mundo e que muito possivelmente se origina da mesma Vontade que faz tudo o que vive pulsar, ou da benevolente mente de um Criador – tão profícua e gloriosa a ponto de ser capaz de conceber, a partir do terrível Nada de que esse mundo nasceu – o cheiro que tem a pele de uma moça suada.
                Sim, talvez haja Ideias.
                 


    

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Villa-Lobos e René Girard: outra aproximação estética



O historiador René Girard tornou-se professor de literatura por um acidente de percurso: falta de vaga na Universidade. Mas esse acaso acadêmico deu alcance e força humana à sua obra. Ensinando os clássicos, Girard teve uma intuição sobre o enigma antropológico que acompanha a história da humanidade: o bode expiatório.

Em pobres linhas, a experiência básica do homem é a imitação. Platão já notara que a realidade é mimética: uma árvore imita um "modelo" de árvore; todas as coisas que existem, inclusive os seres humanos, imitam uma forma. Aristóteles, por sua vez, observou que a mímese é o princípio das artes. O teatro imita a cidade, o personagem imita o rei, o passo de ballet imita um gesto de amor, a flauta imita um canto de pássaro, O Trenzinho Caipira de Villa-Lobos imita a maria-fumaça, e assim por diante.

A contribuição de René Girard consiste na descoberta de que a imitação é também a fonte dos desejos e, logo, a fonte da violência. O bode expiatório é sempre uma vítima que se distingue da coletividade por uma característica inferior (pobre, coxo) ou superior (rei, estrangeiro). Na crise, ele é castigado por não imitar. Os agressores se comportam mimeticamente como um enxame de abelhas ao redor do perseguido. Para não me estender na explicação do argumento, remeto o leitor diretamente à obra. Aos interessados apenas numa amostra grátis dela recomendo o capítulo 11 de O BODE EXPIATÓRIO, onde se entende por que Salomé dançou para Herodes antes de pedir a cabeça do prisioneiro.

Com essas palavras, passo ao Prelúdio nº 1 para violão de Heitor Villa-Lobos. Uma das peças mais conhecidas de Villa-Lobos, este prelúdio é presença obrigatória no repertório de qualquer guitarrista clássico. Na minha adolescência, estudei um pouco de violão solo, mas lastimosamente nunca aprendi a executá-lo. Porém ouço aí a forma melódica da tragédia expiatória.



Há uma corda solitária que se opõe ao conjunto das outras cordas. A melodia faz seu percurso independente enquanto acordes tentam obstar-lhe o passo, num vozerio de turba. A corda solitária não desiste, guiada pelo polegar da mão direita, porém as cordas reunidas lutam contra ela, como se quisessem abafá-la. A voz é um discurso criativo; a coletividade é repetitiva e seca, como um apitaço estudantil.

Reparo que o clímax da crise são as diminutas tocadas na parte aguda, o que confere dissonância e estridência (0:47'' e 1:07'' do vídeo). Logo após esse confronto, a melodia se refugia nos bordões, digamos que passa a falar grosso, firme em sua posição.

A tonalidade é menor, dando melancolia ao tema.

Na segunda parte, a música muda para a tonalidade maior. Parece que vai tomar um rumo completamente imprevisto. Aliás, parece outra música. Será que o vozerio coletivo deu uma trégua? A vida vai ser diferente?

Mas na terceira parte a perseguição retorna com mais força, acentuada pelo volume e a ênfase dada pelo violonista. Visualmente, o dedo solto percorre o braço inteiro do violão, mas não há escapatória: a massa de sons uníssonos o acompanha aonde for...

Essa história não poderia acabar bem. O prelúdio encerra com uma nota grave e pontual, em tom de morte. Para os enfurecidos, a única solução possível é a morte, a exclusão total do dissidente, o martírio do bode expiatório.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Frédéric Chopin e Viktor Frankl: uma aproximação estética


EM BUSCA DE SENTIDO de Viktor Frankl foi um dos livros que mais me causaram impacto na juventude. Sucessor da cadeira de Sigmund Freud e Alfred Adler em Viena, Frankl mostrou que nem só de pulsões sexuais e vontade de poder se faz um ser humano. O homem integral é mais que um corpo; tem alma. E tem sede de algo mais, tem desejo de sentido.


Viktor não elaborou sua teoria ante o descanso de um divã, mas encontrou-a na agitação do mundo: primeiro em Auschwitz, de onde ele escapou com vida; depois na sociedade livre e fútil dos Estados Unidos da América, para onde fugiu e onde se tornou famoso como psicoterapeuta.


Amo o PRELÚDIO OP. 28, NO. 15 (A GOTA) de Frederic Chopin, que no nível inconsciente da criação é a forma melódica do existencialismo frankliano. Suspeito que se pode ouvi-lo e apreciá-lo melhor na segunda taça de vinho, aproximadamente, dependendo da qualidade do ouvinte e da resistência do vinho...


O prelúdio é misterioso porque desenha uma melodia belíssima, mas superficial. Só ouvindo-o com atenção percebo minha ilusão, pois a linha principal da música não são as notas que levemente passeiam, mas uma única nota, repetida, insistente. Quantas vezes nos atemos a coisas atraentes como o prazer, postergando a pergunta essencial da existência! Essa nota teimosa é a pergunta: qual o sentido da vida? qual o verdadeiro sentido da vida? qual é? qual o sentido da vida?

A nota persiste subjacente à música.

Na segunda parte, imagino a morte de uma pessoa querida e a urgência maior da pergunta: a Nota vai crescendo, se fortalecendo, bate forte, até ocupar a primeira plana, imperativa: qual é? qual é? qual é o sentido? A Nota até se desloca um pouco, pula do sol# para o si, mas a sua forma permanece intacta, indelével.

Como numa síntese, na terceira parte volta-se à melodia inicial, leve, ligeira, sem que a Nota subterrânea desapareça. Ela apenas diminui a intensidade, mas continua fiel à pergunta como se desse um recado: você pode passear, viajar daqui para acolá, amigo, porque isso também faz parte da vida, digo, da música, mas não tentes escamotear a Nota, a Gota! Terás de aprender a conviver harmonicamente ou harmoniosamente com ela.

DIÁRIO DE UM CÔNSUL NA FRONTEIRA, 17 DE JANEIRO DE 2014.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Grande Abertura



 

            Havia, na abertura da Exposição de Arte Contemporânea, obras de todo o mundo. A fina flor das artes plásticas internacionais estava representada.
            A convite dos organizadores do evento, uma comitiva de críticos de arte de diferentes backgrounds foi convidada para selecionar as obras mais significativas. Um prêmio em dinheiro seria concedido à peça que eles considerassem a mais inovadora, e por isso havia alguma expectativa dos expositores sobre os comentários que eles pudessem fazer sobre suas obras.
            Depois de passar pela exposição francesa, que continha uma única placa dizendo “isso não é uma exposição”, e pela americana – onde, ao lado de uma máquina que constantemente queimava notas de um dólar, estava acontecendo uma apresentação ao vivo das obras de John Cage para piano de brinquedo – os avaliadores chegaram à exposição brasileira – uma das mais badaladas daquele ano.
            O que imediatamente chamou a atenção de Austragésilo, o mais velho e sisudo dos cinco críticos da comitiva, foi um cheiro incrivelmente desagradável infectando o ar. Será que o esgoto havia estourado em algum lugar? Ou será que o estande tinha sido armado ao lado do banheiro masculino? Isso era um ponto negativo que deveria ter sido considerado pelos organizadores, pensou ele.
            Seus colegas pareciam não fazer caso da fedentina. Sem conseguir esconder certo entusiasmo, eles apressaram o passo em direção à obra de um dos artistas mais festejados da cena contemporânea, Adalberto Tokushuko, o famoso escultor e performer nipo-brasileiro, possivelmente a vedete daquela exposição.
            “Oh!”, “Ah!”, “Uh!”, escutou Austragésilo, que havia ficado para trás.
            – Que obra estupenda!
            – Mas que ousadia!
            Cobrindo as narinas com um lenço e se esforçando para tentar espiar por cima dos ombros de seus colegas, Austragésilo viu o que estava causando tanta comoção. Em cima de um prato de porcelana chinesa, ao lado de baixelas de prata, havia um enorme cocô.  
            – Realmente um trabalho visceral. – disse um dos críticos.
            – Aí você disse tudo! – concordou um segundo.
– Mas não se deixem levar por uma interpretação superficial. – observou, com sobriedade, o terceiro. – Esse é um trabalho que permite múltiplas leituras.
            – Tudo depende do olhar do expectador. – Assentiu o quarto.
            Austragésilo poderia até concordar que, segundo os parâmetros que regem a arte de cagar, aquele tolete realmente era uma obra-prima. A dimensão prodigiosa, os diferentes tons de marrom (segundo a nota explicativa ao lado da obra, era ao todo 50), a forma cilíndrica ajustando-se em espiral em torno de um eixo, a textura pastosa: tudo fazia o espectador duvidar que aquela bosta pudesse ter saído de dentro de um ser humano. Era realmente um cocô fenomenal. Agora, daí a dizer que aquilo era uma realização estética era um pouco demais para as predileções artísticas de Austragésilo... Seus colegas, porém, não paravam de comentar:
            – É preciso entender o que o artista quis expressar com seu trabalho. Eu percebo, aqui, uma grande inquietação existencial. O artista está se expondo, mostrando ao mundo toda a angústia que possui dentro de si.
            – Eu diria que é uma metáfora da condição humana no século XXI. Essa é uma obra difícil, arte engajada na sua melhor forma. O autor esquivou-se da tentação de apresentar uma estética palatável, de fácil digestão pela platéia.
            – Verdade. Eu diria, inclusive, que a peça exige uma co-participação do espectador. Afinal, o que é a obra de arte em si mesma? Quase nada. Só se entende sua força quando se leva em conta o impacto que ela causa no sentido de quem a vê, quem a sente.
            – Claro! E a técnica primitivista pode inclusive confundir um observador superficial. É um erro pensar que qualquer pessoa seria capaz de fazer algo assim. O talento do autor foi justamente partir de um objeto prosaico para uma experiência estética que é universal.
            – Apenas um mestre conseguiria alcançar tamanho impacto com tão elevado nível de sofisticação teórica. Chego a dizer que é até difícil ficar indiferente ao que o artista expressou.
            – É algo que nos toca intimamente. A reação inicial de repulsa é quase irracional. Mas, após o primeiro impacto, não há como não perceber a profunda singeleza da peça.
            – Mas claro! Sinceramente, não quero muito forçar as interpretações, acho isso pedante e até insuportável. Mas será que só sou eu aqui que acho que o artista quis, também, passar uma mensagem social?
            – Como não? Mesmo quando não é alegórica, a arte não se despe totalmente de simbolismos. Eu diria que há um signo subjacente, ou seja, a idéia de que todos os homens estão ligados pelo ato mesmo que permitiu ao artista criar a sua obra.
            – Sim, o homem tem algo de podre dentro de si, e o criador não teve medo de explicitar isso com a crueza de sua tônica. Mas, sinceramente, o que mais me impressionou foi o refinamento técnico... Já sabia que o Tokushuko era um mestre, mas aqui ele se mostrou gênio em seu obrar.
            – E tudo feito com cuidado de artesão. Ai, estou encantado!
            Austragésilo tinha ficado calado durante toda a conversa. Depois de mais alguns minutos de elogios, um de seus colegas percebeu seu desconforto e, talvez para provocá-lo – sabendo quão tradicionalista ele costumava ser em seus juízos – perguntou:
            – E você, Austragésilo, o que achou da obra?
            Todos se calaram e olharam para ele, com grande ansiedade. Não era segredo que Austragésilo era um representante da escola antiga, mas ainda assim, por ser um erudito da história da arte e pessoa extremamente criteriosa, ele costumava ser ouvido com atenção mesmo nas rodas descoladas.
            Ele ainda olhou por um ou dois segundos para aquilo, encarou seus quatro colegas e concluiu:
            – Eu achei que isso daqui é uma merda.
            Houve um pigarro de constrangimento. Ninguém esperava tamanha falta de tato. O segundo crítico, que era mais diplomático, interveio, tentando retomar o rumo perdido da conversa:
            – É, é uma maneira de interpretar o problema colocado pela obra. Mas, bem, vamos que ainda temos vários trabalhos para julgar. Façam suas anotações e vamos para o próximo estande.

***
No coquetel de comemoração da abertura da exposição, os quatro críticos comentaram, enquanto tomavam champanhe:
– Nossa, o Austragésilo é tão antiquado, né?
– Sinceramente, eu esperava um pouco mais dele...
– Sério, pois eu não esperava nada. Ele é um tradicionalista, um academicista enrustido.
– Ai, gente, nós estamos no século XXI. Hello!
            – Ah, e vocês vão ficar dando bola para ele?
            – Ele que pense o que quiser. Só acho um absurdo ele fazer parte do comitê avaliador.
            – Parece que ele tem amigos influentes...
            – Só pode. Bem, me disseram até que ele é católico.
            – Aff, ta explicado.


           


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Do Fundo do Baú: Quem Vai Querer a minha Periquita?

Escrevo a tempo o bastante para ter um passado criativo. O seguinte texto é de 2007, do tempo em que eu (não) sabia o que queria da vida, e foi publicado em meu esquecido livro de crônicas, "A Inteligência numa Casca de Noz".

Porque estou saudoso hoje (e por que será que não tenho mais coragem de escrever textos assim?):




Eduardo Siebra, 22/08/2007 (7:33)


            As ruas, bares e inferninhos pernambucanos foram tomados de assalto pelo Melô da Periquita, sucesso absoluto com sua letra e ritmo obsedantes:

Quem vai querer a minha periquita? A minha periquita? A minha periquita? ( refrão 2x)

Uma águia passou pelo meu quintal
Um vento muito forte querendo namorar
Acho que tá querendo a minha periquita
Que há muito tempo estou doida pra dar (2x)

Já passou uma semana e essa águia sumiu
Eu não ouvi o grito dela por aqui
O que que eu faço pra dar minha periquita
Que há muito tempo não dá uma voadinha (2x)

Quem vai querer a minha periquita? A minha periquita? A minha periquita?


            Reproduzido em centenas de carrinhos de som que circulam pela cidade vendendo CDs piratas, o Melô da Periquita “chicletou” no inconsciente dos recifenses. Não raro alguém se flagra cantarolando: “a minha periquita, a minha periquita, a minha periquita”.
            Como não podia deixar de ser, toda sorte de intelectuais chicobuarcólatras, jornalistas e, principalmente, professores de gramática – maiores responsáveis, em minha humilde opinião, pela difusão da intransigência sobre o planeta desde os tempos de Roma – já se prontificaram a condenar artisticamente a nova paixão do povão pernambucano. Típico! Em verdade, juízos definitivos sobre manifestações artísticas do vulgo só podem resultar de posturas intolerantes e de leituras superficiais. Afinal, quem são eles para determinar, com sua arrogante sabedoria de gabinete, o que é bom e o que não é para o povo sofrido e trabalhador? Para bem ser sincero, quem pensa assim é não apenas opressor, mas burguês, racista, homófobo, machista e anti-semita.
            Destruamos o preconceito promovendo uma sincera análise deste sucesso, feita com sensibilidade social às nuances e preferências artísticas das massas.

Quem vai querer a minha periquita? A minha periquita? A minha periquita? ( refrão 2x)

            O refrão, sem dúvida, é o fragmento poético de maior vibração lírica. O uso consciente de aliterações, assonâncias e repetições reforça o efeito vibrátil da métrica, de inspiração claramente popular. Em termos formais, percebemos um certo atavismo de soluções líricas dos cantadores medievais – que, diga-se, também se valiam de motes bufos e satíricos para dar vazão a sua criatividade melódica. A prova maior da perfeição dos versos é nossa incapacidade de esquecer o estribilho, de marcante efeito mnemônico. Porém, o refrão destaca-se não só por sua criatividade formal, mas, primordialmente, pelo eficaz uso de metáforas e figuras de linguagem de duplo sentido – recurso amplamente empregado na poesia profana de todos os tempos e lugares. A periquita, aqui, é o passarinho do sujeito poético, amado e cuidado com carinho e afeição. Representa, também, metaforicamente, a vagina da mulher e, em uma acepção mais ampla, toda a sua sexualidade. Parece-me clara a intenção libertária da poetisa, pois ao associar a libido da fêmea a um pássaro que deseja alçar vôo às amplidões celestes, está-se representando a disposição de toda moça de se libertar dos grilhões da dominação machista – a metáfora da gaiola, implícita no quadro evocado.
            A pergunta feita pelo eu lírico “quem vai querer a minha periquita?” também é rica de possíveis interpretações. Eu ousaria, inclusive, apontar a presença de uma espécie de filosofia existencial bastante primitiva assomando na verve poética do populacho. Não se sabe quem quererá a periquita. De fato, não se pode responder sequer se alguém a receberá de braços abertos! Tal angústia existencial, resultante da incerteza sobre o futuro e bem-estar da periquita - e também da liberdade que a mulher tem de dar a quem bem entender – quando associada ao jogo de palavras de conotação sexual cria um efeito geral de profunda emotividade e fôlego.   

Uma águia passou pelo meu quintal
Um vento muito forte querendo namorar
Acho que ta querendo a minha periquita
Que há muito tempo estou doida pra dar (2x)

            Esta estrofe representa, na minha opinião, o trecho de interpretação mais complexa e difícil. A águia, como todos sabem, é um animal de carregado simbolismo, tendo sido usado na literatura poética nos mais variados contextos. Uma das dualidades que imediatamente vêm à mente é a distinção das forças apolíneas/dionisíacas. A águia, ave solar, representa o falo, a masculinidade sobrevoando o quintal da poetisa. É um espírito totêmico, poderoso, heráldico. Seria o yang dos orientais. A periquita, por seu lado, é lunar, um pássaro tenro e feminil, o yin. Há um contraste de desejos, até porque não é possível, partindo apenas dos elementos que o próprio texto fornece, saber se as verdadeiras intenções da águia são nobres. Há uma tensão entre a energia sexual e a agressividade masculina – e não é à toa que se escolheu uma ave predadora como signo. Não fosse assim, a poetisa apenas confiaria sua periquita aos cuidados da águia, caso confiasse plenamente nela.
            Seria ingenuidade simplesmente excluir possíveis interpretações políticas. O gênio latino-americano, acostumado à repressão de regimes autoritários e à tirania dos mercados, encontra os veículos mais inusitados para expressar suas inquietações políticas. Estamos fortemente inclinados a acreditar, portanto, que a águia pode ser uma alusão aos Estados Unidos – cujo símbolo nacional é exatamente uma ave desta espécie. A potência paira sobre os pássaros de menor porte – países periféricos, um dos quais é a periquita, representante de nossa pátria, indefesa e profundamente musical. Em seu vôo cobiçoso, a águia lança sua sombra de terror sobre os fracos, e ameaça devorar tudo em sua insaciável sede de poder, anunciando perfidamente a intenção de namorar (clara referência à ALCA).
            O verso “Que há muito tempo estou doida pra dar” é uma alusão lisonjeira à generosidade da mulher brasileira. Ao contrário de outras, nossas musas não guardam egoisticamente seu passarinho, deixando-o definhar na podridão do recato moral e do pudor. Ela está viva, ama, sente, vibra! A periquita da mulher brasileira não é de um só, ela é de todos e todas!

Já passou uma semana e essa águia sumiu
Eu não ouvi o grito dela por aqui
O que que eu faço pra dar minha periquita
Que há muito tempo não dá uma voadinha (2x)

            A estrofe seguinte é a que coroa o poema de efeito dramático. Aqui as referências são mais diretas, pois se pinta o quadro da história pessoal da periquita. Toca-nos profundamente o sofrimento da pobre ave, amordaçada e acorrentada aos cadeados da opressão, da indiferença, da apatia. Note-se que a pobre ave, em razão das vicissitudes do destino, há muito sequer uma mísera voadinha pode dar. Certamente, caso possuísse mais tempo e recursos, a poetisa poderia desenvolver o que apenas esboçou nesta quadra, ampliando em termos épicos as aventuras da periquita e da águia, no eterno conflito e busca pela harmonia.
            O texto da música é tão rico que poderíamos nos estender indefinidamente encontrando novas leituras. Não temos espaço para tanto, portanto ressaltemos apenas uma última interpretação, que atesta o quanto o povo pernambucano está antenado aos principais debates da atualidade.
            A referência às aves – periquitas e águias - esconde uma preocupação ecológica da autora. Todos sabem que a águia é uma ave típica de climas temperados e regiões montanhosas – ou seja, de ecossistemas totalmente diversos dos em que se encontram as periquitas brasileiras. O surgimento de uma águia faminta nas plagas tupiniquins é um claro indício de desequilíbrio ecológico. Incapaz de encontrar alimentos em seu hábitat – destruído pelo desflorestamento e industrialização – a águia migra em busca de novos recursos. Sua chegada aos trópicos agride o equilíbrio biológico local, o que é plenamente representado pela nova e inquietante situação da periquita. A chegada da águia pode, também, ser vista como um dos primeiros sinais do aquecimento global.  
            A música também pode ser vista como uma denúncia contra o grave problema do turismo sexual. A águia é o gringo, que chega em busca da periquita, ou seja, das mulheres nativas e desamparadas que para assegurar sua sobrevivência necessitam prostituir-se.
            Como se percebe, o Melo da Periquita contém muito mais riqueza que muita porcaria pretensamente artística que se lança em nosso mercado fonográfico. Ao contrário de maior parte dos novos expoentes da MPB – saturados ao limite da afetação poética carioca, do apelo fácil ao samba e da repetição indiscriminada de soluções simplórias – o Melô da Periquita assoma como representante do verdadeiro lirismo popular, cunhado no comedimento da poesia nordestina.