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domingo, 14 de dezembro de 2014

OS CONFINS - ATO 1 (Cenas 1 a 3)

Por Frederico Araújo


Após mais um longo período de secura criativa, emerjo enfim com uma inspiração que não reconheço ser minha. Agradeço ao meu amigo do peito Eduardo pela insistência com que me cobra um registro de minha temporada como cônsul na fronteira. Mal sabia eu como trazê-lo à pena, pensando até que o mais natural seria um ensaio acadêmico, penteado, virgulado, lambido, sobre o Visconde do Rio Branco ou coisa que o valha. Escrever um romance estava completamente fora de minha capacidade e envergadura intelectual. Uma epopéia poética? Nem se fala! Pois eis que, sem querer, brotou-me de um jorro, ao longo de um intenso fim de semana, uma peça de teatro intitulada OS CONFINS.

         
DRAMATIS PERSONAE:

Suzana de Jesus – diarista
Daniel – filho da diarista
Amiga – amiga de infância de Daniel
Dr Eduardo Wallenstein – jovem juiz
Dra Melissa Fausto – advogada, namorada de Eduardo
Dra Vanessa Maia – promotora, namorada de Eduardo
Chang Lu, o Diabo – chefão do tráfico
Dr Bruno Zambetta – advogado do tráfico
Encapuzado 1 – matador de aluguel
Encapuzado 2 – matador de aluguel
Carmen Duralex – companheira de cela de Suzana

figurantes:
secretária do juiz
capangas do tráfico
cantor de barzinho




Antes de começar a peça, enquanto os espectadores tomam seus assentos na plateia, o som do teatro deve tocar o primeiro movimento de LA CATEDRAL, de Agustín Barrios.

CENA 1


Cena de uma audiência judicial. Mesa em forma de T. Entram Dr. Eduardo, o juiz, com sua secretária e sentam-se revirando papéis. Entra Dra Vanessa, a promotora, e se cumprimentam, trocando olhares lascivamente.
EDUARDO – Bom dia, Dra Vanessa! (sorrindo galante)
VANESSA – Bom dia, Excelência! (retribuindo simpatia)
EDUARDO – Vossa Excelência está elegante hoje.
VANESSA – Obrigada! Gentileza sua.
EDUARDO – Bem, vamos começar então. Já que está presente o Ministério Público... Vou apregoar o réu, aliás, neste caso (consultando papéis), a ré. Senhora Suzana de Jesus! (em tom de pregoeiro).
Entra Suzana, de cabeça baixa. Pára um instante em frente ao juiz. Ele acena para que ela tome assento.
EDUARDO – O sobrenome da senhora... (ainda consultando papéis)
Retira-se a figurante que faz a secretária do juiz.
SUZANA – Sobrenome tem não, senhor (sentando-se). Meu nome é só este mesmo: Suzana de Jesus.
EDUARDO – Tudo bem, não é a primeira vez que vejo gente sem sobrenome aqui... A senhora está sendo acusada de tráfico de entorpecentes.
SUZANA – Sim, senhor.
EDUARDO – A senhora reconhece essa acusação?
SUZANA – Não, senhor.
EDUARDO – Mas me parece que a senhora confessou para o delegado que a droga era sua.
SUZANA – Sim, é verdade. Se o senhor me permite...
EDUARDO – Pois não.
SUZANA – Eu trabalho como diarista. Naquele dia, eu estava trabalhando normalmente na casa de uns libaneses, que eu limpo às terças e quintas. O meu celular tocou: era o meu filho, que estava preso na Ponte da Amizade. Chorava no telefone me dizendo: - Não fui eu, mãe. Não fui eu, mãe! Fiquei desesperada. Pedi licença ao patrão. Peguei um mototaxi e fui pra ponte.
EDUARDO – E aí?
SUZANA – Cheguei lá, tava ele sentado assim de lado numa sala. Dei logo um tapa nele pra ele aprender. O policial até gostou. Falei pro meu filho: - moleque, eu te falei pra tu não ir na história desse chinês maldito. Olha bem o que te aconteceu, Daniel! Meu filho só calado, doutor. O policial já foi pegando a mochila dele e levando pra perícia. Aquilo foi no dia do aniversário dele, o meu filho estava fazendo 18 anos.
VANESSA – (interrompendo) Excelência, ela assumiu a droga como se fosse dela... para o filho não ir pra cadeia.
EDUARDO – Como assim? Ela não estava presente no momento do flagrante! E o que disse a perícia?
SUZANA – Policial também tem filho, doutor. O senhor imagine: era o dia que o Daniel ia fazer 18 anos. Eu implorei pra escrivã que estava fazendo o B.O., pra ela trocar os nomes, pra eu ir presa no lugar dele.
EDUARDO – Sei... (pensativo) Um belo gesto de amor, minha senhora. E o Ministério Público como opina neste caso?
            VANESSA – Eu acho que podemos fazer uma transação (pausa). Apesar de juridicamente ter um flagrante contra a Senhora Suzana, o Ministério Público propõe uma delação premiada. Se a ré revelar à Justiça quem é o dono da droga...
            Suzana baixa a cabeça, com medo.
            EDUARDO – A senhora aceita a oferta do Ministério Público?
            Suzana fica calada, pensativa.
            VANESSA – Na verdade, Excelência, as investigações apontam que foi o próprio traficante quem mandou avisar a polícia sobre essa mula, pra despistar um carregamento muito maior. Isso é um golpe comum aqui na região.
            Suzana levanta a cabeça, decidida.
            SUZANA – Eu aceito, doutor. Se eu falar pro senhor quem é o dono da droga, eu vou sair da cadeia?
            EDUARDO – Depende. A senhora poderá ser absolvida ou receber uma pena menor, ficar menos tempo na cadeia... Depende da sua colaboração com a Justiça.
            SUZANA – O nome dele é impronunciável.
            EDUARDO – É árabe?
            SUZANA – Não. Na realidade, ele tem vários nomes. Lá no bairro todos chamam ele de muitas formas diferentes, porque o bicho não gosta de ser identificado.
            VANESSA – Mas a senhora pode declinar alguns desses nomes?
            SUZANA – Pra lá pra nós, a gente chama ele de O China. Mas também é conhecido como O Rei, O Cara, O Tal, O Pai da Mentira, O Jorge, O Humberto, O Padrinho, O Painho, O Osvaldo, O Capo, El Jefe, O Fernando, O Carioca.
            VANESSA – Desse jeito é difícil. A senhora não está ajudando nada... (impacientando-se)
            EDUARDO – (dirigindo-se à promotora) Mas, doutora, você sabe que é assim mesmo no submundo do crime. Os criminosos têm muitos vulgos.
            SUZANA – E ele tem mais nomes. É porque eu não me lembro de todos. Se eu pudesse ajudar...
            EDUARDO – Me diga uma coisa. Como foi que o seu filho conheceu esse traficante?
            SUZANA – Ah doutor... Foi lá no bairro mesmo. Eu trabalho o dia inteiro. O senhor sabe como é que é. O menino fica na rua, nem sempre eu posso vigiar por onde ele anda. São as más companhias.
            EDUARDO – Ele entrou no tráfico por necessidade?
            SUZANA – (ofendida) Necessidade o quê, doutor? Eu eduquei meu filho dando tudo de bom pra ele. Nunca deixei faltar nada, nem roupa de marca, relógio, celular novo. Eu dava dinheiro, ele ia com os amigos dele pro Paraguai comprar. Daniel sempre teve tudo. Paguei até colégio particular lá no bairro, doutor, o melhor que eu podia dar. Procurei dar o melhor pra ele, doutor. Passo o dia fora, trabalhando na casa dos outros.
            VANESSA – Onde a senhora mora?
            SUZANA – Na Vila C.
            EDUARDO – Então como foi que o Daniel entrou no tráfico?
            SUZANA – Ele sempre gostou de aventura. Nunca satisfeito, vive reclamando do que eu boto em casa pra comer. Por mais que a mãe dele tenta agradar... A vida da gente é assim mesmo... Aí um amigo dele perguntou se ele não queria conhecer o tal do Chan... Tchan... Chang... Eu não sei falar esses nomes complicados, doutor. É o Homem-Lá, o Bode Velho como eu chamo logo. E o meu Danielzinho passou a dizer que o Outro agora é que era o padinho dele. O senhor imagine! Eu que batizei o Daniel na Igreja, dei meu irmão pra ser padrinho, meu finado irmão, sou obrigada a escutar uma história dessa! (chora)
            EDUARDO – Se acalme, dona. Esse negócio de padrinho ele deve ter visto em algum filme.
           SUZANA – Não é não, senhor. Todo mundo lá no bairro diz que é afilhado do homem. É uma febre.
            VANESSA – E esse padrinho dava algum presente para o seu filho?
            SUZANA – Dava, sim senhora, alguma coisinha. Só que prometia mais do que dava.
EDUARDO – O que ele prometia para o seu filho?
SUZANA – (gesticulando) Chamava o meu filho lá na mansão dele, mostrava todas aquelas coisas, as correntes de ouro, os carrões, mulher da rua na piscina; fazia churrasco o fim de semana inteiro com artista de samba, bebida... E dizia assim pro Daniel: “Olha, eu vou te dar tudo isso se você for fiel a mim...”.
            EDUARDO – A promessa de subir na vida sem esforço.
            SUZANA – O Animal seduzia o meu filho dizendo assim: “Você é estudado, Daniel, ainda vai se tornar o meu braço direito na contabilidade”.
            VANESSA – Que cachorro!
            SUZANA – Então, doutor? Vou poder sair da cadeia?
            EDUARDO – Depende, senhora. Isso vai depender do desenrolar do processo. (dirigindo-se à promotora) Bem, por hoje eu estou satisfeito. (voltando-se para a ré) A senhora fale com o seu advogado ali na saída, que ele vai lhe informar a data da próxima audiência. Declaro esta sessão encerrada! (em tom de pregoeiro)
            Suzana retira-se de cabeça baixa.
EDUARDO – (virando a cabeça, procurando) Cadê a minha secretária? (dirigindo-se à promotora) Doutora Vanessa... Hummm! Eu gosto muito desse seu perfume, sabia?
Vanessa sorri.
EDUARDO - (voltando a si) Doutora, qual é o próximo caso que temos aí? (consultando papéis) Vamos depressa que a nossa pauta hoje está cheia.
Redução de luzes. Cortina.



CENA 2





Palco dividido em duas partes iguais. Do lado esquerdo, o apartamento do jovem magistrado; do lado direito, a terraça de um bar. A cortina cobre o lado direito do palco até a metade da cena, de modo a conferir mais movimento e concentrar as atenções sobre o que se passa no apartamento do Dr Eduardo. O estilo da decoração é de um apart-hotel simples, tipo sala e cozinha americana; de mobília uma pequena mesa de sala, um sofá e uma geladeira. O juiz está chegando do trabalho naquela segunda-feira. Monologa.
EDUARDO – (tirando o terno e espreguiçando) Ai ai! Que dia! Que segunda-feira!
Larga o blazer e a gravata sobre o sofá. Dirige-se até a geladeira e pega uma garrafa de vinho pela metade. Saca a rolha e pega uma taça, provando-o analiticamente.
EDUARDO – Está um pouco avinagrado. Mas também! (observa o rótulo) Quando foi mesmo que eu abri essa garrafa? Sexta? Ou foi sábado? Não, foi sábado! Putz, mas essa geladeira não tem nada pra comer, nem um pedaço de queijo! Vou ter que sair pra comer alguma coisa na Av. Brasil. Ah! Vou ligar pra Doutora Vanessa... (pronuncia a palavra “doutora” pausadamente, com ironia, pela intimidade que têm). Deixa eu ver se tem alguma mensagem dela.
Pega o celular. Disca o número.
EDUARDO – Oi, Vanessinha! Como você tá? Que dia, hein! Que dia esse nosso hoje! Escuta, você não quer fazer um lanche e tomar um chope daqui a pouco? Ah, daqui a uma meia hora, mais ou menos. Você quer que eu passe aí pra te pegar ou a gente se encontra lá? Ah, em qualquer lugar, ali na esquina mesmo, onde tem aquela sorveteria, sabe?... Isso! Te espero lá então, daqui a uns quinze minutos. Pode ser? Combinado!
Troca de roupa atrás do biombo. Mais descontraído, veste uma calça jeans, camisa polo e tênis. Vai-se deslocando em direção ao lado direito do palco, enquanto a meia-cortina vai abrindo e descerrando a terraça de um bar. Vanessa já está lá esperando. No bar ao ar livre, há mesas e cadeiras vazias. Um garçom. Um músico com um violão. Eduardo chega e cumprimenta Vanessa beijando-a no rosto.
EDUARDO – E aí, tudo bem?
VANESSA – Ah, tudo indo (um pouco desanimada). Fiquei pensando no caso daquela mãe, sabe?
EDUARDO – Eu também.
O músico dedilha baixinho UN SUEÑO EN LA FLORESTA de Agustín Barrios. O tom da conversa é meditativo, pausado, intercalado por breves silêncios entre os dois.
VANESSA – Fiquei pensando como uma mulher é capaz de se doar tanto por um filho.
EDUARDO – É o amor.
VANESSA – É um mistério, isto sim.
EDUARDO – O amor é um mistério.
VANESSA – Pode ser.
EDUARDO – Bonita essa música, não é?
VANESSA – Sim, mas é triste.
EDUARDO – Você está triste hoje?
VANESSA – Não... acho que estou só cansada.
EDUARDO – Vou pedir um chope. Você quer um?
VANESSA – Sim, por favor. Fiquei pensando na Suzana, uma mulher tão jovem, mas fisicamente acabada (com ênfase)... O sofrimento está estampado no rosto dela. A mulher não tem nem 40 anos e já tem um filho com 18.
EDUARDO – Ela deve ter tido filho muito nova.
VANESSA – Fiquei pensando na minha vida afetiva (erguendo o olhar da mesa e encarando-o): 34 anos, vários namorados, baladas, nenhum compromisso, nem casamento nem filho.
EDUARDO – Ih, você tá parecendo a minha mãe, me cobrando um neto.
VANESSA – Eu queria ter uma filha.
EDUARDO – Por que não um filho?
VANESSA – Não sei. É um sonho que eu tenho. Minha filha iria se chamar Diana.
EDUARDO – Por que esse nome?
VANESSA – É a deusa grega da caça.
EDUARDO – Eu acho que não é grega; é romana.
VANESSA – (pegando na mão dele sobre a mesa) Eu nunca gostei do meu nome. Eu queria me chamar Diana.
EDUARDO – Por que você não escolhe uma divindade mais brasileira? Sei lá, pesquisa alguma coisa na mitologia guarani, por exemplo. No candomblé existe um deus da caça chamado Oxóssi.
VANESSA – Mas Oxóssi é um deus masculino; eu quero ser uma deusa feminina.
EDUARDO – Lá vem você de novo com esse papo de feminismo.
VANESSA – Ih você tá é por fora. Não é nada disso.
EDUARDO – Nossos colegas da UnB odiavam as nossas conversas de antropologia, lembra?
VANESSA – Claro que eu lembro. Bons tempos... Eu era tão mais nova. Nem acredito que já faz 10 anos que a gente se formou.
EDUARDO – Você nunca mais encontrou ninguém da nossa turma?
VANESSA – Não, só você.
EDUARDO – É muita coincidência a gente estudar juntos na faculdade, passar no concurso e vir parar em Foz do Iguaçu!
VANESSA – É mesmo, tem razão (pegando na mão dele de novo).
EDUARDO – Minha querida deusa da caça, a propósito, você sabe o nome dessa música?
VANESSA – Não... (carinhosa, inclinando-se sobre o peito dele)
EDUARDO – (com sotaque) Un sueño en la Floresta de Agustín Barrios, guitarrista paraguaio. (com ar professoral) O Paraguai tem um dos maiores compositores eruditos de todos os tempos, você sabia?
VANESSA – Eduardo (pronuncia o nome dele como uma gata no cio), você quer casar comigo?
EDUARDO – O quê?! Não escutei direito.
A música pára. Silêncio por um instante.
VANESSA – Eu perguntei se você quer casar comigo.
EDUARDO – O que é isso, Vanessa? Estou muito novo pra casar.
VANESSA – Você tem a mesma idade que eu.
EDUARDO – Mas eu não quero casar agora. Tem muito chão pela frente... Aliás, nem sei se a gente está namorando. A gente está namorando ou ficando?
O músico do bar começa a tocar O MEU GURI, de Chico Buarque. O ritmo da conversa fica ainda mais lento, intercalado por longos silêncios
EDUARDO – Ah essa música é linda, você gosta?
VANESSA – Gosto. Quem não gosta? (decidida) Eduardo, você fala que tem um longo chão pela frente. Pois eu acho que muita água já rolou por baixo dessa Ponte da Amizade...
EDUARDO – (desviando o assunto) Sim, o rio Paraná é o segundo maior do Brasil. Aliás, da América do Sul.
VANESSA – Não, doutor Eduardo. Estou falando de águas em sentido figurado. E me refiro à nossa amizade.
EDUARDO – Ah bem.
Nova pausa na conversa. Os dois ouvem atentamente a música.
EDUARDO – Não sei se fiquei impressionado com aquela história, mas essa canção me fez lembrar outra vez o caso da Suzana de Jesus.
VANESSA – Eduardo, me diz uma coisa. Quem era aquela bonitinha que te deu uma olhada no forum hoje de manhã?
EDUARDO – Alguém olhou pra mim, foi?
VANESSA – Não se faça de desentendido. Aquela mulher de tailleur vermelho, que só faltou te comer com os olhos, parecendo a Pomba-Gira.
EDUARDO – Nossa! Não seja cruel com a moça. Aquela é uma advogada muito séria, doutora Melissa Fausto.
VANESSA – Sei.
EDUARDO – Bom, acho que estou começando a ficar bêbado com essa cerveja. Amanhã tenho uma audiência muito cedo. Podemos pedir a conta?
VANESSA – Por mim estou satisfeita. (despeitada) Não tenho mais perguntas, Ex-ce-lên-cia.
EDUARDO – Não seja boba.

Cortina. A música continua até a próxima cena.




CENA 3


Daniel irrompe no palco esbaforido. Está fugindo dos pistoleiros que querem matá-lo. O cenário é a periferia de Hernandarias. Bate à casa de um amigo de infância. Casa simples, de porta e janela. Deve-se entrever nos fundos um grande quintal com o desfiladeiro para o rio.
DANIEL – Socorro! Socorro!
AMIGO – O que foi que houve?
DANIEL – Os homens querem me pegar, cara. Tô ferrado!
AMIGO – Entra aqui, entra.
Daniel abriga-se. Os dois ficam agachados debaixo da janela, sussurrando.
DANIEL – Mamãe foi presa.
AMIGO – Tua mãe, cara? Porra, até tua mãe entrou no tráfico?
DANIEL – Claro que não, pô.
AMIGO – Então o que foi? Ela matou O Coruja?
DANIEL – Também não. Preciso te contar. É uma longa história. Cadê aquele dinheiro que eu pedi pra você guardar? Ainda tem ele aí?
AMIGO – Tenho. Tá aqui ó. Não gastei não.
Tira o dinheiro do bolso e entrega a Daniel. Conta o dinheiro e guarda.
DANIEL – Cara, vou pegar um ônibus pra Assunção. Eles vão me matar, eu tenho certeza. Se acontecer alguma coisa comigo, diz à mamãe que eu amo ela, por favor. E que eu me arrependi antes de morrer.
Chegam os pistoleiros, gritando e forçando a porta.
ENCAPUZADO 1 – Bora, abre essa porta! Perdeu! Perdeu!
ENCAPUZADO 2 – Você tá morto, Danielzinho. Já era, velho! Abre logo!
DANIEL – Cara, ferrou! Faz esse favor pra mim. Diz à mamãe que eu amo ela e que eu me arrependi antes de morrer. Vou pular daqui mesmo! Adeeeeeus...
Se joga no vale do rio Paraná.
ENCAPUZADO 1 – (dirigindo-se ao outro) Rápido, vamu dar a volta pelo outro lado, ele tá fugindo pelo rio.
Saem correndo pelo lado oposto do palco. Depois de alguns segundos, voltam os dois.
ENCAPUZADO 1 – Você viu ele por aí?
ENCAPUZADO 2 – Não.
ENCAPUZADO 1 – Olha lá! (apontando para o céu)
ENCAPUZADO 2 – O quê? É a alma dele indo pro céu?
ENCAPUZADO 1 – Não, animal. São os urubus! Você não tá vendo?
ENCAPUZADO 2 – Ah sim. Agora eu tô vendo.
ENCAPUZADO 1 – Esse aí já era.
ENCAPUZADO 2 – Virou café-da-manhã de urubu.
ENCAPUZADO 1 – Vambora. Deixa o corpinho dele fedendo lá no rio. Miserável vai inchar d’água. Vai ficar parecendo um sapo.
ENCAPUZADO 2 – Quando o cadáver incha, ele desce boiando na correnteza. Aí é só a gente pegar lá embaixo e costurar a boca dele.
ENCAPUZADO 1 – Que costurar o quê? Ele já tá morto mermo...
ENCAPUZADO 2 – Ué, pra ele não dedurar nós lá no Além!
ENCAPUZADO 1 – Deixa de ser, mané! Vambora que o chefe tá esperando.
Saem. Depois de alguns segundos, aparece Daniel do lado oposto do palco, esbaforido. Olha para um lado e outro... Ouve-se um som mecânico de ônibus (sonoplastia). Daniel acena ao ônibus e corre.

Cortina.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Terno




Marcelo Maio, 18/04/2014

1

– Preciso comprar um terno! – era o que sempre falava Zizo quando chegava à noite em casa.

– Prioridades, prioridades! – era o que sempre respondia sua esposa. – Há, no momento, coisas muito mais importantes do que terno.

– Como o quê? – era o que sempre perguntava Zizo, embora sempre soubesse a resposta.

– Comida para nós, para as crianças, as contas para pagar, as obrigações do dia-a-dia!

– Isso é tudo fim, o terno é o meio. Sem terno, não há dinheiro. Sem dinheiro, nada disso é possível!

Esse era, portanto, o costumeiro diálogo que ocorria toda noite na humilde casa de Zizo, localizada na periferia do Rio de Janeiro. Ele vendia laranjas em semáforos, mas os negócios iam mal e a concorrência, pesada. Assim como ele, havia vários outros vendedores ambulantes em esquinas e semáforos adjacentes, de modo que ele não conseguia se destacar. Seu raciocínio era singelo: enquanto todos os ambulantes vendiam laranja de camiseta, bermuda e chinelos, se ele usasse terno, ganharia respeito e, principalmente, visibilidade. Prefeririam as laranjas dele.

– Isso é bobagem, não existe nenhuma garantia de que você venderia mais se tivesse um terno – dizia sua esposa, artista plástica e pintora, que vendia seus quadros em Santa Teresa, mas cujos negócios tampouco iam bem.

– Você diz isso porque quer me sabotar! – gritava Zizo, um absurdo completamente sem propósito, um devaneio de alguém já à beira do desespero. – Quer mais é que a gente se endivide mais e mais para você me largar, eu sei!

– Isso não tem nada a ver – respondia a mulher, até um pouco envergonhada por ter de se defender de uma acusação tão ridícula. – Eu me casei contigo, Zizo! Eu escolhi viver contigo!

– E daí? Que sacrifício há nisso? Se casou, se separa. A que você renunciou?

– Renunciei à liberdade de acordar com bafo e ninguém sentir.

Isso era mesmo algo de que ela não abrira mão até conhecer Zizo. Nunca havia amanhecido na cama com ninguém. Parecia-lhe inconcebível que, após uma noite com alguém, tivesse que acordar sem maquiagem, com mau hálito, despenteada. Seu primeiro sono compartilhado com Zizo causou-lhe um medo tão intenso que não seria exagero chamar de pânico. Dormiu mal, acordou insegura e, mais tarde, chegou a confessar a uma amiga:

– É como o medo de sentar no vaso e uma barata subir na sua bunda. Acordar com alguém evidencia toda a vulnerabilidade do nosso corpo, o limite dos nossos cheiros, a crueza da nossa aparência. Nunca mais durmo com Zizo nem com ninguém.

Evidentemente, descumpriu o juramento, casou-se com ele e, como recompensa dos deuses, ouve toda noite:

– Tenho que comprar um terno.

Irritado com a falta de apoio da mulher, Zizo foi um dia por conta própria a um shopping center. Ingênuo, entrou logo em uma loja de ternos de grife e, muito mal atendido, não soube direito se havia entendido corretamente o preço. Foi a outra loja e continuou muito confuso. Por que tantos zeros para um pedaço de pano? Conseguiu até um desconto com uma vendedora, mas o valor continuava absurdo. Depois de muitas pesquisas, encontrou, em uma loja de ternos populares, um magnífico conjunto, já com a calça, os sapatos e a gravata, por 200 reais. Era uma pechincha! Não havia caimento, tinha uma costura pobre, mas experimentou mesmo assim. Ficou horroroso, não conseguia nem se mexer, mas achou lindo. Só faltavam mesmo os 200 reais. Podia parcelar, porém. Se dividisse em dez partes de 20 reais e vendesse tantas vezes mais laranjas como achava que era possível, em pouco tempo o investimento teria valido a pena.

– Tenho que dar entrada?

– A primeira parcela é só para o próximo mês, senhor.

Comprou!

Não contou nada à esposa. Deixou o terno escondido e, como saía para a rua mais cedo do que a mulher, ela não perceberia nada. Quando chegasse à noite em casa, com muito mais dinheiro do que o habitual, ela teria que lhe dar razão e não haveria tempo para críticas do tipo: "Não acredito que você comprou isso, sendo que o leite das crianças está no fim!".

Acordou uma hora mais cedo para conseguir colocar a gravata. Saiu na ponta do pé para não acordar a esposa e estragar a surpresa e foi às ruas. Dessa vez, não venderia as laranjas nas ruas da Penha, Olaria, Vicente de Carvalho… Era agora homem importante e tinha que fazer negócios com gente igualmente importante. Foi para o Centro. Fazia calor. Ainda eram 8 da manhã, mas dezembro no Rio nunca tem clima fresco. Suava como nunca. O terno colava-lhe ao corpo. A Rio Branco fervilhava de carros, buzinas, pessoas apressadas. Os negócios ainda não estavam como ele esperava, mas era só o começo do dia. Quando ia vender sua primeira laranja, porém, não reparou que o sinal tinha aberto para os carros, veio um motorista furioso com o trânsito e atropelou Zizo. Banho de sangue no centro do Rio.

2

– Me desculpa, senhora, me desculpa! – dizia o motorista à viúva de Zizo. O condutor, verdade seja dita, cumpriu todas as suas obrigações. Mesmo atrasado para o trabalho, prestou os primeiros socorros, chamou a ambulância, telefonou para a viúva (tinha o número da esposa no celular de Zizo) e foi por contra própria prestar os devidos esclarecimentos na delegacia. 

– A senhora me desculpe, por favor. Eu sei que nada é capaz de restituir sua perda, de compensar uma vida humana, mas… – E continuou a falar por um longo tempo, enquanto a mulher apenas tapava o rosto, incrédula da desgraça que lhe abatia. Ao contrário do que Zizo dizia, foi ele quem a deixou, não o contrário. O motorista, ainda muito nervoso, dizia que estava preso no trânsito havia mais de uma hora, que tinha se atrasado, que não viu Zizo atravessar a rua.

– Não viu, meu senhor? – falou a viúva, pela primeira vez. – Não viu um homem na sua frente?

– Minha senhora, sei que vou morrer com essa culpa, mas no Centro tem tanta gente de terno correndo de um lado para o outro que eu simplesmente não vi seu marido. Era exatamente assim que ele estava: correndo e de terno. Para mim, ele era apenas uma sombra, nada mais.

domingo, 24 de agosto de 2014

Flores no esgoto

Marcelo Maio, 24/08/14


O técnico da companhia de água da cidade estava debruçado sobre o asfalto quente, mexendo em sabe-se lá o que no bueiro. Vez ou outra viam-se pequenas baratas saindo de lá e fugindo de forma apressada pela calçada, aparentemente desconcertadas com a súbita iluminação encontrada.

Um senhor se aproximou com um sorvete na mão e falou:

– Barata é um bicho injustiçado, né? Nem os ativistas dos direitos dos animais defendem uma barata. Ninguém gosta delas. É unânime!
– Também, pudera, né, meu senhor? – respondeu o funcionário. – Que bicho nojento da moléstia!
– Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Se é unânime que se trata de um bicho repugnante, é porque ele deve ter algo de encantador.

O trabalhador fez um assovio de reprovação e voltou a cabeça para dentro do bueiro. O velho continuou chupando seu sorvete, ridiculamente (não que seja culpa dele; é que um homem chupando um sorvete é sempre uma cena ridícula).

– Da mesma forma, acho encantadora sua profissão – disse o senhor. O trabalhador voltou de novo sua cabeça para a claridade e perguntou:
– Como é que é? Acha o quê?
– Encantadora. Sua profissão, assim como as baratas, é, na opinião unânime, repugnante. Assim como as baratas são encantadoras em um mundo onde toda unanimidade é burra, o mesmo posso dizer do seu trabalho.
– Meu senhor, então me explique qual é o encanto disso aqui, porque eu não estou entendendo não.
O velho pensou um pouco e, sem deixar de ser ridículo com seu sorvete, falou:

– Às vezes, andamos por um caminho florido e, repentinamente, pisamos em flores e não sabemos que abaixo se esconde um buraco. Já aconteceu contigo?
– Não, senhor.
– Nunca te aconteceu pisar em flores sem que houvesse um chão embaixo?
– Não, senhor.
– Metaforicamente falando.
– Não, senhor.
– Bem, comigo, sim. Já pisei em flores e caí no esgoto. Aposto que o contrário é também possível, isto é: tatear o esgoto e colher flores.
– Não, senhor, o senhor não está entendendo mesmo. Aqui, não tem flor não. Aqui, só tem merda, meu senhor. A sua merda, a minha, a da sua mãe, a daquela gostosa ali na esquina, a merda de toda a cidade. Flor, é na floricultura. Aqui, tem merda.

O velhote, então, ficou meio sem jeito e resolveu ir embora.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre os Brtrzslyxzhzsgy







Eduardo Siebra, 16/10/13                    


            Na sétima dimensão, ou seja, numa projeção geométrica de realidade incompreensível para os seres humanos, vive uma forma de criatura consciente chamada brtrzslyxzhzsgy. Por mais que tentássemos, jamais conseguiríamos entender seu modo de existência: suas mentes não estão – como as nossas – amparadas na matéria, mas sim numa complexa rede relacional de incidências de vibrações no continuum espaço-temporal. Eles não possuem forma ou extensão – ao menos segundo as definições humanas destes conceitos – o que significa que aquilo que nós tentaríamos definir como seus corpos estão, na verdade, dispersos em posições aparentemente aleatórias, que perpassam diferentes e longínquas regiões do Cosmos. Na verdade, a idéia de individualidade só é possível aos brtrzslyxzhzsgy porque eles definem suas próprias consciências – ou seja, sua noção de eu – a partir de contrastes de uma série ininterrupta de avanços e recuos temporais das poucas partículas estritamente físicas que estão associadas à sua existência. Tais séries – que pareceriam aleatórias mesmo aos mais poderosos computadores já criados pelo homem – seguem, na verdade, um intricado padrão matemático, e todo brtrzslyxzhzsgy sente-se único justo por intuir que o seu padrão é singular e irreproduzível.
            Só poderíamos nos referir à comunicação brtrzslyxzhzsgyana por meio de metáforas. Como se sabe, a tremenda explosão que deu origem ao mundo provocou um eco que até hoje reverbera pelo universo. A sofisticada mente dos brtrzslyxzhzsgy está praticamente imersa nessa reverberação, e ela é capaz de reproduzi-la harmonicamente, em padrões referenciais ligeiramente distintos um dos outros, o que os torna inteligíveis às mentes dos demais brtrzslyxzhzsgy. Numa simplificação grosseira, poderíamos tentar explicar dizendo que a língua dos brtrzslyxzhzsgy é uma eterna e contínua variação sobre a canção de nascimento e morte do mundo.
            Por existirem num patamar diferente da realidade e por possuírem características físicas tão alienígenas, estamos conceitualmente e absolutamente impedidos de conhecer ou de estabelecer qualquer forma de comunicação com os brtrzslyxzhzsgy. A verdade é que a todo instante e em vários lugares manifestações espúrias da consciência brtrzslyxzhzsgyana perpassam o Planeta Terra sem que nós, humanos, pudéssemos nos dar conta da proximidade destas criaturas nem eles, brtrzslyxzhzsgy, pudessem suspeitar da existência de uma sociedade como a nossa neste nível de realidade. Os brtrzslyxzhzsgy vivem num recorte diferente do universo, e talvez uma descrição das características de um ser humano para um indivíduo brtrzslyxzhzsgy soasse tão alienígena quanto nos soa a descrição de seu modo de vida.
            Deixando de lado, porém, os aspectos mais abstrusos a respeito da existência brtrzslyxzhzsgyana, a verdade é que essas criaturas são muito mais parecidas com nós do que poderíamos imaginar. O que se entende mais facilmente quando se considera o caso de Cstrhjshkzlay.
            Todos os dias metempsicóticos, Cstrhjshkzlay vai trabalhar. Ou melhor, para ser verdadeiramente preciso, seria necessário dizer que Cstrhjshkzlay projeta sua consciência numa determinada amplitude de vibrações das supercordas, de tal modo que ele pode usar sua capacidade de concentração e de criatividade para sincronizar seus fluxos cronológicos com a prospecção de metarreverberações. Num gigantesco organismo formado por dezenas de milhares de brtrzslyxzhzsgy que vibram em conjunto, pode-se dizer que as próprias forças fundamentais que constituem o universo são coletadas, de modo a tornar possíveis os diversos objetivos funcionais da sociedade brtrzslyxzhzsgyana. 
            Parece complicado, mas é bem mais simples – e prosaico – do que soa à primeira vista. Cstrhjshkzlay, na verdade, anda até um pouco entediado com seu trabalho. Do ponto de vista de seus colegas, naturalmente, esse enfado é completamente injustificado. Poucos são os brtrzslyxzhzsgy que tem a oportunidade de ocupar uma função tão interessante quanto a de coletar as metarreverberações cosmogônicas. Os critérios seletivos são rigorosos, e apenas as mentes mais aguçadas tem uma chance de conseguir o emprego. Além disso, o ambiente de trabalho é impressionante, mesmo para os padrões multiplanares dos brtrzslyxzhzsgy: oscilações ininterruptas de estalos transcendentais são canalizadas por vigorosas redes plurimentais intencionalmente elaboradas para literalmente sugar o poder criativo cósmico. Lapsos momentâneos de ordem e caos absoluto alternam-se seguindo padrões que, segundo alguns teóricos mais imaginativos, talvez reflitam mensagens gravadas na própria conformação da realidade. Como resultado, forma-se uma verdadeira nebulosa de transconsciência, de modo que os brtrzslyxzhzsgy que lá trabalham têm a oportunidade de se comunicar com entidades inteligentes ou semi-inteligentes de diferentes ontologias identificadas.
Cstrhjshkzlay, para bem dizer a verdade, acha aquilo tudo um saco. Naquele dia metempsicótico específico, ele estava especialmente mal-humorado.
            – Olá, Cstrhjshkzlay, como vai o senhor?
             – Vou bem, Frgbbnhjktre.
            – As antinomias de ontem já estão em sua tabula rasa.
            – Ah, maravilha. Pode deixar que hoje eu as decifro.
            Porcaria! Isso significava que Cstrhjshkzlay teria um longuíssimo dia fazendo um trabalho árido, obrigando-o a ficar num estado de concentração forçada que era de encher o saco de qualquer um.
            Cstrhjshkzlay acoplou sua miríade geométrica ao feixe de pólipos da crisálida e despencou sobre o caleidoscópio.  
            – Ora merda! – bufou, e contemplou, mal humorado, o espetacular fluxo de metarreverberações passando diante do ultrahiperdodecaedro onde ele passava maior parte de sua jornada de trabalho. Cstrhjshkzlay suspirou e, antes de se debruçar sobre as atinomias, convergiu suas filigranas sensíveis para um livro – um padrão sintético cognitivo materializado aprioristicamente, na verdade – que ele havia deixado jogado por ali.
            Criaturas capazes de comunicação e conhecedoras da noção de individualidade[1], os brtrzslyxzhzsgy desenvolveram uma rica vivência intelectual. Naquilo que aproximativamente poderíamos chamar de passado[2], os brtrzslyxzhzsgy dedicaram-se à contemplação do universo e à reflexão sobre os mistérios da vida. Muitos livros foram escritos sobre as grandes e profundas questões, e houve uma era em que se considerava que, para ter uma vida plena, um brtrzslyxzhzsgy deveria buscar o auto-conhecimento através da reflexão.
            Auto-reflexão uma ova! – teria dito Cstrhjshkzlay, em nosso idioma. Fazia mais de 200 dias metempsicóticos que ele estava tentando apreender o significado transcendental daquele livro – um intrincado tratado sobre a possibilidade epistemológica de um conhecimento inato, ou seja, o equivalente brtrzslyxzhzsgyano da Crítica da Razão Pura. Só que, por causa do trabalho, ele não tinha nem tempo nem sossego para acompanhar os intrincados raciocínios.
            Na rabugenta opinião de Cstrhjshkzlay, os brtrzslyxzhzsgy todos estavam praticamente obcecados com a idéia da prospecção de metarreverberações. Claro, tinha todo aquele lero-lero de que aquilo tornava a vida mais conveniente, que os brtrzslyxzhzsgy de hoje viviam muito mais confortavelmente do que antes, com acesso a um quantum muito maior de metarreverberações. Cstrhjshkzlay não se importava que as outras pessoas acreditassem naquele monte de abobrinhas, mas justo ele ter que viver a vida inteira assim, coletando essas malditas metarreverberações! Ele, que tanto havia sonhado em se tornar um estudioso de psicocosmologia quando era jovem...  Tudo bem que ele havia escolhido o emprego, e que ele era metarreverberativamente bem remunerado pelo seu trabalho. Mas ao custo de que?  Do lócus biônico da liberdade e da reflexão, ou seja, tudo o que Cstrhjshkzlay mais desejava para si.
             Ele já havia tentado explicar suas opiniões a alguns de seus amigos mais íntimos. Alguns até concordavam, mas a verdade é que ninguém gosta de gente resmungona, seja nesta, seja na sétima dimensão. Todos achavam que Cstrhjshkzlay reclamava de fractal cheio: seu emprego era bom, e se ele quisesse tanto assim continuar seus malditos estudos de psicocosmologia, que tivesse ao menos a dignidade de tomar uma decisão e fosse atrás do seu sonho. Ficar choramingando era que não ia resolver o problema.
            “Falar é fácil.” – pensava Cstrhjshkzlay, quando lhe sugeriam largar o emprego. Ele sabia que se ele deixasse a firma para estudar psicocosmologia – das disciplinas mais interessantes e, portanto, mais inúteis jamais concebidas pelos brtrzslyxzhzsgy – com toda a probabilidade mais cedo ou mais tarde ele teria o mesmo destino de tantos brtrzslyxzhzsgy desocupados, ou seja, ele iria se amalgamar à transnebulosa de inação plena. A coisa não tava fácil para ninguém: a sociedade era de tal modo organizada que, sem uma fonte estável de metarreverberações, um brtrzslyxzhzsgy era a obrigado a ganhar a vida vendendo partículas quânticas em ângulos agudos.
            – Bem, vamos lá... – suspirou novamente Cstrhjshkzlay, resignando-se ao desinteressante dia que o acaso e sua falta de colhões lhe havia reservado. Quando se preparava para iniciar a criptosintaxe, ele ouviu alguém lhe dizer:
            – Cstrhjshkzlay, meu velho, tudo bem?
            Era Ztkzwgbtwow.
            – Ahn? Ah, oi, Ztkzwgbtwow...
            – Você vai para o sbrbles?.
            “Que o X’Aarn os devore!”, pensou Cstrhjshkzlay.
            – Ainda não sei, vai depender da Mngqstrbvca.
            – Ah, pode deixar que eu falo com ela. Não aceito desculpas, quero os dois lá, hein?
            – Não se preocupe, vou fazer o possível para ir.
            – Pra que trabalhar tanto se não se pode sbrblar com os amigos, não é?
            – É verdade.
            Assombrados por visões de desagregação cósmica, Cstrhjshkzlay pensou que talvez ele estivesse precisando de férias. Férias no Grande Vortex Primordial – não era pra lá que Mngqstrbvca queria ir? Talvez fosse interessante mesmo, todo mundo falava que era realmente uma viagem inesquecível. Ou talvez eles pudessem contemplar a orla do X’Aarn, o que definitivamente seria uma experiência muito mais emocionante – perigosa, inclusive.
            Mas será? Será que um intervalo de sossego resolvia o problema? Cstrhjshkzlay estava desestimulado com sua rotina, e interrompê-la poderia ser, se muito, uma fuga temporária.
            Cstrhjshkzlay vasculhou seu entorno ontológico com suas filigranas sensíveis. A velha bagunça de sempre – um coágulo de pontos fixos no infinito que Mngqstrbvca lhe havia dado de presente, o feixe de ângulos hiperdimensionais que ele havia prometido a si mesmo organizar meses metempsicóticos atrás, e sua coleção de livros, logo atrás do imperativo moral que ele era administrativamente obrigado a pendurar na parede teleológica.
            Cstrhjshkzlay             tinha praticamente uma coleção completa de filosofia brtrzslyxzhzsgyana no seu ultrahiperdodecaedro. Eram algumas dos principais testemunhos intelectuais de sua espécie – verdadeiros monumentos do antigo amor dos brtrzslyxzhzsgy ao conhecimento. Será que algum dia ele teria tempo de lê-los? Como, se ele passava a vida inteira coletando metareverberações?
            Metareverberações... Sim, dá para fazer muita coisa com metareerberações. Mas a verdade é que a maior parte dos brtrzslyxzhzsgy do passado tinha vivido suas vidas inteiras sem jamais precisar de uma única maldita metareverberação! Isso, claro, mudou radicalmente depois da ivenção do motor à metareverberação, durante a revolução trigonométrica, mas o que Cstrhjshkzlay tinha a ver com isso? Ele não havia escolhido as prioridades idiotas de seu mundo: por que, então, deveria se conformar a elas?
            Largar tudo... Será? Será que ele conseguiria, depois de ter se acostumado ao estilo de vida que tinha? E o que Mngqstrbvca iria dizer? E se depois ele se arrependesse?
            Ah, reclamar não resolvia o seu problema! Por sinal, ele não podia terminar aquele dia sem decifrar a porcaria das antinomias em sua tábula rasa. Era preciso deixar de pensar em suas angústias e se concentrar no trabalho. Ele contraiu suas filigranas, reverteu sua entropia marginal e respirou fundo.
            Vamos lá. Vejamos. A primeira antinomia dizia mais ou menos assim: “O que é, não é.”
             – O que é, não é. – repetiu Cstrhjshkzlay, em voz alta, ou o que quer que corresponda a isso no universo brtrzslyxzhzsgyano. Aquela proposição, por alguma razão que não conseguia entender, o deixou ainda mais triste.
            “Se o que é, não é” – pensou Cstrhjshkzlay, iniciando sua rigorosa análise criptosintática – “então eu não apenas não sou um brtrzslyxzhzsgy, como eu tenho um trabalho interessante, que me satisfaz profundamente. Afinal, poder fazer parte da prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna, sob os mais diferentes aspectos. Eu estou dando uma contribuição importante e insubstituível à sociedade, e isso por si só é o bastante para dar um sentido à minha vida.”
            Ele parou, olhou para o imperativo categórico na parede teleológica e continuou:
            “Eu faço o que eu faço porque eu quero. Foi um exercício de liberdade que me colocou nesta situação, e sendo assim eu não tenho do que reclamar. Eu gosto dos meus colegas de trabalho, eu gosto da Frgbbnhjktre, gosto até mesmo do Ztkzwgbtwow. O Ztkzwgbtwow não é um tremendo filho da puta. Tenho que parar de ser resmungão.”.
            O segredo da antinomia parecia estar aos poucos se revelando para Cstrhjshkzlay.
            “Ser protagonista do próprio destino não é uma pré-condição da felicidade. O auto-conhecimento não torna as pessoas necessariamente melhores, e tudo o que podemos esperar da vida é fazer o melhor com aquilo que nos foi dado. É um erro imaginar que um brtrzslyxzhzsgy possa ir de encontro ao seu destino, ou criar uma realidade nova. A arte de viver é a arte de fazer o possível. A prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna. Quando voltarmos á desagregação primordial de que saíram nossas consciências, as escolhas que tenhamos feitos ao longo de nossas vidas não farão a menor diferença, desde que nós tenhamos deixado uma marca no coração das pessoas.”
            É isso. Cstrhjshkzlay era bom em criptosintaxe, por isso ele havia conseguido aquele cargo. A primeira antinomia estava resolvida. Ele registrou, no grande aparato de ampolas cibernéticas retroflexas, a resposta para o problema:
            “O que é, é”.
            Cstrhjshkzlay pôs a antinomia resolvida em seu escaninho de saída e pegou a próxima na pilha.
            “O que será, não será.”
            – Essa é mais difícil. – murmurou Cstrhjshkzlay, com seus botões, antes de continuar sua análise criptosintática.  – Será um longo dia...


[1] Ao contrário, por exemplo, do terrível e tenebroso X’Aarn,  que confunde sua própria existência com a do universo inteiro e que, por isso, deseja devorar tudo o que existe para trazer de volta toda diferenciação indesejada para o conforto eterno da morte que há dentro de si.
[2] Observe-se, aqui, que a noção de passado para os brtrzslyxzhzsgy não está relacionada, como para nós, ao fluxo da entropia, ou seja, à passagem do tempo, mas sim a uma noção de profundidade definida em relação ao que a mente brtrzslyxzhzsgy entende como o coração quintessencial do Ser.