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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Filosofia Política no filme ALÉM DA LIBERDADE (THE LADY)

Por Frederico Oliveira

         Amigos meus vão amar o filme ALÉM DA LIBERDADE provavelmente por razões diferentes das minhas.


É um filme que faz pensar.

O enredo conta a história real da líder política Aun San Suu Kyi e sua luta pelos direitos civis em Myanmar. A ativista é filha de Aung San - símbolo da independência do país nos anos 1940 e assassinado pelo golpe militar que deu origem à ditadura que está até hoje no poder.

Exilada na Inglaterra, Suu volta à pátria para assistir os últimos dias de vida de sua velha mãe. Ao testemunhar a violência de que só tinha notícia pelos telejornais, acaba se envolvendo na campanha democrática por eleições livres, sendo aclamada pelos intelectuais e populares como o grande nome da resistência contra o regime.

Suu, que era uma dona de casa e leitora de Gandhi, se torna então a líder carismática da oposição. A ditadura reage violentamente com detenções, torturas e assassinatos. Mas, temendo a criação de um novo mártir, os militares decidem pela prisão domiciliar de Aun San Suu Kyi, que passa mais de seis anos (!) incomunicável dentro de uma chácara, sem notícia de seu marido e filhos ingleses.

Na minha opinião, o aspecto bem-sucedido do filme de Luc Besson é quase involuntário.

A película tem um leve tom de idealização da personagem: a mulher com flores no cabelo resistindo indefesa contra brutamontes. Há outros adornos românticos como o discurso do filho na cerimônia do Nobel da Paz, recebido à distância enquanto Suu toca sua música favorita ao piano. A música aí é o símbolo da liberdade, capaz de tocar até o coração do sargento cruel que vigia a sua prisão domiciliar.

Mas esses detalhes não tocam no cerne da obra. O que há de mais profundo ali é a tensão própria entre a "realidade ficcional" e a "realidade real" - vamos chamar assim por falta de um termo melhor.

A tensão entre a realidade real e a realidade ficcional se evidencia com mais naturalidade numa obra de arte baseada em fatos reais. Assim, o próprio subtítulo do filme sugere uma relação nebulosa entre a primeira e a segunda realidade.

Mas o problema não se limita ao gênero, à forma.

No início do filme chama a atenção a cena em que o tio de Suu vai recebê-la no aeroporto de Yangon. Ele lhe conta as mais recentes arbitrariedades do tirano de Myanmar: proibir os preços que não sejam múltiplos de 9, além de outras superstições. Eis uma grande verdade. As ditaduras são uma espécie de loucura. Todos os ditadores vivem numa realidade paralela, por assim dizer, num universo ficcional próprio. Como num caso de histeria, o tirano é incapaz de distinguir entre uma afronta real e uma ameaça imaginária, reagindo desproporcionalmente a esta. Por isso, os tiranos podem perfeitamente conversar com pajaritos ou repelir com tropas e canhões uma passeata pacífica de estudantes desarmados.

Para mim, a grande sacada do filme é que a Política moderna usurpou da Literatura o tratamento da ficção. E a tal ponto que não só os ditadores, mas também os políticos democratas correm o risco de romper com a realidade e passar a viver num universo interior paralelo.

Sim, é um ato de nobreza sacrificar a própria vida em favor dos outros, mesmo que seja uma causa perdida. Mas Aun San Suu Kyi sofre de uma incapacidade para avaliar corretamente o mundo exterior e se torna refém de seus próprios esquemas mentais. 

Por exemplo, Suu transforma Mahatma Gandhi numa projeção de si mesma; cria uma imagem fictícia que não corresponde ao Gandhi real. Convicta, faz uma greve de fome para chantagear o governo, mas esquece que Mahatma Gandhi jamais fez "greves de fome", senão prolongados jejuns espirituais.

Aliás, o esvaziamento espiritual dos políticos modernos e sua adesão a uma religião civil é outra realidade no Ocidente e no Oriente.

No fim, a protagonista vive um drama interior, muito bem explorado no filme. Suu não viu os filhos crescerem, e é claro que ela se angustia com isso. Quando finalmente os filhos recebem o visto para visitá-la em Myanmar, ela está ocupada demais com assuntos de última hora para dedicar-lhes muita atenção. Anos depois, seu marido está morrendo de câncer na Inglaterra. Suu então, já livre da prisão domiciliar, decide com tristeza não retornar para casa porque imagina que, deixando Myanmar, colocará a perder todo o trabalho dos últimos anos de luta pela democratização do país.

O câncer do marido e a solidão dos filhos são reais. A reforma política em Myanmar é um ideal. O amor ao povo e o amor a um filho não podem ter a mesma natureza porque o povo é uma categoria de pensamento, e um filho é alguém concreto. Não estou dizendo isso por razões egoísticas: como é possível "amar a humanidade" e negar esmola ao mendigo?

Aun San Suu Kyi chora ao telefone acompanhando de longe o fim melancólico de seu companheiro, Michael Aris. Sente na morte do marido em Oxford um prenúncio da extinção de sua própria vida, enquanto que a ditadura militar da Birmânia ainda continua vivíssima... 

Isso é tragicamente real!

Quando a pobre Suu contrasta a vida de Michael com a República de Myanmar, se dá conta das diversas escalas do Ser. O ser humano é menos duradouro que uma sociedade. Assim como uma sociedade é menos duradoura que a natureza (aquele pedaço do planeta já testemunhou uma sucessão de domínios políticos). E mais duradouro do que a natureza só mesmo Deus.

É esse realismo que falta a todos os ditadores, mas que está faltando também a muitos democratas. Por um lado, o poder de mandar nos outros não nos eterniza. Por outro lado, um movimento social (como a democratização da Birmânia) pode muito bem sobreviver além da pessoa que o liderou. 

Cada um de nós é um grãozinho de ser no universo, e o que precisamos é afinar a nossa sintonia com o ser.

Ironicamente, a linguagem cinematográfica traz o espectador de volta à realidade.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Uma Aventura Lego



Por Eduardo Siebra



                "Uma Aventura Lego" é um fenômeno cultural interessante. Não é todo dia que se assiste a um filme infantil com uma mensagem tão carregada sobre a necessidade de o ser humano tornar-se protagonista da própria vida.   
                Qualquer consideração sobre a animação precisa partir do reconhecimento de que ela é uma superprodução hollywoodiana, custeada por investidores que estão preocupados com o retorno financeiro que o filme possa lhes trazer. Além disso, a Lego é uma empresa, e para ela o filme é uma forma de promover sua marca.
                Não são poucos os exemplos de megaproduções em que se nota que os autores tiveram muita autonomia criativa. A explicação é simples: transgressão e criatividade não são incompatíveis com rentabilidade. Um investidor inteligente pode apostar num diretor ousado se acha que sua ousadia pode se tornar um fator de sucesso numa produção. Os empresários não possuem nenhuma relação de lealdade com os valores expressos pelo capitalismo. Não há nada de surpreendente, portanto, em ver filmes tão críticos quanto os de Michael Moore sendo lançados no circuito comercial: desde que o dinheiro esteja entrando, pouco importam as críticas contra o sistema.
                Ainda assim, "Uma Aventura Lego" surpreende. O personagem principal é uma figurinha genérica e sem muito brilho, que se vê diante da possibilidade de adquirir uma personalidade quando o vilão do filme – o Sr. Negócios, arquétipo do grande empresário americano – elabora um estratagema para literalmente colar cada pessoa no lugar que ela ocupa na sociedade. Essa metáfora esquemática é desenvolvida quase que com um senso de missão pelos diretores, que não hesitam em introduzir na trama elementos de crítica social, reflexões sobre o consumo e a manipulação midiática, discussões sobre níveis de realidade, misticismo e até mesmo arquétipos e uma noção de "chamado da aventura", à moda do monomito de Joseph Campbell. Trata-se de um filme deliberadamente didático, que dialoga muito mais com o adulto que levou seu filho para o cinema do que com a criança que está interessada nas figurinhas. É um filme que leva sua mensagem muito a sério, como se ele possuísse o dever de mostrar às pessoas o que precisa ser feito para escaparmos dos riscos que estão sendo engendrados por nossa sociedade.
Talvez o sucesso da série "Matrix" explique, em parte, a receptividade a uma produção assim. As plateias já foram educadas pelos irmãos Wachowski a aceitar escabrosas meditações fenomenológicas num blockbuster de verão. Respeitando-se o pacto de que o entretenimento continua sendo o derradeiro objetivo da ida a um multiplex, não se considera mais absurdo nem mesmo o uso do cinema para transmitir mensagens políticas e anti-conformistas em obras essencialmente comerciais.  Na verdade, filmes assim talvez atendam a uma demanda psicológica inconsciente do grande público. Apesar dos consolos do consumo, o desenraizamento da vida pós-moderna, associado ao medo da aniquilação individual e coletiva, tornam palpável um sentimento de apreensão mesmo a pessoas pouco politizadas. Sentimo-nos inseguros por intuirmos males por debaixo de nossa civilidade duramente preservada.
                Apesar de sua mensagem otimista e de seu ritmo frenético, "Uma Aventura Lego" é claramente fruto dessa inquietação. É a manifestação otimista do mesmo pavor que está por trás da proliferação de tantos filmes sobre catástrofes ou sobre mortos-vivos canibais e sem cérebro. A diferença é apenas de tom: enquanto o filme de zumbi aceita o mal como inevitável, "Uma Aventura Lego" insiste na capacidade individual de criatividade e resistência. Mas ambas criações reconhecem a realidade da ameaça: nossa liberdade está cerceada, nossa condição de sujeito ameaçada por uma série de obstáculos à plena realização da personalidade humana. Nossa mente está anestesiada e distraída, e a reação a isso precisa acontecer com sentido de urgência, pois caso contrário corremos o risco de assistirmos a uma regressão das formas de sociabilidade.
Suponho que seja por isso que a animação carrega tanto na elaboração de sua metáfora: os autores acham legitimo usar todos os recursos narrativos e gráficos ao seu alcance para levar adiante o que acreditam ser um catecismo sobre a conquista da consciência.  Vamos convir, apenas uma sociedade muito assustada faz com que uma diversão tão leviana quanto uma animação para crianças se transforme numa parábola sobre a salvação da humanidade.
                Não estou, com isso, criticando o filme enquanto criação artística. Gostei da animação e pessoalmente achei curioso o debate intelectual. Até concordo com o lero-lero: acho que precisamos mexer nossos traseiros e fazer algo a respeito do mundo em que vivemos. O que é intrigante não é o conteúdo do filme, mas sim seu aparecimento enquanto produto cultural de massa. Chega a ser assustador, apesar de todas as cores e de toda a jovialidade. No fundo, é uma expressão do desespero: o desespero de saber que, apesar de necessário e verdadeiro, e credo sobre a autonomia do homem não é mais digno de atenção nos círculos "sérios", ou seja, adultos. E se a sociedade não dá mais ouvidos aos que clamam por uma retomada da história nas mãos das pessoas comuns, então realmente só resta desabafar para as crianças, na esperança de que elas sejam capazes de captar a mensagem entre um bichinho engraçado e uma explosão de bloquinhos.
A ironia é que depois de terem visto o filme, mesmo os que aceitam a propriedade das críticas irão, com toda probabilidade, voltar para a velha vidinha besta de sempre, enquanto a sociedade lentamente rola para o beleléu.