quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

10 Razões Para Não Ler Listas na Internet



1 – Listas não têm embasamento metodológico



 Embora apresentem informações supostamente científicas, as listas da internet reúnem dados que não foram submetidos a comprovação empírica ou a uma metodologia séria. 




2 – Listas são enumerações aleatórias





 Por que 10 razões? Por que não 20, ou 100, ou 10.000 razões? A definição do número de entradas não obedece a qualquer critério racional e não tem nenhuma relação com o objeto analisado: explica-se pela facilidade ou conveniência da leitura. 



3- Apenas idiotas ignorantes levam listas a sério



 Supor que as informações apresentadas numa lista compilada por um autor anônimo são dignas de credibilidade é um sinal de pouca inteligência, credulidade e reduzida capacidade crítica. Além disso, revela um desejo de todo leviano de adquirir informações sem esforço e sem estudo, por meio de compilações que supostamente reúnem o essencial sobre determinado assunto.  Quem se permite ler uma lista provavelmente tem preguiça de ler textos mais extensos, que, além de demandarem mais tempo e concentração, amparam-se em argumentos complexos, difíceis de acompanhar para um palerma desatento. 



4- Listas são uma forma de auto-sugestão




 Os fatos listados costumam ser selecionados segundo um critério pré-estabelecido que, via de regra, tem como objetivo provar um lugar-comum ou uma crença reconfortante. As listas, portanto, apenas reforçam uma crença prévia do leitor, que, num supremo ato de indulgência, se deixa convencer pelo que quer que confirme seus próprios préconceitos. Puro wishful thinking...




5- Listas são um passatempo leviano


  
O tempo que um indivíduo perde lendo listas imbecis na internet poderia ser usado para ler um livro ou uma revista, para escrever um texto, jogar xadrez ou até mesmo para tirar um cochilo. Qualquer uma dessas atividades representam uma maneira mais digna de usar o próprio cérebro e o escasso tempo que o Acaso ou Destino concede a cada ser humano.



6 – Listas são uma maneira de mascarar a própria mediocridade existencial



 Dar credibilidade a informações simplórias e muitas vezes absurdas pode ser um sintoma de escapismo. Acreditar em verdades reconfortantes pode ser o último recurso de quem leva uma vida vazia, em que os dias se alternam entre o marasmo e o perfunctório. Ou seja, talvez seja uma forma de reforçar a delirante crença de que a própria vida tem importância e significado, provenientes das mesmas pequenas coisinhas que – pelo menos segundo uma apreciação minimamente realista – são o fundamento da própria penúria existencial.



7- Autores de listas são cretinos e picaretas



 O próprio gesto de elaborar uma lista, que é um formato fácil e condensado, revela que o autor está mais preocupado em ser lido do que em transmitir uma informação confiável. Não à toa, listas geralmente são publicadas por sites sem nenhuma credibilidade editorial, que conseguem se sustentar economicamente apenas pelos cliques em banners de publicidade que seu crédulo publico dá. O autor de uma lista é espiritualmente irmão do propagandista ou do lobista: ele quer convencer não pelas ideias, mas pela distração, ou pela imagem.  



8- Listas são um dos sinais da barbárie de nossos tempos




 A proliferação das listas da internet nada mais é que um reflexo da desinformação do publico leitor, que, segundo os indícios, é cada vez mais impressionável e menos capaz de formular um raciocínio por si mesmo. Pelo visto, entramos numa era em que a imagem, o grito e a pantomima contam mais, numa disputa de opiniões, do que as ideias ou o método de pensar. Uma plateia ávida por diversão e sensível apenas a slogans é tudo de que precisam os demagogos e os oportunistas para manipular a opinião pública.



9 – Listas não são capazes de dar conta da complexidade dos problemas



 A realidade é problemática, e possui diversas camadas de evidências e de significados. A tentativa de compartimentá-la de forma clara e ordenada pode revelar um desejo de esquivar-se da complexidade - desejo que, em última análise, talvez nasça da angústia humana de não poder abarcar, com seu conhecimento, todo o real. O problema das simplificações e de todas as formas de reducionismo é que elas, além de geralmente serem falsas - empobrecem nossa experiência do mundo.



10 – A vida é breve demais para as listas



 Por uma razão muito simples: a vida é breve e valiosa demais nós para a desperdiçarmos sendo idiotas.  

 
 
 
 
 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Mundo como Vontade e Representação?




                O pensamento de Schopenhauer é intrigante. A primeira das proposições de seu monumental livro é fácil de entender: o mundo como Representação nada mais é do que a filosofia kantiana. Nossa experiência da realidade necessariamente passa pelos sentidos, o que significa que jamais podemos intuir os objetos enquanto tais – enquanto coisa-em-si – mas apenas percebê-los como fenômenos (enquanto impressão sobre nossas faculdades sensoriais).
                Mas que o mundo seja Vontade... já é menos óbvio. Se alguém se aventurasse a ler Schopenhauer logo depois de ter lido Nietzsche, possivelmente suporia que a ideia de um mundo como Vontade é a expressão de uma filosofia irracionalista – menos preocupada como o método do que com a capacidade expressiva da teoria de dar conta de um mundo em que todos parecem estar numa eterna luta contra todos. Isso seria um erro, pois ainda que Schopenhauer tenha, de fato, influenciado toda uma vertente irracionalista do pensamento europeu, ele é na verdade um kantiano, ou seja, um filósofo profundamente preocupado com o método.
                Como, então, ele chegou a conclusão tão pouco evidente sobre a verdadeira essência do mundo? O caminho que ele percorreu é fascinante – talvez valha a pena tentar reproduzi-lo aqui, resumidamente.
                A misteriosa janela pela qual conhecemos o mundo da Vontade é, segundo Schopenhauer, nosso corpo. Entenda-se, nós também o percebemos como um fenômeno: se olho para baixo, posso ver as minhas mãos e minhas pernas, do mesmo podo que posso visualizar as mãos e pernas de outra pessoa. Ou seja, o corpo também é, para nós, representação, do mesmo modo que tudo o mais de que temos conhecimento.
                Porém não é apenas representação. Nossa relação com o corpo nos permite uma intuição imediata, diferente das que temos em relação aos outros objetos. É uma ligação íntima, como se possuíssemos uma consciência firme de nosso próprio ser, como se pudéssemos conhecer a coisa-em-si de nós mesmos. E, segundo Schopenhauer, é essa intuição que nos permite entender que o corpo é, na verdade, a objetidade da Vontade, a manifestação enquanto fenômeno de nossa essência última. Para nós é fácil perceber, enquanto sujeitos, que somos tanto representação como Vontade.
                O fascinante da filosofia de Schopenhauer é que ele não se contenta com essa percepção. Tendo descoberto que a Vontade é o fundamento metafísico de nosso ser individual, o filósofo a projeta no universo inteiro – esse que se apresenta aos nosso olhos como imagem, aos nosso ouvidos como som, mas jamais como conhecimento imediato. Ou seja, a conclusão de Schopenhauer é a de que a Vontade não é apenas o fundamento dos homens, o sequer dos animais e das plantas, mas de tudo o que existe: dos astros que se atraem pela lei da gravidade, da bússola que aponta para o norte por efeito do magnetismo, dos corpos que passam a se movimentar após um impacto! Resumindo: a Vontade é a coisa-em-si kantiana!
                Eu confesso que, pessoalmente, não estou convencido da legitimidade filosófica desse salto. Não seria isso a projeção de nossa subjetividade no universo? Não seria uma extrapolação da consciência humana? Ou seja, não estaria Schopenhauer supondo, sem possuir fundamento para tanto, que sujeito e objeto possuem, como fundamentação metafísica, a mesma propriedade?
                Mas, se não tenho como provar que Schopenhauer estava certo, também não tenho como provar que ele estava errado. E não é fascinante imaginar – nem que apenas como um exercício intelectual – que ele possa estar certo?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Lançamento do livro "Terra de Demônios", de Marcio Catunda


A quem tiver interesse e puder participar. O escritor e diplomata Márcio Catunda lançará amanhã seu livro "Terra de Demônios":


TERRA DE DEMÔNIOS
de
Márcio Catunda
Lançamento: Quarta-feira, 5/02/2014
a partir das 18h
Livraria MiniBookStore
(Museu da República)
Rua do Catete, 15


Mais informações sobre o autor: http://www.marciocatunda.com.br/

Ravel e Borges: mais uma aproximação estética


Se o POEMA CONJECTURAL de Jorge Luis Borges tivesse uma trilha sonora seria o Bolero de Ravel.



Não me interessam as motivações biográficas que levaram Maurice Ravel a compor essa música. Aprecio a melodia, o que ela é, sua forma exterior. A objetividade do resultado. A obra de arte é uma criatura independente, livre até certo ponto da vontade do criador.

E o que ouço no Bolero de Ravel? Uma melodia marcial e melancólica. Um hino de guerra mais sereno. O canto de um soldado derrotado, mas confiante. Um espírito crescente que ruma triunfalmente para... a morte!

São paradoxais meus sentimentos. Marcial e melancólico. Guerreiro e sereno. Derrotado e confiante. O triunfo e a morte. Mas a harmonia musical é capaz de expressar contradições sem exacerbá-las, antes integrando-as. A harmonia é, por definição, a conciliação dos opostos. A simples justaposição de elementos iguais não é harmonia, mas simetria.

A harmonia é a linguagem da música por excelência. E talvez seja também a linguagem da Sabedoria. Os homens mais sábios que conheci na vida foram capazes de conviver pacificamente com os paradoxos da realidade: justiça e misericórdia, prudência e coragem, vida e morte.

Pare um instante. Ouça um pouco mais do Bolero.

Se eu fosse cineasta, faria um curta-metragem com a cena do poema que você vai ler agora e a trilha sonora do Ravel. É estupendo. Borges conjectura sobre os últimos instantes da vida de um combatente. Imagino o homem andando em meio às ruas perigosas. É uma guerra civil. Ouvem-se os cascos dos cavalos de seus algozes. Seus minutos estão contados porque ele, o doutor Francisco Laprida, pertence ao partido vencido. Ele é um político instruído, advogado, que dedicou seus ideais à causa da nação. Mas que adianta? Seus inimigos o vêem como um traidor da pátria. Que cena mais típica da América Latina: “pronunciamientos”, golpes de estado sucessivos. Sangue derramado por divergências políticas ontem, hoje e sempre. Passam-se séculos, entra governo, sai governo, faz-se uma nova constituição e as circunstâncias não mudam. É como um suceder de estações: o eterno retorno do inverno. Ontem era ditadura de esquerda, hoje de direita. E a melodia de Ravel recomeça do mesmo ponto no compasso seguinte. Esse podia ser o hino de milhares de Franciscos Lapridas que rumam triunfais para morrer. O que terá se passado na cabeça desse homem?


POEMA CONJECTURAL

O doutor Francisco Laprida, assassinado no dia
22 de Setembro de 1829 pelos «montoneros» de
Aldao, pensa antes de morrer:


Zumbem as balas pela tarde última
Há vento e há cinzas sobre o vento,
dispersam-se o dia e a batalha
disforme, e a vitória é dos outros.
Triunfam os bárbaros, os gaúchos.
Eu, que estudei as leis e mais os cânones,
eu, Francisco Narciso de Laprida,
cuja voz declarou a independência
destas cruéis províncias, derrotado,
de sangue e de suor manchado o rosto,
sem esperança nem medo e perdido,
vou para Sul por arrabaldes últimos.
Como aquele capitão do Purgatório que,
debandando a pé e ensanguentado
o plaino, a morte fez cegar, tombar
lá onde um rio obscuro perde o nome,
assim hei-de eu cair. Hoje é o termo.
A noite lateral de infindos pântanos
espia-me e demora-me. Oiço os cascos
da minha quente morte que me busca
com ginetes, com belfos e com lanças.
Eu que ansiei ser outro, ser um homem
de sentenças, de livros, de ditames,
sob o céu jazerei entre lameiros;
mas endeusa-me o peito inexplicável
um júbilo secreto. Entretanto enfim
o meu destino sul-americano.
A esta fatal tarde me levava
o labirinto múltiplo de passos
que meus dias teceram desde um dia
da meninice. Descobri por fim
a recôndita chave dos meus anos,
a sorte de Francisco de Laprida,
a letra que faltava, essa perfeita
forma que soube Deus desde o princípio.
No espelho desta noite recupero
o meu insuspeitado rosto eterno.
Vai-se fechar o círculo e aguardo.
Pisam meus pés a sombra dessas lanças
que me buscam. A mofa já da morte,
os ginetes, as crinas, os cavalos
adejam sobre mim...Já o primeiro
golpe me fende o peito, o duro ferro,
a faca interior sobre a garganta.

Jorge Luis Borges in Poemas Ecolhidos. Edição bilingue. Trad. e
selecção de Ruy Belo. Dom Quixote, 2003., pp.17/19