quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sobre as Coisas Todas e Tal



No trabalho, confesso que, enquanto meus colegas descabelam-se para salvar o mundo, sou, por razões que me são alheias, assaltado por todo tipo de pensamento despropositado.  O de hoje foi: será que seria possível escrever um texto sobre absolutamente nada?
            Refiro-me aqui, obviamente, não ao conceito hipotético de um nada filosófico, que poderia ser usado para provar, de forma apodítica, a existência de algo e, conseqüentemente, de um mundo. Também não estou falando do conceito budista de nada (ou vazio) – a verdadeira essência de uma realidade que, embora ilusória, se nos apresenta com todos os atributos que um homem prático costuma associar à noção de concretude. Refiro-me a um texto sobre nada, ou seja, um ensaio, relato ou tese que – embora aparentemente cumprisse todos os requisitos formais indispensáveis à inteligibilidade – fosse completamente destituído de mensagem.
            Não esqueçamos, afinal, que um texto é um ato de comunicação e que, como tal, pressupõe não só a existência de um emissor, de um código, de um meio de transmissão e de um receptor, mas também de uma mensagem a ser enviada. Será concebível um texto que tivesse todos esses atributos, e que se conformasse às regras da coesão e da coerência, mas que ainda assim não possuísse nenhuma mensagem?
            Respondei-me, ó deuses da retórica e da linguagem, se tal façanha é possível aos mortais! Dizei-me se criatura humana – não herói nem semideus, mas homem como os que labutam de sol a sol, que nascem, crescem, aprendem um idioma e desenvolvem suas aptidões, procurando a todo custo libertar-se das amarras cognitivas que se interpõem entre eles e o verdadeiro saber – poderia alguma vez, num ato de deliberada rebeldia às convenções da linguagem, escrever sobre coisa nenhuma!
            Se tal forma de texto fosse possível, quais seriam as suas características? Será que ficaria evidente, desde a primeira frase, sua completa falta do que dizer? Ou será que o autor conseguiria valer-se de algum prodigioso recurso argumentativo para prender a atenção de seus leitores – e, quem sabe, ao menos por alguns parágrafos, evitar que eles percebessem a total vacuidade que se oculta em cada um de suas afirmações? E, tendo o leitor percebido o engano, será que ele se aborreceria, ao sentir-se enganado pelo que poderia parecer uma forma primitiva de fraude? Ou tomaria ele o empreendimento todo como uma brincadeira, comprazendo-se, assim, com a jovialidade que levou alguém a redigir peça tão disparatada? É imperioso reconhecer que, mesmo que soubéssemos a resposta para tão graves perguntas, ainda assim jamais poderíamos afirmar categoricamente se os leitores, tendo se dado conta do engano, deixariam o texto de lado ou continuariam lendo até o final, quem sabe na vã esperança de identificar um deslize, uma informação não-intencional que o autor haveria deixado escapar – contradizendo, desse modo, o supremo objetivo que se havia proposto ao escrever sua obra.
            As questões que menciono no parágrafo anterior, embora sejam sem sombra de dúvida curiosas, escapam ao problema fundamental do debate, quero dizer, à determinação da possibilidade ontológica (do grego ν, ντος ente, particípio presente do verbo  εμί, ser; e -λογία, ciência, estudo, teoria) do texto a que venho me referindo – através de diferentes sinônimos e perífrases – desde o primeiro parágrafo. Para enfrentar a questão sem quaisquer circunlóquios – desses que soem ser tão comuns e trabalhos acadêmicos de cientistas sociais e memorandos escritos por burocratas – será preciso imaginar-se na pele de um grande lingüista, ou seja, um grande intelectual, desses capazes de entender distinções sutis e absolutamente imprescindíveis ao pleno entendimento do fenômeno lingüístico humano (distinções como as de significante e significado, língua e fala, sincronia e diacronia, sintagma e paradigma – para nos restringir aos exemplos mais proeminentes). Não, claro, que eu esteja imaginando que eu fosse efetivamente assumir a identidade dos referidos lingüistas – pois, em que pese o sucesso editorial da profusão de livros psicografados que invadem as nossas livrarias, desde pelo menos a primeira década do século XX os métodos da metempsicose caíram em irremediável descrédito. Refiro-me, na verdade, a um exercício intelectual de imaginar o que esses grandes acadêmicos pensariam caso tivessem, com a sua inteligência e com os conhecimentos que adquiriram ao longo de seus estudos, refletido sobre a questão. Sei perfeitamente do abismo que separa as mentes humanas – e não é, paradoxalmente, a linguagem o único instrumento que possuímos com a aptidão de encurtar esse abismo? – mas, para os efeitos que nos interessam, não creio ser despropositado, feitas as ressalvas epistemológicas necessárias, eu poder imaginar-me na pele dos ditos pensadores.      
            Por mais engenhoso que esse expediente possa parecer, a ele se interpõe um obstáculo intransponível, que é o fato de eu mesmo não possuir nem os conhecimentos nem a inteligência dos lingüistas que mencionei. Como proceder, então?
            Homem profundamente avesso aos arrodeios verbais, não aborrecerei o leitor desenvolvendo cada um dos doze procedimentos heurísticos que desenvolvi hoje, ruminando o almoço e a questão.  Basta dizer que, excetuando-se o método nomológico-dedutivo – que fui obrigado a abandonar em razão de certas nuances da legislação austríaca sobre propriedade intelectual – a única abordagem que se mostrou minimamente apta a comprovar a possibilidade ontológica de um texto sem conteúdo foi a empírica. Ou seja, se alguém se mostrasse capaz de escrever um texto dessa natureza, sua existência seria a sua própria prova – o que ilustraria magnificamente a clássica tautologia “existo, logo existo”.
            Resta saber que tipo de farsante sem consciência, que laia de desocupado, que tipo de mente pervertida e inconseqüente teria a empáfia, a audácia, a ousadia (porém não a pachorra, já que tem este vocábulo sentido diverso do que pretendo expressar) de dedicar o tempo que fosse de sua vida – ou, pior ainda, o tempo que poderia estar sendo dedicado, ao estudo, ao trabalho, ou à salvação do mundo (como estão dedicando, nesse instante, meus nobres colegas) – a uma atividade que não é nem edificante nem esteticamente proveitosa, e que não acrescentaria ao já confuso público instruído desse alvorecer do século XXI nada além da consciência da frivolidade da vida e da intrínseca maldade da natureza humana.
            Diria que mil vezes maldito deveria ser tal escritor, se não tivesse acabado de chegar à minha mesa um documento que me obrigará a trabalhar e a deixar sem resposta a grave questão que apresentei.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um Cristianismo Estrito



Numa tarde de sábado, quando caminhava pelas bandas da 302 Norte na vã esperança de, ao queimar calorias indesejadas, aumentar minhas chances de sexo casual, vi um mendigo esfarrapado aos berros, proferindo um sermão a dois ou três desocupados que se dignaram a ouvi-lo naquele calor. Julguei que fosse um daqueles loucos barulhentos, que brigam sozinhos no meio da rua e soltam palavrões contra entidades malignas invisíveis.
 Aproximei-me curioso e meio entristecido, supondo que a figura sofresse de algum delírio, porém, ao me juntar, por curiosidade, ao seu público, surpreendi-me com a concatenação de seus vitupérios. Mesmo sendo um orador furioso, ele profetizava com tensão bíblica.
            Se eu fosse tentar, de cabeça, reproduzir o que aquele desgrenhado profeta urbano bradou-nos, talvez saísse algo assim:

            “Engana-se quem acha que merecerá o Reino dos Céus por amar o inimigo. Pois disso é capaz qualquer masoquista, e não é o Senhor das Trevas a prova da elegância que há no mal?
            Sim, amar o criminoso é fácil, e o ódio que lhe lançamos publicamente é, na verdade, a prova do amor inconsciente que lhe reservamos. Pois vemos nos injustos nossa própria intimidade sombria, nossos desejos e pecados reprimidos transformados em realização por uma falta de restrições que invejamos.
            Ai de ti, Brasília, pois eis que vos fala um conhecedor dos homens. A porta estreita, a verdadeira prova que nos fará dignos da redenção eterna é o perdão ao imbecil, pois nada além do Amor Universal e da visão beatífica da Obra Divina poderia justificar tolerância a criaturas que trazem ao próximo tanto dano quanto o injusto, mas sem pelo menos o atenuante do charme.
Abençoados os que amam o adolescente narcisista e frívolo, que considera sua indiferença e irresponsabilidade a prova de uma compreensão superior sobre os mistérios da vida.
            Abençoados os que perdoam as madames endinheiradas e militantes, que põem à prova a paciência dos comensais que se arriscam a almoçar com elas dissertando longamente sobre sua vida sexual, na desesperada tentativa de atestar a liberdade e a felicidade que nunca possuirão.
            Abençoados os que precisam conviver com profissionais oportunistas, que confundem a estreiteza de sua visão com pragmatismo, e que condenam, com a crueldade dos cegos, todos os que não escolheram para si as mesmas prisões mentais.
            Abençoados os que são obrigados a seguir as decisões de um superior hierárquico sem mérito, que condescende em seus vícios infantis pela falta de quem esteja em posição de lhe mostrar a objetividade que há no bom senso e na prudência, e que confundem o próprio poder com a racionalidade de suas opiniões.  
            Abençoado os que tem de provar – para escapar de uma solidão irremediável – a própria masculinidade através da estupidez induzida, para serem aceitos por manadas de eternas crianças que, pela transgressão, pelo insulto e pela indulgência, provam ao mundo o contrário do que queriam provar, ou seja, que são miseráveis dando vazão ao desamparo através da violência.
            Abençoados os que deram o braço a torcer quando tinham razão, simplesmente por não poderem gritar tão alto quanto aqueles com quem colaboravam, e que ainda assim tiveram a decência de não exercer direito a que faziam jus – o de mandar todos tomarem no cu.
            Abençoados sejam os que foram perseguidos por pessoas menos inteligentes por não terem querido sacrificar a única vida que tinham no altar do Baal do Banal.
            Abençoados os sóbrios, os que pensam duas vezes antes de falar uma merda, os que não aboliram a lógica pelo pregão das ideologias furadas, os que se dão ao trabalho de estudar os antecedentes, os que não crucificam os bodes expiatórios com gosto de sangue na boca,  os que, por mansidão, calaram.
Acima de tudo, abençoados os que tem bom gosto musical, mas que deixaram os amigos colocar o CD de forró eletrônico.
Pois em verdade vos digo, apenas de quem for capaz de perdoar um imbecil será o Reino dos Céus!”.

Tendo escutado o sermão, continuei minha caminhada cabisbaixo, assombrado por visões da danação eterna.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Oração do Burocrata

Senhor,

Que nessa semana o trabalho seja manso
Mas não tanto a ponto de eu me entediar vendo o facebook
Que meu chefe se convença de minha dedicação
Mas não me passe nenhum subsídio para fazer
Que eu encontre poucos colegas idiotas pelo corredor
Para não ter que forçar bons dias
Que o nó da gravata não me aperte a garganta
E que o cinto tenha furos o bastante para minha barriga que cresce
Que meu cabelo não caia
E que eu não me vanglorie de meu contracheque
Protegei-me das reuniões infindáveis
Zelai pelos meus memorandos
Aprovai meu ppv para o céu
Livrai-me de todos os despachos,
Amém



Despacho à Oração


De acordo. Favor providenciar o envio para o Sétimo Céu.


S. P.
Chefe da Portaria e Setor de Imigração

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Interpretações Sínicas

      Somos o povo do logos, ou seja, da palavra racionalmente articulada. Discordamos de tudo e vivemos angustiados porque é falando e argumentando que encontramos um sentindo para nosso pertencimento a esse universo esquisito. Ou seja, o que nos une é o verbo, o que sai da nossa boca.
      A experiência chinesa neste planeta é condicionada pela direção inversa do mesmo órgão: afirmo, sem temer simplificações, que as mais diferentes dimensões da cultura chinesa são determinadas pelo que entra boca adentro.  O conformismo com a autoridade estabelecida, a sublimação da agressividade através da ritualização das práticas sociais, o papel totalitário da família na socialização do indivíduo, o materialismo, a obsessão com a harmonia e o pavor patológico da desagregação social, tudo isso se resume num mesmo motivo cultural: a necessidade chinesa de bem encher a barriga.Como poderia ser diferente, num país onde as pessoas só param de trabalhar quando estão comendo? (como se sabe, o chinês não dorme, a não ser quando está no metrô). 
           Não se deixe o observador casual confundir-se com o aspecto esguio do chinês médio: diferenças fisiológicas ainda não explicadas fazem com que o organismo dos povos da Ásia do Leste metabolize de modo diferente a ingestão exagerada de calorias (enquanto os ocidentais engordam, o asiático processa o excedente de calorias tornando-se feio ou rabugento). Mas os próprios ideogramas ajudam-nos a entender a verdade.
      Como se sabe, “China”, em chinês, escreve-se 中国 (Zhongguo), ou seja, país do meio. A interpretação mais corrente entende que com isso os chineses estão se colocando no centro do mundo. É preciso lembrar, porém, que o ideograma (zhong), que significa “meio”, é composto pelo radical (kou) atravessado por uma linha vertical (gun). Interpreta-se essa composição como uma referência geométrica à ideia de centralidade expressa pelo signo. Só que (kou), em chinês, significa boca, ou seja, o traço vertical que o corta pode ser tanto interpretado tanto como uma noção espacial como a direção daquilo que desce goela abaixo. No meu entendimento, 中国deveria ser traduzido como “País da Comilança”. No mínimo, "País do Meio" precisaria ser qualificado como "País do Meio do Bucho". Reconhecendo quão pouco defensável esta interpretação pode parecer num terreno estritamente linguístico, não se consegue pensar de outro modo quando se vê, num restaurante chinês, a alegria que esse povo sente ao se empanturrar de frituras, cogumelos, pimentas e pepinos do mar, em refeições geralmente acompanhadas por licores de alta octanagem. Tal deleite só encontra paralelo nos êxtases que o ocidental libertino desfruta através do erotismo.  
      E ainda digo mais: as implicações da necessidade chinesa de bem encher a pança vão muito além dos desdobramentos óbvios dessa pulsão. Alimentar a população é um problema central para todas as sociedades históricas. Porém, se muitos povos vêem a segurança alimentar como um pré-requisito para os outros objetivos – como a arte, a religião, o comércio, a guerra – a China inverte a lógica e alça o comer à qualidade de supremo objetivo existencial tanto do indivíduo quanto da coletividade. As demais manifestações da cultura servem ou para assegurar ou para sofisticar a deglutição. A metafísica chinesa sempre pareceu pobre aos filósofos ocidentais exatamente porque as premissas são diferentes: o estar-aí está aí para ser cozinhado.
      O conceito de (dao), por exemplo – central não apenas ao taoísmo, mas às mais diversas correntes da filosofia chinesa – pode significar o conhecimento do homem sobre o mundo (a episteme dos gregos), a idéia de caminho ou fluxo natural da vida ou mesmo – surpresa! – um dos vários cursos de uma refeição[1].  Não é acaso que, segundo as técnicas de longevidade ensinadas pelos mestres taoistas de taichichuan, o ponto energético mais importante do corpo é o baixo ventre (i.e., o bucho).
      Num nível mais mundano, a língua está cheia de outros exemplos que atestam a centralidade da digestão na Weltanschauung desse país. Quando querem perguntar quantas pessoas há numa família, os chineses dizem: “sua casa tem quantas bocas? (你的家有几口人?)”. A identidade pessoal é definida pela aptidão de comer, ou seja, é enquanto criatura capaz de digerir que o homem pertence à unidade doméstica. Não é de se surpreender, portanto, que o radical do ideograma chinês que significa “nome” () também seja uma boquinha ( + ).
      A importância atribuída à família como espaço fundamental de socialização deriva não só do fato de ser nela que o indivíduo terá, ao longo de sua vida, o maior número de refeições[2], mas também porque apenas à família reconhece-se a legitimidade de reproduzir as bocas, ou seja, de dar continuidade à chinesidade. Também a autoridade paterna incontestável provém do fato de que, na China antiga, era o homem que com seu trabalho assegurava o suprimento diário de tofu, vegetais fritos, arroz, temperos, óleo, mingau e – acima de tudo – de carne de porco. O Clássico da Piedade Filial é categórico a esse respeito: a obediência dos filhos deve ser cega aos defeitos morais do progenitor – único legítimo provedor de guloseimas na China antiga. O culto aos ancestrais não passa da projeção no passado da reverência chinesa pela capacidade dos patriarcas de alimentar.
      É fácil transitar para o nível político porque na China, família e Estado dividem atribuições na persecução do mesmo objetivo. O conformismo chinês deriva da percepção – exaustivamente desenvolvida pelo pensamento político do país – de que a ordem e a harmonia são requisitos indispensáveis para que uma sociedade possa produzir, distribuir, temperar, fritar e mastigar os ingredientes necessários à vida. Não é por acaso que “população” em chinês diz-se 人口, ou seja, pessoa-boca, numa tradução literal. O problema político fundamental é como encher essas bocas.
      A autoridade suprema do governo é a garantia da estabilidade social necessária a um padrão alimentar considerado aceitável – ou seja, uma ingestão calórica diária aproximadamente três vezes maior do que a de um ser humano normal. Desde cedo, o indivíduo chinês é submetido a um processo brutal de socialização voltado à repressão da agressividade e à ritualização do comportamento. Esse aprendizado envolve tanto a supressão das emoções individuais como o desenvolvimento de uma passividade muitas vezes incompreensível a observadores estrangeiros.  Para os chineses, porém, o cálculo é claro: abrir mão da liberdade pessoal e do direito de exprimir-se é mais do que compensado pela garantia de que o indivíduo terá acesso a todo o macarrão na sopa e todo o pato laqueado de que precisa para sentir-se existencialmente realizado. É algo que só poderia ser entendido por um povo que cumprimenta os amigos perguntando: “Você já comeu?” (吃了吗?)
      A repressão da agressividade também é politicamente relevante porque o caos social é a suprema calamidade que pode se abater sobre um povo. Os pratos da culinária chinesa tradicional são de difícil preparo. Eles exigem tanto a maestria técnica do cozinheiro – possível apenas através de um longo aprendizado – como uma variedade de ingredientes sofisticados. Como a desagregação social é acompanhada pela desorganização da cadeia produtiva de dumplings, o pavor da instabilidade justifica a repressão inclemente a qualquer movimento que possa ser interpretado como uma ameaça coletiva. Fora da normalidade política, o chinês é obrigado a privar-se das delícias a que está acostumado, e exatamente por isso nenhuma das vergonhas históricas é tão dolorosamente sentida quanto as lembranças – ainda frescas na memória desse povo comilão – das grandes fomes que os chineses tiveram que enfrentar por não terem conseguido responder prontamente ao desafio da modernização. O desenvolvimento econômico é o instrumento através do qual a nação pode se livrar de tão horrível perspectiva, e por isso os chineses contemporâneos estão tão empenhados em seu projeto nacional de crescimento.
      Na China, a obsessão com a exuberância material explica-se mais, portanto, pela identificação do dinheiro como instrumento de troca da comida do que por um materialismo não mediado por princípios morais. Não é demais lembrar que a palavra (fei) pode significar tanto “gordura” quanto “riqueza”. A palavra para “magro”, a contrario sensu, é composta pelo radical de “doença” e de “homem velho” ( + = ). 
      Se alguém achar que estou exagerando, posso apresentar em minha defesa a obra de ninguém menos que o maior escritor chinês do séxulo XX - Lu Xun. O personagem de seu clássico, "Diário de um Louco", à medida que vai se aprofundando no estudo dos clássicos confucianos, começa a desenvolver uma inquietante suspeita: a de que, nas entrelinhas dos textos, estavam escritos os caracteres 吃人 (comer gente!). Ou seja, o personagem descobriu que, na essência da cultura chinesa clássica, persistia uma pulsão glutona e canibal! (será isso uma inconsciente reversão, pela qual o glutão se imagina deglutido, ou a mera aplicação do desejo de comer Tudo sob o Céu à carne humana?)
      Simbolicamente, na China antiga se representava o universo pela figura de um quadrado contido dentro de um círculo – e era seguindo esse mesmo padrão que as antigas moedas chinesas eram cunhadas. Supõe-se que o quadrado seja a terra, contida pelo círculo que representava o céu. O conjunto céu-terra (天地) equivaleria à totalidade cósmica.
      É claro que não: o quadrado é a boquinha de um rosto chinês, e esse rosto estará feliz enquanto houver comida frita escorregando para dentro de si. Os rumores de um expansionismo chinês são exagerados: nas circunstâncias atuais, a China só invadiria um país se ela estivesse convencida de que a culinária de lá é melhor do que a sua. Conhecendo os chineses como os conheço, posso garantir que é impossível que alguém consiga tal proeza.            
Desde cedo, o indivíduo chinês é submetido a um processo brutal de socialização voltado à repressão da agressividade e à ritualização do comportamento.
                 
     


[1] Eu diria mesmo que os usos são complementares, e que a linha vertical que corta o para formar o ideograma nada mais é do que o caminho () que a comida segue do prato ao estômago.
[2] A formação ideograma de “família” – que também pode significar “casa” – é bastante curiosa. é formado por um teto abaixo do qual estão os animais domésticos (+). O símbolo evoca os bichinhos que iam para a panela antes mesmo de qualquer referência às pessoas que os comeriam.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Umbigo do Mundo



 
 Zé Roberto é a pessoa mais teimosa que eu conheço. Apesar de claramente estar sem razão, ele insistiu em se opor, pública e sistematicamente, a uma singela proposição que fiz em uma crítica a uma de suas críticas de cinema.
       Apesar de toda a estima e respeito que possuo por este ilustre paraibano, meu compromisso com a verdade me deixa perante o dever de desenvolver um pouco mais as razões filosóficas que me levaram à afirmação que tanta polêmica causou nos meios literários do agreste e do sertão – quero dizer, a de que o Crato é o centro do universo conhecido. 
            Os que me acusaram de tresvariar pecam por pouca ousadia intelectual. Pretendo provar meu ponto de forma definitiva e irrefutável. A dificuldade de aceitar que uma cidade aparentemente tão prosaica seja o centro geométrico, estético e moral do cosmos origina-se de duas motivações interligadas: 1) Uma incompreensão a respeito das razões pela qual um universo como o nosso poderia ter sido criado e 2) uma supervalorização da grandiosidade como medida de valor cosmogônico.
Sobre a motivação número 1, lembremos que, a tomar pelas evidências fornecidas pelo absurdo da condição humana, a principal razão que levou à criação de um mundo a partir do Nada reside no fato de que o nada é um saco! Imaginemos um Demiurgo sem um mundo... Como ele poderia suportar aquela infinitude abissal de inexistência?! Montes e montes de coisa nenhuma apinhadas num não-aglomerado que se espraia por todos os lados que não existem! Se um ser humano medianamente inteligente se sente entediado quando é obrigado a viver num ambiente intelectualmente pouco estimulante – tais como cursos de formação de diplomatas – imaginem como não deveria se sentir uma Inteligência onipotente perante o marasmo quitessencial do não-ser.    
E não se iludam os ateus achando que a inexistência de um Criador refute o meu ponto. Se não existe um Deus, então o próprio Nada, após infinitos não-anos de inexistência, ficou de saco tão cheio de si próprio que se tornou instável. Teria sido o primeiro e mais momentoso dos suicídios: o Nada dá um tiro na cabeça e passa a existir.
Em qualquer das hipóteses, o fato é que a razão que levou à criação do Universo foi o tédio cósmico. O objetivo do mundo não é provar uma tese moral, redimir as criaturas ou permitir o desenrolar de um drama histórico: o mundo existe para entreter. Quando se percebe isso, torna-se muito fácil entender dois fatos sobre a Vida que por tanto tempo confundiram os teólogos: por que a história está tão cheia de desgraças, e por que essas desgraças costumam ser tão interessantes. A elas assistem Entes primordiais que não tem muito mais o que fazer.
Quando associamos tais insights apodíticos à motivação número 2 que mencionamos acima (ou seja, a de que a grandiosidade não possui, desde uma perspectiva metafísica, nenhum valor intrínseco), torna-se bastante fácil compreender que os objetos que constituem o Mundo não são mais valiosos, a partir de uma perspectiva criacionista, simplesmente por possuírem dimensões físicas descomunais (como certamente possuem as galáxias, os quasares e as supernovas): na verdade, o valor desses objetos deve ser medido por sua capacidade de combater o tédio cósmico. Uma bactéria invocada, um cogumelo lisérgico, um espongóide modernista ou mesmo uma catota fractal pode cumprir bem melhor este objetivo do que, por exemplo, a extensa superfície de um enorme planeta morto.
Como negar então, Zé Roberto, que o Crato seja, incontestavelmente o centro do mundo? Pois que lugar poderia melhor afastar o aborrecimento primordial do Ser, senão o barranco que há em frente ao velho Seminário, de onde se pode ver, em madrugadas tão solitárias, um tapete de astros se estendendo até a linha em que o negror pontilhado do céu encontra o mais profundo negror pontilhado do chão?  É preciso ser louco para não se embriagar com a brisa que roça as torres das igrejas e os pés de oiti. A cidade inteira dorme, indiferente a seu significado existencial, sem se dar conta de que ela é um delírio cósmico sobre uma vida prosaica, impossível e inexplicavelmente bela, na qual velhos amigos se encontram, tomam cerveja, e conversam sobre a infância.
 Não dá mesmo para evitar uma alegria incomunicável, apenas por poder ver as ladeiras, as praças, a prefeitura, o canal, os postes alaranjados, a Igreja da Sé, o parque, o palmeiral e todas aquelas casinhas... Pois a nostalgia de que está impregnada a brisa é a própria nostalgia do Nada a partir de que o mundo foi criado – criado apenas para que aquele barranco e aquela visão pudessem existir.
Todo o resto da criação – os abismos siderais, as guerras, todas as histórias que já foram contadas – são apenas um pano de fundo: elas existem para permitir um certo tom que torna o quadro perfeito.

Da Ineficácia do Sistema Punitivo do Inferno



O Inferno está superlotado e tem graves problemas de infra-estrutura: está superaquecido, há rachaduras e infiltrações de lava por toda parte, e o cheiro de enxofre tornou-se praticamente insuportável. A quantidade de almas por fosso está muito acima da capacidade operacional. Há um grave déficit de recursos diabólicos: os demônios estão trabalhando em condições estressantes e sem material adequado. Não há tridentes o suficiente para espetar a atual demanda de condenados – que aumentou significativamente desde a revolução sexual da década de 1960. A garra-de-obra dos carcereiros e torturadores é mal preparada e mal remunerada. Como resultado, há negligência administrativa, o que tornou possível que as almas dos condenados se organizassem em facções criminosas que articulam o tráfico de bens de consumo de outras dimensões. O PCC – facção dos Padres Comedores de Criancinhas – já dominou sete dos nove Malebolges, segundo o último relatório dos Médiuns Sem Fronteiras. Isso para não falar das fugas em massas que se registraram em alguns dos fossos mais superlotados. Há quem acredite que, com o atraso do Apocalipse - que deveria ter acontecido em 2012 - o sistema carcerário do Inferno entrará em colapso.
A atual superlotação do Averno é apenas uma das muitas manifestações de um problema de base, quer dizer, a irracionalidade do Sistema Punitivo Universal (SPU). Instituído no primeiro manvantara para assegurar os princípios da justiça retributiva cósmica, o SPU teve o mérito de conciliar estímulos positivos – a possibilidade de ir para o Paraíso – com as sanções propriamente infernais. Porém, no plano dos fatos a promessa de salvação revelou-se ilusória – a não ser para um privilegiado grupo de falecidos antes da puberdade – e do um ponto de vista de uma administração cósmica minimamente racional, o sistema tem se mostrado perfeitamente ineficaz.
            Mesmo se analisarmos o problema a partir de uma ótica retributiva – tão característica do discurso de intelectuais teocêntricos e paraisocêntricos – o SPU se revela como uma estrutura burocrática incapaz de implementar seus objetivos mais elementares. O fato de se atribuir uma mesma pena – a danação eterna – para uma amplíssima gama de pecadores, distorce os incentivos dos atores e subverte a lógica da virtude. Tratar um tirano com o mesmo rigor que um intelectual marxista, por exemplo, representa uma inversão completa da idéia de meritocracia. Além disso, a inexistência de dosimetria no momento da danação faz com que pequenos pecadores – como cangaceiros e campeões de vale tudo – permitam-se pecados cada vez maiores, como os que são típicos entre os ativistas de direitos humanos. Este fato, associado à característica do SPU de condenar uma amplíssima gama de condutas corriqueiras, porém consideradas nocivas – como a mera manifestação do desejo de comer as primas ou a mulher do próximo – gera um círculo vicioso em que esculhambação leva à esculhambação.
            O problema, todavia, torna-se tão mais grave quando o analisamos a partir de uma ótica ressocializadora – mais em sintonia com o Direito Penal Cósmico da Era de Aquarius. Como se sabe, as almas condenadas não tornam a encarnar, e em princípio elas deveriam padecer de sofrimentos indescritíveis ad infinitum, até que o Tempo dobrasse sobre si mesmo e os suplícios recomeçassem. Ora, é flagrante que um tal arranjo não tem a menor preocupação de reintegrar o condenado à Ordem Universal das Coisas, sendo, na verdade, pouco mais do que a manifestação de uma Vingança Cósmica sanguinária e hostil ao livre-arbítrio. Como resultado, o Inferno tornou-se célebre por difundir maus hábitos e conhecimentos criminógenos entre sua população, o que muitas vezes gera péssimos spillovers para a Terra através de sessões espíritas e jogos de ouija.
A grande verdade é que o Inferno e o SPU caíram em descrédito no imaginário moderno. Como demonstram os sociólogos da danação, o homem peca sobretudo por imitação. Durante a Idade Média, quando os padrões morais e metafísicos eram muito mais estritos, poucos, com a notória exceção dos sacerdotes católicos, se arriscavam a pecar abertamente. Nos dias de hoje, por sua vez, o indivíduo médio observa seus vizinhos pecando e pensa consigo mesmo: “Ora, se Sicrano e Beltrano estão fazendo isso, então eu também vou fazer!”. E mesmo quando algum sacerdote lhe fala dos riscos dos tormentos infernais, ele se limita a retrucar: “Se Fulano também vai para o Inferno, nem me incomodo tanto de ir também”. Como resultado, assistimos hodiernamente a uma pandemia de pecados nefandos, tais como o adultério, a pedofilia e o relativismo metodológico nas ciências sociais.
Da forma como está atualmente organizado, o SPU é favorável apenas às elites exclusivistas do Paraíso. Ao direcionar um enorme contingente de almas para a Periferia dos Cosmos, este arranjo permite que as regiões centrais do Universo mantenham seus altos Índices de Desenvolvimento Angelical. Encasteladas em condomínios fechados e dirigindo carruagens douradas puxadas por corcéis de fogo, a elite dos serafins, querubins e mulheres frígidas gozam de uma série de privilégios que estão muito além do alcance da grande totalidade dos mortais – possuidores que são de uma passagem só de ida para o grande Fosso das Dimensões. Segundo as estatísticas do Banco Universal, o PIB do Paraíso é quase duzentas vezes maior do que o Inferno, enquanto que a população deste é cinqüenta milhões de vezes maior. Se fôssemos aplicar o índice de Gini ao Universo como um todo, seríamos obrigados a reconhecer que vivemos num Cosmos profundamente desigual.
Há grave déficit de recursos diabólicos.
Se quisermos viver numa totalidade verdadeiramente justa, a ineficácia do Sistema Punitivo do Inferno precisa ser trazida à tona nos debates civis e angelicais. Ainda que Leibniz tenha anunciado que vivemos no melhor dos mundos possíveis, é preciso reconhecer que algumas singelas reformas podem contribuir para aprimorar o desempenho das instituições cósmicas, e tornar nossa realidade mais próxima de um ideal igualitário de Universo, em que anjos, diabos e mortais desempenham seus papéis sem se ressentirem da dotação relativa de recursos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A Filosofia do Cuscuz



            Minha maior intuição existencial, eu a tive no momento mais besta imaginável. Talvez atribuamos aos grandes acontecimentos da vida um sentido tão garantido que acabamos por encará-los com solenidade quase banal. No fundo esperamos que eles aconteçam, e a enorme alegria ou tristeza com que reagimos não é uma surpresa.
            As pequenas coisinhas da vida não: sua invisibilidade costumeira pode se transformar em momentosas descobertas. Pois se existir um Deus, não seria de se esperar que ele povoasse Sua criação com catástrofes, guerras e instantes de redenção – pontos de inflexão da história coletiva e pessoal? Mas que misterioso desígnio poderia tê-lO inspirado a criar o lavar louças, o catotar o nariz, o comer cuscuz?
            Juro que vivi o enlevo que pretendo narrar: uma vez, ainda em Recife, escovava meus dentes quando, sei lá por que, passou-me pela cabeça a pergunta: como seria se o mundo não existisse? Senti como que uma cacetada filosófica, a imediata e dilacerante consciência do óbvio, ou seja, de que eu não apenas estava vivo, mas que estava, com a frivolidade dos vivos, escovando meus dentes num recanto de um apartamento recifense. E se eu não existisse? E se eu nunca tivesse nascido? E se o mundo nunca tivesse sido criado? E quando eu morrer?
            Se me permitem o trocadalho: nada pode ser tão absurdo quanto a consciência do Nada. Não entra nas nossas cabeças o não-existir, o não estar-aí-nem-aqui-nem-acolá. Tentar entender esse conceito enquanto encarava meu reflexo boquiaberto no espelho me fez ser invadido, por um lado, pela consciência de minha mortalidade e, por outro, por uma profunda desconfiança do mundo.
            Naquele dia, para mim ficou claro como nunca que existe uma ruptura nas nossas vidas pelo simples fato de estarmos vivos. Jamais seria capaz de explicar o por quê dessa minha convicção, mas suspeito que o não-existir seja o conceito óbvio, natural, e o existir a violação. A realidade é um estupro, digamos assim, para causarmos bem muito efeito.
            É um paradoxo e um mistério, portanto, que a dimensão prosaica da vida – justo essa dimensão impregnada de concretude que nos lembra, o tempo todo, que estamos vivos – também tenha a aptidão de afundar-nos numa agradável indolência que quase nos faz esquecer que a vida é um milagre – uma intervenção permanente de um poder criador que não conseguimos entender. É uma tensão difícil de resolver: sabemos que vamos morrer um dia, estamos inseguros sobre o que acontecerá com nossa consciência depois da morte, mas, ainda assim, achamos tão natural desperdiçarmos nossas vidas num repetir meio ultrajante de coisinhas bobas que não me admiro que tantas pessoas hoje acreditem que o sentido da existência sejam essas mesmas pequenas coisinhas bestas – o comer cuscuz, por exemplo. Não lhes tiro a razão, já que o banal também provém do mesmo princípio criador que impede que o universo se desintegre subitamente numa grande nuvem de poeira cósmica.
            Por outro lado, não somos todos convidados a explorar o mistério pelo simples fato de vivermos? Como ser indiferente a essa angústia? E não estará, também, essa sede de desconhecido por trás do ímpeto que nos leva a tentar expressar os conflitos de nosso mundo interior? Também não será essa consciência do absurdo que nos leva a tentar participar do poder criador divino? A alma possui nela um abismo, uma sede de absoluto que é, também, uma vontade de morte.
            Habitual comedor de cuscuz que sou, parece-me problema de difícil solução colocar-me frente ao fascínio que certas vezes sinto pela altura e pela profundidade – idéias que, mesmo causando profundo mal-estar, são fascinantes. Muitas vezes me contento em reconhecer que a tensão existe, que ela é definidora e que, por mais que tente ignorá-la apegando-me aos confortos manteiguentos do cuscuz, essa sarna espiritual não pode ser tão facilmente coçada. Afinal, não parece emocionante empreender uma grande odisséia espiritual? Novo argonauta dos abismos cerúleos e das vastidões da mente, querer navegar pelas páginas dos clássicos, prestar honras aos maiores sábios de todas as eras e todas as terras, aventurar-se pelos recantos mais sinistros do espírito e, quem sabe, alcançar alguma forma de iluminação num apoteótico orgasmo literário que faria tremer os alicerces do mundo conhecido!
            Responderia a certa amiga que muito se preocupa com meus prematuros sintomas de esquizofrenia megalomaníaca que ela não precisa ficar apreensiva, já que meu delírio foi abortado pelo inimigo que eu menos esperaria encontrar: o cotidiano.
            E que poder ele tem de nos prender ao chão! Não dá, afinal, para ganhar dinheiro com epopéias do espírito – e as epopéias do espírito que dão dinheiro nem merecem ser vividas. Digam-me, senhores, como eu poderia decifrar os grandes enigmas do Cosmos, se minha existência é um repetir de uma estafante rotina, em que passo oito horas aprisionado dentro de um escritório, chego em casa sem cabeça para ler nem revista de fofoca, e sou obrigado, para conseguir duas míseras horas de atividade intelectual diária, a acordar às 5:30 da manhã? Será que vale a pena me esforçar para mergulhar nos abismos do conhecimento, se eu poderia simplesmente acordar mais tarde e comer um cuscuzinho bem gostoso?   
E a ruptura existencial que eu imaginei vivenciar naquela noite em Recife, quando fui assaltado pela consciência de estar vivo enquanto escovava os dentes? Se levo essa intuição às suas últimas conseqüências – e aceito minha condição de criatura consciente num universo razoavelmente interessante – serei forçado a reconhecer que uma tomada de postura é inevitável. E essa escolha pressupõe a existência de uma escala de valores. Que é mais importante: os altos ideais ou o cuscuz?
O valor da primeira opção é tão óbvio que fico quase desconfiado. Não serei, porém, desonesto: acredito, sim, que uma vida dedicada ao conhecimento é uma vida melhor, especialmente quando essa busca nasce de uma tentativa de assumir corajosamente o próprio destino. Mas também não nos deslumbremos, supondo que esse conhecimento se limite aos grandiosos monumentos da cultura. Ainda que os sábios de todas as eras tenham apontado para o efeito obsedante da matéria – das delícias materiais, inclusive – acredito que o saber é uma postura diante de um mundo que é intrigante em todos os seus níveis, não só nas alturas etéreas, mas mesmo na banalidade de cada momento.
E se foi escovando os dentes que tive a única experiência filosófica realmente intensa de minha vida, como poderia me admirar se algum dia eu encontrasse a iluminação numa colherada dum cuscuzinho bem quente com ovo mexido e café?[1] 


           



[1] Só não venham esses adolescentes debilóides de hoje em dia acharem que isso é desculpa o bastante para não estudarem porra nenhuma, e achar que vão desvendar o sentido da vida escrevendo asneiras no facebook.