segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre a Totalidade Absoluta do Ser e a Porra Toda





Eduardo Siebra

                A janela do trabalho... um monte de carros passando pelo Eixo Monumental, pedestres indo para lá e para cá fazer sei lá o que, o apito do guardinha quando algum motorista faz uma cagada, as nuvens, sempre o mesmo lero lero. Que paisagem eu veria dessa mesma janela daqui a dez milhões de anos? As crateras fumegantes de um cenário pós-apocalíptico? A superfície morta de um planeta sem vida? Ou a mesma lezeira de sempre, os carrinhos passando, os passarinhos piando e essa coisa toda?
                Eita vidinha! E as coisas estupendas? E o sentido da vida tomada como um todo?  Que intrigante essa tal de Totalidade Cósmica, ou seja o Ser Tomado em sua Estupenda Integralidade. É difícil falar sobre o Absolutamente Incondicionado porque quase nunca nos damos ao trabalho de pensar nele. Mas, bem, ele está aí, até mesmo na vista da janela de meu trabalho.
                Todo esse monte de coisas, todos esses negócios, esses trecos, e estão todos aí, nos carros que passam e nas nuvens que flutuam preguiçosamente. É claro, nossos sentidos podem nos enganar, e talvez o que nós supomos ser a Totalidade Universal seja apenas uma mera ilusão. Mas disso podemos ter certeza: a impressão ou ilusão de uma Totalidade está aí – e não é já isso incrível?
                Eu, pessoalmente, acho que sim. Existir é a suprema característica do mundo, seja como realidade, seja como aparência. As aparências existem, afinal, e o Tudo – ou a imagem do Tudo – aparenta ser grande pra dedéu. Mas também muito pequeno, menor ainda que os passarinhos que vejo passar, de vez em quando. O Tudo está no grande e no pequeno, no longe e no perto.   
                Engraçado isso, porque, tomado como realidade, o Conjunto Universo do Ser parece ser estupendamente gigantesco – quase infinito, para todos os aspectos práticos que possam interessar a um homo sapiens com foco na vida. Porém, nós jamais poderíamos conhecer esse povaréu de coisas como um objeto em si mesmo: estamos presos à nossa consciência, e tudo isso que nos soa tão descomunal só é vivido, na verdade, nos estreitos limites de nosso cérebro, e pela apreciação das pequenas e inumeráveis coisinhas que, quando tomadas em conjunto, formam o universo inteiro. Bem que os místicos dizem que a realidade absoluta é cheia de contradições – o coincidentia oppositorum, a muralha do Paraíso, o véu de Maia!  
                Eis um grande mistério, que na nossa cabeça – em que mal cabem todos os nomes dos sete anões da Branca de Neve – possa caber o universo inteiro. Há até quem ache que fora dela não pode haver mundo: nossa consciência é como que um farol de realidade, e para onde ela se volta, surge, como que num passe de mágica, no exato instante que antecipa nosso olhar, uma parte do mundo, com todos seus infinitos detalhes e suas regras internas de coesão. Como se o universo existisse apenas em potencial, para se tornar realidade (fenômeno) apenas quando efetivamente é conhecido... Faz até sentido: para que um universo tão grande e escabroso se ele não pudesse ser conhecido (e admirado)?
                Só que o buraco cosmológico é ainda mais embaixo. Nossa mente também é fragmento e, como todo fragmento que mereça o mínimo de respeito, faz parte do Todo. E isso nos leva a um paradoxo do caralho – com o perdão do termo, não encontrei verbalização mais apropriada para o sentimento por que ora estou tomado, enquanto contemplo o mistério da Coisa Inteira enquanto olho pela janela – que é o fato de o mesmo Universo que conhecemos mentalmente ser o pressuposto formal, imprescindível, para que nossa mente possa ser concebida! Vejam só! Será possível, então, que nossa mente e o universo sejam a mesma coisa? Olha a coincidentia oppositorum de novo!
                Se um dia o leitor for participar de uma prova ou concurso sobre os grandes mistérios do Ser, eis um conselho infalível: basta responder que, no Absoluto, as contradições se igualam. Ou seja, responda sem medo: o sim é o não, o alto é o baixo, o antes é o depois, o sujeito é o objeto, o princípio é o fim.
                E o bem, é o mal?
                Melhor deixar essa em branco.
             Mas voltando, lá vão os pedestres passando pela calçada, com a cabeça cheia de questões práticas, sem nem por um segundo – até, pelo menos, onde sei – se preocuparem com o estarrecedor fato de que eles talvez estejam co-criando essa mesmíssima realidade que às vezes os aborrece tanto. Não sei se é consolador ou deprimente pensar isso: que se eu morresse agora, ainda haveria um monte de pedestres e de burocratas intelectualmente pretensiosos para co-criar o mundo com suas consciências, e essa mesma vidinha besta que testemunho pela janela de meu trabalho continuaria existindo pelas décadas sem fim do futuro... Será que é por isso que temos tanto essa necessidade de descobrir coisas novas – coisas nunca antes vistas – por inconscientemente suspeitarmos que o nosso ato de descoberta é, na verdade, um instante de criação? Se for assim, vai saber se todos esses abismos interestelares existiam antes dos astrônomos direcionarem seus telescópios para o céu! Talvez o conhecimento alargue o mundo a cada fronteira que ultrapassa.
Bem, não dá para ter certeza sobre essas questões, o que dá para saber é que, seja o Todo uma realidade em si mesma, seja Ele uma entidade puramente mental, o fato é que ele abarca tudo o que existe. Tudo, tudo mesmo, as galáxias, os aspargos, as coleções de tampinha de Coca-cola, as carabinas, eu, você, o Mao Zedong, Madame Blavatsky, o escambal, o escarcéu, o beleléu, a porra toda. A Totalidade Cósmica é foda, ela inclui tudo, tudo mesmo, e não apenas o que existe, mas também o que já existiu e o que existirá. Se brincar, ela inclui até mesmo o que não existe – ou, pelo menos, o que poderia, hipoteticamente existir.
                Ou seja, além do desconhecido, o Todo também abarca o irreal. Pois um sonho ou um mundo imaginário – ainda que sejam criações de nossas mentes – também são alguma coisa e, como toda coisa, fazem parte da Realidade Total. Ou seja, se alguma criatura incrivelmente inteligente e ociosa algum dia se desse ao trabalho de escrever numa enorme folha de papel pautado todas as coisas que existem, ele teria que registrar não apenas aquilo que pode ser sentido como um objeto concreto, mas também os desejos, os pecados, as loucuras e até mesmo os unicórnios, os pecados sonhados, os smurfs e a fuinha cabeluda, cor-de-rosa e comedora de gente que acabei de imaginar.
                Tentar pensar nisso até dá uma tontura. Imagine só, esse tanto de coisa... Como se o real já não bastasse! E para quê? Para que tudo isso, meu Deus do Céu? Tanta estrela, tanto menino barrigudo, tanta água-viva, tanto palito de picolé, tanta roldana, tanta fita crepe?
                Mais um dos mistérios da Totalidade Cósmica Universal: embora seja nele que tudo adquira um sentido, Ele próprio é destituído de sentido, já que nada pode possuir um sentido fora dele. E isso por uma razão muito simples: um sentido é alguma coisa e, como coisa, faz parte da Totalidade Universal. Sendo assim, o que quer que supuséssemos que fosse o sentido do Universo Tomado como Totalidade é, na verdade, parte desse Todo e, portanto, não poderia ser usado como referência externa para julgá-lo. Incrível, isso, mas é assim: o Todo em sua inteireza não pode possuir um sentido – pelo menos não para uma mente que funcione como a nossa.  Pode-se pensar que o Todo seja o seu próprio sentido, mas vamos convir que isso não diz lá muita coisa – seria mais ou menos como dizer que o Todo é o Todo... Ou quem sabe o sentido não está cifrado no Todo – como um compartimentozinho secreto da realidade? Ainda assim, seria algo que estaria "dentro" do mundo. A verdade não está lá fora... a verdade está aí, bem debaixo do seu nariz!
                Bem, talvez os significados não sejam atributos do Todo, mas apenas de suas partes. O que nos traz à curiosa percepção de que certas partes do Todo são capazes de perceber e atribuir sentidos. É exatamente isso que nós, seres humanos, fazemos. Nunca é demais lembrar que os seres humanos são, do mesmo modo que as estalactites, partes do Absolutamente Tudo, e se eles – ao contrário das estalactites, pelo menos até onde sabemos – são capazes de contemplar a Totalidade Universal, isso significa que o Universo é, em parte, capaz de contemplar a si mesmo.
                E aí sim, a coisa começa a ficar complicada. Tudo está aí, como uma imanência perfeitamente indiferente, e nós, bestas que somos, estamos aqui feito fragmentos, nos angustiando a respeito do sentido de nossas vidas, quando, na verdade, estamos nos preocupando com algo que nós também somos! Ou seja, nossa individualidade, nossa noção de eu é um erro de foco: a consciência que desenvolvemos como parte é, na verdade, a consciência do todo – que, por não poder ser sujeito enquanto todo, precisa de suas partes para se conhecer! Ou seja, toda aquela meditação transcendental em busca da consciência cósmica talvez seja um terrível erro de cálculo: nós é que somos a consciência do universo! Nós, seres vivos, é que tornamos possível ao mundo a dor, a alegria e as tenebrosas especulações intelectuais! A não ser, claro, que o universo inteiro seja um grande cérebro... Vai saber!
                Terá a Totalidade um começo no tempo? Essa é fácil, hein, o Kant já a matou no comecinho da Crítica da Razão Pura. Bem, quer nós tomemos o tempo como uma dimensão no continuum espaço-temporal, quer nós suponhamos que ele é uma mera forma de nossa percepção do mundo, não podemos negar que ele é alguma coisa e que, portanto, está contido na Totalidade Totalmente Totalizante. Ou seja, embora o tempo possa ser uma medida implacável para praticamente tudo o que existe, ele não pode ser usado como referência para o conceito de Tudo O Que Há. Será, então, que isso equivale a dizer que o Todo é eterno? De modo algum: significa apenas dizer que o conceito de tempo não faz sentido para a Totalidade Universal. E tome mais uma lapada no senso comum hominídeo!
                O mesmo se diga da ideia de espaço. O que haverá fora do Todo? A pergunta não faz sentido, já que dentro e fora são ideias que só fazem sentido para coisas que já estão no espaço, ou seja, no mundo. O Universo Tomado em Sua Totalidade não é sequer uma coisa que possa ser considerada como um objeto do conhecimento! Ele é, quando muito, um conceito da razão destrambelhada – e um conceito escandalosamente terrível!
                E irrelevante. Pois ele é um pressuposto mental que, por abarcar tudo, é incapaz de fazer qualquer diferença. Tanto faz como tanto fez: o Todo é o óbvio, apresentado de uma forma complicada. Ou seja, ele possivelmente é o mais inútil dos conceitos, pois por ser tão abrangente, ele não acrescenta nada de novo ao conhecimento. Ele só serve para nos assoberbar com o que já pressentíamos.  Para bem dizer a verdade, do ponto de vista prático, o Todo é o Nada – e pode olhar aí no gabarito da prova se duvidar.
                O que nos traz forçosamente de volta à janela de meu escritório de trabalho, aos carros, aos passarinhos, às nuvens deslizando pelo céu de Brasília, à vidinha besta que levo, enfim. E não só porque um texto pretensioso como esse precisa, para causar efeito, terminar falando das coisas singelas da vida, mas porque é essa a parte do Todo que eu, como parte, contemplo agora: eu, criatura consciente, que sou o centro do universo inteiro!  Esta é a minha situação: eis, aí, o mundo.
                Foda isso, viu?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Uma Aventura Lego



Por Eduardo Siebra



                "Uma Aventura Lego" é um fenômeno cultural interessante. Não é todo dia que se assiste a um filme infantil com uma mensagem tão carregada sobre a necessidade de o ser humano tornar-se protagonista da própria vida.   
                Qualquer consideração sobre a animação precisa partir do reconhecimento de que ela é uma superprodução hollywoodiana, custeada por investidores que estão preocupados com o retorno financeiro que o filme possa lhes trazer. Além disso, a Lego é uma empresa, e para ela o filme é uma forma de promover sua marca.
                Não são poucos os exemplos de megaproduções em que se nota que os autores tiveram muita autonomia criativa. A explicação é simples: transgressão e criatividade não são incompatíveis com rentabilidade. Um investidor inteligente pode apostar num diretor ousado se acha que sua ousadia pode se tornar um fator de sucesso numa produção. Os empresários não possuem nenhuma relação de lealdade com os valores expressos pelo capitalismo. Não há nada de surpreendente, portanto, em ver filmes tão críticos quanto os de Michael Moore sendo lançados no circuito comercial: desde que o dinheiro esteja entrando, pouco importam as críticas contra o sistema.
                Ainda assim, "Uma Aventura Lego" surpreende. O personagem principal é uma figurinha genérica e sem muito brilho, que se vê diante da possibilidade de adquirir uma personalidade quando o vilão do filme – o Sr. Negócios, arquétipo do grande empresário americano – elabora um estratagema para literalmente colar cada pessoa no lugar que ela ocupa na sociedade. Essa metáfora esquemática é desenvolvida quase que com um senso de missão pelos diretores, que não hesitam em introduzir na trama elementos de crítica social, reflexões sobre o consumo e a manipulação midiática, discussões sobre níveis de realidade, misticismo e até mesmo arquétipos e uma noção de "chamado da aventura", à moda do monomito de Joseph Campbell. Trata-se de um filme deliberadamente didático, que dialoga muito mais com o adulto que levou seu filho para o cinema do que com a criança que está interessada nas figurinhas. É um filme que leva sua mensagem muito a sério, como se ele possuísse o dever de mostrar às pessoas o que precisa ser feito para escaparmos dos riscos que estão sendo engendrados por nossa sociedade.
Talvez o sucesso da série "Matrix" explique, em parte, a receptividade a uma produção assim. As plateias já foram educadas pelos irmãos Wachowski a aceitar escabrosas meditações fenomenológicas num blockbuster de verão. Respeitando-se o pacto de que o entretenimento continua sendo o derradeiro objetivo da ida a um multiplex, não se considera mais absurdo nem mesmo o uso do cinema para transmitir mensagens políticas e anti-conformistas em obras essencialmente comerciais.  Na verdade, filmes assim talvez atendam a uma demanda psicológica inconsciente do grande público. Apesar dos consolos do consumo, o desenraizamento da vida pós-moderna, associado ao medo da aniquilação individual e coletiva, tornam palpável um sentimento de apreensão mesmo a pessoas pouco politizadas. Sentimo-nos inseguros por intuirmos males por debaixo de nossa civilidade duramente preservada.
                Apesar de sua mensagem otimista e de seu ritmo frenético, "Uma Aventura Lego" é claramente fruto dessa inquietação. É a manifestação otimista do mesmo pavor que está por trás da proliferação de tantos filmes sobre catástrofes ou sobre mortos-vivos canibais e sem cérebro. A diferença é apenas de tom: enquanto o filme de zumbi aceita o mal como inevitável, "Uma Aventura Lego" insiste na capacidade individual de criatividade e resistência. Mas ambas criações reconhecem a realidade da ameaça: nossa liberdade está cerceada, nossa condição de sujeito ameaçada por uma série de obstáculos à plena realização da personalidade humana. Nossa mente está anestesiada e distraída, e a reação a isso precisa acontecer com sentido de urgência, pois caso contrário corremos o risco de assistirmos a uma regressão das formas de sociabilidade.
Suponho que seja por isso que a animação carrega tanto na elaboração de sua metáfora: os autores acham legitimo usar todos os recursos narrativos e gráficos ao seu alcance para levar adiante o que acreditam ser um catecismo sobre a conquista da consciência.  Vamos convir, apenas uma sociedade muito assustada faz com que uma diversão tão leviana quanto uma animação para crianças se transforme numa parábola sobre a salvação da humanidade.
                Não estou, com isso, criticando o filme enquanto criação artística. Gostei da animação e pessoalmente achei curioso o debate intelectual. Até concordo com o lero-lero: acho que precisamos mexer nossos traseiros e fazer algo a respeito do mundo em que vivemos. O que é intrigante não é o conteúdo do filme, mas sim seu aparecimento enquanto produto cultural de massa. Chega a ser assustador, apesar de todas as cores e de toda a jovialidade. No fundo, é uma expressão do desespero: o desespero de saber que, apesar de necessário e verdadeiro, e credo sobre a autonomia do homem não é mais digno de atenção nos círculos "sérios", ou seja, adultos. E se a sociedade não dá mais ouvidos aos que clamam por uma retomada da história nas mãos das pessoas comuns, então realmente só resta desabafar para as crianças, na esperança de que elas sejam capazes de captar a mensagem entre um bichinho engraçado e uma explosão de bloquinhos.
A ironia é que depois de terem visto o filme, mesmo os que aceitam a propriedade das críticas irão, com toda probabilidade, voltar para a velha vidinha besta de sempre, enquanto a sociedade lentamente rola para o beleléu.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Mínimas

I




O que veio primeiro, o ovo ou o ornitorrinco?


II

Entre quatro paredes, vale tudo. Até sentir depressão.

III


Não acredito no destino, embora ele exista.

IV


O IDH do Valhala é maior que o do Paraíso católico.


V



Sonhei que eu era uma borboleta sonhando ser um sábio chinês sonhando que era eu sonhando ser uma borboleta.