segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre os Brtrzslyxzhzsgy







Eduardo Siebra, 16/10/13                    


            Na sétima dimensão, ou seja, numa projeção geométrica de realidade incompreensível para os seres humanos, vive uma forma de criatura consciente chamada brtrzslyxzhzsgy. Por mais que tentássemos, jamais conseguiríamos entender seu modo de existência: suas mentes não estão – como as nossas – amparadas na matéria, mas sim numa complexa rede relacional de incidências de vibrações no continuum espaço-temporal. Eles não possuem forma ou extensão – ao menos segundo as definições humanas destes conceitos – o que significa que aquilo que nós tentaríamos definir como seus corpos estão, na verdade, dispersos em posições aparentemente aleatórias, que perpassam diferentes e longínquas regiões do Cosmos. Na verdade, a idéia de individualidade só é possível aos brtrzslyxzhzsgy porque eles definem suas próprias consciências – ou seja, sua noção de eu – a partir de contrastes de uma série ininterrupta de avanços e recuos temporais das poucas partículas estritamente físicas que estão associadas à sua existência. Tais séries – que pareceriam aleatórias mesmo aos mais poderosos computadores já criados pelo homem – seguem, na verdade, um intricado padrão matemático, e todo brtrzslyxzhzsgy sente-se único justo por intuir que o seu padrão é singular e irreproduzível.
            Só poderíamos nos referir à comunicação brtrzslyxzhzsgyana por meio de metáforas. Como se sabe, a tremenda explosão que deu origem ao mundo provocou um eco que até hoje reverbera pelo universo. A sofisticada mente dos brtrzslyxzhzsgy está praticamente imersa nessa reverberação, e ela é capaz de reproduzi-la harmonicamente, em padrões referenciais ligeiramente distintos um dos outros, o que os torna inteligíveis às mentes dos demais brtrzslyxzhzsgy. Numa simplificação grosseira, poderíamos tentar explicar dizendo que a língua dos brtrzslyxzhzsgy é uma eterna e contínua variação sobre a canção de nascimento e morte do mundo.
            Por existirem num patamar diferente da realidade e por possuírem características físicas tão alienígenas, estamos conceitualmente e absolutamente impedidos de conhecer ou de estabelecer qualquer forma de comunicação com os brtrzslyxzhzsgy. A verdade é que a todo instante e em vários lugares manifestações espúrias da consciência brtrzslyxzhzsgyana perpassam o Planeta Terra sem que nós, humanos, pudéssemos nos dar conta da proximidade destas criaturas nem eles, brtrzslyxzhzsgy, pudessem suspeitar da existência de uma sociedade como a nossa neste nível de realidade. Os brtrzslyxzhzsgy vivem num recorte diferente do universo, e talvez uma descrição das características de um ser humano para um indivíduo brtrzslyxzhzsgy soasse tão alienígena quanto nos soa a descrição de seu modo de vida.
            Deixando de lado, porém, os aspectos mais abstrusos a respeito da existência brtrzslyxzhzsgyana, a verdade é que essas criaturas são muito mais parecidas com nós do que poderíamos imaginar. O que se entende mais facilmente quando se considera o caso de Cstrhjshkzlay.
            Todos os dias metempsicóticos, Cstrhjshkzlay vai trabalhar. Ou melhor, para ser verdadeiramente preciso, seria necessário dizer que Cstrhjshkzlay projeta sua consciência numa determinada amplitude de vibrações das supercordas, de tal modo que ele pode usar sua capacidade de concentração e de criatividade para sincronizar seus fluxos cronológicos com a prospecção de metarreverberações. Num gigantesco organismo formado por dezenas de milhares de brtrzslyxzhzsgy que vibram em conjunto, pode-se dizer que as próprias forças fundamentais que constituem o universo são coletadas, de modo a tornar possíveis os diversos objetivos funcionais da sociedade brtrzslyxzhzsgyana. 
            Parece complicado, mas é bem mais simples – e prosaico – do que soa à primeira vista. Cstrhjshkzlay, na verdade, anda até um pouco entediado com seu trabalho. Do ponto de vista de seus colegas, naturalmente, esse enfado é completamente injustificado. Poucos são os brtrzslyxzhzsgy que tem a oportunidade de ocupar uma função tão interessante quanto a de coletar as metarreverberações cosmogônicas. Os critérios seletivos são rigorosos, e apenas as mentes mais aguçadas tem uma chance de conseguir o emprego. Além disso, o ambiente de trabalho é impressionante, mesmo para os padrões multiplanares dos brtrzslyxzhzsgy: oscilações ininterruptas de estalos transcendentais são canalizadas por vigorosas redes plurimentais intencionalmente elaboradas para literalmente sugar o poder criativo cósmico. Lapsos momentâneos de ordem e caos absoluto alternam-se seguindo padrões que, segundo alguns teóricos mais imaginativos, talvez reflitam mensagens gravadas na própria conformação da realidade. Como resultado, forma-se uma verdadeira nebulosa de transconsciência, de modo que os brtrzslyxzhzsgy que lá trabalham têm a oportunidade de se comunicar com entidades inteligentes ou semi-inteligentes de diferentes ontologias identificadas.
Cstrhjshkzlay, para bem dizer a verdade, acha aquilo tudo um saco. Naquele dia metempsicótico específico, ele estava especialmente mal-humorado.
            – Olá, Cstrhjshkzlay, como vai o senhor?
             – Vou bem, Frgbbnhjktre.
            – As antinomias de ontem já estão em sua tabula rasa.
            – Ah, maravilha. Pode deixar que hoje eu as decifro.
            Porcaria! Isso significava que Cstrhjshkzlay teria um longuíssimo dia fazendo um trabalho árido, obrigando-o a ficar num estado de concentração forçada que era de encher o saco de qualquer um.
            Cstrhjshkzlay acoplou sua miríade geométrica ao feixe de pólipos da crisálida e despencou sobre o caleidoscópio.  
            – Ora merda! – bufou, e contemplou, mal humorado, o espetacular fluxo de metarreverberações passando diante do ultrahiperdodecaedro onde ele passava maior parte de sua jornada de trabalho. Cstrhjshkzlay suspirou e, antes de se debruçar sobre as atinomias, convergiu suas filigranas sensíveis para um livro – um padrão sintético cognitivo materializado aprioristicamente, na verdade – que ele havia deixado jogado por ali.
            Criaturas capazes de comunicação e conhecedoras da noção de individualidade[1], os brtrzslyxzhzsgy desenvolveram uma rica vivência intelectual. Naquilo que aproximativamente poderíamos chamar de passado[2], os brtrzslyxzhzsgy dedicaram-se à contemplação do universo e à reflexão sobre os mistérios da vida. Muitos livros foram escritos sobre as grandes e profundas questões, e houve uma era em que se considerava que, para ter uma vida plena, um brtrzslyxzhzsgy deveria buscar o auto-conhecimento através da reflexão.
            Auto-reflexão uma ova! – teria dito Cstrhjshkzlay, em nosso idioma. Fazia mais de 200 dias metempsicóticos que ele estava tentando apreender o significado transcendental daquele livro – um intrincado tratado sobre a possibilidade epistemológica de um conhecimento inato, ou seja, o equivalente brtrzslyxzhzsgyano da Crítica da Razão Pura. Só que, por causa do trabalho, ele não tinha nem tempo nem sossego para acompanhar os intrincados raciocínios.
            Na rabugenta opinião de Cstrhjshkzlay, os brtrzslyxzhzsgy todos estavam praticamente obcecados com a idéia da prospecção de metarreverberações. Claro, tinha todo aquele lero-lero de que aquilo tornava a vida mais conveniente, que os brtrzslyxzhzsgy de hoje viviam muito mais confortavelmente do que antes, com acesso a um quantum muito maior de metarreverberações. Cstrhjshkzlay não se importava que as outras pessoas acreditassem naquele monte de abobrinhas, mas justo ele ter que viver a vida inteira assim, coletando essas malditas metarreverberações! Ele, que tanto havia sonhado em se tornar um estudioso de psicocosmologia quando era jovem...  Tudo bem que ele havia escolhido o emprego, e que ele era metarreverberativamente bem remunerado pelo seu trabalho. Mas ao custo de que?  Do lócus biônico da liberdade e da reflexão, ou seja, tudo o que Cstrhjshkzlay mais desejava para si.
             Ele já havia tentado explicar suas opiniões a alguns de seus amigos mais íntimos. Alguns até concordavam, mas a verdade é que ninguém gosta de gente resmungona, seja nesta, seja na sétima dimensão. Todos achavam que Cstrhjshkzlay reclamava de fractal cheio: seu emprego era bom, e se ele quisesse tanto assim continuar seus malditos estudos de psicocosmologia, que tivesse ao menos a dignidade de tomar uma decisão e fosse atrás do seu sonho. Ficar choramingando era que não ia resolver o problema.
            “Falar é fácil.” – pensava Cstrhjshkzlay, quando lhe sugeriam largar o emprego. Ele sabia que se ele deixasse a firma para estudar psicocosmologia – das disciplinas mais interessantes e, portanto, mais inúteis jamais concebidas pelos brtrzslyxzhzsgy – com toda a probabilidade mais cedo ou mais tarde ele teria o mesmo destino de tantos brtrzslyxzhzsgy desocupados, ou seja, ele iria se amalgamar à transnebulosa de inação plena. A coisa não tava fácil para ninguém: a sociedade era de tal modo organizada que, sem uma fonte estável de metarreverberações, um brtrzslyxzhzsgy era a obrigado a ganhar a vida vendendo partículas quânticas em ângulos agudos.
            – Bem, vamos lá... – suspirou novamente Cstrhjshkzlay, resignando-se ao desinteressante dia que o acaso e sua falta de colhões lhe havia reservado. Quando se preparava para iniciar a criptosintaxe, ele ouviu alguém lhe dizer:
            – Cstrhjshkzlay, meu velho, tudo bem?
            Era Ztkzwgbtwow.
            – Ahn? Ah, oi, Ztkzwgbtwow...
            – Você vai para o sbrbles?.
            “Que o X’Aarn os devore!”, pensou Cstrhjshkzlay.
            – Ainda não sei, vai depender da Mngqstrbvca.
            – Ah, pode deixar que eu falo com ela. Não aceito desculpas, quero os dois lá, hein?
            – Não se preocupe, vou fazer o possível para ir.
            – Pra que trabalhar tanto se não se pode sbrblar com os amigos, não é?
            – É verdade.
            Assombrados por visões de desagregação cósmica, Cstrhjshkzlay pensou que talvez ele estivesse precisando de férias. Férias no Grande Vortex Primordial – não era pra lá que Mngqstrbvca queria ir? Talvez fosse interessante mesmo, todo mundo falava que era realmente uma viagem inesquecível. Ou talvez eles pudessem contemplar a orla do X’Aarn, o que definitivamente seria uma experiência muito mais emocionante – perigosa, inclusive.
            Mas será? Será que um intervalo de sossego resolvia o problema? Cstrhjshkzlay estava desestimulado com sua rotina, e interrompê-la poderia ser, se muito, uma fuga temporária.
            Cstrhjshkzlay vasculhou seu entorno ontológico com suas filigranas sensíveis. A velha bagunça de sempre – um coágulo de pontos fixos no infinito que Mngqstrbvca lhe havia dado de presente, o feixe de ângulos hiperdimensionais que ele havia prometido a si mesmo organizar meses metempsicóticos atrás, e sua coleção de livros, logo atrás do imperativo moral que ele era administrativamente obrigado a pendurar na parede teleológica.
            Cstrhjshkzlay             tinha praticamente uma coleção completa de filosofia brtrzslyxzhzsgyana no seu ultrahiperdodecaedro. Eram algumas dos principais testemunhos intelectuais de sua espécie – verdadeiros monumentos do antigo amor dos brtrzslyxzhzsgy ao conhecimento. Será que algum dia ele teria tempo de lê-los? Como, se ele passava a vida inteira coletando metareverberações?
            Metareverberações... Sim, dá para fazer muita coisa com metareerberações. Mas a verdade é que a maior parte dos brtrzslyxzhzsgy do passado tinha vivido suas vidas inteiras sem jamais precisar de uma única maldita metareverberação! Isso, claro, mudou radicalmente depois da ivenção do motor à metareverberação, durante a revolução trigonométrica, mas o que Cstrhjshkzlay tinha a ver com isso? Ele não havia escolhido as prioridades idiotas de seu mundo: por que, então, deveria se conformar a elas?
            Largar tudo... Será? Será que ele conseguiria, depois de ter se acostumado ao estilo de vida que tinha? E o que Mngqstrbvca iria dizer? E se depois ele se arrependesse?
            Ah, reclamar não resolvia o seu problema! Por sinal, ele não podia terminar aquele dia sem decifrar a porcaria das antinomias em sua tábula rasa. Era preciso deixar de pensar em suas angústias e se concentrar no trabalho. Ele contraiu suas filigranas, reverteu sua entropia marginal e respirou fundo.
            Vamos lá. Vejamos. A primeira antinomia dizia mais ou menos assim: “O que é, não é.”
             – O que é, não é. – repetiu Cstrhjshkzlay, em voz alta, ou o que quer que corresponda a isso no universo brtrzslyxzhzsgyano. Aquela proposição, por alguma razão que não conseguia entender, o deixou ainda mais triste.
            “Se o que é, não é” – pensou Cstrhjshkzlay, iniciando sua rigorosa análise criptosintática – “então eu não apenas não sou um brtrzslyxzhzsgy, como eu tenho um trabalho interessante, que me satisfaz profundamente. Afinal, poder fazer parte da prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna, sob os mais diferentes aspectos. Eu estou dando uma contribuição importante e insubstituível à sociedade, e isso por si só é o bastante para dar um sentido à minha vida.”
            Ele parou, olhou para o imperativo categórico na parede teleológica e continuou:
            “Eu faço o que eu faço porque eu quero. Foi um exercício de liberdade que me colocou nesta situação, e sendo assim eu não tenho do que reclamar. Eu gosto dos meus colegas de trabalho, eu gosto da Frgbbnhjktre, gosto até mesmo do Ztkzwgbtwow. O Ztkzwgbtwow não é um tremendo filho da puta. Tenho que parar de ser resmungão.”.
            O segredo da antinomia parecia estar aos poucos se revelando para Cstrhjshkzlay.
            “Ser protagonista do próprio destino não é uma pré-condição da felicidade. O auto-conhecimento não torna as pessoas necessariamente melhores, e tudo o que podemos esperar da vida é fazer o melhor com aquilo que nos foi dado. É um erro imaginar que um brtrzslyxzhzsgy possa ir de encontro ao seu destino, ou criar uma realidade nova. A arte de viver é a arte de fazer o possível. A prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna. Quando voltarmos á desagregação primordial de que saíram nossas consciências, as escolhas que tenhamos feitos ao longo de nossas vidas não farão a menor diferença, desde que nós tenhamos deixado uma marca no coração das pessoas.”
            É isso. Cstrhjshkzlay era bom em criptosintaxe, por isso ele havia conseguido aquele cargo. A primeira antinomia estava resolvida. Ele registrou, no grande aparato de ampolas cibernéticas retroflexas, a resposta para o problema:
            “O que é, é”.
            Cstrhjshkzlay pôs a antinomia resolvida em seu escaninho de saída e pegou a próxima na pilha.
            “O que será, não será.”
            – Essa é mais difícil. – murmurou Cstrhjshkzlay, com seus botões, antes de continuar sua análise criptosintática.  – Será um longo dia...


[1] Ao contrário, por exemplo, do terrível e tenebroso X’Aarn,  que confunde sua própria existência com a do universo inteiro e que, por isso, deseja devorar tudo o que existe para trazer de volta toda diferenciação indesejada para o conforto eterno da morte que há dentro de si.
[2] Observe-se, aqui, que a noção de passado para os brtrzslyxzhzsgy não está relacionada, como para nós, ao fluxo da entropia, ou seja, à passagem do tempo, mas sim a uma noção de profundidade definida em relação ao que a mente brtrzslyxzhzsgy entende como o coração quintessencial do Ser.

domingo, 27 de julho de 2014

Rachmaninoff e Fra Angelico: uma aproximação estética



Frederico Luiz, Ciudad del Este 


Escuto música e fico a imaginar... hoje à noite num teatro ou numa igreja qualquer da imensa Rússia um coral canta as VÉSPERAS Op. 37 de Sergei Rachmaninoff. Vésperas são as orações de fim de tarde dos monges. No caso das Vésperas de Rachmaninoff, trata-se de música sacra composta para a Missa da Vigília Pascal, isto é, a noite do Sábado de Aleluia.



Segundo o costume judeu, o dia acaba com o pôr-do-sol, e não com o relógio da meia-noite. Assim, na noite do Sábado Santo os cristãos celebram os primeiros instantes da ressurreição do Senhor, quando os anjos mal haviam rolado a pedra da sepultura e Jesus ainda não subira para a glória celeste. No Sábado, a glória da ressurreição ainda não estava completa. Tudo se consumaria no Domingo.

Por que, em pleno século XX, Rachmaninoff escolheu o canto polifônico renascentista?

Escuto música e fico a imaginar... Talvez porque quisesse dar a sensação de um acontecimento sublime, profundo, mas ainda não definitivo. Pois quem já escutou, por exemplo, o famoso GLÓRIA de Vivaldi fica na expectativa de alguma explosão que nunca se realiza nas VÉSPERAS de Rachmaninoff, explosão de instrumentos que nunca chega a acontecer.

É como se a música ficasse em suspenso, como no NOLI ME TANGERE de Fra Angelico (1387-1455).








- Não me retenhas, Maria, porque ainda não subi ao Pai, mas vai dizer aos meus irmãos que subirei ao Pai” (Jo 20, 17).

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Habemus Copam Ou Da Teoria Brasileira da Ordem e Progresso


Alguém claramente deixou a preparação da abertura da Copa para última hora

Eduardo Siebra, Pyongyang,  10 de julho de 2014



            Muito se escreveu na imprensa sobre os problemas na preparação da Copa do Mundo de 2014: os atrasos na entrega dos estádios e aeroportos, os problemas de segurança, os protestos, etc. Alguns chegaram a duvidar que fosse haver uma Copa: o campeonato iria se tornar um fiasco nacional – prova da total incapacidade do povo brasileiro de organizar um evento tão grande.
            Mas, ainda que o resultado das partidas não esteja saindo exatamente como nós queríamos (sete a um foi fogo!), há Copa do Mundo. Os jogos têm acontecido sem grandes incidentes (para os padrões de qualidade vigentes entre o equador e o trópico de capricórnio, pelo menos), os turistas têm se divertindo às mil maravilhas e mais uma vez, contra todas as expectativas, o Brasil mostra sua prodigiosa capacidade de resolver tudo na véspera.
            Por que isso? Depois de alguma meditação sobre o fenômeno e sobre nosso caráter nacional, cheguei à conclusão de que existe um claro padrão em nosso comportamento. Por maior que seja a desorganização, sempre as coisas dão certo no final. Coincidência? Claro que não. A imagem do brasileiro desleixado não passa de um pré-conceito etnocêntrico dos que tentam julgar nossos métodos de administração usando critérios nipônicos. É um equívoco que nasce do desconhecimento de nosso sofisticado método de gestão do caos.
Poder-se-ia até pensar que as palavras “ordem e progresso” estampadas na nossa bandeira não passam de um lapso de bem-humorada ironia dos fundadores de nossa República. Eu digo que é o oposto, que é coisa muito séria. Não esqueçamos que a principal ideologia que inspirou a Proclamação da República foi o positivismo. Quero provar que o nosso jeito de ser é, na verdade, extremamente calculista e fiel a um espírito de rigoroso cientificismo! 
Como, se o Brasil parece ser o país mais esculhambado do orbe? O que acontece é que, enquanto a racionalidade cartesiana fica enfurnada quebrando a cabeça com cálculos diferenciais,  a racionalidade tupiniquim é morena, toma caipirinha e vai à praia aos sábados. Já está passando da hora de alguém se levantar contra essa estória de dizer que o povo brasileiro é desorganizado, e de apresentar ao mundo a mais original das nossas criações: a Teoria da Ordem e Progresso.
Na base dessa concepção está a percepção existencial de que a coisa mais valiosa do mundo é a vida humana. Enquanto um romancista francês precisa em média de 2.000 páginas para encontrar o tempo perdido com a escrita dessas mesmas 2.000 páginas, todo brasileiro tem plena, total e absoluta consciência de que o mais precioso dos bens é sua vida – ou, o que dá no mesmo, seu tempo ocioso. Essa percepção nasce do singelo fato de o brasileiro viver num ambiente onde a temperatura das águas dos rios permanece adequada para banho durante o ano inteiro.
Os povos que vivem em latitudes mais altas que as nossas estão sujeitos a radicais mudanças de temperaturas ao longo do ano. Quando o inverno chega, um indivíduo – ou cigarra – que não tenha se preparado simplesmente morre de fome ou de frio. Nos trópicos, ainda que seja verdade que o índio que quer comer uma tapioca quentinha precisava se dar ao trabalho de plantar mandioca e depois fazer a farinha, a escassez das regiões temperadas jamais é sentida com a mesma intensidade. Em maior parte do nosso território, o clima oscila entre quente, mais quente ainda e quente pra chuchu, o que significa não apenas que nossos ecossistemas são mais exuberantes de pitangas e cajus, mas também que durante o ano inteiro é agradável pular na água.
Não é à toa que quando os portugueses aportaram em nossas praias, nossos índios estavam pelados, alguns gostosamente se balançando numa rede. Para entender quão relevante é, de um ponto de vista histórico, a inexistência de formas autóctones de civilização superior em território brasileiro, é preciso recordar que, segundo as teorias mais autorizadas, nossos índios chegaram à América vindos da Ásia pelo Estreito de Bering (ou por grandes navegações transoceânicas). Se aqueles tabaréus que saudaram tão amistosamente Cabral e Pero Vaz de Caminha nas praias baianas viviam em ocas de palha, definitivamente não era por falta de capacidade cognitiva: esses índios eram nada menos que um bando de japoneses e chineses que migraram para essas bandas numa remota era!
Imaginem só... Enquanto seus parentes tiveram que lidar com todo a chateação implícita na idéia de civilização – ou seja, ábacos, katanas, harakiri, milhares de ideogramas e um modelo desenvolvimentista com foco nas exportações – nossos asiáticos podiam simplesmente passar a tarde agradavelmente deitados numa rede, aproveitando o incrível azul de nosso céu. Para que estresse com criações industriosas, se eles podiam desde já aproveitar o ápice de prazer que a sociedade pós-industrial globalizada pode proporcionar – eternas férias num resort tropical cheia de belas nativas?
Eu diria que essa é a percepção fundamental da psique brasileira ainda hoje: sempre que você está sozinho dentro de casa fazendo o que quer que seja, há alguém se divertindo numa festa, ou tomando banho de piscina, ou bebendo cerveja gelada. Pior ainda: em todo e qualquer instante em que você estiver trabalhando, há alguém tomando banho de cachoeira, comendo siriguela, pescando no Rio Tocantins, ou, pior de tudo, fazendo sexo.     
Se transpuséssemos nosso “eu” imaginário para um país de cultura mais diligente – a mesma Alemanha que tão amargamente nos desclassificou na Copa, digamos – a intuição seria muito diferente. Sempre que alguém está sozinho dentro de casa, no mesmo instante haverá alguém redigindo sua tese de doutorado sobre Habbermas, arduamente empenhado num trabalho administrativo enfadonho mas de claras implicações sociais, treinando de forma séria e profissional a seleção de futebol ou simplesmente resmungando sobre como o clima está porco neste inverno. No caso extremo da Suécia, onde a pessoa que fica deitada descansando claramente sente mais frio do que aquela que aquece seu corpo com os repetitivos movimentos do trabalho pesado, não é à toa que os indicadores econômicos sejam tão positivos. 
Todos esses arrodeios são para provar que o homo brasiliensis fez a sua escolha. Exportar smartphones dá muito trabalho, e exigiria de nossos estudantes uma quantidade inaceitável de horas trancafiados em salas de estudo. Resumindo o problema: ao estudar, nosso estudante universitário tem muito mais a perder do que o estudante coreano – que, além de ter que enfrentar os gélidos ventos da Manchúria no inverno, tem como alternativa ao estudo a paquera, por mensagens de telefone, com as coreanas – que, apesar de lindas, são as mais confucianas[1] das mulheres leste-asiáticas. Não é determinismo geográfico, é apenas o desdobramento da percepção de que pessoas inteligentes, quando confrontadas com uma opção, escolherão, via de regra, aquilo que mais lhes favorece. Em linguagem econômica, poderíamos dizer que o custo de oportunidade de estudar ou de trabalhar nos trópicos é alto demais para que essas atividades sejam levadas a sério por um indivíduo capaz de fazer escolhas racionais.
O princípio nuclear da mundivisão brasileira é a lei do esforço mínimo. Essa é a expressão suprema de nosso espírito de objetividade. Um indivíduo de país temperado que deseje assegurar para si o máximo de bem-estar precisa, de fato, empregar algum esforço para conseguir os recursos econômicos necessários à compra de aquecedores, cachecóis, edredons e panelas de fondue. A preguiça – e, como conseqüência, a pobreza – significam, de fato, um terrível desconforto durante a estação fria. No Brasil não: como o ambiente é tão agradável e convidativo, o supremo bem é ficar à toa. Morrer de frio ninguém morre. Pode-se até sentir fome, mas, mesmo então, há sempre o último recurso de comer bunda de tanajura torrada! O ponto é que, se tomarmos a definição clássica do homem econômico (um maximizador de utilidades!) e a aplicarmos ao contexto tropical, teremos que admitir retomando meu argumento   que é irracional trabalhar num ecossistema onde a água dos rios, lagos e oceanos é apropriada para o banho durante o ano inteiro. Mais do que um simples mandrião que se esquiva de suas responsabilidades, o brasileiro é um circunspeto planejador, com plena consciência das opções existenciais ao seu alcance. Muitos habitantes das latitudes temperadas trabalham para conseguir o que nos trópicos se consegue de graça!
Todo empreendimento levado a cabo por nosso povo é inspirado pelo atávico e subliminar desejo de voltar nu para a praia. Nosso gênio é especialmente inclinado às realizações artísticas ou intelectuais que são feitas com alguma medida de diversão (e.g. a poesia, a música popular, a dança) e que podem ser praticadas na areia do mar (e.g. a poesia, a música popular, a dança) e terrivelmente avesso a todo projeto que nos exija ficarmos trancafiados em algum lugar pouco iluminado (e.g. ganhar prêmios nobels).
Inspirado por seu rigoroso sistema de racionalidade, o brasileiro que se lança a uma tarefa específica – tal como a organização da Copa do Mundo – faz a seguinte pergunta: qual é o mínimo de esforço possível que eu preciso fazer para que esta tarefa seja cumprida? Observe-se, não se trata de saber qual é o esforço necessário para que a tarefa seja cumprida de forma exemplar, mas apenas de saber quais são os esforços mínimos necessários para assegurar que a vaca não vá para o brejo (cenário que impediria o tão almejado objetivo de voltar logo para a piscina, já que o fracasso sempre acarreta a necessidade de trabalhar ainda mais para tirar a bendita vaca do brejo e trazê-la de volta ao curral).
Nem de longe tenho a pretensão de supor que sejamos o único povo do mundo a fazer esse cálculo conjetural. Afinal, mesmo que se pretenda cumprir determinada missão com diligência, é importante saber qual é o mínimo necessário para evitar o cenário de um fracasso. A genialidade brasileira – e o ponto realmente inovador da nossa Teoria da Ordem e Progresso – foi ter descoberto que esse mínimo de esforço necessário está, na verdade, muito abaixo do que outros povos costumam supor!
Essa descoberta foi possível após séculos de experimentação empírica com o que poderíamos chamar, para fins pedagógicos, de caos marginal. Nossos antepassados, na medida em que iam articulando o Estado, instalando nosso sistema produtivo, ou expandindo nosso território, sempre tentaram alocar seu nível de esforço no nível mais baixo possível. Como era de se esperar, em muitas ocasiões, a coisa desandou e o barraco, literalmente, caiu. Porém, após reiterados testes na fronteira do colapso, o brasileiro intuitivamente descobriu – muito antes de o matemático Nobert Wiener sequer ter sonhado em fundar a ciência cibernética – que os sistemas sociais, uma vez instalados, possuem uma inclinação natural à ordem ou à homeostase. Ou seja, ele aprendeu a manter suas instituições com um nível radicalmente baixo de esforço – sempre à beira do colapso, mas sempre tentando evitar que o colapso efetivamente acontecesse. Séculos de experiência acumulada permitiram ao brasileiro desenvolver um conhecimento profundo e preciso de qual é, efetivamente, o ponto marginal da catástrofe.
Nós brasileiros intuitivamente sabemos que, tal como os organismos vivos, as coletividades possuem um equilíbrio interno que as compele à preservação. Instabilidades externas ou disfunções internas, embora possam prejudicar o funcionamento ótimo, muito raramente são graves o bastante para comprometer a própria existência do sistema. Do mesmo modo que uma pessoa consegue sobreviver em condições muito mais duras do que ela mesma imagina, as coletividades também conseguem manter um equilíbrio interno em condições de muito maior precariedade do que geralmente se supõe.
Esse ponto, embora possa parecer de difícil compreensão de vista teórico, torna-se muito claro para quem quer que possua um mínimo de experiência de trabalho com instituições brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. Quando se organiza um grande evento, por exemplo, estabelece-se, já no momento inicial, que o ponto onde se localiza o caos marginal – ou seja, o ponto a partir do qual qualquer incremento de desordem ou preguiça extra desencadearia o colapso – está muito aquém de onde uma equipe de canadenses ou de dinamarqueses suporia. O fundamento dessa suposição é a nossa experiência acumulada com a realização de empreendimentos que deram certo com muito pouco esforço por parte de seus gestores.  
Só isso já bastaria para qualificar a Teoria da Ordem e Progresso como uma intuição administrativa original. Porém o caráter único de nosso modelo só se manifesta nas etapas subseqüentes da organização, por meio de um approach que apresenta pontos de contato com a filosofia da linha ch’an do budismo, ou zen: zen preocupação, ou zen estresse nenhum.  
Via de regra, seis meses antes do acontecimento planejado, mais ou menos na época em que o japonês entregaria a coisa pronta, o brasileiro praticamente ainda não fez nada. Não mandou nem os estudos preliminares de custos, ou sequer elaborou um cronograma. Ainda há tempo o bastante – ele pensa – e não há por que esquentar a cabeça agora com o problema. Como diz o ditado, nunca faça agora o que alguém pode fazer por você depois.  
À medida que o tempo passa, e que se aproxima a data limite para entrega, a ameaça de um fracasso torna-se mais concreta. O brasileiro, então, ainda não faz nada, porém ele internaliza o problema, ou seja, ele toma consciência da necessidade de ter que fazer, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa. Ainda assim, não faz nada. A esperança é a última que morre[2]. 
Passados mais alguns meses, quando já se aproxima o instante que poderia ser chamado de ponto crítico da preparação – ou o ponto do caos marginal – o brasileiro finalmente acorda. Não há mais como adiar, o negócio vai ter que acontecer, de um jeito ou de outro, então é preciso que alguém faça alguma coisa. A essa altura, o brasileiro toma algumas medidas perfunctórias e estritamente formalistas ou, quando muito, tenta transferir sua responsabilidade para outra pessoa – preferencialmente alguém que esteja hierarquicamente abaixo dele.
Então acontece a verdadeira mágica. Por pura falta de organização, o tempo passa e ultrapassa-se aquilo que o próprio brasileiro havia suposto ser a data-limite para entregar os resultados! Isso não por um insight consciente, mas por puro desleixo. Agora, ele simplesmente vai ter que arrumar uma maneira de fazer a coisa acontecer, seja lá como for.
           Como se percebe, a filosofia da zen preocupação é uma metodologia irracional que não contradiz, mas que na verdade complementa o frio calculismo na base da Teoria da Ordem e Progresso. Ela permite ao brasileiro concretizar seus planos com uma quantidade de esforço menor do que ele mesmo havia antecipado! Num período de tempo incrivelmente curto (incrivelmente mesmo, como todo bom brasileiro que já deixou para estudar todo o assunto na véspera da prova sabe) tomam-se uma série de medidas paliativas e emergenciais, fazem-se concessões, gasta-se mais do que o previsto, mas, no final, a coisa acontece.
E a coisa acontece mesmo. O Brasil não é um país falido. Nossas instituições funcionam, até muito bem, considerando o nível de esforço que investimos nelas. Que a Copa do Mundo esteja acontecendo, aos trancos e barrancos, não é acaso: é o coroamento de nossa genialidade logística, que nos permitiu organizar um dos mais importantes eventos esportivos mundiais sem que, para isso, tivéssemos que deixar de lado o choppinho com os amigos! 
E sequer importa que, desde um ponto de vista financeiro, nossas obras custem muito mais caro do que aquelas feitas por outros povos mais organizados: lembremos que no Brasil o bem mais valioso é a vida humana ociosa, e que o ponto é fazer a coisa acontecer não com o mínimo de dinheiro público, mas com o mínimo de esforço aborrecido. E nesse aspecto eu posso garantir que somos um dos povos mais bem-sucedidos do mundo.
Como poderíamos ser de outro modo? Aqui ao nosso lado, a Argentina é a prova cabal de que a tentativa de usar sem mediação métodos e critérios estritamente europeus numa realidade latino-americana pode ter resultados catastróficos. 
Chega de derrotismo, portanto, brasileiros! Nós estamos certos: trabalhar é um saco. É o jeito, mas não será por isso que a gente, de um jeito ou de outro, não dará um jeito.
Viva!


[1] Tendo vivido na Ásia do Leste por algum tempo, eu definiria o “confucianismo” como a capacidade de confundir, ou de provocar confusão. 
[2] Pesa aqui, também, certa inclinação schopenhaueriana de nossa teoria do conhecimento: para o brasileiro, só o presente é real, já que o ponto de partida da experiência de mundo é o “eu” tomador de caipirinhas. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Céu e a Terra

     
Por Frederico Oliveira


           Existe uma relação misteriosa entre a ordem da alma e a ordem política - eis o núcleo das investigações filosóficas desde a Antiga Grécia até hoje. 
             
          Vivemos numa cultura dominada pela experiência da desordem. Estamos rodeados de estadistas e militantes que desejam alucinadamente debelar o mal e implantar uma ordem a ferro e fogo. O século XX mostrou que o projeto político de pôr fim às injustiças, eliminar a exploração do homem pelo homem, enfim, extinguir o pecado da face da Terra, acaba transformando a vida humana num inferno.      
        
            O projeto de instaurar o Paraíso na Terra é a adaptação política desastrada de uma idéia cuja raiz é puramente teológica. Vamos à origem do termo. A Igreja Católica diz que a celebração da Missa é o encontro do Céu com a Terra, onde os fiéis cantam "unidos à multidão de anjos e santos", naquele momento em que o sacerdote pronuncia as palavras "corações ao alto" e a assembléia responde "o nosso coração está em Deus". Mas um católico genuíno se contenta com viver essa experiência do "Céu na Terra" durante uma hora a cada domingo.

           Na liturgia de hoje, leu-se o livro dos Atos dos Apóstolos 1, 6-8, em que os apóstolos interrogam o Cristo que acabara de ressuscitar: - Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino em Israel? Respondeu-lhes Ele: - Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo".

              A pergunta dos apóstolos encerra a expectativa messiânica do povo judeu de libertação contra o jugo romano. Trata-se de uma preocupação legítima do povo oprimido que esperava o Salvador de dinastia davídica. Jesus se compadece do sofrimento de seu povo, mas não veio aqui instaurar um domínio político. De fato, responde a Pilatos: "O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus soldados certamente teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo." (Jo 18, 36).

               A resposta de Cristo nos Atos dos Apóstolos é misteriosa: não nos é dado conhecer a data do Juízo Final. O Pai reservou para si esse segredo e não nos cabe especular sobre ele - nos versículos seguintes, os anjos repreendem os discípulos porque estes ficam embasbacados olhando para as nuvens enquanto Jesus ascende aos Céus envolto em glória. Quanto a nós, compete continuar a caminhada na História, acompanhados pela presença do Espírito Santo. Naquele trecho bíblico, o Filho retorna para o seio do Pai, mas garante que estará com seus seguidores até o fim dos tempos por meio do Espírito Santo que anima a Igreja, o Paráclito, o Espírito Defensor que consolará os fiéis nas horas de sofrimento.

          Em suma a vida do cristão é atravessar na fé o mar da História, uma mistura de ordem e desordem. O lago de Tiberíades ambienta essa experiência das tribulações: as águas revoltas sacodem a barca de Pedro, enquanto Jesus dorme aparentemente indiferente à aflição de seus amigos. Cumpre vigiar e orar. E a oração que Jesus ensinou diz "seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu". Para o cristão o Céu na Terra é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus está resumida no Sermão da Montanha.

           Mas acontece que o ser humano está gravado com o pecado original, que é uma expressão simbólica para dizer "egoísmo" e "satisfação de suas próprias ambições". A tentativa de reformar a natureza humana resulta numa desordem monstruosa, sendo o comunismo apenas a projeção imanente da Jerusalém Celeste - a união beatífica dos santos de Deus.

             Infelizmente jamais existirá uma sociedade perfeita, livre da exploração do homem pelo homem. Não significa que devemos deixar o mundo como aí está. Vamos, sim, em busca da ordem.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Escola do Sonho: apresentação da obra poética de José Chagas

Escola do Sonho: apresentação da obra poética de José Chagas



Por Frederico Oliveira
Introdução

            Certa vez Manuel Bandeira escreveu que a obra de Gustavo Corção deveria ser traduzida para vários idiomas de modo a fazer conhecer ao mundo que o Brasil merece um Prêmio Nobel. Alguns gênios permanecem desconhecidos do grande público, separados pela barreira do idioma materno ou pelas circunstâncias de um ambiente cultural mesquinho e outras condições alheias à vontade. Mas há os gênios que permanecem isolados por uma questão de temperamento ou por pura opção de vida. No caso de José Chagas, eu diria que se trata de uma conjunção de todos esses fatores.
            Imagino o poeta Manuel Bandeira às voltas com um colega inglês, esforçando-se para traduzi-lo a contento e a explicar por que a literatura de Corção é tão digna de ocupar as melhores antologias do Ocidente. A minha angústia é um pouco diferente. Também descobri um tesouro escondido, mas não tenho a pretensão de divulgar o nome de José Chagas no exterior. Contento-me se este ensaio vencer a desconfiança do leitor brasileiro e motivá-lo a conhecer algumas das melhores páginas poéticas da língua portuguesa.
            Como o autor de Estrela da Vida Inteira, sinto a angústia de não fazer-me acreditar e, ao mesmo tempo, a necessidade de compartilhar uma riqueza que não cabe em si mesma. Aceitei o convite para escrever este ensaio por pura caridade. Caridade não com Chagas, é óbvio, mas com o leitor que o não conhece.
            Em seus mais de 56 anos de atividade a contar da publicação de Canção da Expectativa (1955), a obra de José Chagas representa para mim o cume de uma longa tradição literária maranhense, de Gonçalves Dias a Ferreira Gullar, passando por Sousândrade, os irmãos Aluísio e Artur Azevedo, Coelho Neto, Graça Aranha e Nauro Machado, para citar apenas os nomes que tiveram repercussão fora do Estado.
Em Chagas a sabedoria e a agudez da intuição alcançam enfim a expressão simples e nítida que é a marca do homem contemplativo dotado de um incomum domínio da linguagem. E não pode ser chamado de provinciano um homem com tão vasto horizonte de problemas filosóficos.
Pois José Chagas não é poeta de um assunto só. Ele não padece da monotonia que pode acometer até os maiores representantes do cânone ocidental. Ao ler, por exemplo, a obra completa de Fernando Pessoa, sente-se, a certa altura, uma estafa retórica, um eco nos ouvidos, um quase adivinhar o verso seguinte. Porque Fernando Pessoa, apesar dos heterônimos e da polivalência intencional, é um tanto circular em seus pensamentos: a meio caminho do Guardador de Rebanhos ou da poesia reunida de Álvaro de Campos, o leitor já antecipa a compreensão do conjunto, sente-se saciado daquele estado de espírito do autor e até sofre a tentação de suspender a leitura. Essa condição também se aplica, creio, a Jorge Luis Borges, de personalidade obsessiva, ainda que seja uma obsessão do sublime – obsessão do infinito como perplexidade em face do Universo. Nada disso elide o valor e a genialidade de Pessoa e Borges, é claro. Mas receio que o mesmo se possa dizer de Kafka – outro gênio plagiador de si mesmo. Sob esse aspecto, aventurar-se à obra completa de um escritor – mesmo dos maiores – pode tornar-se uma experiência frustrante. Em algum ponto, o encanto se quebra, o segredo se revela...
Mas, para nossa surpresa, José Chagas não padece desse vício de si. O leitor se defrontará com uma poesia realmente rica em formas e temas. Nela cabem as divagações metafísicas de Os Telhados, o discurso mítico-telúrico de Os Canhões do Silêncio, a sátira política em cordel de O caso da Ponte de São Francisco, as questões existenciais de Antropoema ou o signo da humana dor, as reflexões sobre o ofício da poesia em A Arcada do Tempo, o amor erótico de Maré Moça e muito mais. Além disso, o leitor que julgar a obra de Chagas tomando como referência, por exemplo, Apanhados do Chão e Maré memória, concluirá que tem nas mãos um escritor essencialmente urbano; mas ao descobrir livros como Colégio do Vento ou De Lavra e de Palavra, verá que Chagas reserva consigo a sabedoria de um camponês. É que, como Virgílio, ele legou à poesia nacional a sua Eneida e a sua Bucólicas, embora não tenha recebido a equivalente glória acadêmica.

A Escola do Sonho I

            Neste ensaio, como o próprio título sugere, abordarei a questão do sonho e seu significado na obra de José Chagas.
Que é o sonho? É a dimensão imaterial da vida, a transcendência, a Beleza. É a poesia no que ela tem de “sal da terra”, pois dá sabor à existência e a conserva. Chagas alude mesmo a passagens dos Evangelhos para demarcar essa missão da poesia, como no SONETO 13 de Colégio do Vento: “É natural/ nem só de pão a boca ser vazia”; ou n’A Arcada do Tempo:
 “pois só ela encerra
o aviso cristão:
- passa o céu e a terra,
a palavra não.

A palavra fica
persistindo no ar,
como a eterna dica,
que Deus nos quer dar”.

            O trecho acima esboça um respeito quase sagrado pela palavra. Enquanto a sacralidade bíblica afirma no Verbo Divino o poder de libertar o homem do pecado, José Chagas vê a poesia como um ofício que liberta o ser humano da mesquinhez da vida.
Aquele soneto merece ser citado na íntegra por ser a chave deste ensaio e a síntese da filosofia estética de José Chagas.
            SONETO 13
Muito cedo plantei o arroz real,
            e o arroz do sonho era o que mais crescia;
            também ao capinar o milharal,
            mais me ocupava em minha fantasia,
            pois da lavra não vinha por igual
            o que eu da terra e da ilusão colhia,
            e a esperança do verde era um sinal
            a murchar, no verão, como a alegria;
            só o plantio da alma é que era tal
            que quanto menos chuva mais floria,
            e isso era bom, porquanto é natural
            nem só de pão a boca ser vazia,
            e se pouco era o pão e pouco o sal,
            muito era o doce bom da poesia.

            Impressiona a eloquência contida na inteireza desses sonetos compostos, em sua quase totalidade, de um só período sintático. Além de ter desenvolvido com maestria e originalidade a técnica sonetística do emprego de duas rimas apenas, Chagas alcança uma fluência admirável, onde cada verso encerra uma idéia completa, sem atropelos melódicos. É verdade que em outras peças ele usará de enjambements, como parte de seu variado acervo de recursos técnicos. Mas tudo sem artificialismos parnasianos. José Chagas é um sonetista tipicamente moderno, ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Lima.
Ainda na tentativa de conceituar o sonho no universo do escritor, o SONETO XXV do livro Campoemas nos informa que “de lavra e de palavra a vida é feita”. A poesia implica, portanto, um trabalho. A palavra depende da lavra. O sonho aí não é estado de dormência! É uma atividade voluntária, diária e consciente. É a luta vã de que fala Drummond e que, segundo Nauro Machado, consome toda uma existência. A Arcada do Tempo é a obra que José Chagas dedicou particularmente a esse tema:
“O poema se induz
E o poeta transpira,
Carregando a cruz,
Mas tangendo a lira.

Que o poema tem isto
de particular:
mesmo após ser visto,
custa a se mostrar.

É como um segredo
Que, após já ser dito,
Ainda é muito cedo
Para dar-se em grito.

E o poeta não vence o
Poema, que o lavra,
Primeiro, em silêncio.
Depois, em palavra.”
           
            (...)
E o poeta acredita
Que o sonho é no chão;
Que a paz é restrita
Aos que a cantarão;

Que o barro primeiro
Molda todos nós,
E o sopro do oleiro
É a única voz.
(...)

Que o poema é que encerra
O canto maior
De quem lavra a terra
E a inunda em suor

Quem cuida a lavoura,
Cuida a poesia
Que também se doura
Ao sol que a recria.

O poema debulha
Seu campo de trigo
Na tarde em fagulha
De um poente antigo.

            Esse cultivo da poesia produz o sonho, uma colheita que não dá lucro, mas que dá sentido à vida. Além de saciar a fome de sentido, torna a vida autêntica. Viver com autenticidade é um mandamento ético da poesia, como ensina Rilke.
O poema situa
o poeta na vida
a mover-se em lua
de maré sofrida
            (...)

O poeta é um varão
            tão assinalado
            que os sonhos só vão
            morrer do seu lado.
           
            A fusão entre autor e obra é que singulariza o artista. Um pedaço de mármore isoladamente considerado é uma unidade, mas a Pietà de Michelangelo é – mais que unidade – singularidade, porque comove e, por força de sua graça e beleza, se distingue dos granitos informes.
Além do virtuosismo de José Chagas que, em A Arcada do Tempo, experimenta as trovas de cinco sílabas com a igual naturalidade dos decassílabos anteriores, ele prova acima de tudo um extraordinário poder de síntese. Pois a boa poesia é compacta. O talento do poeta condensa, com ganho de expressividade, a frase que, dita de outro modo, demandaria extensas linhas. Tomemos um exemplo da música popular: “quando o verde dos teus olhos/se espaiar na prantação”. Uma vez desembrulhada em prosa, a mesma idéia exige uma série de associações que remetem desde o evento climático e às consequências sobre a flora, à simbologia da esperança, até o saudosismo do cantor que identifica os olhos da amada com a paisagem próspera – tudo isso resumido no espaço de um dístico.
Por isso, só um grande poeta comprime, na estreiteza das quadrinhas de A Arcada do Tempo, temas tão complexos como a sociedade de massas, a queda do nível cultural das elites, a decadência intelectual do Maranhão, o abandono público do patrimônio arquitetônico, a inépcia da crítica literária feita nas universidades e muito mais.

A Escola do Sonho II
Esclarecido o sentido do sonho para José Chagas, convém agora justificar a outra parte do título deste ensaio.
Escola do Sonho sugere uma pedagogia subjacente à poesia. O autor é mais humilde e elege a expressão Colégio do Vento. Colégio é menor que Escola, pois esta implica seguidores, um corpo de idéias, talvez um fundador. E o poeta coloca-se na condição de aprendiz – aprendiz de suas memórias, do menino que observa o velho pai, da criança em primeiras letras, das lições de fidelidade dadas pelo cão do sítio, das noções de velhice transmitidas pelo engenho abandonado.
Vou reproduzir outro soneto cujas imagens transmitem a riqueza desse universo:
SONETO 23
O riacho secava e em sua areia
eu escrevia as letras do alfabeto,
como aluno do campo que semeia
sonhos em seu canteiro predileto,
e ilusões vinham todas em cadeia
para a escola do vento, que, inquieto,
sempre apagava a minha escrita feia,
pra que eu a refizesse com o afeto
de quem retoma o sonho e o delineia
até vê-lo na mão fluir correto,
como o riacho que hoje em minha veia
passa, a escrever-me a vida por completo,
e um vento de saudade quer que eu leia
mas vê que sou ainda analfabeto.

Talvez a primeira lição que o mestre da Escola do Sonho tenha-me transmitido seja a simplicidade.
Apesar da sofisticação técnica e temática, sua poesia é desconcertantemente simples. Acima de tudo, sua escrita é límpida como água da fonte. É musical sem esforço. Seus versos fluem como quem fala, embora ninguém fale espontaneamente com tanta leveza. Em José Chagas, não há preciosismo vocabular: ele escolhe as palavras do cotidiano que todos usam (areia, alfabeto, cadeia, afeto etc.), mas ninguém as usa desse modo.
Também aprecio autores barrocos, mas vejo na simplicidade uma virtude incomparável. Os versos mais perenes da literatura universal são perfeitamente simples: “No princípio, era o Verbo”; “Ser ou não ser”; “No meio do caminho de nossa vida”. São também os mais profundos em termos metafísicos e existenciais! Isso pode parecer um paradoxo, mas não é. O mau literato é raso como uma poça de lama, que não deixa entrever o fundo: seu palavrório escuso recobre a superficialidade do pensamento. Mas o bom escritor é como uma piscina límpida – surpreende o nadador afoito que, de longe, não adivinha sua profundidade. E a obra de José Chagas é nítida e profunda como uma piscina olímpica.
A princípio, ilude o leitor ocasional que o não encontrará nas prateleiras das bookstores[1], senão em sebos e em edições modestíssimas, pouco atrativas ao olhar do curioso. No entanto, quem tiver a sorte de apreciar, por exemplo, os 40 sonetos de Colégio do Vento verá que esse ilustre desconhecido guarda consigo um tesouro.
A segunda lição da Escola do Sonho é a superação da dicotomia regionalismo-universalidade.
O crítico Wilson Martins definiu-o como poeta provincial, mas não provinciano. É uma definição extremamente interessante. Mostra que J. Chagas sabe valorizar sua terra adotiva da melhor maneira, não com orgulho bairrista do que há nela de específico, mas explorando o elemento peculiar de modo a elevar-se a partir dele. O provinciano fecha-se em seu mundo restrito; enquanto o provincial, assumindo sua identidade e permanecendo fiel a ela, abre-se ao diálogo com outras culturas. São provinciais, mas não provincianos, os dramas dos mujiques de Dostoievski, pois nada impede que eu os compreenda e neles até me reconheça. Sendo universal, Dostoievski não abandona suas raízes nacionais e permanece profundamente russo. Daí que ser escritor brasileiro ou ludovicense é algo mais do que simplesmente incluir as palmeiras e o sabiá no poema.
As questões de que o poeta trata não se limitam ao ambiente cultural maranhense ou paraibano (José Chagas é, na verdade, nascido em Piancó/PB). Considerado em sua essência, o drama da seca é o mesmo para o vaqueiro nordestino e para o pastor marroquino, da mesma maneira que a angústia da passagem do tempo é uma só para a humanidade inteira.
Por outro lado, ninguém o acusará de alienar-se da realidade local. Até por opção de vida, dono de uma personalidade tímida segundo amigos próximos, Chagas permanece isolado do circuito literário nacional, por mais que sua obra tenha empolgado críticos como Wilson Martins e o poeta Carlos Drummond de Andrade. O mistério desse insulamento na ilha que o acolheu talvez possa ser realmente explicado por uma preferência à vida contemplativa, alheia ao bulício.

A Escola do Sonho III
Essa última hipótese é corroborada por sua ética poética. À maneira de Rainer Maria Rilke, cujas Cartas a um jovem poeta ensinam a prática da solidão como condição indispensável para a criação, José Chagas deixa transparecer no decorrer de sua obra a mesma filosofia estética.
Permito-me esboçar uma chave de interpretação cujos elementos aparecem associados ao longo da obra de Chagas, que eu esquematizaria da seguinte forma:

Certamente parecerá canhestra tal figura como resultado de um esforço crítico-literário, uma vez que, por definição, ninguém pode reduzir uma vida inteira a um esquema. Feita essa ressalva, tentemos explicar a idéia que ela encerra.
Na poética de José Chagas, a solidão não é um abandono, mas uma decisão do espírito necessária ao autoconhecimento. O silêncio é a pré-condição da vida contemplativa e criativa. O sonho representa a atividade poética, o engenho e a arte. A paz é a recompensa de quem vive essa realidade.
Eis então uma terceira lição da Escola do Sonho: se queres ser poeta, pratica a solidão, o silêncio e o sonho.
Diz n’A Arcada do Tempo:
Reina a ingênua crença
de que, estando triste,
se, em verso, alguém pensa,
logo, um poeta existe

forjado na hora
pelo esforço vão
com que ele se arvora
num ser de emoção.

E assim se imagina
que o poeta bisonho
vem de clandestina
fábrica de sonho,

ou que ele se faz
de fora pra dentro,
de diante pra trás,
num giro sem centro (...)

Vejamos adiante como o autor entende o ofício da poesia segundo a chave de interpretação acima proposta.
O poema se apossa
da palavra e faz
da incerteza nossa
seu ninho de paz.

Só ele é que assume
sua natureza,
erguendo-se ao cume
da montanha acesa

com que o verbo aclara
um outro horizonte,
para a manhã rara
que de nós desponte.

E o poema aceita
que a palavra o faça,
mas se opõe à espreita
como de uma caça

que em silêncio caia
na sua armadilha,
ou chegue a uma praia
que ninguém palmilha,

pois ele acredita
que a palavra cresce
sozinha e contrita
como numa prece (...)

Ainda uma palavra sobre os aspectos formais da obra de Chagas. Em A Arcada do Tempo, as quadras de cinco sílabas são a técnica de expressão eleita do começo ao fim do livro. O fluxo da argumentação e a coerência da forma vazada em um só fôlego permitem considerá-lo um poema único, cujos capítulos são como estrofes maiores. Essa unidade também ocorre em Colégio do Vento, De lavra e de palavra..., Antropoema ou o signo da humana dor, Os Azulejos do Tempo, inteiramente compostos de sonetos-estrofes.
Pode-se extrair daí uma quarta lição da Escola do Sonho: deve o poeta exercitar todos os metros, inclusive o livre, de modo a fazer-se fluente em vários modos de expressão poética? Assumindo o risco de forçar inferências, parece-me ser justamente essa a prática do mestre. Chagas desenvolve com igual êxito os versos de quatro, cinco, sete e dez sílabas, além de ser invejavelmente fluente nos versos livres e brancos. Seu domínio da língua portuguesa compara-se ao do pianista que, por fazer da música o seu ofício, impôs-se executar com a mesma perfeição os saltos da valsa, as cadências dos noturnos, os requebros do choro e os ostinati das fugas de Bach.


O signo da dor humana

José Chagas é, acima de tudo, um metafísico. Interroga sobre a natureza do bem e do mal. Questiona se o mal existe por si, se faz parte da criação divina ou se é uma criação humana que Deus, respeitando a liberdade do homem, permite, para que o homem viva o drama ético.
É uma discussão cujo status quaestionis remonta a Santo Agostinho. Um dos argumentos do ateísmo consiste precisamente em identificar as misérias do mundo e indagar: se Deus existe e é bom como dizem, essas maldades não deveriam acontecer; posto que acontecem, ou Deus é mau e aprisiona o ser humano num mundo de sofrimento ou Ele, de fato, não existe. Pois que fizeram aqueles inocentes para merecer de Deus tanta catástrofe? José Chagas enfrenta essa questão no já citado livro De lavra e de Palavra ou Campoemas:

SONETO XVII
Deus não tem nada com o que ali se passa,
pois tudo deu, até demais talvez,
e deu água, deu som, deu luz de graça,
deu o tempo total de cada mês
e deu o chão para que a planta nasça
e nunca em tempo algum haja escassez,
deu a destreza com que o homem laça
pela manhã, no campo, a sua rês,
deu a esperança que o destino traça
de a cada um ser dada a sua vez,
mas o homem produz sua desgraça
e, arrogante na sua pequenez,
explora a sua natureza escassa
até criar o mal que Deus não fez.

Para o poeta, as riquezas naturais não são um acidente da matéria ou acaso feliz à vida do homem. A terra, o sol, a chuva, a habilidade e a inteligência humanas são um presente do Criador – a que, aliás, o ser humano não tem direito de reivindicação: “pois tudo é doação, nada é herança” (idem, SONETO XLII). E a solução não seria odiar a Deus se algo dá errado, mas reconhecer aquelas potencialidades como um dom gratuito e, por causa delas, doar-se à caridade.

XLII
Se uma flor desabrocha, uma esperança
cresce no coração da natureza,
e tudo em torno dela vibra e dança
numa febril coloração acesa,
e a brisa da manhã sopra mais mansa
como pondo carícia na beleza
para a flor nos dizer que a vida avança
e que a terra não pode ficar presa,
pois tudo é doação, nada é herança,
e há de crescer no campo uma certeza
que a mão que agora o fruto não alcança
vai um dia afinal se abrir, surpresa,
para a colheita pura, na bonança
que a todos servirá, numa só mesa.

LXV
O sopro que animou o barro, quente
ainda das próprias mãos do Criador,
é o mesmo que, no campo, a terra sente,
dando energia a tudo quanto for
matéria posta em sonho de semente,
que a semente, no chão, sonha com flor,
e a flor é a realidade transcendente
do mistério da luz que vem expor
o dia e revelar magicamente
como o estrume se faz aroma e cor,
e é a própria terra sugerindo à gente
com seu alto poder transformador
que o barro que nos fez também se esquente
ao sol das almas e floresça amor.

Mas esse mistério é talvez grande demais para caber no intelecto humano. O poeta sabe que essas afirmações são “muito duras”, difíceis de compreender e de aceitar. Aqui, poderíamos lembrar o anjo que Santo Agostinho encontrou na praia transportando a água do mar para um buraco na areia. É mais fácil para Agostinho comprimir o oceano do que entender o Mistério. A fé jamais apaga o enigma, pois o homem permanece de olhos extasiados diante do sublime:

LXIV
Matéria de silêncio essa que, exposta
na largura do chão, nada nos diz
porque nada dizer é que é a resposta
de tudo o que no chão se faz raiz,
e a terra move a paz de que ela gosta
para expressar-se em florações sutis
no silêncio subindo pela encosta
das montanhas que do alto o sol bendiz,
vendo que a própria natureza aposta
como a luz sobre o campo é mais feliz
e como até o boi com sua bosta
levanta sugestões primaveris,
enquanto o homem só deixa ali, proposta,
uma equação perdida de seu xis.

A epopéia-lírica de São Luís
O leitor culto ao ser interpelado sobre quem representa o cânone da poesia maranhense pensará imediatamente em Gonçalves Dias. Mas eu creio que José Chagas apresenta qualidades superiores às do cantor de Os Timbiras.
Na poética romântica de Gonçalves Dias, a palmeira tem apenas o valor de palmeira, as várzeas são apenas várzeas, e as flores apenas flores. N’Os Canhões do Silêncio – grande epopéia mítico-telúrica – os mirantes são mais do que mirantes, e os cupins e ratos roem o tempo. Da janela do mirante, o poeta observa a cidade e contempla o tempo mítico – de feitos perdidos no passado; o tempo histórico – dos registros, das datas, do patrimônio colonial; o tempo laboral – dos transeuntes ocupados com o imediatismo da vida urbana; finalmente, o tempo poético – que assiste a todas essas sobreposições e interposições de camadas temporais.
O mirante, velho conhecido na paisagem arquitetônica de São Luís, torna-se uma espécie de zigurate que o transporta para as mais inquietantes indagações existenciais.
Em “Minha terra tem palmeiras/onde canta o Sabiá”, o pássaro pode, de fato, ser interpretado como o poeta longe da pátria. José Chagas rende o seu tributo a Gonçalves Dias e, seguindo o caminho de muitos, parafraseia a sua própria Canção do Exílio. Acontece que Chagas acaba superando a versão original. Em lugar do sabiá, o autor de Os canhões do silêncio recolhe um bem-te-vi de sua janela especulativa. Enquanto o sabiá gonçalvino gorjeia, o bem-te-vi, além de cantar, medita:

São Luís tem cumeeiras
Onde canta o bem-te-vi,
E aves outras, estrangeiras,
Não cantam como as daqui.

Em cismar sozinho eu sinto
Quase a certeza de que
Um velho amor nunca extinto
No bem-te-vi bem se vê.

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte sempre aqui
Liberto e com a alma forra
Como a desse bem-te-vi.

O pássaro de Chagas não só canta e medita como tem alma... e uma alma livre. É ele quem lembra ao poeta o segredo do sonho apanhado em silêncio como grão da paz. E, sem essa paz, a manhã não tem as mesmas cores.

Sei todo dia, bem cedo
O que ele bem viu e diz
Como quem conta um segredo
Antigo de São Luís.

Sua cantiga se faz
Tão necessária à manhã,
Que sem ela aqui a paz
Seria uma coisa vã.

Canta, bem-te-vi, agora,
Que amanhã talvez não cantes,
E só tua alma sonora
Voará nesses mirantes.

Canta enquanto o canto encanta
Teu sonho de aurora pura,
E o sol te aquece a garganta
Nessa manhã de ventura.

Canta esse canto que é bom
Na alvorada merecida.
Quem tira da vida um som
Põe tudo o que é bom na vida.

Canta, bem-te-vi do mundo,
Para que o céu bem te veja,
E o teu som seja profundo
Como o de um sino de igreja.

Canta, canta, ó ave irmã,
Que eu bem te vejo e te ouço:
Teu canto inventa a manhã
E faz o mundo mais moço.

Canta, bem-te-vi amigo,
Canta o passado e o futuro,
Que aqui me embalo contigo
Num canto anônimo e puro.

E canto neste mirante
Embora só por cantar,
Pois sei que meu canto errante
Se esvai como o teu, no ar.

Nas últimas estrofes, resta claro que o relativo anonimato de José Chagas, seu isolamento do circuito literário nacional, parece ser consciente e até deliberado. Ele não aspira ao isolamento por orgulho, nem o lamenta de alma ferida. Simplesmente aceita essa condição como um fato necessário ou inevitável: “Resta, porém, a certeza/de que o canto era preciso,/e cada manhã acesa/contava com o nosso aviso”.
Chegando à metade deste ensaio, fica claro para mim que a consciência de um canto “anônimo e puro” liberta o poeta da aspiração da glória, da vaidade, do laurel imarcescível que eu – frívolo incorrigível – lhe atribuo. O poeta escreve simplesmente como a natureza produz seus sons, porque “o canto era preciso” e esta é uma exigência das manhãs. Um amigo me disse que o verso é como o barulho de um regato: rebenta mesmo se ninguém se dispõe a escutá-lo.
Isso pode exalar um aroma de melancolia, mas José Chagas parece sentir-se bem na companhia “apenas” do seu bem-te-vi imaginário. A discussão sobre essa “solidão exterior” remete-nos a outra, já abordada anteriormente, a que chamamos “solidão interior”. É uma solidão que pode ocorrer mesmo na presença de convivas. Solidão de dentro. Da alma. “Quem é de mirante/é de solidão/solidão constante/seja só ou não”.
Recordo que Heitor Villa-Lobos, quando indagado se não lhe incomodava o apito do trem que passava à porta de sua casa, deu a intrigante resposta de que o ouvido de dentro não se confunde com o ouvido de fora! O artista vive essa tensão entre o necessário recolhimento e a inevitável exposição à vida. Entre ser poeta e ser cidadão, amigo, irmão, pai de família. José Chagas elabora melhor essa condição na metáfora do gato:

Também o gato é leve
caminhando num fim de tarde

o peso de sua sombra
se incorpora aos muros
e o gato não é senão
a presença em pelo dessa sombra
em forma de gato
desenhada no ar

O gato chega a esse fim de tarde
ao longo de um caminhar
de mais de trezentos anos
e os telhados o reconhecem
como a testemunha mansa
de todas as forças do tempo
que agora se ocupa inteiro
na preparação da noite
(...)

Longo sobre o muro
dá à tarde rasa
seu silêncio puro
de animal de casa,
de bicho macio
que afeito a carinho
goza o desafio
de se ver sozinho.

Àqueles que não leram ainda Os canhões do silêncio cabe aqui uma nota. Trata-se de um só poema cujo fluxo ignora a forma livre ou metrificada, transitando de uma para outra sem solução de continuidade ou perda do ritmo narrativo. O autor exercita pelo menos 5 metros distintos (o de três, quatro, cinco, sete e dez pés), além da forma livre. O ritmo do livro constitui-se precisamente das variações na extensão dos versos. Antes que o ouvido humano se canse da pulsação métrica, o poeta conduz as águas do poema-rio para um novo leito, mais estreito ou mais extenso, numa alternância de embalos. Ora as idéias fluem ligeiras nas calhas apertadas de redondilhas menores, ora espreguiçam-se no langor discursivo de frases mais longas.
Poder-se-ia escrever um ensaio à parte exclusivamente dedicado à análise dos bichos que aparecem na poesia de José Chagas, sobretudo em Os canhões do silêncio. O gato; os pombos; a barata, os ratos e o cupim; o cavalo da morte; a andorinha; o urubu – todos dotados de profundo significado. Também os objetos inanimados como o mirante, a janela, os telhados tornam-se vivos e conversam conosco, testemunhando o rastro do tempo.
N’Os canhões do silêncio, o mar não é simples componente da paisagem, agradável à vista. O mar é símbolo do infinito, da eternidade. Mesmo quando o poeta se recusa a sondar o mistério, é este quem o procura: “Que mar é esse/que me rodeia/com interesse/de maré cheia?”. Uma sucessão de indagações desemboca afinal num belíssimo soneto dedicado a Gonçalves Dias, cujo mergulho no mar foi um mergulho na eternidade. Naufragado na Baía de São Marcos, sua morte o imortalizou. O poeta lendário veio morrer em sua terra, embora não em terra firme, e, sem ter sido atendido, teve atendida a sua prece – “Não permita Deus que eu morra/sem que eu volte para lá”. Entrou no mar infinito... e assim tornou-se mais presente e palpável do que no cemitério.
Devo ainda uma explicação sobre o motivo por que classifiquei Os canhões do silêncio como epopéia-lírica. Que essa obra tem de épico? Certamente, distingue-se da epopéia no sentido clássico, ao estilo de Tasso ou de Camões, pois não versa sobre feitos guerreiros ou heroicos. É épico na medida em que narra a condição solitária do poeta assistindo à degradação do ser e à deterioração da cidade. É um heroísmo de comparecer sozinho ao chamado do mirante...
Na epopéia-lírica de Os canhões do silêncio desaparecem as idéias de um povo destinado a grandezas e de um autor que se imortalizou por cantá-las. O verdadeiro poeta almeja a paz, e esta é de certo modo incompatível com a fama. Daí que só possa ser considerado épico naquele outro sentido, na medida em que conta a saga do que caminha para o fim. É um drama, ao mesmo tempo, individual e coletivo: a cidade e o “eu-lírico” rumam para o abismo do tempo. A existência vai-se apagando melancolicamente. Os canhões silenciam. Como no Bolero de Ravel, ouve-se o toque triste e triunfal de quem marcha para uma sentença de morte.


Em busca da inocência perdida

A partir dessa visão peculiar sobre passado e futuro, chega-se à última lição da Escola do Sonho.
A Modernidade caracteriza-se pela crença no futuro. De um lado, os liberais e sua crença no indivíduo; de outro, os socialistas e sua crença no Estado. Ambos parecem adversários, mas na verdade são frutos de uma mesma mentalidade: a razão progressista. No Brasil, acima dos conflitos aparentes das legendas partidárias, nenhuma voz discordante ousa questionar o desenvolvimentismo dominante desde 1930.
Creio seriamente que ainda está para ser escrita uma Crítica da Razão Progressista, mas essa é outra discussão. O fato é que, como todo grande poeta tem muito de filósofo, a cantiga de José Chagas subverte a cantilena do senso comum brasileiro: em vez de buscar num futuro utópico a construção de uma Terra-Sem-Males, o poeta procura numa infância mítica o estado de pureza que a alma envilecida pela crueza do mundo corrompeu.
José Chagas está constantemente em busca dessa inocência perdida. Ele sofre por haver-se distanciado da paz genuína daquela gente simples de Santana dos Garrotes:
SONETO 12
Minha mãe não sabia que seu filho
iria ser só isso que hoje é,
nem sabe agora que por onde trilho
piso mais chão de mágoas que de fé,
e esse pó de incertezas que palmilho
obriga-me a voltar na vida até
onde, fechado em solidão, me humilho,
a acompanhar um sonho em marcha à ré,
lembrando o tempo em que eu plantava milho
a abrir o chão da vida com o meu pé,
e mamãe repetindo em estribilho,
toda manhã, na hora do café,
meu nome tão de santo, mas sem brilho,
hoje muito mais chagas que José.

SONETO 8
Meu pai sabia a vida, e o seu destino
era o de quem não diz e apenas faz,
dando-me o testemunho nordestino
de homem comum que não corria atrás
de ilusões gastas pelo desatino,
pois bem sabia o que era ser capaz,
e orvalhado no sonho matutino,
laborava o seu dia e era sagaz
ao me testemunhar do ser menino
até o quanto em mim se fez rapaz,
quando meti as mãos pelo destino,
sem me importar com o que o destino traz,
e hoje o que peço aos céus, quando o imagino,
é que eu não seja um peso em sua paz.

LXXXVII
E eu traí a mim mesmo e aos companheiros,
pois passei a lavrar noutro terreno,
latifúndio verbal de mil posseiros,
e sendo sempre um lavrador pequeno,
que, embora plante sonhos verdadeiros,
nunca faço o plantio ficar pleno
de frutos, como o de outros fazendeiros,
e às vezes me deparo com o veneno
de serpentes em botes traiçoeiros,
ou jogam-me águas sujas, mas eu dreno
o chão onde cultivo os meus canteiros
com carinhos de sol e de sereno
e, esmagando os insetos mais rasteiros,
é para o céu que eu olho e que eu aceno.

Sua vida está assim arremessada entre a impossível conquista da paz que o vento do destino apagou e a reconquista de outra paz duradoura. É a síntese filosófica de uma nova relação passado/futuro proposta no livro De Lavra e de Palavra...

O Óleo da Tocha: Tradição e Despedida
Este ensaio não pretende ser um estudo acadêmico da obra de Chagas, daí minha informal despreocupação no protocolo das referências bibliográficas, bem como das citações e até da metodologia empregada, que o leitor indulgente perdoará.
A Escola do Sonho resume tudo o que aprendi com José Chagas: a poesia colhida em silêncio; o exercício da técnica verbal; as riquezas da infância; a transcendência da realidade partindo sempre da experiência imediata; a dívida com a tradição familiar e suas raízes.
Num fragmento lapidar, G. K. Chesterton assim definiu a tradição: “Nunca consegui entender onde as pessoas foram buscar a idéia de que a democracia de algum modo se opunha à tradição. É óbvio que tradição é apenas a democracia estendida ao longo do tempo [...]. Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, os nossos antepassados. É a democracia dos mortos. [...] Todos os democratas objetam a desqualificação pelo acidente do nascimento; a tradição objeta a desqualificação pelo acidente da morte. A democracia nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso criado; a tradição nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso pai. Eu acrescentaria: a tradição é o fio condutor da história. Reconhecê-la é reconciliar-se consigo, pois é preciso descer às próprias origens para entender a si mesmo.
            Como jovem escritor, confesso a pretensão de sentir-me herdeiro da tradição de José Chagas. Não vai nessa afirmação a presunção de ombrear-me a ele, mas o reconhecimento grato do quanto lhe devo no aprendizado da literatura.
            Este livro é, assim, uma visita de cortesia que uma geração oferece a outra. Só por isso vocês me perdoarão o cabotinismo incorrigível, mas não resisto à tentação de concluir o presente ensaio com um poema...
Para muitos, a crítica literária deveria ser objetiva, solene e catedrática. Mas eu não passo de um crítico literário por acidente, leitor apaixonado e poeta amador que financia do bolso suas próprias edições, privado da erudição que me permitiria melhor interpretar José Chagas e situá-lo com exatidão no panorama da literatura ocidental.
Deixo simplesmente no túmulo do poeta maior o presente pueril que um menino exultante corre para oferecer ao mestre:
            A JOSÉ CHAGAS

Na tua escola do sonho,
tive as primeiras lições,
e hoje o que eu mesmo componho
são decalques de canções

mal traçadas, onde exponho
as tenebrosas visões
do meu preparo medonho
para a ceia dos leões.

Mas, se o meu canto carece
daquela forma mais pura
que o mestre faz e desfaz,

o que mais ele procura
é ser um pranto de prece:
que Deus me ensine a tua paz.




[1] Seus livros sequer constam do catálogo da Livraria Cultura, da Saraiva, da Amazon e outras distribuidoras de porte equivalente. Entretanto, sua Antologia Poética organizada pelo erudito Sebastião Moreira Duarte e outros títulos como Os canhões do silêncio são encontráveis em sebos do Brasil inteiro, disponíveis em www.estantevirtual.com.br.