sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Mínimas



I

Na vida real, a maldade nem sempre é punida. A estupidez sempre é.


II


Atingir a iluminação espiritual é como ter um orgasmo: depois que acontece, tudo fica mais claro.



III


Casar é perder metade da cama.



IV

Alemão: a besta loira ou o loiro besta?


V


A força faz a união.
 


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre os Brtrzslyxzhzsgy







Eduardo Siebra, 16/10/13                    


            Na sétima dimensão, ou seja, numa projeção geométrica de realidade incompreensível para os seres humanos, vive uma forma de criatura consciente chamada brtrzslyxzhzsgy. Por mais que tentássemos, jamais conseguiríamos entender seu modo de existência: suas mentes não estão – como as nossas – amparadas na matéria, mas sim numa complexa rede relacional de incidências de vibrações no continuum espaço-temporal. Eles não possuem forma ou extensão – ao menos segundo as definições humanas destes conceitos – o que significa que aquilo que nós tentaríamos definir como seus corpos estão, na verdade, dispersos em posições aparentemente aleatórias, que perpassam diferentes e longínquas regiões do Cosmos. Na verdade, a idéia de individualidade só é possível aos brtrzslyxzhzsgy porque eles definem suas próprias consciências – ou seja, sua noção de eu – a partir de contrastes de uma série ininterrupta de avanços e recuos temporais das poucas partículas estritamente físicas que estão associadas à sua existência. Tais séries – que pareceriam aleatórias mesmo aos mais poderosos computadores já criados pelo homem – seguem, na verdade, um intricado padrão matemático, e todo brtrzslyxzhzsgy sente-se único justo por intuir que o seu padrão é singular e irreproduzível.
            Só poderíamos nos referir à comunicação brtrzslyxzhzsgyana por meio de metáforas. Como se sabe, a tremenda explosão que deu origem ao mundo provocou um eco que até hoje reverbera pelo universo. A sofisticada mente dos brtrzslyxzhzsgy está praticamente imersa nessa reverberação, e ela é capaz de reproduzi-la harmonicamente, em padrões referenciais ligeiramente distintos um dos outros, o que os torna inteligíveis às mentes dos demais brtrzslyxzhzsgy. Numa simplificação grosseira, poderíamos tentar explicar dizendo que a língua dos brtrzslyxzhzsgy é uma eterna e contínua variação sobre a canção de nascimento e morte do mundo.
            Por existirem num patamar diferente da realidade e por possuírem características físicas tão alienígenas, estamos conceitualmente e absolutamente impedidos de conhecer ou de estabelecer qualquer forma de comunicação com os brtrzslyxzhzsgy. A verdade é que a todo instante e em vários lugares manifestações espúrias da consciência brtrzslyxzhzsgyana perpassam o Planeta Terra sem que nós, humanos, pudéssemos nos dar conta da proximidade destas criaturas nem eles, brtrzslyxzhzsgy, pudessem suspeitar da existência de uma sociedade como a nossa neste nível de realidade. Os brtrzslyxzhzsgy vivem num recorte diferente do universo, e talvez uma descrição das características de um ser humano para um indivíduo brtrzslyxzhzsgy soasse tão alienígena quanto nos soa a descrição de seu modo de vida.
            Deixando de lado, porém, os aspectos mais abstrusos a respeito da existência brtrzslyxzhzsgyana, a verdade é que essas criaturas são muito mais parecidas com nós do que poderíamos imaginar. O que se entende mais facilmente quando se considera o caso de Cstrhjshkzlay.
            Todos os dias metempsicóticos, Cstrhjshkzlay vai trabalhar. Ou melhor, para ser verdadeiramente preciso, seria necessário dizer que Cstrhjshkzlay projeta sua consciência numa determinada amplitude de vibrações das supercordas, de tal modo que ele pode usar sua capacidade de concentração e de criatividade para sincronizar seus fluxos cronológicos com a prospecção de metarreverberações. Num gigantesco organismo formado por dezenas de milhares de brtrzslyxzhzsgy que vibram em conjunto, pode-se dizer que as próprias forças fundamentais que constituem o universo são coletadas, de modo a tornar possíveis os diversos objetivos funcionais da sociedade brtrzslyxzhzsgyana. 
            Parece complicado, mas é bem mais simples – e prosaico – do que soa à primeira vista. Cstrhjshkzlay, na verdade, anda até um pouco entediado com seu trabalho. Do ponto de vista de seus colegas, naturalmente, esse enfado é completamente injustificado. Poucos são os brtrzslyxzhzsgy que tem a oportunidade de ocupar uma função tão interessante quanto a de coletar as metarreverberações cosmogônicas. Os critérios seletivos são rigorosos, e apenas as mentes mais aguçadas tem uma chance de conseguir o emprego. Além disso, o ambiente de trabalho é impressionante, mesmo para os padrões multiplanares dos brtrzslyxzhzsgy: oscilações ininterruptas de estalos transcendentais são canalizadas por vigorosas redes plurimentais intencionalmente elaboradas para literalmente sugar o poder criativo cósmico. Lapsos momentâneos de ordem e caos absoluto alternam-se seguindo padrões que, segundo alguns teóricos mais imaginativos, talvez reflitam mensagens gravadas na própria conformação da realidade. Como resultado, forma-se uma verdadeira nebulosa de transconsciência, de modo que os brtrzslyxzhzsgy que lá trabalham têm a oportunidade de se comunicar com entidades inteligentes ou semi-inteligentes de diferentes ontologias identificadas.
Cstrhjshkzlay, para bem dizer a verdade, acha aquilo tudo um saco. Naquele dia metempsicótico específico, ele estava especialmente mal-humorado.
            – Olá, Cstrhjshkzlay, como vai o senhor?
             – Vou bem, Frgbbnhjktre.
            – As antinomias de ontem já estão em sua tabula rasa.
            – Ah, maravilha. Pode deixar que hoje eu as decifro.
            Porcaria! Isso significava que Cstrhjshkzlay teria um longuíssimo dia fazendo um trabalho árido, obrigando-o a ficar num estado de concentração forçada que era de encher o saco de qualquer um.
            Cstrhjshkzlay acoplou sua miríade geométrica ao feixe de pólipos da crisálida e despencou sobre o caleidoscópio.  
            – Ora merda! – bufou, e contemplou, mal humorado, o espetacular fluxo de metarreverberações passando diante do ultrahiperdodecaedro onde ele passava maior parte de sua jornada de trabalho. Cstrhjshkzlay suspirou e, antes de se debruçar sobre as atinomias, convergiu suas filigranas sensíveis para um livro – um padrão sintético cognitivo materializado aprioristicamente, na verdade – que ele havia deixado jogado por ali.
            Criaturas capazes de comunicação e conhecedoras da noção de individualidade[1], os brtrzslyxzhzsgy desenvolveram uma rica vivência intelectual. Naquilo que aproximativamente poderíamos chamar de passado[2], os brtrzslyxzhzsgy dedicaram-se à contemplação do universo e à reflexão sobre os mistérios da vida. Muitos livros foram escritos sobre as grandes e profundas questões, e houve uma era em que se considerava que, para ter uma vida plena, um brtrzslyxzhzsgy deveria buscar o auto-conhecimento através da reflexão.
            Auto-reflexão uma ova! – teria dito Cstrhjshkzlay, em nosso idioma. Fazia mais de 200 dias metempsicóticos que ele estava tentando apreender o significado transcendental daquele livro – um intrincado tratado sobre a possibilidade epistemológica de um conhecimento inato, ou seja, o equivalente brtrzslyxzhzsgyano da Crítica da Razão Pura. Só que, por causa do trabalho, ele não tinha nem tempo nem sossego para acompanhar os intrincados raciocínios.
            Na rabugenta opinião de Cstrhjshkzlay, os brtrzslyxzhzsgy todos estavam praticamente obcecados com a idéia da prospecção de metarreverberações. Claro, tinha todo aquele lero-lero de que aquilo tornava a vida mais conveniente, que os brtrzslyxzhzsgy de hoje viviam muito mais confortavelmente do que antes, com acesso a um quantum muito maior de metarreverberações. Cstrhjshkzlay não se importava que as outras pessoas acreditassem naquele monte de abobrinhas, mas justo ele ter que viver a vida inteira assim, coletando essas malditas metarreverberações! Ele, que tanto havia sonhado em se tornar um estudioso de psicocosmologia quando era jovem...  Tudo bem que ele havia escolhido o emprego, e que ele era metarreverberativamente bem remunerado pelo seu trabalho. Mas ao custo de que?  Do lócus biônico da liberdade e da reflexão, ou seja, tudo o que Cstrhjshkzlay mais desejava para si.
             Ele já havia tentado explicar suas opiniões a alguns de seus amigos mais íntimos. Alguns até concordavam, mas a verdade é que ninguém gosta de gente resmungona, seja nesta, seja na sétima dimensão. Todos achavam que Cstrhjshkzlay reclamava de fractal cheio: seu emprego era bom, e se ele quisesse tanto assim continuar seus malditos estudos de psicocosmologia, que tivesse ao menos a dignidade de tomar uma decisão e fosse atrás do seu sonho. Ficar choramingando era que não ia resolver o problema.
            “Falar é fácil.” – pensava Cstrhjshkzlay, quando lhe sugeriam largar o emprego. Ele sabia que se ele deixasse a firma para estudar psicocosmologia – das disciplinas mais interessantes e, portanto, mais inúteis jamais concebidas pelos brtrzslyxzhzsgy – com toda a probabilidade mais cedo ou mais tarde ele teria o mesmo destino de tantos brtrzslyxzhzsgy desocupados, ou seja, ele iria se amalgamar à transnebulosa de inação plena. A coisa não tava fácil para ninguém: a sociedade era de tal modo organizada que, sem uma fonte estável de metarreverberações, um brtrzslyxzhzsgy era a obrigado a ganhar a vida vendendo partículas quânticas em ângulos agudos.
            – Bem, vamos lá... – suspirou novamente Cstrhjshkzlay, resignando-se ao desinteressante dia que o acaso e sua falta de colhões lhe havia reservado. Quando se preparava para iniciar a criptosintaxe, ele ouviu alguém lhe dizer:
            – Cstrhjshkzlay, meu velho, tudo bem?
            Era Ztkzwgbtwow.
            – Ahn? Ah, oi, Ztkzwgbtwow...
            – Você vai para o sbrbles?.
            “Que o X’Aarn os devore!”, pensou Cstrhjshkzlay.
            – Ainda não sei, vai depender da Mngqstrbvca.
            – Ah, pode deixar que eu falo com ela. Não aceito desculpas, quero os dois lá, hein?
            – Não se preocupe, vou fazer o possível para ir.
            – Pra que trabalhar tanto se não se pode sbrblar com os amigos, não é?
            – É verdade.
            Assombrados por visões de desagregação cósmica, Cstrhjshkzlay pensou que talvez ele estivesse precisando de férias. Férias no Grande Vortex Primordial – não era pra lá que Mngqstrbvca queria ir? Talvez fosse interessante mesmo, todo mundo falava que era realmente uma viagem inesquecível. Ou talvez eles pudessem contemplar a orla do X’Aarn, o que definitivamente seria uma experiência muito mais emocionante – perigosa, inclusive.
            Mas será? Será que um intervalo de sossego resolvia o problema? Cstrhjshkzlay estava desestimulado com sua rotina, e interrompê-la poderia ser, se muito, uma fuga temporária.
            Cstrhjshkzlay vasculhou seu entorno ontológico com suas filigranas sensíveis. A velha bagunça de sempre – um coágulo de pontos fixos no infinito que Mngqstrbvca lhe havia dado de presente, o feixe de ângulos hiperdimensionais que ele havia prometido a si mesmo organizar meses metempsicóticos atrás, e sua coleção de livros, logo atrás do imperativo moral que ele era administrativamente obrigado a pendurar na parede teleológica.
            Cstrhjshkzlay             tinha praticamente uma coleção completa de filosofia brtrzslyxzhzsgyana no seu ultrahiperdodecaedro. Eram algumas dos principais testemunhos intelectuais de sua espécie – verdadeiros monumentos do antigo amor dos brtrzslyxzhzsgy ao conhecimento. Será que algum dia ele teria tempo de lê-los? Como, se ele passava a vida inteira coletando metareverberações?
            Metareverberações... Sim, dá para fazer muita coisa com metareerberações. Mas a verdade é que a maior parte dos brtrzslyxzhzsgy do passado tinha vivido suas vidas inteiras sem jamais precisar de uma única maldita metareverberação! Isso, claro, mudou radicalmente depois da ivenção do motor à metareverberação, durante a revolução trigonométrica, mas o que Cstrhjshkzlay tinha a ver com isso? Ele não havia escolhido as prioridades idiotas de seu mundo: por que, então, deveria se conformar a elas?
            Largar tudo... Será? Será que ele conseguiria, depois de ter se acostumado ao estilo de vida que tinha? E o que Mngqstrbvca iria dizer? E se depois ele se arrependesse?
            Ah, reclamar não resolvia o seu problema! Por sinal, ele não podia terminar aquele dia sem decifrar a porcaria das antinomias em sua tábula rasa. Era preciso deixar de pensar em suas angústias e se concentrar no trabalho. Ele contraiu suas filigranas, reverteu sua entropia marginal e respirou fundo.
            Vamos lá. Vejamos. A primeira antinomia dizia mais ou menos assim: “O que é, não é.”
             – O que é, não é. – repetiu Cstrhjshkzlay, em voz alta, ou o que quer que corresponda a isso no universo brtrzslyxzhzsgyano. Aquela proposição, por alguma razão que não conseguia entender, o deixou ainda mais triste.
            “Se o que é, não é” – pensou Cstrhjshkzlay, iniciando sua rigorosa análise criptosintática – “então eu não apenas não sou um brtrzslyxzhzsgy, como eu tenho um trabalho interessante, que me satisfaz profundamente. Afinal, poder fazer parte da prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna, sob os mais diferentes aspectos. Eu estou dando uma contribuição importante e insubstituível à sociedade, e isso por si só é o bastante para dar um sentido à minha vida.”
            Ele parou, olhou para o imperativo categórico na parede teleológica e continuou:
            “Eu faço o que eu faço porque eu quero. Foi um exercício de liberdade que me colocou nesta situação, e sendo assim eu não tenho do que reclamar. Eu gosto dos meus colegas de trabalho, eu gosto da Frgbbnhjktre, gosto até mesmo do Ztkzwgbtwow. O Ztkzwgbtwow não é um tremendo filho da puta. Tenho que parar de ser resmungão.”.
            O segredo da antinomia parecia estar aos poucos se revelando para Cstrhjshkzlay.
            “Ser protagonista do próprio destino não é uma pré-condição da felicidade. O auto-conhecimento não torna as pessoas necessariamente melhores, e tudo o que podemos esperar da vida é fazer o melhor com aquilo que nos foi dado. É um erro imaginar que um brtrzslyxzhzsgy possa ir de encontro ao seu destino, ou criar uma realidade nova. A arte de viver é a arte de fazer o possível. A prospecção das metarreverberações é uma atividade útil e digna. Quando voltarmos á desagregação primordial de que saíram nossas consciências, as escolhas que tenhamos feitos ao longo de nossas vidas não farão a menor diferença, desde que nós tenhamos deixado uma marca no coração das pessoas.”
            É isso. Cstrhjshkzlay era bom em criptosintaxe, por isso ele havia conseguido aquele cargo. A primeira antinomia estava resolvida. Ele registrou, no grande aparato de ampolas cibernéticas retroflexas, a resposta para o problema:
            “O que é, é”.
            Cstrhjshkzlay pôs a antinomia resolvida em seu escaninho de saída e pegou a próxima na pilha.
            “O que será, não será.”
            – Essa é mais difícil. – murmurou Cstrhjshkzlay, com seus botões, antes de continuar sua análise criptosintática.  – Será um longo dia...


[1] Ao contrário, por exemplo, do terrível e tenebroso X’Aarn,  que confunde sua própria existência com a do universo inteiro e que, por isso, deseja devorar tudo o que existe para trazer de volta toda diferenciação indesejada para o conforto eterno da morte que há dentro de si.
[2] Observe-se, aqui, que a noção de passado para os brtrzslyxzhzsgy não está relacionada, como para nós, ao fluxo da entropia, ou seja, à passagem do tempo, mas sim a uma noção de profundidade definida em relação ao que a mente brtrzslyxzhzsgy entende como o coração quintessencial do Ser.

domingo, 27 de julho de 2014

Rachmaninoff e Fra Angelico: uma aproximação estética



Frederico Luiz, Ciudad del Este 


Escuto música e fico a imaginar... hoje à noite num teatro ou numa igreja qualquer da imensa Rússia um coral canta as VÉSPERAS Op. 37 de Sergei Rachmaninoff. Vésperas são as orações de fim de tarde dos monges. No caso das Vésperas de Rachmaninoff, trata-se de música sacra composta para a Missa da Vigília Pascal, isto é, a noite do Sábado de Aleluia.



Segundo o costume judeu, o dia acaba com o pôr-do-sol, e não com o relógio da meia-noite. Assim, na noite do Sábado Santo os cristãos celebram os primeiros instantes da ressurreição do Senhor, quando os anjos mal haviam rolado a pedra da sepultura e Jesus ainda não subira para a glória celeste. No Sábado, a glória da ressurreição ainda não estava completa. Tudo se consumaria no Domingo.

Por que, em pleno século XX, Rachmaninoff escolheu o canto polifônico renascentista?

Escuto música e fico a imaginar... Talvez porque quisesse dar a sensação de um acontecimento sublime, profundo, mas ainda não definitivo. Pois quem já escutou, por exemplo, o famoso GLÓRIA de Vivaldi fica na expectativa de alguma explosão que nunca se realiza nas VÉSPERAS de Rachmaninoff, explosão de instrumentos que nunca chega a acontecer.

É como se a música ficasse em suspenso, como no NOLI ME TANGERE de Fra Angelico (1387-1455).








- Não me retenhas, Maria, porque ainda não subi ao Pai, mas vai dizer aos meus irmãos que subirei ao Pai” (Jo 20, 17).

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Habemus Copam Ou Da Teoria Brasileira da Ordem e Progresso


Alguém claramente deixou a preparação da abertura da Copa para última hora

Eduardo Siebra, Pyongyang,  10 de julho de 2014



            Muito se escreveu na imprensa sobre os problemas na preparação da Copa do Mundo de 2014: os atrasos na entrega dos estádios e aeroportos, os problemas de segurança, os protestos, etc. Alguns chegaram a duvidar que fosse haver uma Copa: o campeonato iria se tornar um fiasco nacional – prova da total incapacidade do povo brasileiro de organizar um evento tão grande.
            Mas, ainda que o resultado das partidas não esteja saindo exatamente como nós queríamos (sete a um foi fogo!), há Copa do Mundo. Os jogos têm acontecido sem grandes incidentes (para os padrões de qualidade vigentes entre o equador e o trópico de capricórnio, pelo menos), os turistas têm se divertindo às mil maravilhas e mais uma vez, contra todas as expectativas, o Brasil mostra sua prodigiosa capacidade de resolver tudo na véspera.
            Por que isso? Depois de alguma meditação sobre o fenômeno e sobre nosso caráter nacional, cheguei à conclusão de que existe um claro padrão em nosso comportamento. Por maior que seja a desorganização, sempre as coisas dão certo no final. Coincidência? Claro que não. A imagem do brasileiro desleixado não passa de um pré-conceito etnocêntrico dos que tentam julgar nossos métodos de administração usando critérios nipônicos. É um equívoco que nasce do desconhecimento de nosso sofisticado método de gestão do caos.
Poder-se-ia até pensar que as palavras “ordem e progresso” estampadas na nossa bandeira não passam de um lapso de bem-humorada ironia dos fundadores de nossa República. Eu digo que é o oposto, que é coisa muito séria. Não esqueçamos que a principal ideologia que inspirou a Proclamação da República foi o positivismo. Quero provar que o nosso jeito de ser é, na verdade, extremamente calculista e fiel a um espírito de rigoroso cientificismo! 
Como, se o Brasil parece ser o país mais esculhambado do orbe? O que acontece é que, enquanto a racionalidade cartesiana fica enfurnada quebrando a cabeça com cálculos diferenciais,  a racionalidade tupiniquim é morena, toma caipirinha e vai à praia aos sábados. Já está passando da hora de alguém se levantar contra essa estória de dizer que o povo brasileiro é desorganizado, e de apresentar ao mundo a mais original das nossas criações: a Teoria da Ordem e Progresso.
Na base dessa concepção está a percepção existencial de que a coisa mais valiosa do mundo é a vida humana. Enquanto um romancista francês precisa em média de 2.000 páginas para encontrar o tempo perdido com a escrita dessas mesmas 2.000 páginas, todo brasileiro tem plena, total e absoluta consciência de que o mais precioso dos bens é sua vida – ou, o que dá no mesmo, seu tempo ocioso. Essa percepção nasce do singelo fato de o brasileiro viver num ambiente onde a temperatura das águas dos rios permanece adequada para banho durante o ano inteiro.
Os povos que vivem em latitudes mais altas que as nossas estão sujeitos a radicais mudanças de temperaturas ao longo do ano. Quando o inverno chega, um indivíduo – ou cigarra – que não tenha se preparado simplesmente morre de fome ou de frio. Nos trópicos, ainda que seja verdade que o índio que quer comer uma tapioca quentinha precisava se dar ao trabalho de plantar mandioca e depois fazer a farinha, a escassez das regiões temperadas jamais é sentida com a mesma intensidade. Em maior parte do nosso território, o clima oscila entre quente, mais quente ainda e quente pra chuchu, o que significa não apenas que nossos ecossistemas são mais exuberantes de pitangas e cajus, mas também que durante o ano inteiro é agradável pular na água.
Não é à toa que quando os portugueses aportaram em nossas praias, nossos índios estavam pelados, alguns gostosamente se balançando numa rede. Para entender quão relevante é, de um ponto de vista histórico, a inexistência de formas autóctones de civilização superior em território brasileiro, é preciso recordar que, segundo as teorias mais autorizadas, nossos índios chegaram à América vindos da Ásia pelo Estreito de Bering (ou por grandes navegações transoceânicas). Se aqueles tabaréus que saudaram tão amistosamente Cabral e Pero Vaz de Caminha nas praias baianas viviam em ocas de palha, definitivamente não era por falta de capacidade cognitiva: esses índios eram nada menos que um bando de japoneses e chineses que migraram para essas bandas numa remota era!
Imaginem só... Enquanto seus parentes tiveram que lidar com todo a chateação implícita na idéia de civilização – ou seja, ábacos, katanas, harakiri, milhares de ideogramas e um modelo desenvolvimentista com foco nas exportações – nossos asiáticos podiam simplesmente passar a tarde agradavelmente deitados numa rede, aproveitando o incrível azul de nosso céu. Para que estresse com criações industriosas, se eles podiam desde já aproveitar o ápice de prazer que a sociedade pós-industrial globalizada pode proporcionar – eternas férias num resort tropical cheia de belas nativas?
Eu diria que essa é a percepção fundamental da psique brasileira ainda hoje: sempre que você está sozinho dentro de casa fazendo o que quer que seja, há alguém se divertindo numa festa, ou tomando banho de piscina, ou bebendo cerveja gelada. Pior ainda: em todo e qualquer instante em que você estiver trabalhando, há alguém tomando banho de cachoeira, comendo siriguela, pescando no Rio Tocantins, ou, pior de tudo, fazendo sexo.     
Se transpuséssemos nosso “eu” imaginário para um país de cultura mais diligente – a mesma Alemanha que tão amargamente nos desclassificou na Copa, digamos – a intuição seria muito diferente. Sempre que alguém está sozinho dentro de casa, no mesmo instante haverá alguém redigindo sua tese de doutorado sobre Habbermas, arduamente empenhado num trabalho administrativo enfadonho mas de claras implicações sociais, treinando de forma séria e profissional a seleção de futebol ou simplesmente resmungando sobre como o clima está porco neste inverno. No caso extremo da Suécia, onde a pessoa que fica deitada descansando claramente sente mais frio do que aquela que aquece seu corpo com os repetitivos movimentos do trabalho pesado, não é à toa que os indicadores econômicos sejam tão positivos. 
Todos esses arrodeios são para provar que o homo brasiliensis fez a sua escolha. Exportar smartphones dá muito trabalho, e exigiria de nossos estudantes uma quantidade inaceitável de horas trancafiados em salas de estudo. Resumindo o problema: ao estudar, nosso estudante universitário tem muito mais a perder do que o estudante coreano – que, além de ter que enfrentar os gélidos ventos da Manchúria no inverno, tem como alternativa ao estudo a paquera, por mensagens de telefone, com as coreanas – que, apesar de lindas, são as mais confucianas[1] das mulheres leste-asiáticas. Não é determinismo geográfico, é apenas o desdobramento da percepção de que pessoas inteligentes, quando confrontadas com uma opção, escolherão, via de regra, aquilo que mais lhes favorece. Em linguagem econômica, poderíamos dizer que o custo de oportunidade de estudar ou de trabalhar nos trópicos é alto demais para que essas atividades sejam levadas a sério por um indivíduo capaz de fazer escolhas racionais.
O princípio nuclear da mundivisão brasileira é a lei do esforço mínimo. Essa é a expressão suprema de nosso espírito de objetividade. Um indivíduo de país temperado que deseje assegurar para si o máximo de bem-estar precisa, de fato, empregar algum esforço para conseguir os recursos econômicos necessários à compra de aquecedores, cachecóis, edredons e panelas de fondue. A preguiça – e, como conseqüência, a pobreza – significam, de fato, um terrível desconforto durante a estação fria. No Brasil não: como o ambiente é tão agradável e convidativo, o supremo bem é ficar à toa. Morrer de frio ninguém morre. Pode-se até sentir fome, mas, mesmo então, há sempre o último recurso de comer bunda de tanajura torrada! O ponto é que, se tomarmos a definição clássica do homem econômico (um maximizador de utilidades!) e a aplicarmos ao contexto tropical, teremos que admitir retomando meu argumento   que é irracional trabalhar num ecossistema onde a água dos rios, lagos e oceanos é apropriada para o banho durante o ano inteiro. Mais do que um simples mandrião que se esquiva de suas responsabilidades, o brasileiro é um circunspeto planejador, com plena consciência das opções existenciais ao seu alcance. Muitos habitantes das latitudes temperadas trabalham para conseguir o que nos trópicos se consegue de graça!
Todo empreendimento levado a cabo por nosso povo é inspirado pelo atávico e subliminar desejo de voltar nu para a praia. Nosso gênio é especialmente inclinado às realizações artísticas ou intelectuais que são feitas com alguma medida de diversão (e.g. a poesia, a música popular, a dança) e que podem ser praticadas na areia do mar (e.g. a poesia, a música popular, a dança) e terrivelmente avesso a todo projeto que nos exija ficarmos trancafiados em algum lugar pouco iluminado (e.g. ganhar prêmios nobels).
Inspirado por seu rigoroso sistema de racionalidade, o brasileiro que se lança a uma tarefa específica – tal como a organização da Copa do Mundo – faz a seguinte pergunta: qual é o mínimo de esforço possível que eu preciso fazer para que esta tarefa seja cumprida? Observe-se, não se trata de saber qual é o esforço necessário para que a tarefa seja cumprida de forma exemplar, mas apenas de saber quais são os esforços mínimos necessários para assegurar que a vaca não vá para o brejo (cenário que impediria o tão almejado objetivo de voltar logo para a piscina, já que o fracasso sempre acarreta a necessidade de trabalhar ainda mais para tirar a bendita vaca do brejo e trazê-la de volta ao curral).
Nem de longe tenho a pretensão de supor que sejamos o único povo do mundo a fazer esse cálculo conjetural. Afinal, mesmo que se pretenda cumprir determinada missão com diligência, é importante saber qual é o mínimo necessário para evitar o cenário de um fracasso. A genialidade brasileira – e o ponto realmente inovador da nossa Teoria da Ordem e Progresso – foi ter descoberto que esse mínimo de esforço necessário está, na verdade, muito abaixo do que outros povos costumam supor!
Essa descoberta foi possível após séculos de experimentação empírica com o que poderíamos chamar, para fins pedagógicos, de caos marginal. Nossos antepassados, na medida em que iam articulando o Estado, instalando nosso sistema produtivo, ou expandindo nosso território, sempre tentaram alocar seu nível de esforço no nível mais baixo possível. Como era de se esperar, em muitas ocasiões, a coisa desandou e o barraco, literalmente, caiu. Porém, após reiterados testes na fronteira do colapso, o brasileiro intuitivamente descobriu – muito antes de o matemático Nobert Wiener sequer ter sonhado em fundar a ciência cibernética – que os sistemas sociais, uma vez instalados, possuem uma inclinação natural à ordem ou à homeostase. Ou seja, ele aprendeu a manter suas instituições com um nível radicalmente baixo de esforço – sempre à beira do colapso, mas sempre tentando evitar que o colapso efetivamente acontecesse. Séculos de experiência acumulada permitiram ao brasileiro desenvolver um conhecimento profundo e preciso de qual é, efetivamente, o ponto marginal da catástrofe.
Nós brasileiros intuitivamente sabemos que, tal como os organismos vivos, as coletividades possuem um equilíbrio interno que as compele à preservação. Instabilidades externas ou disfunções internas, embora possam prejudicar o funcionamento ótimo, muito raramente são graves o bastante para comprometer a própria existência do sistema. Do mesmo modo que uma pessoa consegue sobreviver em condições muito mais duras do que ela mesma imagina, as coletividades também conseguem manter um equilíbrio interno em condições de muito maior precariedade do que geralmente se supõe.
Esse ponto, embora possa parecer de difícil compreensão de vista teórico, torna-se muito claro para quem quer que possua um mínimo de experiência de trabalho com instituições brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. Quando se organiza um grande evento, por exemplo, estabelece-se, já no momento inicial, que o ponto onde se localiza o caos marginal – ou seja, o ponto a partir do qual qualquer incremento de desordem ou preguiça extra desencadearia o colapso – está muito aquém de onde uma equipe de canadenses ou de dinamarqueses suporia. O fundamento dessa suposição é a nossa experiência acumulada com a realização de empreendimentos que deram certo com muito pouco esforço por parte de seus gestores.  
Só isso já bastaria para qualificar a Teoria da Ordem e Progresso como uma intuição administrativa original. Porém o caráter único de nosso modelo só se manifesta nas etapas subseqüentes da organização, por meio de um approach que apresenta pontos de contato com a filosofia da linha ch’an do budismo, ou zen: zen preocupação, ou zen estresse nenhum.  
Via de regra, seis meses antes do acontecimento planejado, mais ou menos na época em que o japonês entregaria a coisa pronta, o brasileiro praticamente ainda não fez nada. Não mandou nem os estudos preliminares de custos, ou sequer elaborou um cronograma. Ainda há tempo o bastante – ele pensa – e não há por que esquentar a cabeça agora com o problema. Como diz o ditado, nunca faça agora o que alguém pode fazer por você depois.  
À medida que o tempo passa, e que se aproxima a data limite para entrega, a ameaça de um fracasso torna-se mais concreta. O brasileiro, então, ainda não faz nada, porém ele internaliza o problema, ou seja, ele toma consciência da necessidade de ter que fazer, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa. Ainda assim, não faz nada. A esperança é a última que morre[2]. 
Passados mais alguns meses, quando já se aproxima o instante que poderia ser chamado de ponto crítico da preparação – ou o ponto do caos marginal – o brasileiro finalmente acorda. Não há mais como adiar, o negócio vai ter que acontecer, de um jeito ou de outro, então é preciso que alguém faça alguma coisa. A essa altura, o brasileiro toma algumas medidas perfunctórias e estritamente formalistas ou, quando muito, tenta transferir sua responsabilidade para outra pessoa – preferencialmente alguém que esteja hierarquicamente abaixo dele.
Então acontece a verdadeira mágica. Por pura falta de organização, o tempo passa e ultrapassa-se aquilo que o próprio brasileiro havia suposto ser a data-limite para entregar os resultados! Isso não por um insight consciente, mas por puro desleixo. Agora, ele simplesmente vai ter que arrumar uma maneira de fazer a coisa acontecer, seja lá como for.
           Como se percebe, a filosofia da zen preocupação é uma metodologia irracional que não contradiz, mas que na verdade complementa o frio calculismo na base da Teoria da Ordem e Progresso. Ela permite ao brasileiro concretizar seus planos com uma quantidade de esforço menor do que ele mesmo havia antecipado! Num período de tempo incrivelmente curto (incrivelmente mesmo, como todo bom brasileiro que já deixou para estudar todo o assunto na véspera da prova sabe) tomam-se uma série de medidas paliativas e emergenciais, fazem-se concessões, gasta-se mais do que o previsto, mas, no final, a coisa acontece.
E a coisa acontece mesmo. O Brasil não é um país falido. Nossas instituições funcionam, até muito bem, considerando o nível de esforço que investimos nelas. Que a Copa do Mundo esteja acontecendo, aos trancos e barrancos, não é acaso: é o coroamento de nossa genialidade logística, que nos permitiu organizar um dos mais importantes eventos esportivos mundiais sem que, para isso, tivéssemos que deixar de lado o choppinho com os amigos! 
E sequer importa que, desde um ponto de vista financeiro, nossas obras custem muito mais caro do que aquelas feitas por outros povos mais organizados: lembremos que no Brasil o bem mais valioso é a vida humana ociosa, e que o ponto é fazer a coisa acontecer não com o mínimo de dinheiro público, mas com o mínimo de esforço aborrecido. E nesse aspecto eu posso garantir que somos um dos povos mais bem-sucedidos do mundo.
Como poderíamos ser de outro modo? Aqui ao nosso lado, a Argentina é a prova cabal de que a tentativa de usar sem mediação métodos e critérios estritamente europeus numa realidade latino-americana pode ter resultados catastróficos. 
Chega de derrotismo, portanto, brasileiros! Nós estamos certos: trabalhar é um saco. É o jeito, mas não será por isso que a gente, de um jeito ou de outro, não dará um jeito.
Viva!


[1] Tendo vivido na Ásia do Leste por algum tempo, eu definiria o “confucianismo” como a capacidade de confundir, ou de provocar confusão. 
[2] Pesa aqui, também, certa inclinação schopenhaueriana de nossa teoria do conhecimento: para o brasileiro, só o presente é real, já que o ponto de partida da experiência de mundo é o “eu” tomador de caipirinhas. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Céu e a Terra

     
Por Frederico Oliveira


           Existe uma relação misteriosa entre a ordem da alma e a ordem política - eis o núcleo das investigações filosóficas desde a Antiga Grécia até hoje. 
             
          Vivemos numa cultura dominada pela experiência da desordem. Estamos rodeados de estadistas e militantes que desejam alucinadamente debelar o mal e implantar uma ordem a ferro e fogo. O século XX mostrou que o projeto político de pôr fim às injustiças, eliminar a exploração do homem pelo homem, enfim, extinguir o pecado da face da Terra, acaba transformando a vida humana num inferno.      
        
            O projeto de instaurar o Paraíso na Terra é a adaptação política desastrada de uma idéia cuja raiz é puramente teológica. Vamos à origem do termo. A Igreja Católica diz que a celebração da Missa é o encontro do Céu com a Terra, onde os fiéis cantam "unidos à multidão de anjos e santos", naquele momento em que o sacerdote pronuncia as palavras "corações ao alto" e a assembléia responde "o nosso coração está em Deus". Mas um católico genuíno se contenta com viver essa experiência do "Céu na Terra" durante uma hora a cada domingo.

           Na liturgia de hoje, leu-se o livro dos Atos dos Apóstolos 1, 6-8, em que os apóstolos interrogam o Cristo que acabara de ressuscitar: - Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino em Israel? Respondeu-lhes Ele: - Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo".

              A pergunta dos apóstolos encerra a expectativa messiânica do povo judeu de libertação contra o jugo romano. Trata-se de uma preocupação legítima do povo oprimido que esperava o Salvador de dinastia davídica. Jesus se compadece do sofrimento de seu povo, mas não veio aqui instaurar um domínio político. De fato, responde a Pilatos: "O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus soldados certamente teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo." (Jo 18, 36).

               A resposta de Cristo nos Atos dos Apóstolos é misteriosa: não nos é dado conhecer a data do Juízo Final. O Pai reservou para si esse segredo e não nos cabe especular sobre ele - nos versículos seguintes, os anjos repreendem os discípulos porque estes ficam embasbacados olhando para as nuvens enquanto Jesus ascende aos Céus envolto em glória. Quanto a nós, compete continuar a caminhada na História, acompanhados pela presença do Espírito Santo. Naquele trecho bíblico, o Filho retorna para o seio do Pai, mas garante que estará com seus seguidores até o fim dos tempos por meio do Espírito Santo que anima a Igreja, o Paráclito, o Espírito Defensor que consolará os fiéis nas horas de sofrimento.

          Em suma a vida do cristão é atravessar na fé o mar da História, uma mistura de ordem e desordem. O lago de Tiberíades ambienta essa experiência das tribulações: as águas revoltas sacodem a barca de Pedro, enquanto Jesus dorme aparentemente indiferente à aflição de seus amigos. Cumpre vigiar e orar. E a oração que Jesus ensinou diz "seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu". Para o cristão o Céu na Terra é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus está resumida no Sermão da Montanha.

           Mas acontece que o ser humano está gravado com o pecado original, que é uma expressão simbólica para dizer "egoísmo" e "satisfação de suas próprias ambições". A tentativa de reformar a natureza humana resulta numa desordem monstruosa, sendo o comunismo apenas a projeção imanente da Jerusalém Celeste - a união beatífica dos santos de Deus.

             Infelizmente jamais existirá uma sociedade perfeita, livre da exploração do homem pelo homem. Não significa que devemos deixar o mundo como aí está. Vamos, sim, em busca da ordem.