sexta-feira, 22 de agosto de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Sobre os Brtrzslyxzhzsgy
Eduardo Siebra, 16/10/13
Na
sétima dimensão, ou seja, numa projeção geométrica de realidade incompreensível
para os seres humanos, vive uma forma de criatura consciente chamada brtrzslyxzhzsgy.
Por mais que tentássemos, jamais conseguiríamos entender seu modo de
existência: suas mentes não estão – como as nossas – amparadas na matéria, mas
sim numa complexa rede relacional de incidências de vibrações no continuum
espaço-temporal. Eles não possuem forma ou extensão – ao menos segundo as
definições humanas destes conceitos – o que significa que aquilo que nós
tentaríamos definir como seus corpos estão, na verdade, dispersos em posições
aparentemente aleatórias, que perpassam diferentes e longínquas regiões do
Cosmos. Na verdade, a idéia de individualidade só é possível aos brtrzslyxzhzsgy
porque eles definem suas próprias consciências – ou seja, sua noção de eu – a
partir de contrastes de uma série ininterrupta de avanços e recuos temporais
das poucas partículas estritamente físicas que estão associadas à sua
existência. Tais séries – que pareceriam aleatórias mesmo aos mais poderosos
computadores já criados pelo homem – seguem, na verdade, um intricado padrão
matemático, e todo brtrzslyxzhzsgy sente-se único justo por intuir que o seu padrão
é singular e irreproduzível.
Só poderíamos nos referir à
comunicação brtrzslyxzhzsgyana por meio de metáforas. Como se sabe, a tremenda
explosão que deu origem ao mundo provocou um eco que até hoje reverbera pelo
universo. A sofisticada mente dos brtrzslyxzhzsgy está praticamente imersa
nessa reverberação, e ela é capaz de reproduzi-la harmonicamente, em padrões
referenciais ligeiramente distintos um dos outros, o que os torna inteligíveis às
mentes dos demais brtrzslyxzhzsgy. Numa simplificação grosseira, poderíamos
tentar explicar dizendo que a língua dos brtrzslyxzhzsgy é uma eterna e
contínua variação sobre a canção de nascimento e morte do mundo.
Por existirem num patamar diferente
da realidade e por possuírem características físicas tão alienígenas, estamos
conceitualmente e absolutamente impedidos de conhecer ou de estabelecer
qualquer forma de comunicação com os brtrzslyxzhzsgy. A verdade é que a todo
instante e em vários lugares manifestações espúrias da consciência brtrzslyxzhzsgyana
perpassam o Planeta Terra sem que nós, humanos, pudéssemos nos dar conta da
proximidade destas criaturas nem eles, brtrzslyxzhzsgy, pudessem suspeitar da
existência de uma sociedade como a nossa neste nível de realidade. Os brtrzslyxzhzsgy
vivem num recorte diferente do universo, e talvez uma descrição das
características de um ser humano para um indivíduo brtrzslyxzhzsgy soasse tão
alienígena quanto nos soa a descrição de seu modo de vida.
Deixando
de lado, porém, os aspectos mais abstrusos a respeito da existência brtrzslyxzhzsgyana,
a verdade é que essas criaturas são muito mais parecidas com nós do que
poderíamos imaginar. O que se entende mais facilmente quando se considera o
caso de Cstrhjshkzlay.
Todos os dias metempsicóticos,
Cstrhjshkzlay vai trabalhar. Ou melhor, para ser verdadeiramente preciso, seria
necessário dizer que Cstrhjshkzlay projeta sua consciência numa determinada
amplitude de vibrações das supercordas, de tal modo que ele pode usar sua
capacidade de concentração e de criatividade para sincronizar seus fluxos
cronológicos com a prospecção de metarreverberações. Num gigantesco organismo formado
por dezenas de milhares de brtrzslyxzhzsgy que vibram em conjunto, pode-se
dizer que as próprias forças fundamentais que constituem o universo são
coletadas, de modo a tornar possíveis os diversos objetivos funcionais da
sociedade brtrzslyxzhzsgyana.
Parece complicado, mas é bem mais
simples – e prosaico – do que soa à primeira vista. Cstrhjshkzlay, na verdade,
anda até um pouco entediado com seu trabalho. Do ponto de vista de seus
colegas, naturalmente, esse enfado é completamente injustificado. Poucos são os
brtrzslyxzhzsgy que tem a oportunidade de ocupar uma função tão interessante
quanto a de coletar as metarreverberações cosmogônicas. Os critérios seletivos
são rigorosos, e apenas as mentes mais aguçadas tem uma chance de conseguir o
emprego. Além disso, o ambiente de trabalho é impressionante, mesmo para os
padrões multiplanares dos brtrzslyxzhzsgy: oscilações ininterruptas de estalos
transcendentais são canalizadas por vigorosas redes plurimentais
intencionalmente elaboradas para literalmente sugar o poder criativo cósmico.
Lapsos momentâneos de ordem e caos absoluto alternam-se seguindo padrões que,
segundo alguns teóricos mais imaginativos, talvez reflitam mensagens gravadas
na própria conformação da realidade. Como resultado, forma-se uma verdadeira
nebulosa de transconsciência, de modo que os brtrzslyxzhzsgy que lá trabalham
têm a oportunidade de se comunicar com entidades inteligentes ou
semi-inteligentes de diferentes ontologias identificadas.
Cstrhjshkzlay, para bem dizer a verdade, acha aquilo tudo um saco.
Naquele dia metempsicótico específico, ele estava especialmente mal-humorado.
– Olá, Cstrhjshkzlay, como vai o
senhor?
– Vou bem, Frgbbnhjktre.
– As antinomias de ontem já estão em
sua tabula rasa.
– Ah, maravilha. Pode deixar que
hoje eu as decifro.
Porcaria! Isso significava que
Cstrhjshkzlay teria um longuíssimo dia fazendo um trabalho árido, obrigando-o a
ficar num estado de concentração forçada que era de encher o saco de qualquer
um.
Cstrhjshkzlay acoplou sua miríade
geométrica ao feixe de pólipos da crisálida e despencou sobre o caleidoscópio.
– Ora merda! – bufou, e contemplou,
mal humorado, o espetacular fluxo de metarreverberações passando diante do
ultrahiperdodecaedro onde ele passava maior parte de sua jornada de trabalho.
Cstrhjshkzlay suspirou e, antes de se debruçar sobre as atinomias, convergiu
suas filigranas sensíveis para um livro – um padrão sintético cognitivo
materializado aprioristicamente, na verdade – que ele havia deixado jogado por
ali.
Criaturas capazes de comunicação e conhecedoras
da noção de individualidade[1],
os brtrzslyxzhzsgy desenvolveram uma rica vivência intelectual. Naquilo que
aproximativamente poderíamos chamar de passado[2],
os brtrzslyxzhzsgy dedicaram-se à contemplação do universo e à reflexão sobre
os mistérios da vida. Muitos livros foram escritos sobre as grandes e profundas
questões, e houve uma era em que se considerava que, para ter uma vida plena,
um brtrzslyxzhzsgy deveria buscar o auto-conhecimento através da reflexão.
Auto-reflexão uma ova! – teria dito
Cstrhjshkzlay, em nosso idioma. Fazia mais de 200 dias metempsicóticos que ele
estava tentando apreender o significado transcendental daquele livro – um
intrincado tratado sobre a possibilidade epistemológica de um conhecimento
inato, ou seja, o equivalente brtrzslyxzhzsgyano da Crítica da Razão Pura. Só
que, por causa do trabalho, ele não tinha nem tempo nem sossego para acompanhar
os intrincados raciocínios.
Na rabugenta opinião de
Cstrhjshkzlay, os brtrzslyxzhzsgy todos estavam praticamente obcecados com a
idéia da prospecção de metarreverberações. Claro, tinha todo aquele lero-lero
de que aquilo tornava a vida mais conveniente, que os brtrzslyxzhzsgy de hoje
viviam muito mais confortavelmente do que antes, com acesso a um quantum muito
maior de metarreverberações. Cstrhjshkzlay não se importava que as outras
pessoas acreditassem naquele monte de abobrinhas, mas justo ele ter que viver a
vida inteira assim, coletando essas malditas metarreverberações! Ele, que tanto
havia sonhado em se tornar um estudioso de psicocosmologia quando era jovem... Tudo bem que ele havia escolhido o emprego, e
que ele era metarreverberativamente bem remunerado pelo seu trabalho. Mas ao
custo de que? Do lócus biônico da
liberdade e da reflexão, ou seja, tudo o que Cstrhjshkzlay mais desejava para
si.
Ele já havia tentado explicar suas opiniões a
alguns de seus amigos mais íntimos. Alguns até concordavam, mas a verdade é que
ninguém gosta de gente resmungona, seja nesta, seja na sétima dimensão. Todos
achavam que Cstrhjshkzlay reclamava de fractal cheio: seu emprego era bom, e se
ele quisesse tanto assim continuar seus malditos estudos de psicocosmologia,
que tivesse ao menos a dignidade de tomar uma decisão e fosse atrás do seu
sonho. Ficar choramingando era que não ia resolver o problema.
“Falar é fácil.” – pensava
Cstrhjshkzlay, quando lhe sugeriam largar o emprego. Ele sabia que se ele
deixasse a firma para estudar psicocosmologia – das disciplinas mais
interessantes e, portanto, mais inúteis jamais concebidas pelos brtrzslyxzhzsgy
– com toda a probabilidade mais cedo ou mais tarde ele teria o mesmo destino de
tantos brtrzslyxzhzsgy desocupados, ou seja, ele iria se amalgamar à transnebulosa
de inação plena. A coisa não tava fácil para ninguém: a sociedade era de tal
modo organizada que, sem uma fonte estável de metarreverberações, um brtrzslyxzhzsgy
era a obrigado a ganhar a vida vendendo partículas quânticas em ângulos agudos.
– Bem, vamos lá... – suspirou
novamente Cstrhjshkzlay, resignando-se ao desinteressante dia que o acaso e sua
falta de colhões lhe havia reservado. Quando se preparava para iniciar a criptosintaxe,
ele ouviu alguém lhe dizer:
– Cstrhjshkzlay, meu velho, tudo
bem?
Era Ztkzwgbtwow.
– Ahn? Ah, oi, Ztkzwgbtwow...
– Você vai para o sbrbles?.
“Que o X’Aarn os devore!”, pensou
Cstrhjshkzlay.
– Ainda não sei, vai depender da
Mngqstrbvca.
– Ah, pode deixar que eu falo com
ela. Não aceito desculpas, quero os dois lá, hein?
– Não se preocupe, vou fazer o
possível para ir.
– Pra que trabalhar tanto se não se
pode sbrblar com os amigos, não é?
– É verdade.
Assombrados por visões de
desagregação cósmica, Cstrhjshkzlay pensou que talvez ele estivesse precisando
de férias. Férias no Grande Vortex Primordial – não era pra lá que Mngqstrbvca
queria ir? Talvez fosse interessante mesmo, todo mundo falava que era realmente
uma viagem inesquecível. Ou talvez eles pudessem contemplar a orla do X’Aarn, o
que definitivamente seria uma experiência muito mais emocionante – perigosa,
inclusive.
Mas será? Será que um intervalo de
sossego resolvia o problema? Cstrhjshkzlay estava desestimulado com sua rotina,
e interrompê-la poderia ser, se muito, uma fuga temporária.
Cstrhjshkzlay vasculhou seu entorno
ontológico com suas filigranas sensíveis. A velha bagunça de sempre – um
coágulo de pontos fixos no infinito que Mngqstrbvca lhe havia dado de presente,
o feixe de ângulos hiperdimensionais que ele havia prometido a si mesmo
organizar meses metempsicóticos atrás, e sua coleção de livros, logo atrás do
imperativo moral que ele era administrativamente obrigado a pendurar na parede
teleológica.
Cstrhjshkzlay tinha praticamente uma coleção
completa de filosofia brtrzslyxzhzsgyana no seu ultrahiperdodecaedro. Eram
algumas dos principais testemunhos intelectuais de sua espécie – verdadeiros
monumentos do antigo amor dos brtrzslyxzhzsgy ao conhecimento. Será que algum
dia ele teria tempo de lê-los? Como, se ele passava a vida inteira coletando
metareverberações?
Metareverberações... Sim, dá para
fazer muita coisa com metareerberações. Mas a verdade é que a maior parte dos brtrzslyxzhzsgy
do passado tinha vivido suas vidas inteiras sem jamais precisar de uma única
maldita metareverberação! Isso, claro, mudou radicalmente depois da ivenção do
motor à metareverberação, durante a revolução trigonométrica, mas o que Cstrhjshkzlay
tinha a ver com isso? Ele não havia escolhido as prioridades idiotas de seu
mundo: por que, então, deveria se conformar a elas?
Largar tudo... Será? Será que ele conseguiria,
depois de ter se acostumado ao estilo de vida que tinha? E o que Mngqstrbvca
iria dizer? E se depois ele se arrependesse?
Ah, reclamar não resolvia o seu
problema! Por sinal, ele não podia terminar aquele dia sem decifrar a porcaria
das antinomias em sua tábula rasa. Era preciso deixar de pensar em suas
angústias e se concentrar no trabalho. Ele contraiu suas filigranas, reverteu
sua entropia marginal e respirou fundo.
Vamos lá. Vejamos. A primeira
antinomia dizia mais ou menos assim: “O que é, não é.”
– O que é, não é. – repetiu Cstrhjshkzlay, em
voz alta, ou o que quer que corresponda a isso no universo brtrzslyxzhzsgyano.
Aquela proposição, por alguma razão que não conseguia entender, o deixou ainda
mais triste.
“Se o que é, não é” – pensou
Cstrhjshkzlay, iniciando sua rigorosa análise criptosintática – “então eu não
apenas não sou um brtrzslyxzhzsgy, como eu tenho um trabalho interessante, que me
satisfaz profundamente. Afinal, poder fazer parte da prospecção das
metarreverberações é uma atividade útil e digna, sob os mais diferentes
aspectos. Eu estou dando uma contribuição importante e insubstituível à
sociedade, e isso por si só é o bastante para dar um sentido à minha vida.”
Ele parou, olhou para o imperativo
categórico na parede teleológica e continuou:
“Eu faço o que eu faço porque eu
quero. Foi um exercício de liberdade que me colocou nesta situação, e sendo
assim eu não tenho do que reclamar. Eu gosto dos meus colegas de trabalho, eu
gosto da Frgbbnhjktre, gosto até mesmo do Ztkzwgbtwow. O Ztkzwgbtwow não é um
tremendo filho da puta. Tenho que parar de ser resmungão.”.
O segredo da antinomia parecia estar
aos poucos se revelando para Cstrhjshkzlay.
“Ser protagonista do próprio destino
não é uma pré-condição da felicidade. O auto-conhecimento não torna as pessoas
necessariamente melhores, e tudo o que podemos esperar da vida é fazer o melhor
com aquilo que nos foi dado. É um erro imaginar que um brtrzslyxzhzsgy possa ir
de encontro ao seu destino, ou criar uma realidade nova. A arte de viver é a
arte de fazer o possível. A prospecção das metarreverberações é uma atividade
útil e digna. Quando voltarmos á desagregação primordial de que saíram nossas
consciências, as escolhas que tenhamos feitos ao longo de nossas vidas não
farão a menor diferença, desde que nós tenhamos deixado uma marca no coração
das pessoas.”
É isso. Cstrhjshkzlay era bom em
criptosintaxe, por isso ele havia conseguido aquele cargo. A primeira antinomia
estava resolvida. Ele registrou, no grande aparato de ampolas cibernéticas
retroflexas, a resposta para o problema:
“O que é, é”.
Cstrhjshkzlay pôs a antinomia
resolvida em seu escaninho de saída e pegou a próxima na pilha.
“O que será, não será.”
– Essa é mais difícil. – murmurou
Cstrhjshkzlay, com seus botões, antes de continuar sua análise
criptosintática. – Será um longo dia...
[1] Ao
contrário, por exemplo, do terrível e tenebroso X’Aarn, que confunde sua própria existência com a do
universo inteiro e que, por isso, deseja devorar tudo o que existe para trazer
de volta toda diferenciação indesejada para o conforto eterno da morte que há
dentro de si.
[2]
Observe-se, aqui, que a noção de passado para os brtrzslyxzhzsgy não está
relacionada, como para nós, ao fluxo da entropia, ou seja, à passagem do tempo,
mas sim a uma noção de profundidade definida em relação ao que a mente brtrzslyxzhzsgy
entende como o coração quintessencial do Ser.
domingo, 27 de julho de 2014
Rachmaninoff e Fra Angelico: uma aproximação estética
Frederico Luiz, Ciudad del Este
Escuto música e fico a imaginar... hoje à
noite num teatro ou numa igreja qualquer da imensa Rússia um coral canta as
VÉSPERAS Op. 37 de Sergei Rachmaninoff. Vésperas são as orações de fim de tarde
dos monges. No caso das Vésperas de Rachmaninoff, trata-se de música sacra composta
para a Missa da Vigília Pascal, isto é, a noite do Sábado de Aleluia.
Segundo o costume judeu, o dia acaba com
o pôr-do-sol, e não com o relógio da meia-noite. Assim, na noite do Sábado Santo
os cristãos celebram os primeiros instantes da ressurreição do Senhor, quando
os anjos mal haviam rolado a pedra da sepultura e Jesus ainda não subira para a
glória celeste. No Sábado, a glória da ressurreição ainda não estava completa.
Tudo se consumaria no Domingo.
Por que, em pleno século XX, Rachmaninoff escolheu o canto polifônico renascentista?
Escuto música e fico a imaginar... Talvez
porque quisesse dar a sensação de um acontecimento sublime, profundo, mas ainda
não definitivo. Pois quem já escutou, por exemplo, o famoso GLÓRIA de Vivaldi fica
na expectativa de alguma explosão que nunca se realiza nas VÉSPERAS de
Rachmaninoff, explosão de instrumentos que nunca chega a acontecer.
É como se a música ficasse em suspenso,
como no NOLI ME TANGERE de Fra Angelico (1387-1455).
“- Não me retenhas, Maria, porque ainda não subi ao Pai, mas vai dizer aos meus
irmãos que subirei ao Pai” (Jo 20, 17).
Marcadores:
Cristianismo,
Cultura,
Diário de Um Cônsul na Fronteira,
Ensaios,
Filosofia de Botequim,
Pensando Alto,
Totalidade Cósmica Universal
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Habemus Copam Ou Da Teoria Brasileira da Ordem e Progresso
![]() |
| Alguém claramente deixou a preparação da abertura da Copa para última hora |
Eduardo Siebra, Pyongyang, 10 de julho de 2014
Muito se escreveu na imprensa
sobre os problemas na preparação da Copa do Mundo de 2014: os atrasos na entrega dos estádios e
aeroportos, os problemas de segurança, os protestos, etc. Alguns chegaram a
duvidar que fosse haver uma Copa: o campeonato iria se tornar um fiasco
nacional – prova da total incapacidade do povo brasileiro de organizar um
evento tão grande.
Mas,
ainda que o resultado das partidas não esteja saindo exatamente como nós
queríamos (sete a um foi fogo!), há Copa do Mundo. Os jogos têm acontecido sem grandes incidentes
(para os padrões de qualidade vigentes entre o equador e o trópico de
capricórnio, pelo menos), os turistas têm se divertindo às mil maravilhas e
mais uma vez, contra todas as expectativas, o Brasil mostra sua prodigiosa
capacidade de resolver tudo na véspera.
Por
que isso? Depois de alguma meditação sobre o fenômeno e sobre nosso caráter
nacional, cheguei à conclusão de que existe um claro padrão em nosso
comportamento. Por maior que seja a desorganização, sempre as coisas dão certo
no final. Coincidência? Claro que não. A imagem do brasileiro desleixado não
passa de um pré-conceito etnocêntrico dos que tentam julgar nossos métodos de
administração usando critérios nipônicos. É um equívoco que nasce do
desconhecimento de nosso sofisticado método de gestão do caos.
Poder-se-ia até pensar que as
palavras “ordem e progresso” estampadas na nossa bandeira não passam de um
lapso de bem-humorada ironia dos fundadores de nossa República. Eu digo que é o
oposto, que é coisa muito séria. Não esqueçamos que a principal ideologia que
inspirou a Proclamação da República foi o positivismo. Quero provar que o nosso
jeito de ser é, na verdade, extremamente calculista e fiel a um espírito de
rigoroso cientificismo!
Como, se o Brasil parece ser
o país mais esculhambado do orbe? O que acontece é que, enquanto a
racionalidade cartesiana fica enfurnada quebrando a cabeça com cálculos
diferenciais, a racionalidade
tupiniquim é morena, toma caipirinha e vai à praia aos sábados. Já está
passando da hora de alguém se levantar contra essa estória de dizer que o povo
brasileiro é desorganizado, e de apresentar ao mundo a mais original das nossas
criações: a Teoria da Ordem e Progresso.
Na base dessa concepção está
a percepção existencial de que a coisa mais valiosa do mundo é a vida humana.
Enquanto um romancista francês precisa em média de 2.000 páginas para encontrar
o tempo perdido com a escrita dessas mesmas 2.000 páginas, todo brasileiro tem
plena, total e absoluta consciência de que o mais precioso dos bens é sua vida
– ou, o que dá no mesmo, seu tempo ocioso. Essa percepção nasce do singelo fato
de o brasileiro viver num ambiente onde a temperatura das águas dos rios permanece
adequada para banho durante o ano inteiro.
Os povos que vivem em
latitudes mais altas que as nossas estão sujeitos a radicais mudanças de
temperaturas ao longo do ano. Quando o inverno chega, um indivíduo – ou cigarra
– que não tenha se preparado simplesmente morre de fome ou de frio. Nos
trópicos, ainda que seja verdade que o índio que quer comer uma tapioca
quentinha precisava se dar ao trabalho de plantar mandioca e depois fazer a
farinha, a escassez das regiões temperadas jamais é sentida com a mesma
intensidade. Em maior parte do nosso território, o clima oscila entre quente,
mais quente ainda e quente pra chuchu, o que significa não apenas que nossos
ecossistemas são mais exuberantes de pitangas e cajus, mas também que durante o
ano inteiro é agradável pular na água.
Não é à toa que quando os
portugueses aportaram em nossas praias, nossos índios estavam pelados, alguns
gostosamente se balançando numa rede. Para entender quão relevante é, de um
ponto de vista histórico, a inexistência de formas autóctones de civilização
superior em território brasileiro, é preciso recordar que, segundo as teorias
mais autorizadas, nossos índios chegaram à América vindos da Ásia pelo Estreito
de Bering (ou por grandes navegações transoceânicas). Se aqueles tabaréus que
saudaram tão amistosamente Cabral e Pero Vaz de Caminha nas praias baianas
viviam em ocas de palha, definitivamente não era por falta de capacidade
cognitiva: esses índios eram nada menos que um bando de japoneses e chineses
que migraram para essas bandas numa remota era!
Imaginem só... Enquanto seus
parentes tiveram que lidar com todo a chateação implícita na idéia de
civilização – ou seja, ábacos, katanas, harakiri, milhares de ideogramas e um
modelo desenvolvimentista com foco nas exportações – nossos asiáticos podiam
simplesmente passar a tarde agradavelmente deitados numa rede, aproveitando o incrível
azul de nosso céu. Para que estresse com criações industriosas, se eles podiam
desde já aproveitar o ápice de prazer que a sociedade pós-industrial
globalizada pode proporcionar – eternas férias num resort tropical cheia
de belas nativas?
Eu diria que essa é a
percepção fundamental da psique brasileira ainda hoje: sempre que você está
sozinho dentro de casa fazendo o que quer que seja, há alguém se divertindo
numa festa, ou tomando banho de piscina, ou bebendo cerveja gelada. Pior ainda:
em todo e qualquer instante em que você estiver trabalhando, há alguém
tomando banho de cachoeira, comendo siriguela, pescando no Rio Tocantins, ou,
pior de tudo, fazendo sexo.
Se transpuséssemos nosso “eu”
imaginário para um país de cultura mais diligente – a mesma Alemanha que tão
amargamente nos desclassificou na Copa, digamos – a intuição seria muito
diferente. Sempre que alguém está sozinho dentro de casa, no mesmo instante
haverá alguém redigindo sua tese de doutorado sobre Habbermas, arduamente
empenhado num trabalho administrativo enfadonho mas de claras implicações
sociais, treinando de forma séria e profissional a seleção de futebol ou
simplesmente resmungando sobre como o clima está porco neste inverno. No caso
extremo da Suécia, onde a pessoa que fica deitada descansando claramente sente
mais frio do que aquela que aquece seu corpo com os repetitivos movimentos do
trabalho pesado, não é à toa que os indicadores econômicos sejam tão
positivos.
Todos esses arrodeios são
para provar que o homo brasiliensis fez a sua escolha. Exportar smartphones
dá muito trabalho, e exigiria de nossos estudantes uma quantidade
inaceitável de horas trancafiados em salas de estudo. Resumindo o problema: ao
estudar, nosso estudante universitário tem muito mais a perder do que o
estudante coreano – que, além de ter que enfrentar os gélidos ventos da
Manchúria no inverno, tem como alternativa ao estudo a paquera, por mensagens
de telefone, com as coreanas – que, apesar de lindas, são as mais confucianas[1]
das mulheres leste-asiáticas. Não é determinismo geográfico, é apenas o
desdobramento da percepção de que pessoas inteligentes, quando confrontadas com
uma opção, escolherão, via de regra, aquilo que mais lhes favorece. Em
linguagem econômica, poderíamos dizer que o custo de oportunidade de estudar ou
de trabalhar nos trópicos é alto demais para que essas atividades sejam levadas
a sério por um indivíduo capaz de fazer escolhas racionais.
O princípio nuclear da
mundivisão brasileira é a lei do esforço mínimo. Essa é a expressão
suprema de nosso espírito de objetividade. Um indivíduo de país temperado que
deseje assegurar para si o máximo de bem-estar precisa, de fato, empregar algum
esforço para conseguir os recursos econômicos necessários à compra de
aquecedores, cachecóis, edredons e panelas de fondue. A preguiça – e, como
conseqüência, a pobreza – significam, de fato, um terrível desconforto durante
a estação fria. No Brasil não: como o ambiente é tão agradável e convidativo, o
supremo bem é ficar à toa. Morrer de frio ninguém morre. Pode-se até sentir
fome, mas, mesmo então, há sempre o último recurso de comer bunda de tanajura
torrada! O ponto é que, se tomarmos a definição clássica do homem econômico (um
maximizador de utilidades!) e a aplicarmos ao contexto tropical, teremos que
admitir – retomando meu argumento – que é irracional trabalhar num ecossistema onde a água dos rios, lagos
e oceanos é apropriada para o banho durante o ano inteiro. Mais do que um
simples mandrião que se esquiva de suas responsabilidades, o brasileiro é um
circunspeto planejador, com plena consciência das opções existenciais ao seu
alcance. Muitos habitantes das latitudes temperadas trabalham para conseguir o
que nos trópicos se consegue de graça!
Todo empreendimento levado a
cabo por nosso povo é inspirado pelo atávico e subliminar desejo de voltar nu
para a praia. Nosso gênio é especialmente inclinado às realizações artísticas
ou intelectuais que são feitas com alguma medida de diversão (e.g. a poesia, a
música popular, a dança) e que podem ser praticadas na areia do mar (e.g. a
poesia, a música popular, a dança) e terrivelmente avesso a todo projeto que
nos exija ficarmos trancafiados em algum lugar pouco iluminado (e.g. ganhar
prêmios nobels).
Inspirado por seu rigoroso
sistema de racionalidade, o brasileiro que se lança a uma tarefa específica –
tal como a organização da Copa do Mundo – faz a seguinte pergunta: qual é o
mínimo de esforço possível que eu preciso fazer para que esta tarefa seja
cumprida? Observe-se, não se trata de saber qual é o esforço necessário para
que a tarefa seja cumprida de forma exemplar, mas apenas de saber
quais são os esforços mínimos necessários para assegurar que a vaca não vá para
o brejo (cenário que impediria o tão almejado objetivo de voltar logo para a
piscina, já que o fracasso sempre acarreta a necessidade de trabalhar ainda
mais para tirar a bendita vaca do brejo e trazê-la de volta ao curral).
Nem de longe tenho a
pretensão de supor que sejamos o único povo do mundo a fazer esse cálculo
conjetural. Afinal, mesmo que se pretenda cumprir determinada missão com
diligência, é importante saber qual é o mínimo necessário para evitar o cenário
de um fracasso. A genialidade brasileira – e o ponto realmente inovador da
nossa Teoria da Ordem e Progresso – foi ter descoberto que esse mínimo de
esforço necessário está, na verdade, muito abaixo do que outros povos costumam
supor!
Essa descoberta foi possível
após séculos de experimentação empírica com o que poderíamos chamar, para fins
pedagógicos, de caos marginal. Nossos antepassados, na medida em que iam
articulando o Estado, instalando nosso sistema produtivo, ou expandindo nosso
território, sempre tentaram alocar seu nível de esforço no nível mais baixo
possível. Como era de se esperar, em muitas ocasiões, a coisa desandou e o
barraco, literalmente, caiu. Porém, após reiterados testes na fronteira do
colapso, o brasileiro intuitivamente descobriu – muito antes de o matemático
Nobert Wiener sequer ter sonhado em fundar a ciência cibernética – que os
sistemas sociais, uma vez instalados, possuem uma inclinação natural à ordem ou
à homeostase. Ou seja, ele aprendeu a manter suas instituições com um nível
radicalmente baixo de esforço – sempre à beira do colapso, mas sempre tentando
evitar que o colapso efetivamente acontecesse. Séculos de experiência acumulada
permitiram ao brasileiro desenvolver um conhecimento profundo e preciso de qual
é, efetivamente, o ponto marginal da catástrofe.
Nós brasileiros
intuitivamente sabemos que, tal como os organismos vivos, as coletividades
possuem um equilíbrio interno que as compele à preservação. Instabilidades
externas ou disfunções internas, embora possam prejudicar o funcionamento
ótimo, muito raramente são graves o bastante para comprometer a própria
existência do sistema. Do mesmo modo que uma pessoa consegue sobreviver em
condições muito mais duras do que ela mesma imagina, as coletividades também
conseguem manter um equilíbrio interno em condições de muito maior precariedade
do que geralmente se supõe.
Esse ponto, embora possa
parecer de difícil compreensão de vista teórico, torna-se muito claro para quem
quer que possua um mínimo de experiência de trabalho com instituições
brasileiras, sejam elas públicas ou privadas. Quando se organiza um grande
evento, por exemplo, estabelece-se, já no momento inicial, que o ponto onde se
localiza o caos marginal – ou seja, o ponto a partir do qual qualquer
incremento de desordem ou preguiça extra desencadearia o colapso – está muito
aquém de onde uma equipe de canadenses ou de dinamarqueses suporia. O
fundamento dessa suposição é a nossa experiência acumulada com a realização de
empreendimentos que deram certo com muito pouco esforço por parte de seus
gestores.
Só isso já bastaria para
qualificar a Teoria da Ordem e Progresso como uma intuição administrativa
original. Porém o caráter único de nosso modelo só se manifesta nas etapas
subseqüentes da organização, por meio de um approach que apresenta
pontos de contato com a filosofia da linha ch’an do budismo, ou zen: zen
preocupação, ou zen estresse nenhum.
Via de regra, seis meses
antes do acontecimento planejado, mais ou menos na época em que o japonês
entregaria a coisa pronta, o brasileiro praticamente ainda não fez nada. Não
mandou nem os estudos preliminares de custos, ou sequer elaborou um cronograma.
Ainda há tempo o bastante – ele pensa – e não há por que esquentar a cabeça
agora com o problema. Como diz o ditado, nunca faça agora o que alguém pode
fazer por você depois.
À medida que o tempo passa, e
que se aproxima a data limite para entrega, a ameaça de um fracasso torna-se
mais concreta. O brasileiro, então, ainda não faz nada, porém ele internaliza o
problema, ou seja, ele toma consciência da necessidade de ter que fazer, mais
cedo ou mais tarde, alguma coisa. Ainda assim, não faz nada. A esperança é a
última que morre[2].
Passados mais alguns meses,
quando já se aproxima o instante que poderia ser chamado de ponto crítico da
preparação – ou o ponto do caos marginal – o brasileiro finalmente acorda. Não
há mais como adiar, o negócio vai ter que acontecer, de um jeito ou de outro,
então é preciso que alguém faça alguma coisa. A essa altura, o brasileiro toma
algumas medidas perfunctórias e estritamente formalistas ou, quando muito,
tenta transferir sua responsabilidade para outra pessoa – preferencialmente
alguém que esteja hierarquicamente abaixo dele.
Então acontece a verdadeira
mágica. Por pura falta de organização, o tempo passa e ultrapassa-se aquilo que
o próprio brasileiro havia suposto ser a data-limite para entregar os
resultados! Isso não por um insight consciente, mas por puro desleixo.
Agora, ele simplesmente vai ter que arrumar uma maneira de fazer a coisa
acontecer, seja lá como for.
Como se percebe, a filosofia da zen preocupação é
uma metodologia irracional que não contradiz, mas que na verdade complementa o
frio calculismo na base da Teoria da Ordem e Progresso. Ela permite ao
brasileiro concretizar seus planos com uma quantidade de esforço menor do que
ele mesmo havia antecipado! Num período de tempo incrivelmente curto
(incrivelmente mesmo, como todo bom brasileiro que já deixou para estudar todo
o assunto na véspera da prova sabe) tomam-se uma série de medidas paliativas e
emergenciais, fazem-se concessões, gasta-se mais do que o previsto, mas, no
final, a coisa acontece.
E a coisa acontece mesmo. O
Brasil não é um país falido. Nossas instituições funcionam, até muito bem,
considerando o nível de esforço que investimos nelas. Que a Copa do Mundo
esteja acontecendo, aos trancos e barrancos, não é acaso: é o coroamento de
nossa genialidade logística, que nos permitiu organizar um dos mais importantes
eventos esportivos mundiais sem que, para isso, tivéssemos que deixar de lado o
choppinho com os amigos!
E sequer importa que, desde
um ponto de vista financeiro, nossas obras custem muito mais caro do que
aquelas feitas por outros povos mais organizados: lembremos que no Brasil o bem
mais valioso é a vida humana ociosa, e que o ponto é fazer a coisa acontecer
não com o mínimo de dinheiro público, mas com o mínimo de esforço aborrecido. E
nesse aspecto eu posso garantir que somos um dos povos mais bem-sucedidos do
mundo.
Como poderíamos ser de outro
modo? Aqui ao nosso lado, a Argentina é a prova cabal de que a tentativa de
usar sem mediação métodos e critérios estritamente europeus numa realidade
latino-americana pode ter resultados catastróficos.
Chega de derrotismo,
portanto, brasileiros! Nós estamos certos: trabalhar é um saco. É o jeito, mas
não será por isso que a gente, de um jeito ou de outro, não dará um jeito.
Viva!
[1] Tendo vivido na Ásia do Leste por algum
tempo, eu definiria o “confucianismo” como a capacidade de confundir, ou de
provocar confusão.
[2] Pesa aqui, também, certa inclinação
schopenhaueriana de nossa teoria do conhecimento: para o brasileiro, só o
presente é real, já que o ponto de partida da experiência de mundo é o “eu”
tomador de caipirinhas.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
O Céu e a Terra
Por Frederico Oliveira
Existe uma relação misteriosa entre a ordem da alma e a ordem política - eis o núcleo das investigações filosóficas desde a Antiga Grécia até hoje.
Vivemos numa cultura dominada pela experiência da desordem.
Estamos rodeados de estadistas e militantes que desejam alucinadamente
debelar o mal e implantar uma ordem a ferro e fogo. O século XX mostrou
que o projeto político de pôr fim às injustiças, eliminar a exploração do homem pelo homem, enfim, extinguir o pecado da face da Terra, acaba transformando a vida humana num inferno.
O projeto de instaurar o Paraíso na Terra é a adaptação política desastrada de uma idéia cuja raiz é puramente teológica. Vamos à origem do termo. A Igreja Católica diz que a celebração da Missa é o encontro do Céu com a Terra, onde os fiéis cantam "unidos à multidão de anjos e santos", naquele momento em que o sacerdote pronuncia as palavras "corações ao alto" e a assembléia responde "o nosso coração está em Deus". Mas um católico genuíno se contenta com viver essa experiência do "Céu na Terra" durante uma hora a cada domingo.
Na liturgia de hoje, leu-se o livro dos Atos dos Apóstolos 1, 6-8, em que os apóstolos interrogam o Cristo que acabara de ressuscitar: - Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino em Israel? Respondeu-lhes Ele: - Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo".
A pergunta dos apóstolos encerra a expectativa messiânica do povo judeu de libertação contra o jugo romano. Trata-se de uma preocupação legítima do povo oprimido que esperava o Salvador de dinastia davídica. Jesus se compadece do sofrimento de seu povo, mas não veio aqui instaurar um domínio político. De fato, responde a Pilatos: "O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus soldados certamente teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo." (Jo 18, 36).
A resposta de Cristo nos Atos dos Apóstolos é misteriosa: não nos é dado conhecer a data do Juízo Final. O Pai reservou para si esse segredo e não nos cabe especular sobre ele - nos versículos seguintes, os anjos repreendem os discípulos porque estes ficam embasbacados olhando para as nuvens enquanto Jesus ascende aos Céus envolto em glória. Quanto a nós, compete continuar a caminhada na História, acompanhados pela presença do Espírito Santo. Naquele trecho bíblico, o Filho retorna para o seio do Pai, mas garante que estará com seus seguidores até o fim dos tempos por meio do Espírito Santo que anima a Igreja, o Paráclito, o Espírito Defensor que consolará os fiéis nas horas de sofrimento.
Em suma a vida do cristão é atravessar na fé o mar da História, uma mistura de ordem e desordem. O lago de Tiberíades ambienta essa experiência das tribulações: as águas revoltas sacodem a barca de Pedro, enquanto Jesus dorme aparentemente indiferente à aflição de seus amigos. Cumpre vigiar e orar. E a oração que Jesus ensinou diz "seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu". Para o cristão o Céu na Terra é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus está resumida no Sermão da Montanha.
Mas acontece que o ser humano está gravado com o pecado original, que é uma expressão simbólica para dizer "egoísmo" e "satisfação de suas próprias ambições". A tentativa de reformar a natureza humana resulta numa desordem monstruosa, sendo o comunismo apenas a projeção imanente da Jerusalém Celeste - a união beatífica dos santos de Deus.
Infelizmente jamais existirá uma sociedade perfeita, livre da exploração do homem pelo homem. Não significa que devemos deixar o mundo como aí está. Vamos, sim, em busca da ordem.
Assinar:
Postagens (Atom)


